sexta-feira, 7 de maio de 2010

ELOCUBRAÇÃO QUINQUAGÉSIMA SEGUNDA:

Ser culto es el único modo de ser libre

José MARTÍ (1853-1895)

Acerca da Gestão Intercultural:

Um Ponto prévio:

a) O termo “intercultural” é mais, geralmente utilizado em oposição à “multicultural”, não unicamente como pertencendo a meios de origem distintos, outrossim, porém, como exprimindo duas perspectivas distintas:

a. Uma, mais exactamente, descritiva;

b. A outra, mais centrada, na acção.

b) A este propósito, a distinta docente universitária francesa, M. Abdallah-Preitcelle define o Intercultural como uma “construction susceptible de favoriser la compréhension des problèmes sociaux et éductifs, en liaison avec la diversité culturelle”, enquanto o multicultural, conquanto reconheça “la pluralité des groupes”, se preocupando evitar “l’éclatement de l’unité collective”, não possui intenção educativa.

c) Os dois termos se refeririam, por conseguinte, a contextos dissemelhantes. Ou seja: se a migração das populações corresponde a exigências de sobrevivência materiais e existenciais, os factores conducentes a esta planetarização das relações humanas ultrapassam, à larga, as capacidades de controlo, não unicamente dos indivíduos, mas outrossim, dos poderes locais. Eis porque, deste modo, o intercultural se definiria então como uma escolha pragmática face ao multiculturalismo que caracteriza as sociedades contemporâneas. É, precisamente a impossibilidade de manter separados grupos que vivem em contacto constante que acarreta a necessidade de construir modalidades de negociação e de mediação dos espaços comuns.

d) A abordagem intercultural representa, presentemente uma resposta possível ao repto lançado pelos novos cenários sócio-culturais: “L’emploi do mot “intercultural” implique nécessairement, si on attribue au prefixe “inter” sa pleine signification, interaction, échange, élimination des barrières, réciprocité et véritable solidarité. Si au terme “culture” on reconnaît toute sa valeur, cela implique reconnaissance des valeurs, des modes de vie et des représentations symboliques auxquels les êtres humains, tant les individus que les sociétés, se réfèrent dans les relations avec les autres et dans la conception du monde. » In Conseil de l’Europe, L’Interculturalisme : de l’idée à la pratique didactique et de la pratique à la théorie, Strasbourg, 1986.

Sendo, por seu turno, GESTÂO :

Grosso modo: Ciência da técnica de direcção e de gestão da empresa.

E, já agora, Duas pertinentes MARCAS:

1) Com a mundialização, os confrontos das culturas no meio profissional se multiplicam, se tornando necessário, uma abordagem intercultural da Gestão.

2) Por outro, de sublinhar, que a Gestão tem, progressivamente levado em conta a diversidade das culturas o que pressupõe, a necessidade da formulação de um conjunto de formas concretas de organizar o seu encontro no mundo da empresa, que evolui doravante num ambiente multicultural.

POSTA PRIMEIRA:

(I)

O Management Intercultural (leia-se, outrossim, Gestão Intercultural), enquanto conjunto de práticas, diz respeito, em primeiro plano, às empresas internacionais. Ele se edifica na análise das diferenças culturais dos termos que só assume sentido, definindo o conceito de cultura e desenhando áreas culturais que permitem o cotejo das culturas.

Ora, o conceito de Cultura remete para uma gama enorme de sentido. Ou seja:

a) As Ciências Sociais mobilizam o termo, identicamente quando for questão de identidade, de património hereditário, produções artísticas e materiais como símbolos e demais outras representações. Outrossim, analisam e comparam culturas de classe, culturas de empresa, culturas dominantes e contra-culturas, definindo, deste modo, o objecto de estudo das áreas culturais como geometria visível.

b) Identicamente, se restringirmos ao domínio da Antropologia, que fez da Cultura um objecto privilegiado, a noção permanece associada a realidades múltiplas, desde o projecto colonial, até ao ideal de comunicação entre os povos.

(II)

Não há dúvida nenhuma, que nestes derradeiros anos, aparece claramente, que a sensibilidade às questões interculturais dos responsáveis das empresas internacionais e os esforços realizados para as tratar, adequadamente, progridem. O desenvolvimento rápido das formações, no âmbito da gestão intercultural, quer se trate de formação contínua ou inicial, está presente para atestar o facto.

