terça-feira, 3 de agosto de 2010

BEM BEM!...

Estou quase a retirar aqui ao lado o link que coloquei para o blogue "Macau Passado".

Se as fotografias de Macau que o João Severino tem para nos mostrar são as da sua, dele, (omni)presença naquele território, vou ali e já venho. E venho a correr apagar o link para o álbum do bigodaças.

É que não aturo os EUístas, e muito menos estarei disposto a dar-lhes o mínimo protagonismo.

RICOS MAS ESCRAVOS

Um jovem de 24 anos, numa noite das suas férias ou folgas, não pode beber uns copos com os seus amigos, fumar umas cigarradas, cantar e urinar na rua, enfim: dar largas a manifestações próprias da sua idade, sem ser largamente exposto à curiosidade e julgamento públicos, por um jornal tablóide, apenas pelo facto de ser jogador de futebol de um grande clube mundial.

Falo de Wayne Rooney, jogador do Manchester United, fotografado numa noite de folga, em Londres, na companhia de seus amigos e da mulher, em que frequentou um pub de que saiu às 5:30h da manhã depois de uma certamente boa noitada, cantando, abrindo os braços, tendo urinado na rua.

E eu a lembrar-me dos meus 17 anos para a frente em que, durante as minhas férias, fiz serenatas até às sete da manhã, bebendo um litro de brandy por noite, urinando por tudo quanto era beco, cantando e tocando violão a noite toda, sem que nada disso tenha prejudicado terceiros e me tenha afectado a vida de estudante e posteriormente a vida profissional.

Antes pelo contrário ― por paradoxal que pareça, esses “excessos” da juventude constituem a melhor e mais segura prevenção ao desenvolvimento de uma personalidade adulta desequilibrada e muitas vezes violenta, que resulta frequentemente da frustração por se ter vivido uma juventude vigiada, reprimida nas suas manifestações naturais, censurada pelos adultos e castrada pelas instituições e pela sociedade pérfida, manhosa, castradora e mentirosa, cínica e filha-da-puta que conhecemos e que funciona ao sabor dos interesses de várias “máfias” organizadas em confederações, grupos, associações e partidos que se apresentam angelicamente ao público como se fossem as melhores damas da comédia da vida que vivemos.

Ainda há poucas semanas li no New York Times a legenda de uma fotografia de Cristiano Ronaldo numa piscina, que rezava mais ou menos isto (cito de memória): “Um futebolista multimilionário que passa 15 dias de férias num hotel em Nova York entre o quarto, a piscina e o restaurante”.

Julgue por si em que constitui a vida de Cristiano Ronaldo durante esta sua juventude e diga depois se Wayne Rooney não faz muitíssimo bem em viver as suas folgas e férias como muito bem lhe apetece e sem medo de ser “descoberto” pelo fotógrafo de qualquer tablóide que viva desses “escândalos”.

Nunca mais me esqueço de George Best, um génio que jogou também no Manchester United, nos anos sessenta, talvez o primeiro futebolista da história a mandar às malvas a disciplina escravizante do futebol. Best frequentava diariamente bares e pubs com os amigos, bebia muita cerveja e fazia aquilo que lhe dava na real gana. Mas o seu génio impediu sempre que o clube prescindisse do seu trabalho, mesmo fazendo manchetes diárias nos jornais londrinos que o perseguiam retratando obscenamente a sua vida fora dos campos de futebol.

«Eu sou o tipo que levou o futebol das páginas internas para a capa dos jornais», teria dito.

Best teve uma carreira de 15 anos no futebol (12 dos quais no top) e morreu com 59 anos, vítima de cirrose hepática, após um transplante de fígado que não aguentou a sua forma de viver, pois, mantivera o hábito de frequentar pubs e beber o seu copo.

Mas viveu como quis e lhe apeteceu e certamente morreu em paz consigo próprio e sem remorsos de não ter adoptado uma vida de clausura e de santidade que não era certamente adequada à sua personalidade.

Fiquem com esta frase banal: NÃO SE VIVE DUAS VEZES.


*** Este texto NÃO foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico. ***

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

OS VENDILHÕES DO TEMPLO

No Portugal dos Pequeninos João Gonçalves apelida e bem o jornal Expresso de «semanário brasileiro».

