segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

NA HORA DA DESPEDIDA

MANIFESTO SOBRE A SAÚDE


Os ex-ministros da saúde, Luís Filipe Pereira e António Correia de Campos, nomearam para os lugares de mando dos hospitais públicos ― digo bem: “mando”; porque comando é outra coisa e pressupõe rumo ― nomearam para os lugares de mando, na sua maior parte, indivíduos (não médicos e médicos) com a função principal de tudo fazerem para que os quadros mais competentes e mais experientes abandonassem os serviços hospitalares públicos. Paulatinamente isso vem acontecendo, desde há seis sete anos a esta parte. E admira-me muito que só agora, quando o deserto de quadros bons é quase perfeito, apareça a Sra. Ministra da Saúde a mostrar publicamente preocupação com a coisa; quando até já se vê em centros de saúde um só médico, ainda por cima “tarefeiro”, a trabalhar 60 horas seguidas no atendimento às urgências.


É isso! E até rima: O Titanic já está a pique!...


É preciso dizer que uma das primeiras preocupações dos ministros desmanteladores do Serviço Nacional de Saúde, já referidos, foi acabar com as Carreiras Médicas Hospitalares ― e cumpriram na perfeição esse desiderato.


Ora, acabando com as carreiras médicas (que prestigiavam quer as instituições de saúde, quer os médicos que nelas entravam; e que davam aos utentes a confiança de que os médicos a ela pertencentes tinham sido avaliados e seleccionados pelos seus pares, e se preocupavam em manter-se actualizados pois só podiam mudar de grau na carreira por concurso) os chamados lugares de carreira desapareceram e com eles os médicos mais competentes e mais experientes.


Passou-se a contratar “médicos” a trouxe-mouxe: “tarefeiros”; como antigamente se contratavam os estivadores ― sem ofensa ― ali mesmo nos cais de carga dos barcos, apontando o dedo e dizendo "sim, tu, tu e tu estão contratados para trabalharem hoje". Para o efeito fazem contratos individuais de trabalho ou então um "contrato de empresa" (tipo mulher-a-dias, sem tirar nem pôr). Nalguns casos contratam médicos sem dar o menor cavaco ao director do serviço onde aqueles irão trabalhar.


(Os directores passaram a ser nomeados pelas administrações hospitalares, segundo critérios os mais variados, achando eu, alguns, perfeitamente estapafúrdios. Dantes era-se Director de Serviço pelo Grau de Diferenciação e por tempo de serviço, conforme com a lei que regulava o acto).


Deixou de haver concursos e com isso os currículos profissionais (dantes com centenas de páginas de texto e documentação variada, sobre os quais se baseavam as provas dos concursos) passaram então a caber numa página A4 ― é verdade! Que eu não veja a luz que me alumia se não é verdade ― uma página A4; e mesmo assim não são avaliados e confirmados por ninguém capaz. Em suma: os hospitais estão hoje cheios de médicos que não passaram por qualquer prova de avaliação pela instituição onde trabalham e sobre cujas competências ninguém mete a mão no fogo. (Quanto a experiência... estamos conversados...).


Há serviços hospitalares sem hierarquia funcional válida e há mesmo serviços com sectores com inversão de hierarquia ― palavra de honra que é verdade! ―. Explicando melhor: em que mais novos, menos capazes e menos experientes ou mesmo inexperientes (levianamente e inconscientes da gravidade da situação) chefiam mais velhos, mais capazes e muitíssimo mais experientes do que eles.


Uma humilhação que só a ganância, o comodismo e a fuga à responsabilidade, por parte dos mais velhos, no meu entender, justificam.


Sou dos que deram força e ainda mantêm confiança na actual Ministra da Saúde; mas falta-lhe claramente poder para impor certas decisões e orientações. Basta lembrarmos do episódio do contrato da ADSE com o hospital da Luz: a Ministra da Saúde manifestou-se desfavorável ao mesmo com o fundamento de que “o SNS (Serviço Nacional de Saúde) tem todas as condições para satisfazer as necessidades da ADSE”; e o Sr. Ministro das Finanças, desautorizou publicamente a Sra. Ministra da Saúde, autorizando a realização do contrato com o seguinte fundamento ― espantem-se! ―:


«Para viabilizar financeiramente o Hospital da Luz» ― como se competisse ao Estado deixar de fazer o que sabe e pode, para permitir que o comerciante do lado transforme a coisa num negócio que o Estado em parte pagará.


A actual Ministra não tem força porque, entre outras coisas, herdou um aparelho administrativo da Saúde completamente minado, do topo até às administrações hospitalares ― só se safa, por enquanto, felizmente, uma parte do pessoal hospitalar ―.


Acresce a tudo isto a famigerada Lei das Aposentações em que quanto mais se trabalhar, menor será a pensão de reforma (mais um convite ao abandono de lugar por reforma antecipada dos mais velhos), e estará conseguida a quadratura do círculo.


No fundo, no fundo, tudo se resume a isto: grupos de interesses e grupos económicos importantes e tentaculares tomaram de assalto o Aparelho de Estado e vão distribuindo entre si, organizadamente, enquanto teatralizam o exercício do poder para distrair o pagode, o pouco da riqueza que Portugal ainda é capaz de produzir.


Não deverá haver, por tudo isso, qualquer esperança na salvação do moribundo SNS.


É que, tendo sido o Português capaz de dar cabo de um Império grandioso, como não há-de ele dar cabo de um resquício quase desprezível desse mesmo império?!


Nas mãos dos políticos e dos grupos económicos actuais, isso é canja!...


P.S. Só voltaremos ao blogue pela ou depois da Passagem do Ano.

Que 2010 traga ao menos um pouquinho de clarividência a este povo de Portugal.

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ELOCUBRAÇÃO VIGÉSIMA QUINTA:

“Ser culto es el único modo de ser libre”.
José MARTÍ (1853-1895)

Para Principiar:
Os dois (2) termos: mundialização e globalização
São duas versões alternativas de um mesmo substantivo
Anglo-saxónico (globalization), outrossim, aliás, polissémico.
Donde, por conseguinte, não existe gradação possível
(em todo caso, em inglês),
entre os dois termos, o que conduziria à considerar
o uso de um ou outro, como estritamente indiferente.
Todavia, na medida em que, aliás, que a expressão
“História global”parece, hodiernamente, sensu lato (e que
a designação “história mundial” reenviaria, mesmo muito, à
Ideia de um grande récita consensual) é preferível, quiçá,
Conservar o termo de “mundialização” para descrever a
Sinergia entre “expansão geográfica”e “mudança institucional”.
Enfim e, em suma: Exprimindo-se, deste modo, de “História global”de um lado e de processo de”mundialização, de outro,
Evitar-se-á, sem dúvida, lamentáveis confusões…

Primeira Parte:

(A)
Na verdade, a mundialização é, antes de mais, um fenómeno contemporâneo e a sua Definição respectiva aparece, por essa razão (como convém), historicamente situada. Se a focalizarmos, aliás, na sua dimensão económica, a mundialização é analisada, frequentemente, não como uma mera colocação em colocação dos mercados nacionais, sim, como a criação de um verdadeiro mercado Mundial de “segmentado”, dizendo respeito aos bens e serviços, outrossim, porém, aos factores de produção (terra, trabalho, capital) e constrangedor em compensação das economias nacionais.
(B)
Donde e por motivos óbvios, a mundialização é, por conseguinte, muito mais que uma mera internacionalização dos mercados na medida em que os espaços económicos nacionais perdem doravante uma parte da sua pertinência, enquanto entidades económicas representativas. De anotar, que, não apenas o Mercado Mundial constrange estes espaços (é, designadamente o caso do mercado financeiro unificado), porém, ainda, as firmas transnacionais os dissolvem pelas transferências que realizam no seio da Estrutura (ou da rede) que reata os dissemelhantes pólos da sua actividade. Todavia, mais recentemente, se pôs em evidência este mesmo poder de negação das entidades económicas nacionais através da atenuação das regulações estatais, num território dado e a sua transferência, num nível, amiúde, supra-nacional, quer de direito (OMC, BCE) ou ainda, de facto (FMI).
(C)
Vinculados a este advento do Mercado Mundial, fenómenos de convergência dos preços dos bens e serviços, como preços relativos dos factores, foram particularmente colocados numa enxerga, facto que levaria, grosseiramente a considerara a mundialização contemporânea como um processo de redução da diferença salarial entre países emergentes e países outrora desenvolvidos. Sabe, entretanto, que a realidade é nitidamente mais matizada. Ou seja: Criação de desigualdades internas às economias nacionais, a maior parte das vezes, em detrimento do factor de produção, relativamente escasso; atenuação ou aceleração desta recuperação em função do crescimento dos países parceiros da sua trajectória demográfica; distinção a estabelecer entre produto por cabeça e rendimento do trabalho, etc.
(D)
Demais, se sairmos do cotejo, entre salários, é óbvio, que as desigualdades existentes, entre os mais pobres e os mais ricos do Planeta se incrementam. É, aliás, de facto, verdade que para a corrente neo-clássica, indicadores precisos de convergência caracterizam a mundialização contemporânea. Nesta base, assaz geral (criação de um Mercado Mundial e fenómenos de convergência, por uma lado e dissolução parcial dos espaços económicos, por outro), é, assaz óbvio, que apenas duas (2) fases de mundialização são claramente identificáveis, historicamente (exprimindo), desde, meados da década de oitenta (80) do século XX pretérito.
(E)
Além disso, outrossim e, ainda, o ataque frontal aos espaços nacionais era apenas, sobremaneira embrionário no fim do século XIX, no decurso da primeira mundialização, mesmo se o funcionamento do padrão ouro permitiria regular a Economia Mundial, independentemente dos poderes estatais nacionais. Antes de 1860, parecia totalmente, excluída falar de mundialização, na acepção definida por estes dois grupos de critérios. É o que se denomina de definição da mundialização, senu strictu.
(F)
No entanto, é possível se colocar num nível mais abstracto, abandonando estes indicadores empíricos, assaz redutores. Revelam, com efeito, a implantação nos períodos de mundialização supracitados de uma sinergia particularmente forte entre uma expansão geográfica dos produtos destinados às permutas (não necessariamente, vendáveis), por um lado e, uma progressão da regulação comercial, por outro, isto é, uma coordenação descentralizada do conjunto das actividades através dos preços. Ao ponto, de resto que é amiúde difícil dissociar os dois fenómenos.
(G)
Demais, no âmbito desta dinâmica, desde meados da década de 1980,assistimos,desta forma, à uma expansão espacial das permutas económicas (conversão da China ao “socialismo de mercado”, desintegração do “bloco soviético”, reintegração progressiva dos países um tempo sobre endividados da América Latina e da África subsariana) em concomitância com uma hegemonia mais marcada do Mercado sobre a Organização Económica do Mercado Mundial, o advento de instâncias reguladoras (particularmente market-oriented), penetração dos nossos comportamentos pela “racionalidade económica”). E, a um outro nível de abstracção, por conseguinte, generalizando a mundialização se identifica na sinergia entre estes dois fenómenos, na sua dialéctica, sui generis e peculiar, sob formas, aliás, sempre renovadas. É evidente (nem é preciso, aliás, dizer) que esta sinergia desempenha, outrossim, nos anos de 1860-1914: expansão geográfica com a integração da China após as guerras do ópio, embargo e penhora britânica da América Latina independente, expansões coloniais, por um lado, progressão da regulação comercial com a liberalização do comércio, os primeiros movimentos de capitais na qualidade do investimento de carteira de títulos, a regulação rígida própria ao padrão, por outro.

Continua:

Lisboa, 25 Dezembro 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo).
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sábado, 26 de dezembro de 2009

ELOCUBRAÇÃO VIGÉSIMA QUARTA:

“Ser culto es el único modo de ser libre”.
José MARTÍ (1853-1895)


(I)
A mudança na percepção do Direito Internacional se observa, antes de mais, nos elóquios de política estrangeira que, de forma, quase sistemática, fazem referência à necessidade de respeitar o Direito Internacional. A expressão se encontra, aliás, frequentemente associada à Moral Internacional, revelando, deste modo, que a “juridicização” se inscreve, numa démarche de moralização do comportamento dos Estados.

(II)
E, para dizer a verdade, um Estado de direito deveria logicamente se revelar legalista, no domínio da sua política externa. Espera-se, com efeito, uma certa coerência de comportamento, no plano internacional, com os valores defendidos, no plano interno. De feito, o cinismo da real politic não é muito compatível com os atributos da Democracia. Mais ainda, o esforço crescente de coordenação das políticas estrangeiras desde 1974, favorecendo uma “juridicização” do discurso. A posição comum se forja, efectivamente, à partir dos direitos e das obrigações admitidas por todos. Demais, o argumento jurídico pode aparecer como um pretexto, numa démarche unilateral, enquanto se torna o motivo que suporta uma decisão colectiva.

(III)
Deste modo, se perde o labirinto das intenções e dos móbeis, mais ou menos, contraditórios, que inspiram o actual empreendimento norte-americano no Iraque. Todavia, se as prerrogativas dos membros do Conselho de Segurança da ONU são verdadeiramente respeitadas, a racionalidade da démarche se encontra assegurada, designadamente, pela análise jurídica objectiva da situação. Na verdade, quando se trata de reagir à uma situação, a base de consenso é formada à partir da identidade dos pontos de vista sobre as questões jurídicas. Num tal contexto, não é surpreendente ver que as referências às normas e aos instrumentos do Direito Humanitário e dos Direitos do Homem se multiplicam tão latamente, no âmbito das Decisões do Conselho de Segurança.


&&&&&&
(IV A evolução da percepção do Direito se traduz, identicamente, nos Actos. Com efeito, vários instrumentos internacionais relevantes foram adoptados, no decurso do período recente, que correspondem à preocupação de incrementar a Efectividade do Direito Internacional).

(IV)
Vale a pena, trazer à colação, os seguintes Eventos, assaz relevantes, designadamente:
A Conferência de Marraquexe (Cidade de Marrocos) ocorrida no ano de 1994 e, outrossim, a criação da Organização do Comércio (OMC) se inscrevem plenamente, no âmbito das preocupações, acima enunciadas.
Por seu turno, o GATT (o antigo GATT) prosseguia já o objectivo de liberalização das permutas. A inovação introduzida pelo Tratado de 1994 resulta, por conseguinte, antes da Instituição do Órgão de regulamento dos diferendos (ORD) da OMC.
Sim, efectivamente, os redactores do Tratado desejaram reforçar a efectividade das regras que regulam as permutas internacionais e melhorar a igualdade entre os membros, no plano da aplicação do Direito. Quiseram permitir aos Estados escapar à uma mera relação de forças diplomática e ao unilateralismo. Por conseguinte, a possibilidade de adoptar contra-medidas, meio unilateral de obter Justiça, foi rigorosamente enquadrada em processos litigiosos.
Enfim e, em suma: Peritos desempenham o papel de árbitros. Examinam as alterações de votação das regras da OMC e verificam, dado o caso (melhor dito, em caso de necessidade), que as contra-medidas não excedam o montante do prejuízo comercial sofrido pelo Estado que se queixou perante a ORD. Este dispositivo permite prevenir eficazmente as sanções comerciais não fundamentadas ou desproporcionadas e os inevitáveis diferendos comerciais se regulam obrigatoriamente ante as instâncias do ORD quando as partes não chegam à uma solução negociada. Os prazos estritos nos quais estes processos obrigatórios se encontram enclausurados, interditando os subterfúgios.

(V)
Concomitantemente, dois (2) outros instrumentos anunciaram uma Ambição similar. Nos anos de 1993 e de 1994, respectivamente, duas (2) resoluções do Conselho de Segurança da ONU (resolução 827, de 25 de Maio 1993 e resolução 955 de 08 Novembro 1994) criaram Tribunais Internacionais para julgar as pessoas responsáveis das violações do Direito Internacional Humanitário para Jugoslávia e para o Ruanda (o TPIJ e o TPIR, respectivamente).