De anotar, todavia, que, no momento actual, os conhecimentos mobilizados e as experiências conseguidas são ainda demasiado escassos para que as práticas tenham atingido à maturidade. Na verdade, se muito dos discursos consideram, a tida em conta das culturas, como um factor de êxito, a utilização deste princípio se resume, amiúde, em se agregar às operações de gestão, que permanecem fundamentalmente idênticas a um verniz intercultural pouco eficaz. Donde e daí, um longo percurso resta a percorrer para que as empresas tomem acto do facto, que as culturas afectam profundamente as representações e coagem a renovações de práticas de Gestão.

(III)

Identicamente, a investigação deve progredir para ajudar as empresas a elaborar modos de gestão adaptados à interculturalidade. Trata-se, em primeiro lugar de estender a análise dos contextos culturais de gestão a novos países. A extensão do campo de estudos permitirá, não unicamente melhorar as práticas em cada lugar, alimentar outrossim as análises comparativas e aperfeiçoar as tipologias de áreas culturais.

Enfim, a investigação em gestão intercultural ganharia em combinar uma variedade de disciplinas e em mobilizar trabalhos conexos. Com efeito, numerosos domínios, designadamente, a Educação, o Trabalho Social ou os Médias estão em conexão estreita com problemáticas interculturais.

(IV)

Primeiramente, a Gestão Intercultural pode ser definido pelas questões às quais tenta trazer respostas:

1) Que dificuldades as diferenças culturais suscitam no âmbito da gestão de empresas e, sobretudo, quais as vias concebíveis e possíveis para ultrapassar estes obstáculos, poder, outrossim, beneficiar da diversidade cultural?

2) Mais precisamente, a gestão intercultural visa, em primeiro lugar, as interacções interculturais em meio laboral, melhorias que se medem pela vara da performance técnica e económica das equipas multiculturais, porém que remetem, outrossim para a experiência subjectiva das pessoas implicadas? Com efeito, a análise de depoimentos de imigrantes e expatriados revela o potencial de frustração, sofrimento até da patologia que encerra a imersão num universo cultural estranho e desconhecido.

3) Eis porque, se pode afirmar, avisadamente que a Gestão Intercultural consiste, por conseguinte, em construir articulações entre portadores de culturas dissemelhantes afim de minimizar as consequências negativas das diferenças para os indivíduos e as empresas e beneficiar dos recursos potenciais que oferece cada cultura.

(V)

A gestão intercultural recorre, identicamente ao estudo e a gestão das transferências internacionais, de ferramentas/utensílios de gestão, onde o choque cultural para ser menos visível não se afirma menos frontal.

De feito, os utensílios de gestão não são, nem neutros, nem universais, porém veiculam uma concepção da organização e do trabalho próprio do contexto cultural, que os viu nascer. Por exemplo:

a) Tal utensílio de controlo de gestão se edifica numa representação específica das conexões hierárquicas e dos papeis de cada um.

b) Mais precisamente: define implicitamente que deve prestar conta a quem, sobre que assunto e com que precisão.

De facto, não há dúvida nenhuma, que por detrás do utensílio técnico se perfila uma concepção da autonomia e da responsabilidade dos utilizadores. Quando estes utensílios impregnados de concepções culturais se encontram a disposição de pessoas oriundas de um outro contexto cultural, um choque cultural, de forma correcta, se realiza, mesmo que não assume a forma de contactos directos entre pessoas. A gestão intercultural se vincula, então às modalidades de execução local, adaptação e apropriação pelos actores destes utensílios importados.

Lisboa, 05 Maio 2010

KWAME KONDÉ

(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo)

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terça-feira, 4 de maio de 2010

BEM SE ESFORÇA, CARAMBA!

A minha tia Arlete, que lê jornais todos os dias, fez um exercício igualzinho a este, sem tirar nem pôr.

«É o que todos têm dito e escrito nos últimos anos», disse-me ela.