Mas há mais. O insignificante jornal “i” também afina pelo mesmo diapasão provinciano do brasileirismo do novo acordo ortográfico. Isto para não falar da pasquinada que se auto intitula de” jornais desportivos”.

E na blogosfera temos um blogue que paradoxalmente foi buscar as suas “origens específicas” à descendência, isto é, também se tornou brasileiro.

O autor daquele blogue terá assim inaugurado uma nova forma de olhar para as coisas ― quando se quer olhar para trás olha-se para a frente.

Até apetece perguntar ― Ó Francisco, tu vai fazer féria no Brasil com os amigo?!


*** Este texto NÃO foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico. ***

DESDOBRAMENTO DE PERSONALIDADE?

Lendo hoje, na página do Governo na Internet, o discurso do primeiro-ministro José Sócrates no “Debate sobre o Estado da Nação”, deparei-me, no ponto 4. §3º, com a seguinte tirada:

«Pois bem: Portugal pode orgulhar-se do caminho que está a fazer, em dimensões absolutamente essenciais para a coesão social e a igualdade de oportunidades. E quero referir-me a três dimensões particularmente críticas: a primeira, a redução da pobreza e das desigualdades; a segunda, a promoção de uma saúde pública de qualidade; e a terceira, a educação e formação profissional.»

O que é que se pode dizer sobre isto?
Viverá José Sócrates no mesmo país em que vive o povo português?
Saberá José Sócrates o que o primeiro-ministro de Portugal e o seu governo têm feito verdadeiramente quanto à pobreza, à saúde e à educação?

O QUE É ISTO, SENHORES?!...


*** Este texto NÃO foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico. ***

SAÚDE PELO ESGOTO ABAIXO

domingo, 1 de agosto de 2010

NÃO HÁ DIREITO!

No Jugular, a paneleiragem e a fufaria, ofendidas com um caso de censura na TVI, a uma cena homossexual de beijo entre dois rapazes, escrevem uma carta de protesto onde a certa altura dizem:

«Entendemos não existir justificação para a não emissão de qualquer conteúdo que expresse a diversidade de afectos e relacionamentos que existem na sociedade,».

Então está bem! Mostre-se na TV todos os tipos de relacionamentos existentes na sociedade. E retire-se à TV privada a possibilidade de escolher os conteúdos que transmite.

Eu sei de indivíduos que costumam ter relações sexuais com porcas (suínos fêmea);

Porque não levar também à TV este relacionamento que existe na sociedade? É que já agora...

Reitero mais uma vez que nada tenho contra a homossexualidade das pessoas. Mas entendo que incentivar a paneleirice e a fufice, através de que meios forem, não é benéfico para a sociedade.

De resto tudo bem.

*** Este texto NÃO foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico. ***

UM PAÍS ÀS AVESSAS

Quando as bolsas internacionais caem, a bolsa portuguesa sobe; quando aquelas sobem, a portuguesa desce;

Quando se faz “Um minuto de silêncio” num jogo de futebol, por exemplo, o público bate palmas fazendo um barulhão do caraças; quando se assiste a um cortejo fúnebre, os presentes batem palmas, muitas palmas (temos aí o funeral de António Feio a testemunhá-lo mais uma vez).

― Sim, palmas num funeral!

 Este deve ser o único país no mundo onde esta aberração acontece.

Está visto. Este é um país que se deseducou ao longo do tempo porque a cada dia que passa falham mais e mais as instituições que deveriam ensinar os cidadãos a serem civilizados (estou a pensar nas igrejas tradicionais, nas famílias, nas escolas e nas associações de cidadãos).

No que diz respeito a exemplos que vêm de cima... o melhor é nem falar!

A tudo isto junta-se o para mim mais grave: a Língua Portuguesa é cada vez mais mal falada; mais mal escrita; em suma, mais maltratada. Até pelos que a deviam defender em primeira linha ― os escritores portugueses (alguns vendidos a amizades e prebendas brasileiras) que, sem qualquer pinta de rebuço (fruto, talvez, da deliquescência dos princípios da nação), aceitaram e adoptaram o condenável último Acordo Ortográfico.

Dos chamados “jornalistas” não falo. Porque hoje em dia a grande maioria dos jornalistas é quase analfabeta e totalmente inculta ― é só tentar ler um jornal qualquer com alguma atenção para se ficar aterrado com o lixo de escrita e de assuntos produzidos por esses chamados “jornalistas”.