(VI)
De anotar, porém, que este duplo Evento (ora enunciado) era algo inconcebível e, por isso, mesmo, colheu, de surpresa toda a gente. Eis porque, foi recebido com uma certa descrença, obviamente. De feito, desde a época dos Tribunais militares de Nuremberga (Cidade alemã da Baviera) e de Tóquio (Capital do Japão), a criação de uma Jurisdição Penal Internacional era desejada e discutida, sob o Signo de um pronunciado Cepticismo e, não só.

(VII)
Na verdade, evidentemente, as violências extremas que a Jugoslávia conheceu suscitaram uma tomada de posição dos Governos que se aperceberam que a impunidade dos crimes importantes constituía um obstáculo sério para o restabelecimento da Paz. Na sequência, a Conferência de Roma (Itália), no ano de 1998 adoptou o Estatuto do Tribunal Penal Internacional.

(VIII)
O que é importante, sublinhar é que não se tratava, desta vez, de um Tribunal criado para uma crise determinada, sim, efectivamente, da Instalação judiciária Internacional. O século que havia marcado a Cimeira da barbárie se terminava, deste modo, sobre uma nota de optimismo, visto que, os dois terços dos Estados do Mundo manifestavam através da assinatura da Convenção de Roma, a sua firme determinação em lutar contra as violações graves do Direito Humanitário Internacional. Até agora, este antiquíssimo direito universal sofria da incapacidade de assegurar a Sanção das regras. Os criminosos de guerra, sobretudo, nas situações de conflitos internos, escapavam, demasiado amiúde, à alçada dos seus juízes. Entretanto e, sem embargo, estavam, potencialmente, submetidos à Lei Internacional. Eram culpados na opinião do Direito dos indivíduos, todavia, fazia falta, até agora, mecanismos, permitindo coordenar a repressão. Eis porque, o Tribunal Penal Internacional deveria contribuir nisso, obviamente.

Lisboa, 24 Dezembro 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo).
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

ELOCUBRAÇÃO VIGÉSIMA TERCEIRA:

“Ser culto es el único modo de ser libre”.
José MARTÍ (1853-1895)

(A)
Com efeito, a mudança de atitude das autoridades políticas, no que diz respeito, ao Direito se explica fundamentalmente pela evolução das Relações Internacionais. No decurso do século XX pretérito, as Relações Internacionais foram principalmente animadas pela rivalidade entre sistemas de valores. A adesão à norma constituiu o repto/desafio primordial da actividade diplomática multilateral. Nesta conquista da legitimidade, a proclamação da norma era mais importante que a questão que se prende com a sua efectividade. Deste modo, desde a década dos anos de 1970, o Direito Internacional desempenhava um papel limitado, no âmbito da prática diplomática. Era um elemento do discurso, uma linguagem comum, no entanto, a efectividade deste direito não parecia preocupar os Estados, em geral. Além disso, o Direito Internacional aparecia como um desafio de ordem política.


(B)
Todavia e, sem embargo, no contexto de uma confrontação ideológica, os grupos de Estados viam, sobretudo, no Direito Internacional a possibilidade de fazer conseguir, no plano Mundial, se possível, novas normas internacionais, marcando a superioridade dos seus sistemas de valores respectivos. Numerosos Estados manifestavam uma reticência em reconhecer o carácter constrangedor do Direito Internacional. E, explicitando, adequadamente:

--- A União Soviética jamais abandonou completamente a sua atitude inicial de desconfiança no atinente à este direito, reputado como um produto do Estado burguês.
--- Por outro lado, os novos Estados oriundos da descolonização afirmaram a sua independência, contestando o Direito Internacional existente que prometeram fazer evoluir.

(C)
De consignar, entretanto, que na década dos anos de 1990, as rivalidades entre sistemas de valores se esbateram. Os fóruns de discussão e de processos não constrangedores perderam o seu prestígio em benefício das Instâncias de acção e de controlo: O reforço do Conselho de Segurança em relação à Assembleia-Geral, o declínio das operações de manutenção da Paz e o recurso às forças multilaterais, o retraimento dos Órgãos da ONU em matéria económica, o enfraquecimento da Comissão dos direitos do Homem em benefício do Comité dos direitos humanos e dos outros comités de peritos traduzem uma Reorientação da Diplomacia que se preocupa de performances e de resultados.


(D)
Donde e daí, neste contexto marcado por uma mudança geral de atitude nas Relações Internacionais, a função do Direito enquanto elemento de “constrangimento social” se encontra valorizado. Nesta óptica, se a boa governação Mundial introduz a ideia de qualidade, no âmbito das decisões colectivas, da jurisdição das conexões, corresponde à uma vontade de atingir uma determinada qualidade de aplicação do Direito. Eis porque, ainda, no âmbito desta abordagem qualitativa da realização do Direito, a necessidade de Justiça ocupa um lugar importante.



(E)Os Estados manifestam uma menor reticência relativamente ao Regulamento jurisdicional ou quase jurisdicional, porque encontram uma certa protecção contra o jogo das conexões de força. A Diplomacia multilateral não permitiu atenuar a desigualdade da confrontação e os Estados decepcionados esperam algo destes tribunais, no seio dos quais a igualdade das armas lhes é garantida. Deste modo, a jurisdição se inscreve numa tendência geral em convir um lugar mais importante para os mecanismos da regulação, aos dispositivos de aplicação do Direito e à efectividade dos compromissos subscritos.


(F)
Enfim e, em suma: O activismo da coligação das ONG a favor da Criação do Tribunal Penal Internacional ilustra, aliás, o apoio fornecido por esta “Sociedade civil Internacional” à jurisdição do Direito Internacional e à jurisdição da Sociedade Internacional. Demais, se a invocação do Direito Internacional releva, amiúde da liturgia diplomática, as ONG reclamam a confirmação dos discursos pelos actos. Para elas, o Direito Internacional não é unicamente uma linguagem e elas querem ver nisso o Instrumento de regulação das actividades estatais, no âmbito de uma Sociedade Internacional global.


Lisboa, 20 Dezembro 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo).
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domingo, 20 de dezembro de 2009

ELOCUBRAÇÃO VIGÉSIMA SEGUNDA:

“Ser culto es el único modo de ser libre”.
José MARTÍ (1853-1895).


(I)
Os Dois Liberalismos (Político e Económico) somados reconhecem claramente, contra a vontade (contrafeito) a sua escravidão ideológica.
Para o Primeiro, inútil se insistir. Qualquer que seja a sua versão, norte-americana (a democracia “igualitarista”) ou europeia (os “direitos do Homem”), todos os dias, salvo entre eles que vivem disso, materialmente ou psicologicamente (quiçá, intelectualmente), a actuação, aniquilando toda a esperança de o ver jamais se tornar a norma do exercício do poder, tanto como, nas Nações do que no seio das empresas.

(II)
Para dizer a verdade, o Segundo Liberalismo, Económico, era e permanece o único que interessa, veridicamente aos que detêm o poder do mesmo nome e que lucram disso, antes e mais que todos os demais outros. Ora, efectivamente, a mundialização se manifesta, presentemente (nos nossos dias) todos os seus efeitos, os negativos oriundos após os positivos, não sem os ameaçar.

(III)
Vê-se doravante, claramente que as actividades industriais nos espaços desenvolvidos estarão em recessão constante e definitiva (isto, aliás, para que a mundialização se justificava, em todos os aspectos, para as Nações retardatárias como para as Empresas multinacionais, adquirindo do seu ofício um estatuto definitivamente Mundial). As necessárias mobilidades do emprego, não impressionam menos, com o seu respectivo conteúdo financeiro, acrescidas pela longevidade da vida.