Pois, mas... e coisa e tal... é Doutor e tal...
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PORTUGUÊS TÉCNICO

Ahhh! Finalmente já se vai descobrindo que o Senhor Doutor “Neologista” está a celebrizar-se no uso da Língua Portuguesa: a cada dia que passa cresce (ou creche?) a sua lista lexical nova, uma espécie de Português Técnico que vai espalhando pela blogosfera e pelos jornais qual discípulo da escola socratista de sucesso meteórico, autopromoção e auto elogio ameaçando o pagode com uma “ministerialização” próxima que seria (pelos vistos, mas sobretudo pelos lidos) uma desgraça inevitável se viesse a acontecer.

Não se imagina sequer um “produto” deste calibre numa pasta ministerial. Mas se hoje se “ameaça” colocar a incompetência mais evidente, roliça e sebosa à frente de um hospital do Estado (depois esclarecerei isto se a coisa se concretizar), porque não admitir que "o passarão” será um dia ministro da piolheira?!

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domingo, 2 de maio de 2010

NEOLOGIAS E NEOLOGISMOS

Bem, se "módico" como substantivo é neologismo;

será que usar "sobre" em vez de "sob" também o é?

Vicente Jorge Silva uma vez falou da geração rasca; hoje talvez se possa falar da "geração Sócrates": a que perante o erro foge p'rá frente até ao estado de negação. Mas nunca reconhece o erro.

BOM DOMINGO!
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sábado, 1 de maio de 2010

É TRISTE MAS É ASSIM

Não gostaria de escrever isto, mas sinto-me no dever de o fazer.


Eu sei, eu sei que sendo embora doutorado não o é em Língua Portuguesa (nem sei se há tal doutoramento). Mas Nogueira Leite é doutorado e reincide (estranhamente ou talvez nem por isso), no espaço de uma semana, em erros de Português. Primeiro empregou o adjectivo “módico” como substantivo; e hoje reproduz no blogue outro erro que escreveu no Correio da Manhã:


«Uns e outros não podem determinar o nosso futuro a curto prazo sobre pena da maximização do prejuízo de todos.»


É mais que óbvio que devia ter escrito “sob pena de” e não “sobre” (até porque, e ao contrário do que se costuma dizer, o que está por cima não é igual ao que está por baixo); mas no estado a que chegou a preparação dos políticos, governantes e candidatos a ministros de Portugal, tudo isto é normal e admissível. Mas o pior é que estes tratos de polé à Língua Portuguesa retiram confiança nestes putativos ministeriáveis. Por mais pletóricos, canoros e "canudados" que se apresentem ao cidadão eleitor.

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ELOCUBRAÇÃO QUINQUAGÉSIMA PRIMEIRA:

Ser culto es el único modo de ser libre

José MARTÍ (1853-1895)

Acerca das Classes Sociais Emergentes:

Peça ensaística segunda:

(1) Na verdade, vemos emergir uma formação global distinta composta por uma miscelânea de indivíduos, de categorias de população e organização diversas. Independentemente, de uma diversidade intensa marcada por uma ausência de interacção patente, existe nesta formação, condições objectivas e dinâmicas subjectivas partilhadas. O que se afigura pertinente, consignar é que esta formação não pode ser pensada como equivalente de uma sociedade civil global, mesmo se ela é, em parte, em momentos específicos e mesmo se o imaginário de uma tal sociedade civil global for uma condição subjectiva significativa, partilhada por algumas das pessoas e alguns dos projectos implicados. O que é, particularmente interessante para o propósito deste estudo, é o facto, que a maioria das pessoas interessadas, são inteiramente imóveis. Não fazem parte de uma classe transnacional de viajantes e das elites internacionais da nova sociedade civil global. Todavia, pertencem, realmente, quer objectivamente, quer subjectivamente, às formas específicas da globalidade.

(2) De feito, uma das preocupações que está na base de abordar a categoria de desnacionalização diz respeito aos tipos de redes inter-fronteiriças que os indivíduos e as organizações privados de recursos podem construir e juntar, mesmo que não são móveis. A chave do problema se deve ao facto que as lutas localizadas dos activistas podem ser globais, mesmo, estando confinadas num ambiente local em que os seus membros não teriam nem os meios, nem a permissão de viajar como quiserem (a seu gosto, à sua vontade).