Que fazer? É o que se pergunta. Não sei, respondo eu.

*** Este texto NÃO foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico. ***

BOM DIA E BOM DOMINGO.

sábado, 31 de julho de 2010

CADA VEZ MELHOR, SIM SENHORA

O Hospital de São Gonçalo, em Amarante, vai deixar de ter cirurgiões a partir da meia noite de hoje para reduzir os custos com as horas extraordinárias, mas a mudança "não vai afetar os doentes", garante a administração.

A administração volta a frisar: "os doentes não são afetados nem a qualidade da prestação de cuidados de saúde é prejudicada".

- E porque diz isso, ó sua administração etc. e tal? - Perguntamos nós.

E responde: "as necessidades dos doentes passam a ser tratadas com recurso aos profissionais do hospital de Penafiel".


E portanto - ó povo burro que não entende nada! -, em vez de haver um cirurgião disponível para os pequenos casos que normalmente são resolvidos localmente, é chamado um cirurgião que percorre os 30 kms que distam entre Penafiel e Amarante para acorrer às necessidades utilizando um desintegrador/integrador da autoria do governo PS que torna a viagem instantânea; é como se o cirurgião sempre estivesse presente no hospital, entenderam?

- Mas que administração gastadora! Vejam lá se a mesma não pouparia muito mais dinheiro ainda incumbindo o porteiro de fazer de cirurgião!...

Ficava tão barato!... E posso garantir eu também que "os doentes não seriam afectados nem a qualidade da prestação de cuidados de saúde prejudicada".


Como é evidente.


*** Este texto NÃO foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico. ***

sexta-feira, 30 de julho de 2010

SABE QUEM É?

Pois... só podia, não é?!
JOANA AMARAL DIAS

ENGRAÇADO

Islandeses celebram um golo pescando salmão.

CASSETE PACHECO


Qual Cunhal coerente com a sua famosa “cassete”, Pacheco Pereira não se cansa de repetir à saciedade coisas como estas que publica hoje no seu “Abrupto” (sublinhado meu):

«...sem conhecer em detalhe e por escrito qual é a proposta do PSD, muita coisa parece-me ir no bom sentido. Acabar com a gratuitidade da saúde e da educação não é uma medida “liberal”, é abrir caminho para uma justiça social que coloque todos os recursos do estado a favor dos mais pobres.»

E escreve isto com a mesma desfaçatez com que diria a um inimigo ingénuo que sofre do estômago ― beba cicuta que é o melhor remédio para a úlcera gástrica. Confie em mim! ―.

No máximo, é intelectualmente um crime.

No mínimo, é uma brincadeira de mau gosto.

Peça Ensaística Vigésima Quinta, no âmbito de

Na Peugada de NOVOS RUMOS:


Ser culto es el único modo de ser libre
José MARTÍ (1853-1895).


                                    Nota Previa:
            Entre os eventos, os mais significativos, que marcaram as derradeiras décadas do Século XX passado, pode-se, muito provavelmente, estar entre eles, a verdadeira “explosão” dos contactos entre povos e culturas.
            Com efeito, neste sentido temos a referenciar o seguinte:
(1)               Tanto ao nível internacional, através da incessante circulação de produtos materiais e mentais, modelos e pessoas.
(2)               Como, outrossim, no próprio seio dos dissemelhantes países, em que o Social se encarrega da dimensão multicultural, pela presença de populações oriundas de todos os Continentes.
(3)               É, deste modo, aliás, que a Europa conta, quase doze milhões de emigrantes, que, conquanto, suscitando debates, tensões e reacções, naturalmente xenófobas, não sustentam menos, uma realidade a ter em conta, visto que, um grande número permanecerá, no país de acolhimento com os seus filhos e, anseiam, obviamente encontrar uma inserção social e profissional adequada.

Enfim e, em suma, de sublinhar, que:
Esta realidade, quaisquer que sejam os sentimentos que inspira, deve ser considerada, como incontornável, visto que ela é, em nada, conjuntural. Sim, efectivamente, resulta de um fenómeno fundamental: A constituição de um campo Humano Planetário devido à intricação, sem interrupção, crescente dos projectos, problemas e ensaios de solução de todos, à que se acrescenta a facilidade e a intensificação estupefacientes dos meios de Comunicação.