(IV)
Todavia, os excessos, para dizer a verdade, os mais que possíveis, previsíveis (tendo em conta, o lugar imperial do dinheiro na “civilização norte-americana”) de actividades financeiras, amalgamando todo um povo de representantes de Comércio, de agentes imobiliários, empregados de banco de proximidade, de matemáticos em busca de novos e sedutores produtos financeiros, supostamente redutores de riscos (por que razão criar todos os dias novos?), permutadores de papel-moeda ou tais, dirigentes de banco e demais outros gerentes de Dinheiro, de Fortuna ou de Património (o termo é o mais nobre, o mais ético, identicamente, visto que “é para as crianças”) venham a desembocar na crise de solvabilidade, a mais grave que se tenha conhecido desde, aproximadamente um século.
De feito, graças ao querer estoirar toda a Poupança do Planeta para não renunciar em consumir e enviar as suas legiões além Oceano, eis que o empregado pouco remunerado do KANSAS conhece ele, outrossim, alguns aborrecimentos…

(V)
E, eis, ainda, que se descobre, que um dos Efeitos mais palpáveis, quase imediatos do encantamento mediaticamente organizado sobre as agressões das quais sofre o Planeta (ainda “as nossas crianças” como o Património), sobre o Desenvolvimento Sustentável (durável), até a morte do Sol, outrossim e, ainda, sobre o Aquecimento (que viria, aliás, após várias fases de Glaciação às quais temos sobrevivido), que provoca, ipso facto, fomes e revoltas da pobreza.
Donde e daí, se impõe questionar assertivamente. Ou seja:
Como é que se pode imaginar que os camponeses intensivos (e, não unicamente norte-americanos) iam renunciar em converter o seu trigo (beterraba, arroz e demais outras culturas) em Etanol em vez da farinha, se a “rentabilidade financeira”, como, aliás, o preço das terras, se encontram relevados?
Sim, efectivamente, fomes na lógica de uma ideologia, como sempre, ao serviço de poderes bem constituídos, obcecados pelos bónus, os prémios, os “stocks options”, os subornos e as reduções de impostos sobre os rendimentos oriundos, por vezes, de “Deus ou dos inimigos do rei”.

(VI)
Deste modo, a mundialização mercantil e liberal tem seguido, presentemente o Itinerário clássico de todo o poder. Ou seja: abusar absolutamente, como fez, outrora, aliás, a Ideologia intervencionista que a tinha precedido, criando através de lances de deficits públicos, empregos de idêntica natureza, sem grande (nem pequena) razão, dissemelhante do que multiplicar modestos sinecuras.

(VII)
Ainda, uma vez mais, os Estados Unidos da América do Norte, assume o exemplo. “Magnífica Nação”, onde se pode hoje (nos nossos dias) fazer campanha para a Presidência, agitando uma bandeira proteccionista. Aliás, eis porque, se afigura, assaz evidente, a recusa de um qualquer Liberalismo pelas Nações sobre as quais assenta o Crescimento Mundial, os famosos BRIC (Brasil, Rússia; Índia, China).
Enfim e, em suma: Não há dúvida nenhuma, que o liberalismo conhece e, para muito tempo, as mesmas vicissitudes que, outrora (1933), o reformismo Keynesiano.
E, rematando, de modo assumidamente assertivo, temos que:
1 “O trabalho é para o homem e não o homem para o trabalho”. João Paulo II (Laborem exercens, 6).
2 Com efeito, o Homem não vale pelo que produz, possui ou consome. Sim, efectivamente, o Homem vale por si mesmo.
3 Eis porque, no fundo, no fundo, o Homem vale bastante mais que os bens materiais e o poder.
4 Na verdade…Verdade, não deixa de constituir uma autêntica estulticia fazer depender o seu valor pessoal e a sua liberação da riqueza material acumulada.

Lisboa, 19 Dezembro 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo).
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QUE PORCARIA

Que porcaria de notícia. Mal traduzida (parece traduzida com auxílio do “Google translate”); truncada, confusa e incompreensível para 99% dos leitores.

Porque não consultaram um físico antes de a publicarem?

Eu bem sei que o “i” ganhou o prémio “embrulho” e não o prémio “conteúdo”; mas tudo tem limites, n’é?!
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AI BRUTO NÃO ME EMPURRES

Carlos Botelho goza com isto e fá-lo muito bem, à sua maneira: com suprema ironia.

Eu, um bruto, só sei fazê-lo dizendo isto:

A paneleiragem está toda excitada vendo o seu "casamento" na ordem do dia, e celebra antecipadamente o direito àquelas duas lindas mãozinhas ornadas de alianças ― marido roto com marida complacente ou incontinente ―.
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sábado, 19 de dezembro de 2009

AO PRINCÍPIO ERA O VERBO


Há quinze vinte anos os homossexuais lutavam pelo DIREITO À DIFERENÇA; quem não se lembra?

Na minha modestíssima opinião e com a licença deles, isso significa, tão só, que os homossexuais se consideravam então DIFERENTES. Diferentes dos heterossexuais, como é mais que óbvio, pois, não seria dos caixotes do lixo, pois não?

Ora bem. Hoje, por que lutam os homossexuais? Pelo DIREITO À IGUALDADE.

Então em que ficamos ― ó senhores de pila com pila e senhoras de pipi com pipi!

Vocês são DIFERENTES OU SÃO IGUAIS aos heterossexuais?

Decidam lá essa coisa e deixem-se de mariquices...
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ISTO É DEMAIS


(Declaração prévia de interesse: sinto-me perfeitamente à vontade a escrever isto pois tenho casa em Lisboa).

Tudo leva a crer que se vai tornar necessário fazer um abaixo-assinado, uma petição ou adoptar qualquer outra figura legal mais adequada para que os cidadãos digam clara e massivamente à Assembleia de República e ao Governo que não querem um seguro anti-sismo habitação OBRIGATÓRIO.

Porque está visto que tal seguro se tratará de um NEGÓCIO, mais um, que o Governo pretende patrocinar.

É que este Governo não pára: sai de um negócio e entra logo noutro (entrar, entrar, não entra ele; mete é o Estado nos negócios).

Eu sei, toda a gente sabe, que a região de Lisboa e o Algarve são zonas sísmicas. Por isso, até é razoável que o Governo aconselhe ou mesmo obrigue (e nesse caso por preços baixos pois se tratará de milhões de segurados) os proprietários de habitações a fazerem tal seguro.

Agora, obrigar um minhoto, um portuense, um coimbrão e por aí fora, a fazer um seguro anti-sismo...

É demais! É a febre do negócio a atacar mais uma vez o Governo.

E por isso precisamos todos pôr gelo na cabeça do Governo.

Nota: Francisco José Viegas aborda hoje este assunto com muita piada aqui.
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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

AI ESTES GESTORES!...


A TMN declara-se portista.


Será que a Vodafone


se vai declarar Lisboeta
?





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VEM AÍ A GRIPE B

Isto aqui demonstra que:

Políticos, companhias seguradoras e jornalistas, entre outros, vão acabar por fazer mais um dos habituais cozinhados a que se tem assistido ultimamente (tome-se a gripe A e a respectiva vacina como exemplo).

Este novo cozinhado será tendente a amedrontar as pessoas obrigando-as a fazerem seguro habitação anti-sismo, o que dará milhões e milhões às seguradoras e seus compadres de negócio.

Vem aí o fim do mundo! ― dizem eles ―.

E nós!... Acreditamos?...
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ELOCUBRAÇÃO VIGÉSIMA PRIMEIRA:

“Ser culto es el único modo de ser libré”.
José MARTÍ (1853-1895).


“Les activités industrielles étant devenues
Planétaires, elles entendent réaliser de gigantesques
Economies d’échelle, et donc, par des technologies
Appropriées, contrôler et homogénéiser les
Comportements : les industries de programmes s’en chargent
A travers des objets temporels qu’elles achètent et
Diffusent afin de capter le temps des consciences qui
Forment leurs audiences et qu’elles vendent aux annonceurs ».
Bernard STIEGLER : Le désir asphyxié.
In Le Monde diplomatique, juin 2004


(1) Os « objectos transitórios », designadamente, as canções, os trechos de música, os elóquios, os filmes, as emissões de rádio e de televisão, os spots publicitários, os jogos vídeo, são caracterizados pelo escoamento do seu tempo. Desaparecem, sucessivamente (a pouco e pouco), na medida, aliás, que aparecem. São, de algum modo (por assim dizer) Objectos que passam. Gravado, num suporte multimédia, um filme não é um filme. Só existe, aliás, como tal, quando projectado e visionado e, unicamente, nesse momento.

(2) Estes objectos, em apreço e estudo, foram denominados, pelo filósofo alemão (o criador da Fenomenologia), Edmund HUSSERL (1859-1938), “Fluxos”. De sublinhar, que estes fluxos coincidem, durante o tempo do seu escoamento, com o escoamento do tempo, nas consciências humanas que os observam ou os escutam e para os quais (e, para eles unicamente) se tornam os objectos transitórios, para que foram concebidos. É este fenómeno de coincidência que permite às consciências humanas de se sincronizar com o tempo próprio destes objectos.