(3) Pode considerar, entretanto, estas lutas como localizações da Sociedade civil global, sendo os espaços importantes para tais localizações das cidades globais que abrigam múltiplas organizações e redes diaspóricas ou activistas. Os actores destas lutas podem incluir diversos sectores desfavorecidos. Toda uma variedade de reagrupamentos e organizações que possuem recursos limitados, que só têm pouco ou nada de poder e, (não são, amiúde, mesmo oficiais). Por outro, de sublinhar são, frequentemente invisíveis para a política nacional e a sociedade civil nacional, não sendo reconhecidos, enquanto actores políticos ou cívicos, não sendo, outrossim, autorizados pelo sistema político.

(4) As cidades, que são fundamentais para a sociedade civil global, contêm, pelo menos, dois espaços chaves.

a. O primeiro é o espaço concreto das actividades políticas ou cívicas (distinto do espaço fortemente formalizado da política nacional e da sociedade civil nacional).

b. O segundo constitui o ambiente de ponta construído para as funções de controlo e a reprodução social do canal de empresa, que torna visível o sector de empresa global, cada vez mais e mais, evanescente.

i. Por outro, na verdade, o espaço parcialmente desterritorializado das redes electrónicas globais e, outrossim fundamental.

ii. Por seu turno, de anotar, que a Internet de acesso público assume aqui uma importância enorme. Permite uma comunicação e uma distribuição fáceis (a baixo preço) e, de modo crucial, a criação dos domínios electrónicos em que múltiplos actores oriundos de localidades dissemelhantes podem ser reencontrados.

(5) Oriundos destas condições (ora enunciadas) cinco (5) problemas podem ser identificados. Ou seja:

a. O primeiro diz respeito às formas de compromisso político e cívico, que se tornaram possíveis para os desfavorecidos nas cidades globais: Estas são, pelo menos, em parte, facilitadas pela globalização e o regímen dos direitos do Homem.

b. O segundo problema se deve ao facto que a presença de comunidades de imigrantes produz formas de caucionamento transnacionais específicas, inclusive diásporas globalizadas.

c. O terceiro problema diz respeito aos modos de confronto tornados possíveis na cidade global entre os desfavorecidos e o poder de empresa global.

d. O quarto problema consiste em determinar em que medida o acesso aos Médias (em particular, a Internet) permite aos dissemelhantes grupos ou os impele em transnacionalizar os seus esforços.

e. O quinto problema visa determinar em que medida tais compromissos e tais actividades múltiplas contribuem para a desnacionalização da cidade global e promovem, deste modo, formas de consciência e de pertença mais globais, mesmo entre os desfavorecidos e os imobilizados. Todos estes elementos fazem parte de micro estruturas localizadas da sociedade civil global.

Enfim e, em suma:

As massas de pessoas provenientes do Mundo inteiro, que, frequentemente se reencontram, pela primeira vez nas ruas, nos locais de trabalho e nos bairros das cidades globais, presentemente, produzem uma espécie de transnacionalismo in situ. Estes reencontros podem ser as de pessoas da mesma etnia, tendo empregos de altíssimo nível (isto é, reencontros de classes). Deste modo, se observa um reconhecimento emergente da globalidade, amiúde talhada pelo conhecimento das lutas e das iniquidades recorrentes de uma cidade para outra. Este conhecimento tornado possível, concomitantemente pelos Médias globais e a utilização, cada vez mais e mais propalado da Internet entre os activistas, funciona, aliás, como um facto, que como uma formação subjectiva. Esta dimensão subjectiva permitiria , cada vez mais e mais, aos desfavorecidos e aos localizados reconhecer a presença do global nestas cidades e a sua participação neste fenómeno. Deste modo, o global se torna visível, pondo, por conseguinte, numa posição ambígua, entre o nacional e o global, a maioria dos actores desfavorecidos, localizados e activistas.

Lisboa, 29 Abril 2010

KWAME KONDÉ

(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo)

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terça-feira, 27 de abril de 2010

OUTRA VEZ “MÓDICO”

Acho que vai sendo tempo de quem pode legislar para que o adjectivo "módico" passe a ser também ou somente um substantivo.

Agora é António Nogueira Leite, doutorado, professor universitário e ministeriável (ao que se diz) que usa a palavra ”módico” como substantivo.

Penso que fica assim claro que talvez não haja mais nada a fazer: está no DNA dos portugueses dizerem e escreverem “um módico de”; ou porque não ligam patavina às regras da Língua Portuguesa, ou porque se estão nas tintas para quem os lê, ou por qualquer outra razão abstrusa que se nos escapa.