Posto isto, vamos, então abordar um tema bastante actual e, que se prende, com a relevância que assume, o Conhecimento da Cultura de Origem pelos emigrantes.

Todavia, antes de mais, um Ponto prévio, para principiar:
Deve-se encorajar esta démarche de Conhecimento, este esforço de ordem etnológica e antropológica que confere Abertura ao Mundo e revitaliza os seus modos de ver e de fazer.

(A)    Com efeito, demasiado, frequentemente, não se procura a informação adequada, mesmo se supõe a origem cultural de certas condutas, atitudes e costumes. Trata-se, efectivamente, de uma forma de actuar e agir, a rejeitar, por motivos e razões óbvios. Eis porque, se nos afigura, apropriado, a positiva ideia que visa privilegiar, que um dos primeiros informadores pode (aliás, deve mesmo) ser, amiúde, o próprio migrante.
(B)     De feito, o interesse que se atribui à sua cultura, ao seu país, à sua aldeia, ao seu costume, aos seus objectos e à iconografia da sua casa, não lhe é indiferente. Muito, pelo contrário, aliás, pois que lhe vai directo ao coração e, lho manifestar, sem dúvida, antes os seus olhos, tanta paz, como, outrossim um apoio assaz concreto. Ganha-se, com isso, evidentemente, não apenas, uma confiança mais autêntica e mais aprofundada, outrossim e, ainda, um relacionamento mais simétrico em que o migrante já não é apenas o que recebe, mas o que traz algo, ao dar a conhecer e fazer reconhecer a sua Cultura, que forma a trama da sua Identidade Social e Cultural.
(C)     De anotar, avisadamente, que mesmo se ele ignora o sentido dos seus costumes, mesmo se ele só responde através de uma linguagem pobre, o que ele exprime ao trabalhador social (por exemplo) é uma parcela de si próprio, dos seus hábitos, das suas tradições, com toda a ressonância e carga afectiva, que elas assumem para ele. Afirma o seu enraizamento, a sua história e, para além da anedota e dos eventos da sua vida, a sua memória inscrita, numa dimensão colectiva, histórica, simbólica na qual, busca, fundo e extrai o sentimento de pertença, estima de si e dignidade.
(D)    Importante consignar: Na verdade, não há dúvida nenhuma, que, mesmo no caso de o migrante não poder ou não pretende se exprimir, encontrará sempre um informador, no âmbito do seu meio social (entre os seus mais próximos), ou junto de associações quem fornecerá esclarecimentos pertinentes acerca da sua pessoa, em tempo útil e oportuno.
(E)     Donde, em Suma:
a.       É, efectivamente, pela sua Identidade, que o trabalhador social, lhe permite apresentá-lo, pô-lo em cena, se informando junto dele, se interessando por ele.
b.      É neste sentido, que é necessário compreender os convites para refeições ou para festas, troca de presentes, tão, frequentemente, uma autêntica fonte de admiração e de mal-estar da parte dos profissionais.
c.       O Migrante, ao efectuar um dom, como permuta de um serviço prestado ou de uma ajuda recebida, recupera a estima em si mesmo, outrossim, dignidade e autoridade necessária. Por seu turno, o profissional ao aceitar este dom, respeita um outro código cultural de permuta social, código, esse, que se inscreve, no mais profundo arcano da afectividade da pessoa do migrante e lhe reconhece, ipso facto, a sua dimensão social, enquanto ser portador de valor e de sentido, obviamente.
d.      Enfim, rematando assertivamente: Este reconhecimento da pessoa, em todas as suas dimensões, designadamente nas suas vertentes: psicológica, cultural, social e histórica, é sumamente fundamental no processo de ajuda e apoio, necessariamente quão eficaz e, assaz eficiente.

Lisboa, 29 Julho 2010
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo).

quinta-feira, 29 de julho de 2010

AFOGAMENTO MORTAL EM BAPTISMO





Certamente distraído, 

"MACAU PASSADO"

澳門
As nossas boas-vindas ao novo blogue, Macau Passado, do jornalista João Severino que por aquelas terras fascinantes do Oriente, tal ou melhor ainda do que nós, viveu certamente experiências ricas e únicas da sua vida, que esperamos ir conhecendo à medida que no-las trouxer à blogosfera.