(3) Os Livros, ou mais geralmente, os Escritos não são objectos transitórios. Obviamente, o leitor pela decifração da Linguagem e pela sua imaginação vê uma história se desenrolar ante os seus olhos, sendo, no entanto mestre e senhor do tempo. Deste modo, pode “Ler”, mais ou menos, rapidamente, a seu ritmo, interromper e reatar, tão, frequentemente, tanto quanto, deseja e pretende…

(4) A Consciência Humana é fundamentalmente uma consciência de Si, da sua peculiar singularidade, do seu próprio tempo. Eis porque, o Indivíduo pode asseverar: Eu: “Porque disponho do meu próprio tempo, do meu próprio ritmo de pensamento, de existência”. “Consumindo” os objectos transitórios perde um pouco da sua consciência, isto é, um pouco de si mesmo.

(5) A Indústria Cultural, que produz, em grande quantidade, os objectos transitórios, compreendeu, sobremaneira toda a vantagem, que podia extrair desta sincronização das consciências. E, se associando à publicidade, encontra um meio de se financiar e a publicidade adquire a oportunidade de aceder a este tempo de consciência dos consumidores, desmultiplicado numa grande escala.

(6) Se Milhões de pessoas, através das grelhas de programas (TV, RÁDIO…) se sincronizam todos os dias, à mesma hora, com o mesmo objecto transitório, se interiorizam um comportamento de consumo de fluxos audiovisuais que lhes faz perder uma parte da sua consciência individual. Esta perda de consciência individual se efectua em benefício de uma consciência que não é a sua, de um passado que tende a se tornar um passado comum, ao ritmo das séries TV ou outras emissões recorrentes. É esta consciência de substituição, que não é a sua, que poderia ser qualificada como o fez, o filósofo e escritor francês, Bernard STEGLER, de Consciência de rebanho.

(7) Cada um pode, de modo correcto, evidentemente (ciente e conscientemente) escolher os momentos de sincronização que se concede para: escutar uma canção, ver um filme, escutar uma emissão de rádio, jogar à PLAY-STATION… Todavia, a capacidade de enfeitiçamento destes objectos transitórios é tal que se pode facilmente consumir nisso um bocado de Si, isto é, da sua consciência. De feito, é, de tal modo, tentador de se entregar a facilidade do tempo que se escoa, sem esforço, consoante um cenário que se não tem necessidade de escrever…com o risco de terminar no meio do rebanho dócil das consciências pré-formatadas.

Lisboa, 18 Dezembro 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo)
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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

ENQUANTO O TITANIC SE AFUNDA...

O Governo aprovou hoje qualquer coisa que tem a ver com PESSOAS DO MESMO SEXO.

As voltas que se dá para dizer HOMOSSEXUAL sem o dizer. E para dizer homossexual de forma equívoca. Porque: PESSOAS DO MESMO SEXO leva a perguntar:

― Do mesmo sexo que o quê?

― Do mesmo sexo que a minhoca?... É isso!?

Francamente!...

Vão ver que chegará o dia em que não se saberá como chamar paneleiro a um gajo.
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SISMO EM LISBOA

Acabei de ser acordado há pouco (há coisa de quatro cinco minutos) por um sismo que fez balançar o edifício durante largos minutos (dois ou mesmo mais); os copos tilintaram na cristaleira e sentiu-se claramente a casa a baloiçar de Este para Oeste como um bambú.

Tão precário este planeta han?!

As rádios, entretidas a passar gravações, ainda não falaram da coisa; mas da TSF, pelo telefone, dizem-me já terem informações concretas que passarão daqui a pouco no noticiário das duas da manhã.

BOA NOUTE
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

BRAVO MÁRIO CRESPO!

Este retrato feito por si no JN revela, para além do mais, uma capacidade de síntese notável. Congratulo por isso o jornalista inteligente, independente e muito corajoso que você é.

Quem tem seguido o seu trabalho jornalístico na imprensa e na televisão não terá ficado surpreendido com o que escreveu; escreveu o que alguém um dia teria que escrever ou dizer em voz alta ― sim ― mas escreveu aquilo que mais ninguém foi ou era capaz de escrever.

O meu abraço.

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ELOCUBRAÇÃO VIGÉSIMA:

Estudando o EROTISMO:
Parte Segunda:


(…) “Fort d’une pure assise, et voué à aller
Toujours de l’avant sans jamais conclure, l’
Érotisme, au risque de déraper, ne recule ni devant
L’accablante altérité du monde, ni devant l’
Abîme de l’être de l’homme, ni face à la
Limite extrême de la mort ».

(I)
O EROTISMO encontra o seu escoramento, a sua fonte e os seus recursos respectivos, a sua primordial substância e a sua intenção dominante (confessada ou secreta), na Sexualidade. Todavia, se edificando, completamente Nela, supera-a, por toda a parte (melhor dito, de todos os lados), de molde que se poderia, para uma Definição significativa, se estender a tudo quanto, consoante modalidades e equilíbrios culturais e pessoais de uma extrema variedade, releva expressões e visões carnais, existenciais, artísticas, filosóficas, políticas ou religiosas marcadas, por assim dizer, como o Selo da Sexualidade Humana.
Donde, em todos os domínios, acima, enunciados (domínios constitutivos do Ser próprio do Homem), o Erotismo trata e encena, sob formas e metamorfoses múltiplas, estes objectos irrecusáveis que são, efectivamente:
--- O CORPO percebido como Realidade unitária e global;
--- Os ÓRGÃOS, encarados nos seus limites, funções e papeis distintivos;
--- A LIBIDO, energia sexual irrigando a totalidade do Campo Humano e
--- O DESEJO, figurando, conforme um consenso mais universal, o móbil fundamental das Actividades Humanas.
De consignar, avisadamente, que estes Quatro Factores (Corpo, Órgãos, Libido, Desejo) tecem entre si, Elos íntimos, à Geometria variável, que compõem a Textura, assaz, peculiar e sui generis do Erotismo, senso lato.

(II)
Tão íntimo constitui a intricação entre Corpo e Erotismo, tão densa a sua coalescência, que a Identificação dos dois termos parece assaz evidente. O Corpo se oferece, na percepção que dele possui o Sujeito, como forma erótica. Deste modo, efectivamente, a própria coisa erótica (substrato, suporte, superfície do Erotismo), aliás, evidentemente, Eros, como fundamento originário e de obsidiante Finalidade.
E, explicitando, ainda melhor: O Eros é Corpo-à-Corpo e trabalho no Corpo, acumulação, estratificação, tecedura e mestiçagem das Imagens do Corpo com as quais todo o indivíduo se constrói, se sente (fazendo sofrer) e se pensa.
Enfim e, em suma: o Corpo está presente, presença imediata e irrecusável, objecto familiar, instrumento polivalente e disponível, bloco maciço e duro de afirmação, simultaneamente, que (sob as suas dissemelhantes roupagens, iluminações, aparências, carapaças, posturas, peles e carnes): Mistério irredutível.
Sim, efectivamente, a Valência erótica do Corpo, atracção-repulsão, se expõe nas impressionistas figurações que balizam a História da Humanidade, desde as gravuras rupestres pré-históricas até às invasões fotográficas das Metrópoles Hodiernas. Com efeito, se acusa ate às repressões e poderes, frequentemente ferozes e homicidas que se encarniçam em o aniquilar.

(III)
Resistindo ao desvio estético, que permanece um meio de salvaguarda (ditas: “um belo nu” – e o “nu” passa em beleza), assim como ao transporte religioso, avenida aberta às sublimações (ditas: amor dei, “corpo de amor” divino – eis que um anjo passa), o Erotismo se envida em preservar a autonomia, a dinâmica e a Suculência propriamente libidinosas do Corpo total.
Aliás, DESTATE, o Corpo como forma global, robusta e forte (e fina) cede lugar ao Corpo fragmentado, matizado ou PATCHWORK de órgãos. Deste modo, temos, então: Uma Erótica de órgãos, fragmentando o Corpo erótico, a ocupar o Terreno.
Entende-se, por sua vez, por “Erótica de Órgãos” “uma focalização, fixação, os êxtases da libido, num órgão ou complexo de órgãos determinado, mais ou menos, isolado e separado (por vezes, extirpado, amputado) do Corpo total”. De sublinhar, demais, que todos os órgãos ou “bocados” do Corpo são plausíveis de um tal tratamento, propício às práticas fetichistas.
Entre o Corpo Total, forma relativamente estabilizada e coerente e a pluralidade de velocidade fractal das peças anatómicas entre as quais sinuoso, se abriga ou se extravia, a corpo perdido, o Eros, no apogeu erótico assumido, pelos órgãos directamente vinculados às funções biológicas vitais: funções de reprodução, com os órgãos sexuais, stricto sensu, órgão masculino ou pénis, órgão feminino ou vulva, agrupados sob a denominação única de “sexo” e função alimentar, com os seus dois orifícios esfincterianos, a boca, via de absorção e o ânus, via de excreção.
Donde e daí, Sexo, Boca e Ânus formam o tríptico de base do Erotismo e de recurso inexaurível. É, na verdade, Fonte, Sede e Objecto de uma incessante e vivaz circulação da Energia Sexual, designadamente, Libido (Nervo, se pode asseverar) de todo o Erotismo, lato sensu.

(IV)
A LIBIDO (Nervo do Erotismo) e, formulando a questão, de modo mais humorístico é Tecidual: Libido e Erotismo constituem, efectivamente, a unha com carne. Eis porque, o EROTISMO constituiria apenas, nos diversos avatares bancada ou exposição da Libido (todos os Sentidos somados: vitrina, exposição de mercadorias, oferta, demonstração, orgia, parada, presunção, etc.).
Ou então, mais poeticamente: “O erotismo seria a canção de Gesta ou a Epopeia da Libido, a sua Ilíada e Odisseia (Odisseia, sobretudo, sinuoso périplo em que a Nau Helena não cessaria de virar nos mares oceanos, onde as sereias rolariam, sem descontinuar os seus cânticos de sedução, onde a provocante Penélope deferia ou reportava o seu pano, onde um Ulisses representava os “Dão João”, prorrogava para as calendas o retorno à Ítaca).”
Definindo a Libido como Energia Sexual, o psiquiatra austríaco, Sigmund FREUD (1856-1939) sublinha a especificidade sexual desta força interna primordial que recusa arrumar ou dissolver numa energia psíquica, a tal ponto ecuménico que chega a cobrir tudo, realmente. Donde, nesta perspectiva, o Erotismo assume, por sua conta, a vastíssima extensão, que FREUND, em “Psicologia das Multidões e análise do eu”, reconhece, nesta qualidade fundamental a Libido: “Libido é um termo emprestado à teoria da afectividade. Designamos, deste modo, a energia (considerada como uma grandeza quantitativa, todavia, não ainda mensurável) das tendências, se vinculando ao que resumimos no vocábulo amor. O núcleo do que designamos amor é formado naturalmente pelo que o é comummente conhecido como amor e que é cantado pelos poetas, isto é, pelo amor sexual, cujo o termo é constituído pela união sexual. Todavia, não o separamos sempre de todas as outras variedades de amor que se sente em relação aos pais e para os filhos, a amizade (amor dos homens, em geral), não mais do que separamos a afeição a objectos concretos e a ideias abstractas”.

(V)
O termo “Libido”, funcionando como conceito psicanalítico, designa a energia sexual e, mais geralmente, pulsional. Uma aplicação, mais trivial, a associa às motivações, excitações ou titilações sexuais tratadas como uma espécie de prurido ou um desejo intenso (uma forma, entre outras, de depreciar a sexualidade.
Deste modo, se pretendermos restituir à esta amplitude de potência de incitação seria o vocábulo “desejo” que ocorre logo ao espírito. Edificando a Estrutura Humana na Sexualidade, a Psicanálise lastrou o Vocábulo de uma robusta carga erótica que o faz o equivalente do Desejo Sexual.

Enfim e, em suma: Nenhuma forma de Abstenção (retiração ou aniquilamento do desejo) satisfaz ao Erotismo. Se, na verdade, a sua excepcional aptidão para a assimilação permite-lhe se tornar em seu proveito a ascese, o vazio ou o nada (“exílio” ou “deserto”), se revolta contra toda a ideia de aniquilamento, se pretende mais prosélito que o onirismo Freudiano, “cumprimento de desejo”. Desejando levar o Desejo ao seu apogeu conduz ao excesso, à plétora, a um “frenesim”levado ao absoluto.
Poder-se-ia, neste ponto, introduzir uma nova nuance entre erotismo e pornografia: o excesso ou a culminância eróticas valem mais como élans de energia que como fruições de objecto ou sensações de plétora, em que poderia se contentar a pornografia.
Eis porque, a Noção de duração prevaleceria neste ponto, ou seja: O EROTISMO é instância, que dura (inexoravelmente), intensamente; por seu turno, a pornografia é instante, precipitadamente fugaz, mais ou menos, bem feito. Todo este arrazoado, nos conduz, ipso facto, à “toda potência e exaltando-o no desejo”, fonte viva e vivificante de vestígios, imagens, palavras e visões.

Lisboa, 15 Dezembro 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo).
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

ÓDIO!... CADA VEZ MAIS ÓDIO

Hoje o blogue dos bancos do jardim de Santo Amaro fustiga José Sócrates sem dó nem piedade. Mas com inteira razão ― acho eu.

Para quem esteja minimamente atento aos média e à opinião pública em geral, não escapa o facto de que o ódio a José Sócrates tem crescido consistentemente ao longo do tempo.

E, ou muito me engano, ou José Sócrates está aí está a transformar-se no Berlusconi português...
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"PORQUE ME ODEIAM DESTA FORMA?"...

...Terá perguntado Berlusconi a um padre que o foi visitar ainda numa cama de hospital.

Eu não sei porque o odeiam tanto; mas posso dizer que na cidade de S. Filipe, na Ilha do Fogo, em Cabo Verde, fixou residência, há já uns quatro anos, um engenheiro italiano de cerca de 60 anos que diz que não regressará a Itália enquanto Berlusconi for vivo.

E evidenciando um ódio incontido escolhe as piores palavras para definir o primeiro-ministro italiano.

Isso sei eu.
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domingo, 13 de dezembro de 2009

QUADRATURA

JPP desabafou e esparramou toda a azia que o modo de ser português lhe tem causado ao longo da vida (a política apenas ou a vida em geral?).

JPP acha que os portugueses deviam mudar, isto é, deviam deixar de ser portugueses.

E, quadrando o círculo, deseja a realização da ironia que Brecht um dia colocou num verso que parafraseio:

«Dissolva-se o povo e eleja-se outro».

Por mim... tudo bem!

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ELOCUBRAÇÃO DÉCIMA NONA:

Estudando o EROTISMO:
Parte Primeira:

Nota Prévia:

O EROTISMO (etimologicamente erot (o) + ismo, por influência do francês érotisme: “desejo amoroso”) expõe e faz explodir a Sexualidade, em toda as suas dimensões, do obsceno ao sublime. Demais, dentro desta dinâmica e perspectiva respectiva, vale a pena elucidar o seguinte:
a) O pintor, escultor, ceramista e gravador espanhol, Pablo PICASSO (1881-1973) proclama: “a Arte e o sexo é a mesma coisa”;
b) Já, o pintor e escritor francês, Marcel DUCHAMP (1887-1968) monta insólitos mises à nu, sob o signo de Rrose Sélevry (Eros é a Vida);
c) Por seu turno, o pintor holandês, de origem germânica, Jerôme BOSCH (1450-1516) exalta e tortura o corpo para compor uma Arte de Amar Edénica.
d) Enfim, INGRES, BONNARD, Miguel ÂNGELO e demais outros cantam uma carne que SCHIELE descarna até ao osso e que KLIMT cobre de ouro.
e) E, rematando, temos que:
SADE empurra Eros para o Homem,
FOURIER promete um Novo Mundo amoroso, onde “chacun a raison en amour”;
O Surmâle de JARRY queima de amor e, finalmente,
KUBRICK assevera a sua derradeira palavra: “FUCK!” (Fornicar).

O
O O

Antes do mais e, à guisa de Prolegómenos:
No âmbito da Psicologia, EROTISMO é o Elemento incentivador da Sensualidade, caracterizado por uma dimensão transfiguradora, desenvolvido, quer pelo contacto físico, quer através do olhar.
Dir-se-ia, que EROTISMO é a pulsão vital despertada pelo Desejo ou pela promessa de superação de uma determinada condição. Diferindo do prazer carnal, que se esgota na consumação sexual, o prazer erótico corresponde à exaltação da imaginação pelo que se encontra a sua razão de ser na própria duração desse entusiasmo.
Manifestado pela perturbação dos sentidos, o Erotismo é um elemento transgressor, causa de instabilidade e de súbita consciência do Corpo. Por tudo isto, o Erotismo, pelo menos o “olhar” ou a “relação” erótica constitui parte integrante da Energia criativa, tão presente na Literatura e na Arte.

---Eroticismo: the fact of expressing or describing sexual feelings and desire, especially in art, literature, etc. (In Advanced Learner’s Dictionary ---Oxford.)

--- L’Érotisme: Du nom Eros, dieu de l’amour dans la mythologie grecque, désigne tout ce qui rappelle l’amour physique, tout ce qui vient émoustiller les sens ; c’est ce je ne sais quoi qui éveille le déssir.
L’érotisme suggère plutôt que ne montre. Tout est dans la finesse, le non-dit. Davantage que des images, c’est l’atmosphère qui crée l’érotisme. Celui-ci fait donc avant tout appel à l’imagination.

--- Erotismo es una palabra formada a partir del Griego éros con que se designaba al amor apasionado unido con el deseo sensual. Tal sentimiento fue personificado en una deidad: Eros (téngase en cuenta que en griego moderno la palabra erotas alude al amor romántico).
Es lo relacionado con el deseo sexual y el placer sexual, pueden ser imágenes, fotos eróticos, caricias, discursos, frases, actitudes…
El erotismo es la capacidad humana de experimentar las respuestas subjetivas que evoca los fenómenos físicos percibidos como deseo sexual…
Es propio de la especie humana, está al servicio del placer, el amor y la comunicación. Es la puerta de entrada al deseo sexual. Se estimula a través de los sentidos en su percepción de lo externo y del mundo interno (fantasías y recuerdos).
La palabra más usada comúnmente y procedente del inglés es “sexy” que vendría a reflejar el interés erótico de una persona o de un objeto.

Em Síntese oportuna, para Principiar o ofício:
Hodiernamente, o lexema “Erotismo” conota e denota tudo quanto se relaciona com a Sexualidade e, não meramente, com o acto sexual físico (em si), senão, outrossim, com todas as suas projecções respectivas. Eis porque, deste modo, o EROTISMO pode-se observar em combinação com a Libido.
Donde e daí, o EROTISMO trata de tudo aquilo que emana da nossa zona libidinosa e esteja relacionado com o Sexo e com o Amor erótico vis-à-vis do amor caritas.
Enfim, por seu turno, o adjectivo erótico nos indica que o tema a tratar está relacionado com o Sexo, dependendo do substantivo a que qualifica (a pintura erótica e a moda erótica).

A dicotomia entre o amor erótico e o amor romântico não é, geralmente, absoluta, conquanto tenha permanecido para o aspecto romântico, a associação principal com o amor (de anotar, que um amor verdadeiro é altruísta e se supõe susceptível de sublimar a sensualidade). Aliás, é por tal dicotomia que já na Antiguidade, os Gregos propendiam em distinguir entre o Eros e o ágape (sendo o segundo amor solidário e, se pode dizer, romântico) tal distinção se traduz em latim, como a existente entre a cupidez e a caritas.

Nas Religiões e Sistemas de Crenças está, sempre presente o EROTISMO, conquanto se o pode encontrar em duas Facetas:
--- No Cristianismo católico, os Textos místicos de São João da Cruz e as Moradas de Santa Teresa de Ávila possuem uma retórica repleta de um sublimado erotismo dirigido à Deidade;
--- Por outro, em outras religiões (designadamente, as dos Fenícios, dos Mesopotâmicos, etc.) existia uma prostituição sagrada que chegou à Grécia Clássica, Roma Antiga e se tornou notória, pelo contraste entre a “luxúria” com abundante dose da Arte erótica mais que entre os Gregos, directamente pornográfico e a severa castidade e virgindade impostas às Vestais.
Tais antinomias (sendo Antinomia, lexema oriundo do Grego, que significa incoerência, contradição, oposição recíproca), aliás, adentro de idêntico sistema religioso se evidenciam, mesmo assim, no Hinduísmo donde existem momentos promotores das mais rigorosas asceses opostas ao libidinoso unido à exaltações da Sexualidade como ocorre com o conhecido Texto do KAMA SUTRA ou as imagens de templos, como os de Suria e Khojurbo.

E, no atinente ao mundo dos objectos, o EROTISMO pode se confundir com o fetichismo que é a derivação, até objectos ou partes do Corpo, da libido, de tal sorte que a contemplação ou uma mera imagem real ou mental dessa parte do corpo provoca no fetichista um desejo sexual.

Finalmente, o EROTISMO é um dispositivo complexo (pois que abarca diversos componentes do subjectivo e do social, desde a Bioquímica até à Arte) que gera atracção sexual e que pode ser canalizado adequadamente para obter completa satisfação das pessoas se, não afecta, de um modo concreto, negativamente a outras.

E, já agora, a título de elucidação oportuna e pertinente, vale a pena, tecer algumas Ideias acerca do KAMA SUTRA:
O KÂMA SÛTRA (do sânscrito, Kâmasûtra), vocábulo composto por KÂMA (desejo) e de SÛTRA (“o aforismo”), seja literalmente (“os aforismos do desejo”) é uma recolha Indiana escrita entre o século IV e o século VII, atribuído à VATSYÂYANO. De anotar, outrossim, que KÂMA é identicamente o nome do Deus do Amor, equivalente Indiano de Eros ou de Cupido.
No fundo, o KÂMASÛTRA é um Tratado Clássico do Hinduísmo. Foi traduzido pela primeira vez, em Inglês, em 1876, por Richard Francis BURTON. Todavia, o Livro só se torna legal, no Reino Unido, no ano de 1963
O KÂMASÛTRA traz Informações acerca da Vida privada na Índia Antiga. Evoca, sucessivamente, os “Três Desígnios da Vida”, “Os conselhos de bom senso”, “O comportamento do cidadão”, “A escolha de uma esposa”, “Os deveres e privilégios da esposa”, “As cortesãs” e “Os métodos ocultos, além de todas as práticas directamente vinculadas à Sexualidade”.
Na verdade, aliás, como todos os Textos da Índia Antiga, a Obra pode ser, identicamente, lida como uma Alegoria da união (YOGA) ao Divino.
O KÂMASÛTRA, que, não é consagrado única e exclusivamente, ao Sexo, trata, identicamente, de uma Arte de Viver, que uma pessoa culta devia conhecer. Aborda, por exemplo, o Uso da Música, dos Alimentos e dos Perfumes.
Originariamente, era fundamentalmente destinado aos homens e às cortesãs. Todavia, o Livro outorga, outrossim, conselhos às mulheres e aos casais e indica que os homens não estavam unicamente tidos para a relação sexual. Devia, no entanto, dominar a técnica dos beijos, das carícias, das dentadas e das arranhadelas. Descreve, ainda, um determinado número de posições, identicamente, o comportamento a ter pelos parceiros para deixar lugar à sua Imaginação respectiva.
Na época em que a Obra foi redigida, a Mulher usufruía uma certa liberdade. Encontra-se na Obra, as habituais instruções para a “esposa fiel” que se ocupa do Lar, numera outros conselhos para a sedução e a forma de enganar o esposo.
Enfim e, em suma, à guisa de Remate: o puritanismo mais recente da Índia é assaz contrastante com a liberdade descrita, nesta Obra, em análise e apreço. Demais, o próprio MOHATMA KARAMCHAD GANDHI enviara alguns dos seus discípulos destruir estátuas em alguns templos.

Todavia, o escritor, reformador social e pedagogo da Índia Moderna, RABINDRANAH TAGORE (1961-1941), fez pôr fim à esta destruição.

“L’économie libidinale fonctionne à énergie sexuelle;
Elle règle les mouvements, distributions et
Représentations de la sexualité humaine, considérée
Généralement comme donnée fondatrice et
Substance de l’érotisme ». (…)


Lisboa, 12 Dezembro 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo)..
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

EM PORTUGAL É “MAIS MELHOR”


Estive em Macau a fazer umas coisinhas por lá durante uns meros seis anitos. Quando me vinha embora o pessoal que me acompanhava nas lides quotidianas fez-me uma linda festa e juntou-se todo para uma foto de família, como se pode ver.

Aqui na Piolheira a coisa é mais sofisticada e mais intensa: a amizade jorra em torrente contínua no local das brincadeiras quotidianas; o ambiente é fantástico de companheirismo, entreajuda e solidariedade: e só nos falta andar aos beijinhos uns aos outros durante o dia.

Aliás, "vocês sabem do que eu estou a falar": brinco quotidianamente num ambiente que em nada difere daquele que vós tendes no vosso local de trabalho.

Fantástico! Não é?!

Por isso, agora que decidi vir mais cedo para casa antes que rapem o tacho da CGA, já disse à maravilhosa maralha lá do meu sítio de brincadeiras:

Não me façam despedida nenhuma porque não quero ficar ainda mais surdo com os zumbidos permanentes que tenho nos meus ouvidos;

E não esperem que eu leve bolo nenhum para me despedir de ninguém porque não quero sair daí e ser logo engavetado acusado de envenenamento colectivo.

De resto, tudo bem!...
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

NEM MAIS

«A minha avó, que não sabia ler nem escrever e gostava de andar descalça, com as sandálias ao ombro, era bem mais culta do que alguns dos meus colegas catedráticos.»

[J. A. Maltez in TEMPO QUE PASSA]

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VIOLÊNCIA DOMÉSTICA



Conheci a Dra. Maria José Nogueira Pinto no exercício da minha profissão e não perdi o ensejo de lhe elogiar a postura política e alguns argumentos que expendera então sobre questões da Saúde e até lhe pedi que transmitisse a seu marido, o Dr. Jaime Nogueira Pinto, o meu maior apreço pela forma clara, honesta e inequívoca como costuma explanar as suas posições políticas (a despeito de eu habitar outro quadrante político que não o dele) e até lhe disse que eu gostava (e gosto) de ler o blogue de seu marido ― ao que a senhora me respondeu: «ele vai gostar de saber isso pois pensa que ninguém o lê».

Mas não posso deixar de dizer hoje à senhora Dra. Maria José que deplorei as suas palavras na comissão parlamentar e que não posso deixar de concordar em absoluto com o que disse no fim deste vídeo o meu velho condiscípulo, Dr. João Semedo, deputado do Bloco de Esquerda:

De facto «Nem os palhaços, nem os esquizofrénicos merecem as palavras que ouvimos...».
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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

É SINA OU É CASTIGO?

Pedro Passos Coelho, um saco cheio de nada (basta ouvi-lo com atenção), esforça-se o mais que pode para voltar de novo à ribalta política pois pretende ser primeiro-ministro da Piolheira.


Parece ser sina dos portugueses terem gente de pouca ou pouquíssima cultura como primeiros-ministros e candidatos ao cargo.


Não falando do "licenciado" do PS ― só o PSD já contribuiu com três personagens que tomaram conhecimento de obras literárias ou musicais que nunca existiram ―.


Reportemos ao JN de Fevereiro deste ano, ou consultemos aqui o Abrupto para que se nos reavive a memória sobre estes falsos intelectuais:


Passos Coelho leu um livro de Sartre que não existe; Santana Lopes apreciava os Concertos para Violino de Chopin (que também não existem); e o antigo primeiro-ministro Cavaco Silva estava a ler ao tempo um livro de Thomas Man que também nunca existiu. E tra-la-li e tra-la-lá.


Nota: imagem colhida do blogue wehavekaos.

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ELOCUBRAÇÃO DÉCIMA OITAVA:

(…) “Toute culture peut être définie comme
un espace élémentaire d’affrontements, farouches
ou feutrés (on dégrade, mutile, dépèce, massacre,
brûle les corps), entre expressions et exigences du
corps érotique, et les dispositions et dispositifs
anérotiques qui s’emploient à l’avilir, blesser, mortifier,
châtrer, supprimer ».


(A)
As Teorias e Representações do CORPO em vigor no seio das Comunidades Negro Africanas tendem a rejeitar a oposição Corpo Alma/Espírito, postulando uma osmose total das dissemelhantes componentes do Ser Humano, ele próprio, aliás, considerado como uma parte integrante de um Corpo Social, na sua acepção mais lata. Deste modo, se celebra a Ideia de uma fisiologia cósmica na qual cada Corpo é apenas uma fracção de um conjunto visível e invisível. Indo, para além, do dualismo Corpo Alma, uma tal démarche não concebe o indivíduo sem a Sociedade à qual pertence.
Eis porque, o Filósofo e Pastor Anglicano (especialista em filosofia cristã, denominado o “Pai da Teologia contemporânea”), o queniano, Jonh Samuel MBITI (N.- 1927) ironiza acerca do Cogito ergo sum de DESCARTES, da seguinte forma: “Eu sou porque somos; e visto que somos, então, eu sou”. O Corpo de um indivíduo é, por conseguinte, apenas o elo de uma cadeia que seria necessário apreender como um Todo, se pretende fazer disso uma representação exacta. Demais, se focalizar unicamente na análise de Corpo, ignorarão as conexões sociais, o que significa se enganar no objecto, falhar na perspectiva e praticar sociologia das aparências.

(B)
A Alma é, por conseguinte, considerada como fazendo parte integrante do Corpo, do mesmo modo que o Espírito. Toda a Espiritualidade e todo o Saber são elementos do que se é. As Tradições peule e bambara consideram, aliás, que a Pessoa Humana é uma espécie de receptáculo complexo, que “implica uma multiplicidade interior, planos de existência concêntricos ou sobrepostos (físicos, psíquicos e espirituais em dissemelhantes níveis), assim como uma dinâmica constante” (A. HAMPATÉ BÂ). A Pessoa Humana, jamais se encontra reduzida, nem ao Corpo, nem à uma Entidade monolítica. É uma Dinâmica permanente, por conseguinte, o CORPO é, concomitantemente, o reflexo e o Símbolo.

(C)
Esta Filosofia do CORPO não impediu, todavia, a Emergência de um Determinismo Biológico, que serviu, ao longo dos anos, a justificar a construção da diferença. Como em muitas outras sociedades, as morfologias corporais têm, deste modo, servido para validar categorizações sociais, hierarquizar grupos étnicos, santificar linhas de partilha do poder, legitimar abordagens dinásticas e justificar o domínio sexual e a exclusão.
No entanto, por seu turno, o CORPO produtor de discurso é, outrossim, lugar de expressão dos preconceitos. A cor da pele, a forma dos olhos, da boca ou do nariz, tornara, formas de categorização da Alma. Na verdade, encontramo-nos longe do Reducionismo genético de uma certa Sócio-biologia Darwiniana, que reputa o CORPO como o principal indicador, não unicamente do Destino do indivíduo, porém, identicamente do seu Percurso Social.

(D)
E, rematando, pertinentemente, MILLIE, a Mãe do famoso músico, actor e activista social Americano, Haroldt George “HARRY” BELAFONTE (N-1927), não teve necessidade de ler “Assim falava Zaratrusta” para considerar o seu corpo como uma interface com o Mundo, como um vector por intermediário do qual Ela queria definir a sua relação com o Mundo. O seu corpo era o lugar de expressão das suas responsabilidades familiares e das suas ambições sociais, o depositário dos seus sonhos de grandeza, o espaço privilegiado de uma Encenação da aparência e dos jogos subtis da sedução e o ponto de ancoragem do Si. Cuidava constantemente a Imagem para romper com as humilhações da escravatura e da Memória.

Lisboa, 07 Dezembro 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo).
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