Mude-se então os dicionários!
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segunda-feira, 26 de abril de 2010

NOTÍCIAS DA TERRA DO FOGO 2

Por enquanto não há postas, não há fotos, não há nada; apenas o percorrer de caminhos e lugares mais que conhecidos em busca do que de novo possa ter aperecido ultimamente. Os amigos de sempre, com a amizade e disponibilidade infinitas próprias deste modo siciliano (solidário, intenso e incondicional) de viver - não confundir com mafiosidade ou coisas outras de teor semelhante - se pudessem viveriam por mim para que eu não me preocupasse em meter-me nesses "trabalhos". É assim a vida aqui na ilha do vulcão.

Vêm aí as festas de San Filipe e se puder darei relato breve do que me merecer atenção. Para já bancos e políticos começam a aparecer para "trabalharem" o emigrante que sempre aparece aos montes nesta festa. Vai haver imensa alegria à solta e, para não variar, um ou outro confronto de valentões que sempre também aparecem para publicitarem (uns) e manterem (outros) o estatuto de rei da selva urbana - bem à moda antiga dos povoadores de antanho.

Então até à próxima postagem!
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ELOCUBRAÇÃO QUINQUAGÉSIMA:

Ser culto es el único modo de ser libre

José MARTÍ (1853-1895)

Das Classes sociais Emergentes:

Peça ensaística primeira:

(A):

O conceito de classe, que utilizaremos, nesta nossa Peça ensaística, assume o desígnio de “agregar primordialmente, toda uma variedade de grupos, que começam a assumir formas sociais globais coerentes”. Donde e daí, efectivamente, que a formação destas classes revela uma dinâmica que desagrega, em parte, o nacional do interior. Estas classes assumem a forma de Instituições bem específicas, designadamente:

1) No Aparelho do Estado;

2) Na Economia e na

3) Sociedade, na acepção, mais estrita do termo e da expressão respectiva.

De sublinhar, outrossim e, por outro, que esta desagregação debilitou a influência que a Política, os sistemas e os programas nacionais exerceram historicamente sobre os grupos particulares que englobam estas classes emergentes, obviamente. Simultaneamente, as características destas classes, em particular, a sua posição ambígua entre o global e o nacional indicam uma implantação prolongada, mesmo que parcial, no âmbito dos domínios nacionais. Por conseguinte, se os descreve melhor, asseverando que são classes parcialmente desnacionalizadas, interpretação que contesta, outrossim a noção dominante, segundo a qual as classes globais são cosmopolitas, precisamente porque se encontram fora do alcance do nacional.

E, tendo em conta, que “classes globais” é o termo corrente utilizado na literatura erudita é o que utilizaremos, ipso facto, neste nosso Estudo ensaístico.

(B)

a) ---As classes globais novas são provavelmente concebidas, ou melhor, enquanto forças sociais emergentes. De anotar, antes de mais, que a sua inserção respectiva, nas nossas Sociedades, não se opera, presentemente através dos quadros institucionais, desde há muito tempo, estabelecidos ou de lutas políticas (as que são conduzidas pelos partidos políticos e os sindicatos). Um ponto-chave da análise, neste capítulo, consiste em mostrar que, conquanto, sendo globais, estas classes estão implantadas em graus diversos nos ambientes nacionais e, por conseguinte, melhor compreendidas, enquanto são parcialmente desnacionalizadas. Esta distinção é fundamental para compreender a sua articulação com a estrutura de classe nacional e para saber se ela perturba esta última.

b) --- Eis, então, que uma primeira questão se nos depara e que diz respeito às conexões destas classes e dos ambientes nacionais. Existe, de modo evidente, diferenças importantes quando se trata da sua inserção nos contextos nacionais. Todavia, esta classe se encontra, muito mais fixada no lugar que o não deixaria pensar o seu imaginário ordinário.

Porém, no atinente, à classe heteróclita dos trabalhadores desfavorecidos, a situação é praticamente inversa. Ou seja: esta classe se encontra muita mais implantada, no que se pode considerar como o local de trabalho global, onde a política transnacional que não se podia esperar por isso através do imaginário associado a estes trabalhadores.

Enfim, a proliferação das redes de responsáveis governamentais especializadas pode ser encarada como a construção do capital social internacional para os Governos implicados. Porém, extrair a utilidade deste capital social exigirá construir pontes entre as políticas nacionais e internacionais, por um lado e, por outro, a política sobre questões que foram, em geral, pensadas como nacionais. O que significa, que será necessário reconhecer que o global se constitui, em parte, em ambientes nacionais.

c) --- As três classes, cada uma, na sua forma de ver, estão fortemente inseridas em contextos bem delimitados territorialmente: as cidades globais e os governos nacionais. Poder-se-ia asseverar que cada uma delas é um agente que torna o global parcialmente endógeno para ambientes específicos nacionais. De anotar, avisadamente, que esta análise ora enunciada tem consequências outrossim para a análise de classe como para a política governamental nacional. Estas consequências estão em oposição às que poderiam estar associadas às noções de classes cosmopolitas livres de todo apego e de toda a necessidade nacionais.

d) --- Uma segunda questão diz respeito à conexão entre as classes globais novas e as estruturas de classe nacionais.

Esta conexão vale fundamentalmente para a classe profissional e para os trabalhadores espoliados. Há muito a dizer acerca do assunto, porém, por economia de espaço, vamos concentrar sobre dois aspectos, assaz relevantes. Donde, então:

-- O primeiro consiste no facto, que estas duas classes globais fazem parte de um processo de estruturação económica profunda, que contribui para uma procura acrescida de profissionais altamente qualificados e de trabalhadores a baixo salário, nos serviços e na produção. Esta procura bimodal de mão-de-obra se torna evidente (concomitantemente, na rua e nos dados estatísticos) e, nas cidades globais mais que não importa onde algures. A este respeito, as formas actuais de globalização económica reforça a desigualdade e produzem, mesmo, novos tipos de desigualdades. Eis porque, reconhecer as interacções das formas sociais e das situações que, usualmente se julga sem relação é um verdadeiro desafio para a análise.

Exemplificando, adequadamente: Nos centros financeiros internacionais ultramodernos, nas cidades, como Nova Iorque e Londres dependem, de feito, de uma gama de trabalhadores e empresas, muito mais vasto, que não se o supõe, em geral: todas as espécies de empregados de serviço a baixo salário trabalham nestas cidades globais. A opinião pública e as nomenclaturas políticas classificam estes empregados a baixo salário, integrando-os nos sectores atrasados da economia. Eis, efectivamente, um erro crasso! De feito, uma análise, em termos de classe, distinta de uma análise das estratificações ou dos grupos profissionais, seria centrada sobre as interacções sistémicas.

e) --- Um terceiro aspecto fundamental, em conexão com as classes globais e as estruturas de classes nacionais, consiste no facto que as novas segmentações são filtradas através das culturas políticas e administrativas distintas, nomeadamente:

-- Uma cultura neo-liberal que abre um país aos circuitos profissionais do capital global, por um lado;

-- E, por outro, as políticas de imigração que fecham um país o acesso ao mercado do emprego à baixo salário.

De sublinhar, que filtrar os novos processos através destes quadros políticos, que são mais antigos e vetustos, em muitos aspectos, tem para fim obscurecer precisamente estes aspectos da globalização, que se pretende esclarecer, de modo consentâneo e consequente, designadamente: o apego geográfico, mais que evidente da nova classe profissional e a globalidade mais evidente da nova mão-de-obra desfavorecida.

De feito, estes dois quadros políticos não conectados contribuem para obscurecer o facto que consigna, que os novos tipos de segmentação que estas duas classes globais inserem no tecido político e cívico de um Sociedade pertencem ao capitalismo avançado.

Finalmente, assertivamente, não há dúvida nenhuma, que a análise, em termos de classe, deve ter em conta, as estruturas deste último pelo facto que, presentemente, mais que não importa qual outro momento do século XX pretérito, elas funcionam, em conformidade com uma geografia global aos sítios múltiplos. Deve, enfim, levar em conta o facto, que a classe global dos trabalhadores a baixo salário é mais global e, por conseguinte, mais indicativo do futuro, antes que de um passado findo, que não consente imaginá-lo.

Lisboa, 25 Abril 2010

KWAME KONDÉ

(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo)

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