Chears! E um abraço aqui do África Minha.

A NÃO PERDER

[...] «A aceleração dilui a percepção do tempo, condenando-nos a viver num presente perpétuo em que os acontecimentos se multiplicam na razão inversa da compreensão do seu sentido. A torrencial multiplicação dos pontos de vista tem como único efeito seguro o de privar o homem contemporâneo de qualquer perspectiva consistente sobre o quer que seja.»

[...] «Vivemos, em suma - a analogia é de J.L. Servan-Schreiber, no livro Trop Vite  -, como se nos deslocássemos de noite num automóvel cuja velocidade aumenta à medida que o alcance dos faróis diminui. É por isso que, mesmo em férias, se torna tão difícil desacelerar? Habituados que estamos, por um lado a viver como se a velocidade por si só desse sentido à vida e, por outro lado, a associar a aceleração com a intensidade, é cada vez mais comum reagirmos com ansiedade a qualquer vislumbre de lentidão e identificarmos a mais pequena desaceleração com uma assustadora ameaça de tédio. Como se, quando finalmente há tempo, faltasse a paciência?»

[Manuel Maria Carrilho, no DN de hoje]

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A APARÊNCIA E A REALIDADE

POR DETRÁS DA POSE DE ESTADO, A ESSÊNCIA DO SER

Por estes dias, António Nogueira Leite surpreende não só por indirectas de baixo nível e sem link, como esta e também esta,  por exemplo, como ainda e sobretudo por esta diatribe que, com toda a naturalidade deste mundo, “brinda” o psiquiatra e escritor (com obra publicada e largamente escrutinada e apreciada), Filipe Nunes Vicente, do blogue Mar Salgado.

Acho que, longe de fazer parte da silly season que atravessamos, este é um case study.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Peça Ensaística Vigésima Terceira, no âmbito de

Na Peugada de NOVOS RUMOS:


Ser culto es el único modo de ser libre
José MARTÍ (1853-1895).

Todos os Homens têm sede. E, eis porque, passam de um poço a outro, num vaguear incessante, acompanhando um desejo inesgotável orientado para os múltiplos bens do corpo e do espírito.

                                    Definições oportunas:

Toxicomania: Impulso mórbido que possuem determinadas pessoas de absorver substâncias que proporcionam sensações agradáveis ou que acalmam a dor (ópio, cocaína, éter, etc.).
Toxicomaníaco: Relativo à toxicomania.
Toxicómano: Pessoa dada ao vício de consumo de tóxicos.
Toxicopatia: Designação extensiva a todas as enfermidades provocadas pelo consumo (absorção) de tóxicos.
Toxicose (ou toxinose): Doença provocada pela presença de produtos tóxicos no organismo.
Toxiterapia: Emprego terapêutico de tóxicos.
Toxofobia: Receio obsessivo de envenenamento.
Toxicofobia: Medo excessivo de venenos.


Tóxico: Substância susceptível de provocar efeitos nocivos no organismo.
Toxico: Elemento de composição de palavras com a ideia de tóxico, veneno.
Toxicofagia: Ingestão habitual de pequenas porções de certo veneno para habituar o organismo aos seus efeitos indesejáveis e prevenir assim um eventual envenenamento.
Toxicófago: O que pratica a Toxicofagia.
Toxicografia: Descrição dos tóxicos.
Toxicologia: Tratado ou Ciência que estuda os tóxicos.
Toxicologista (ou Toxicólogo): Aquele que se ocupa da Toxicologia.
Toxémia: Intoxicação do sangue.


Toxicodependência: Estado de dependência para consumo de tóxicos (drogas), narcóticos.
Toxicodependente: Relativo a Toxicodependência ou indivíduo dependente de consumo de drogas.

            A Arte e as drogas (quiçá) têm constituído lenitivo da dor de viver. Eis, com efeito, uma ponderação, tão geral, que aparecerá (quiçá), como um autêntico Truísmo. Com efeito, no caso concreto do uso das drogas, o vocábulo “dor” é a considerar, em primeiro lugar, na acepção (a mais material). De feito, de THOMAS de QUINCEY à ANTONIN ARTAUD, numerosíssimos são os escritores cujo o primeiro contacto com uma droga se ocorreu, por razões estritamente médicas.
            E, já, num plano (que engloba, concomitantemente) o físico e o mental constitui o principal aguilhão da dor de viver. Neste sentido, ninguém asseverou, melhor que BAUDELAIRE: “est l’inexorable tyrannie du temps, et le rêve de tout artiste est d’échapper à cette tyrannie », quer outorgando corpo aos « pressentimentos de imortalidade”, quer se consagrando ou se antecipando o ritmo da duração por uma surpreendente aceleração do seu pensamento. Este sonho, as drogas o concretizam (ou seja: fazem que não seja um sonho), em duas direcções seguintes:
            --- A do “kief”, que conhecem os consumidores de haxixe e os fumadores de ópio;
            --- E a dos estados de consciência rodopiantes, superabundância de sensações, sobreposições de vocábulos e conceitos que HENRI MICAHUX, entre outros, experimenta graças aos alucinogéneos (drogas que provocam alucinações, geralmente visuais, com alterações do comportamento e da personalidade).

*****
            Dispersão, fragmentação, possibilidade de se projectar em múltiplos, por um lado e de outro: Sentimento de uma unidade recuperada, de uma invulnerabilidade adquirida, quer pela constituição de um Eu (melhor dito, um Ego) liberto de todo dano exterior. Esta situação, as drogas a prometem e a realizam, numa certa medida em determinadas condições.

            E, já agora, uma pertinente Interrogação merece, ser tida, em consideração. Ou seja: Estas esperanças eram falaciosas? A toxicomania e a forma em que ela, actualmente monopoliza a atenção (por razões e motivos vários, assaz legítimos, aliás) podem a este respeito (sob esta perspectiva, obviamente) servir de repuxo.

            De sublinhar, com ênfase, que os eminentes Estudiosos desta problemática, que se prende com o consumo de drogas, vinculam à fascinação que estas exercem sobre o Toxicómano à posse de um saber que estaria vedado ao comum dos mortais: “porque se o imagina, evoluindo sempre, em alguma experiência limite, até sem limite, tudo se passa como se esperasse, que Deus nos revele, sabe quê, dizendo respeito à nossa condição de homens ou de indivíduos e que, simultaneamente, nem ele nem nós: nada queremos saber”.
            Com efeito, este dano (se for verdadeiro que existe ainda), só pode ser, como algo não realizado e concretizado, na medida em que o toxicómano, tendo atingido um certo grau de adição, procura e encontra, aliás, na sua droga de quê colmatar o vazio que abre nos poetas (e no poeta que existe em cada um de nós), o espaço do sonho e do desejo de outra coisa que o real: “Para além dos “períodos psicadélicos”, ou de outras manifestações iniciáticas, escreve avisadamente a psicanalista francesa (Professora de Psicopatologia na Universidade Paris VII), a docente universitária, Sylvie Le POULICHET: a “experiência confronta ordinariamente a práticas e à elóquios cujo o sonho se ausentou para realizar a implantação de uma prótese. Elas se apresentam entre outras, como próteses químicas contra o terror, a dor ou o vazio”.

                        Donde, enfim e, em suma:
(1)         É, sem dúvida, nesta imediação da fruição ou da supressão da dor, que reside o grande escolho das drogas para quem deseja e quer se assumir Criador. É, aliás, em suma, o que asseverava já BAUDELAIRE, na sua linguagem teológico moral, quando recusava “invoquer la pharmacie et la sorcellerie” para ganhar o Céu.
(2)         De feito, não se pode ter o Paraíso, concomitantemente ao alcance da mão e à distância da palavra…Todavia, não é fatal que a “prótese” que fornecem as drogas vale para todos os usos que se pode ofertar esta outra prótese, de outro modo, hábil e sagaz, que é um corpo de escrita.
(3)         Finalmente, em jeito de Remate: Se o ideal do Artista clássico foi “rentrer en soi-même” para aí encontrar Deus, ou a Imagem eterna do Belo, o Artista moderno, sonhou, amiúde efectuar um percurso, no exterior do seu próprio Corpo, para ver a velocidade que possuem as coisas à partir deste observatório e que as drogas ajudaram, frequentemente a ter êxito nisso. Entretanto, não há dúvida nenhuma, que se afigura necessário, outrossim e ainda, “retourner chez soi”, evidentemente!...

Lisboa, 26 Julho 2010
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo).