Jaques Barzun, a pgs. 101 da sua História 500 Anos da Vida Cultural do Ocidente (de 1500 a 2000), conta-nos como a mortalidade precoce da época estimulava os jovens a viver de acordo com ela.
«Catarina de Médici casou com o seu marido Henrique, herdeiro do trono de França. Tinha 14 anos. O casamento tinha sido planeado pelo papa como parte de um complexo esquema político, e para o consolidar era imperativo que Catarina desse à luz um filho sem demora. Quando Henrique mostrou não estar à altura da tarefa, o papa desafiou Catarina com as palavras: “Uma rapariga esperta decerto sabe como engravidar de uma maneira ou de outra”.»
Acresce que o papa era Clemente VII, de seu nome de baptismo Júlio de Médici, tio avô de Catarina; e que Catarina, depois de dez anos de infertilidade, teve então a orientação de Diana de Poitiers, amante do rei, no que acabou por ser mãe de 10 filhos em 12 anos.
Quanto ao actual papa, Bento XVI, de seu nome Joseph Ratzinger, a sua aura de santidade não parece ser famosa nos dias que correm. Segundo o jornal “i”«A polémica em torno da Igreja Católica reacendeu-se, na semana passada, depois de o jornal norte-americano "The New York Times" ter publicado uma reportagem a dizer que, em 1996, o então cardeal Joseph Ratzinger não teria dado resposta a cartas de clérigos norte-americanos, que acusavam um padre do estado do Winsconsin de abusar sexualmente de cerca de 200 menores surdos, entre 1950 e 1972.»
(1)Com efeito, não há dúvida nenhuma, que o Homem é eminentemente um ser de Cultura. O longo processo de hominização principiou, já lá vão, mais ou menos quinze (15) milhões de anos. Consistiu fundamentalmente em passar de uma adaptação genética, no ambiente natural, para uma adaptação cultural.
(2)No decurso desta evolução cujo corolário foi o advento do Homo Sapiens sapiens, o Primeiro Homem, se operou uma colossal regressão dos instintos, “substituídos” progressivamente pela Cultura, isto é, por esta adaptação imaginada e controlada pelo Homem que se revela muito mais funcional que a própria adaptação genética, porquanto muito mais flexível e mais fácil e mais rapidamente transmissível. De feito, a Cultura permite ao Homem, não apenas se adaptar ao seu meio, outrossim, porém, adaptar este à si próprio, às suas reais necessidades e aos seus projectos respectivos, em outras palavras (e, para melhor dizer), a Cultura se torna possível a transformação da Natureza.
(3)Demais, se todas as “populações” humanas possuem o mesmo stock genético, se diferenciam pelas suas escolhas culturais, cada uma, inventando soluções originais para os problemas que se lhes colocam. Todavia, estas diferenças não são irredutíveis umas às outras, visto que, tendo em conta, a unidade genética da Humanidade, representam aplicações de princípios culturais universais, aplicações estas susceptíveis de evoluções e, identicamente de transformações.
(4)Eis porque, no âmbito desta óptica e perspectiva, a Noção de Cultura se assume, por conseguinte, como o utensílio adequado para pôr termo às explicações naturalistas dos comportamentos humanos. A Natureza, no Homem é integralmente interpretada pela Cultura. As diferenças que poderiam parecer, mais vinculadas à propriedades biológicas particulares, como, por exemplo, a diferença dos sexos, não podem elas mesmas, se observar jamais “à l’état brut” (natural), visto que, por assim dizer, a Cultura se apodera disso, imediatamente: a divisão sexual dos papéis e das tarefas nas Sociedades Humanas resulta fundamentalmente da Cultura. E, eis porque, varia de uma sociedade para a outra.
(B)
Os vocábulos possuem uma história. Outrossim, em certa medida, os vocábulos fazem a história. Assim sendo, no atinente a todos os vocábulos, isto se afigura, particularmente verídico, no caso do termo “cultura”. O “ peso dos vocábulos se encontra carregado desta conexão à história, a história que os fez e a história que contribuem para fazer.
Os vocábulos aparecem para responder à determinadas e certas interrogações, à certos e determinados problemas que se colocam em períodos históricos determinados e em contextos sociais e políticos específicos. Donde e daí, denominar é, simultaneamente colocar o problema e já resolvê-lo, de uma certa forma.
A invenção da Noção de Cultura é, em si mesma, reveladora de um aspecto fundamental da Cultura no seio do qual, pôde se fazer esta invenção. Inversamente, é assaz significativo que o vocábulo “cultura” não tenha equivalente na maioria das línguas orais das sociedades, que estudam habitualmente os etnólogos. Isto não implica, evidentemente que estas sociedades não possuem “cultura”, conquanto a elas, não se colocam, a questão de saber se elas possuem ou não uma cultura e ainda, muito menos, de definir a sua própria cultura.
Enfim e, em suma: A evolução de um vocábulo depende, com efeito, de numerosos factores, que não são todos de ordem linguística. A sua herança semântica cria uma certa dependência relativamente ao passado, nos seus usos contemporâneos.
(C)
--- No decurso do século XIX, a adopção de “démarche positive”, no âmbito da reflexão acerca do Homem e da Sociedade desemboca na criação da Sociologia(ciência que se dedica ao estudo dos fenómenos sociais) e da Etnologia (ciência que estuda os povos integrados no contexto dos seus agrupamentos naturalmente constituídos) como disciplinas científicas.
A Etnologia vai tentar outorgar uma resposta à prístina questão que se prende com a definição da Diversidade Humana. Ou seja: como pensar a especificidade humana, no âmbito da diversidade humana.
Importante sublinhar, com ênfase, que os fundadores da Etnologia científica partilham todos um postulado idêntico: o da unidade do Homem, herança da filosofia das Luzes. Para eles, a dificuldade estará, por conseguinte, no pensar a diversidade na unidade.
Todavia, à questão assim colocada eles não entendem que se satisfaça com uma mera resposta biológica. De feito, se reclamam fundadores de uma nova ciência para trazer uma outra explicação à humana diversidade que a da existência de “raças” dissemelhantes. Deste modo, duas (2) vias vão ser exploradas, simultânea e conjuntamente pelos etnólogos:
a)A que privilegia a unidade e minimiza a diversidade, reduzindo-a à uma diversidade “temporária”, segundo um esquema evolucionista;
b)E a que, pelo contrário, outorga toda a sua importância à diversidade, se envidando em demonstrar que não é contraditório com a unidade fundamental da Humanidade.
Eis porque, no âmbito desta dinâmica epistemológica, um conceito vai emergir como utensílio privilegiado para pensar este problema e explorar as dissemelhantes respostas possíveis: Eis nos, então ante o advento, em força do lexema “Cultura”, aliás, melhor dito, o vocábulo se encontra a pairar no ar do tempo, porém é utilizado, ordinariamente, tão bem, como isto foi visto em França como na Alemanha, num sentido normativo. De sublinhar, que os fundadores da Etnologia vão lhe outorgar um conteúdo puramente descritivo. Já não se trata para eles, como para os filósofos, de asseverar o que deve ser a “Cultura”, sim, descrever o que ela é, tal como aparece nas Sociedades Humanas.
Todavia, a Etnologia, nos seus inícios não escapará completamente a toda a ambiguidade e não se conformará facilmente com todo juízo de valor, nem de toda implicação ideológica. No entanto, o facto de se tratar de uma disciplina em vias de constituição, que identicamente não podia exercer uma influência determinante no campo intelectual da época, permitiu que a reflexão acerca da questão da cultura escapasse, em grande parte à problemática do debate apaixonado que opunha “cultura” e “civilização” e preservasse uma relativa autonomia epistemológica.
Enfim e, em suma: A introdução do conceito de Cultura far-se-á com um êxito desigual nos dissemelhantes países, onde nasce a Etnologia. E, por outro lado, não haverá entendimento entre as dissemelhantes “escolas” acerca da questão de saber se é necessário utilizar o conceito no singular (a Cultura) ou no plural (as culturas), numa acepção universalista ou particularista.
(D)
Na verdade, se o conceito, ou pelo menos, a ideia de cultura se impõe, a investigação sistemática sobre o funcionamento da cultura, em geral, ou das culturas, em particular não se desenvolve, de modo tão importante em todos os países, onde começa levantar voo a Etnologia. É nos Estados Unidos da América do norte que o conceito recebe o melhor acolhimento e, é no seio da Antropologia norte-americana que vai conhecer o aprofundamento teórico mais notável e relevante. Neste contexto científico particular, a investigação, no âmbito da questão da ou das cultura (s) é veridicamente cumulativa e não conhecerá, ipso facto, o real declínio. Isto é, de tal modo, verídico que falar de Antropologia norte-americana ou de “Antropologia cultural”equivale praticamente o mesmo. A consagração científica da “Cultura” é tal nos Estados Unidos, que o termo foi adoptado rapidamente na sua acepção antropológica por disciplinas afins, designadamente a Psicologia e a Sociologia em particular.
Eis nos, então, ipso facto, ante o triunfo indiscutível do Conceito de Cultura.
(E)
Vale a pena, sublinhar que a Investigação científica jamais se efectiva, completamente independente do contexto no qual se efectua, obviamente. De feito, o contexto nacional americano é assaz específico, comparado com os contextos nacionais europeus. Os Estados Unidos se assumem eles mesmos, desde sempre, como um País de imigrantes de dissemelhantes origens. Nos Estados Unidos, a Imigração, não só, funda como precede outrossim, por conseguinte, a Nação, que, por seu turno, se reconhece Nação pluriétnica.
De feito, o mito nacional norte-americano, consoante o qual a legitimidade da Cidadania está quase vinculada à Imigração – o Americano é um imigrante ou um descendente de imigrantes – está no fundamento de um modelo de integração nacional original que admite a formação de Comunidades étnicas particulares. A pertença do indivíduo à Nação vai, frequentemente, a par com a participação reconhecida à uma comunidade particular. Eis porque, a identidade dos Americanos foi qualificada por alguns de “identidade a traço de união”. Donde, pode-se ser, com efeito, “Ítalo americano”; “Polaco americano”, “Judeu americano”, etc. etc. E, deste modo, resulta, obviamente o que se pôde denominar como um “Federalismo Cultural”, servindo-se da consagrada expressão da autoria da socióloga francesa Dominique SCHNAPPER (n-1934), pois que permite a expressão pública das culturas particulares, que não são, todavia, uma pura e mera reprodução das culturas de origem dos imigrantes, Sim, efectivamente a sua adaptação e a sua reinterpretação respectiva em função do novo Ambiente Social e Nacional. De anotar, entretanto, que o mito americano leva a considerar os Índios (leia-se, os Ameríndios), que não são, por definição, imigrantes e os Negros cuja a imigração forçada, como não sendo Americanos à part entier.
Demais, pelas mesmas razões históricas, a Sociologia norte-americana recente privilegia a recherche sobre o fenómeno da imigração e das relações interétnicas. Os sociólogos da Universidade de Chicago, primeiro centro de ensino e de difusão da Sociologia nos Estados Unidos, colocam no cerne de suas análises a questão dos estrangeiros na cidade, contribuindo, deste modo, para promover um campo de estudo fundamental para as sociedades modernas.Com efeito, o contexto, assaz peculiar e sui generis dos Estados Unidos favoreceu uma interrogação sistemática no atinente às diferenças culturais e, outrossim acerca dos contactos entre as culturas.
Lisboa, 28 Março 2010
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo)
E anunciou a vinda do Espírito Santo em seu nome para lembrar aos infiéis votantes no Senhor dos Passos (Coelho) as palavras do Pai predizendo o Apocalipse.
Como já nos habituou em situações anteriores de derrota política, o Abrupto mantém-se mudo e quedo há mais de 24 horas.
Ainda não veio "prestar contas" do apoio a Sócrates no Parlamento, com o seu voto de abstenção, e muito menos saudou a eleição do seu novo chefe partidário.
Deve estar a fabricar umas setinhas esquisitas para oferecer a Passos Coelho.
Está enganado se pensa que isto é um chapéu invertido.
Trata-se de uma máquina de blogar. Na parte de cima colocam-se as palavras, carrega-se nos botões para programar o tipo de posta que se quer fazer, espera-se cinco minutos e pode-se então tirar o chapéu com a posta quentinha lá dentro.
Se porventura escolher a opção “posta erudita”, já terá que esperar mais tempo (uns dez minutos), e antes disso terá que carregar em todos os botões ao mesmo tempo. Neste caso a máquina fumega um bocadinho e a espera é maior porque a mistura das palavras é mais complexa.
Mas a posta sairá com suprema erudição: ninguém a conseguirá perceber.
Tradução para Português : Esta faca não é uma faca. Esta faca não é para matar ninguém como andam a dizer os bota-abaixistas. Cada vez que se enfiar esta faca nas costas do povo o que se faz é provar ao mundo que se sabe manejar uma faca com mestria fazendo com que a alma do povo se eleve até Deus, lhe agradeça as benesses veiculadas pelo Governo e assim se mostre ao povo o caminho da santidade e da bem-aventurança.
Esta faca não é uma faca.
Esta faca é um meio, um instrumento sagrado através do qual o Governo consegue fazer com que o povo conheça Deus e o Paraíso. .
VLX é do Fóculporto, e FNV é do Benfica. Escrevem no mesmo blogue, Mar Salgado. E cada um defende naturalmente o seu emblema. Divertido é ver como a cada bicada ou tentativa de bicada de VLX, FNV responde com invejável conhecimento histórico e uma saraivada de argumentos no mínimo demolidores.
De cada vez que VLX tenta tirar a cabeça do tanque ― bora lá p’ra debaixo da água, morcão ― FNV volta e enfiar-lha lá dentro com ambas as mãos.
Dois exemplo apenas:
1) VLX escreveu timidamente “BATOTA CONFIRMADA!”, e linkou a frase para aqui. FNV não esteve com contemplações: disparou uma girândola de fogo e ― uma, duas, três vezes ― sufocou VLX no tanque.
2) VLX encheu-se de brios e escreveu uma posta substancial apelando à jurisprudência para defender a sua dama, o Fóculporto. FNV não se encolheu, agradeceu a dica a disparou uma, duas zarabatanas às jugulares de VLX.
Eu já acho a coisa demais. Penso que é chegada a hora de os morcões libertarem VLX da tortura; façam ao menos uma petição online, caramba. Afinal a época medieval já foi há uns anitos, não é?
“Ser culto es el único modo de ser libre” José MARTÍ (1853-1895)
Não há dúvida nenhuma, que o vocábulo “civilização” se enquadra no elenco de lexema que se opõe a conceitos preexistentes. Donde, de uma forma, um tanto ou quanto, simplista, para que exista a “civilização” devem existir identicamente a “barbárie”, a “selvajaria”. De feito, a história do vocábulo “civilização” mostra que, em conformidade com a sua etimologia, este termo designou originariamente o que podia separar os povos (os “mais evoluídos”) dos demais “outros”.
Aliás, vendo bem, verificamos, que, efectivamente outros vocábulos, designadamente “civilidade” tinham já remetido para esta oposição entre o homem civilizado (que habita a civitas) e o homem selvagem (que habita a silva). Todavia, este vocábulo perdeu o seu valor positivo quando foi suposto representar uma aparência esvaziada de realidade. A mesma sorte esperava o termo “polidez”, contendo a ideia de luzente, liso, sem aspereza. Tinha suplantado “civilidade”, por volta da metade do século XVIII, para exprimir uma educação excelente, a amabilidade, a honestidade, no entanto, foi percebido, em seguida, como a arte de imitar as virtudes. De sublinhar, antes de mais, que o que permitiu ao vocábulo “civilização” livrar-se de idêntico destino e percorrer um longo percurso foi, em primeiro lugar, o sufixo em acção. Este, por um lado, permite à assimilação deste vocábulo aos numerosos neologismos (sendo, neologismo: palavra ou expressão tida como de introdução recente em uma determinada língua), facto que lhe assegura uma difusão imediata. De anotar, por outro, que o sufixo indica uma acção e não uma qualidade adquirida, o que permitiu ao vocábulo “civilização” se identificar com a ideia de uma evolução linear, de um processo transformador.
Não deixa, aliás, de ser curioso, verificar que ideia de progresso, ora enunciada, acima, conheceu gradualmente várias interpretações, por vezes, assaz contraditórias, designadamente: a) A fé revolucionária (leia-se: Revolução Francesa) atribuiu-lhe uma força inesgotável e um valor sagrado. O Positivismo e o Marxismo, por razões distintas e com resultados dissemelhantes, manifestaram confiança idêntica na marcha incessante do Progresso Humano. b) Pelo contrário, os adversários da Revolução negaram-lhe toda a acção de melhoria da Sociedade, acusando a civilização de ter destruído os valores tradicionais da religião e da cavalaria. c) Por seu turno, os da Restauração renovam a sua confiança num incremento indefinido do usufruto, da descoberta e do bem-estar material.
No entanto, a Europa incrementa a sua produção global, se moderniza, se empenha na revolução industrial: entra, deste modo, na era do caminho ferro e do barco à vapor. Todavia, o custo destas conquistas desemboca no advento de um proletariado industrial cujas as condições de vida são horrendas. Eis que, então, ante este ingente problema social, pensadores, tais como CONSTANT, SAINT-SIMON, FOURIER já não podem e nem devem se abster de criticar a civilização encarnada no modelo de sociedade da época. Todavia, as suas críticas não atingem aos próprios fundamentos da ideia de civilização.
E, em jeito de Remate pertinente: Na verdade e, na realidade, as aberrações existentes são interpretadas como incidentes passageiros ao longo de um percurso que atravessa períodos positivos e períodos negativos. E, explicitando, adequadamente: “Il résulte de ceci que ce n’est point la civilisation qu’il faut proscrire et qu’on ne doit ni ne peut l’arrêter. […] Il faut apprécier l’époque où l’on est, voir ce qui est possible, et en secondant le bien partiel qui peut encore se faire, travailler surtout à jeter les bases d’un bien à venir ». In De la religion, da autoria do escritor francês, Benjamim CONSTANT (1767-1830), editada em Paris (1824-1831). Aliás, segundo CONSTANT, os pensamentos elevados e nobres, a moral e a religião contribuirão para lançar estas bases enunciadas. Por sua vez, para o doutrinante socialista francês (outrossim, um observador perspicaz), Charles FOURIER (1772-1837), a questão se prende com uma nova organização do Trabalho que poderá corrigir os danos e prejuízos causados pelo desenvolvimento da Grande Indústria: “Du reste la civilisation occupe en échelle du mouvement un rôle important, car c’est elle qui a créé les ressorts nécessaires pour s’acheminer à l’association ; elle crée la grande industrie, les hautes sciences et les beaux-arts. On devait faire usage de ces moyens pour s’élever plus haut en échelle sociale, ne pas croupir à perpétuité dans cet abîme de misère et de ridicule nommé civilisation, qui avec ses prouesses industrielles et ses torrents de fausses lumières ne sait pas garantir au peuple du travail et du pain ».In Préface de Le Monde industriel de Ch. FOURIER (1829).
Enfim e, em suma : Estes propósitos, por mais críticos que sejam, depõem como testemunha de uma época que vê a burguesia se consolidar e se lançar na aventura colonial. A própria ideia de civilização parece, por conseguinte, coincidir com o desenvolvimento, em força, do capitalismo.
E, em complemento oportuno: Um vocábulo muito próximo da “civilização” é o da “cultura”. Os dois vocábulos pertencem ao mesmo campo semântico, reflectem as mesmas concepções fundamentais. Associados, por vezes, no entanto, não são integralmente equivalentes. De feito, enquanto “civilização” evoca os progressos colectivos, a “cultura”, por seu turno, evoca mais os progressos individuais. Ambos e, por razões idênticas, são conceitos unitários e só se empregam no singular. Do seu sentido original (recente), “civilização” (o vocábulo aparece apenas, no século XVIII), que designa a afinação de costumes, se emancipou rapidamente, com os filósofos reformistas e passa a significar para eles o processo que arranca a Humanidade da ignorância e da irracionalidade. Preconizando esta nova acepção de “civilização”, os pensadores burgueses reformadores, que não se encontram desprovidos de influência política, impõem a sua concepção do governo da sociedade que consoante eles, deve-se apoiar na razão e nos conhecimentos. Deste modo, a civilização é, por conseguinte, definida como um “processus d’amélioration des instituitions, de la législation, de l’éducation”. Ou seja e, de modo mais consequente: A civilização é um movimento que “est loin d’être achevé”, que é necessário manter e apoiar e que afecta a sociedade, no seu todo, principiando pelo Estado, que deve se libertar de tudo quanto for ainda insensato no seu funcionamento. E, rematando avisadamente, a civilização pode e deve se estender a todos os Povos componentes da Humanidade. Finalmente, o uso e utilização respectiva da “cultura” e de “civilização”, no século XVIII, marca, por conseguinte, o advento de uma nova concepção dessacralizada da História. A filosofia (da história) se emancipou da teologia (da história). Eis porque, as ideias optimistas de progresso podem ser consideradas como uma forma de sucedâneo da esperança religiosa. Doravante, o Homem é colocado no centro da reflexão e no centro do Universo.
Lisboa, 26 Março 2010 KWAME KONDÉ (Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo).
A suspeita seria sempre inevitável ― é um ónus a pagar. E há certamente casos (muitos?) em que há razão para suspeita. Mas também os filhos de governantes não podem ficar obrigatoriamente no desemprego por serem quem são.
“Ser culto es el único modo de ser libre” José MARTÍ (1853-1895)
(I)
A história do vocábulo/lexema “Civilização”mostra que o seu papel consistiu, antes de mais, sublinhar a diferença entre os povos mais “evoluídos” e os demais outros. Donde, no âmbito desta perspectiva, a Civilização representa, por conseguinte, as características dos povos que empregam este vocábulo e fazem dele uma teoria. Ou seja: os países da Europa Ocidental que, num contexto colonialista (sendo colonialista o partidário do colonialismo, obviamente), classificaram, deste modo, a sua cultura como superior à dos demais outros.
(II)
Todavia, para além desta atitude comum dos dissemelhantes países europeus, a história deste lexema (e, por conseguinte, do conceito que exprime) esteve estreitamente vinculado à história da Língua e das Ideias de cada país. De feito, nas diversas línguas, o termo “civilização” assumiu tonalidades assaz variegadas, o que torna, demasiado difícil, a sua tradução respectiva.
(III)
Por seu turno, o erudito sociólogo alemão, Norbert ELIAS (1897-1990) descreveu a evolução conducente à modificação da acepção dos termos Kultura e Zivilisation, na sociedade germânica a partir do século XVIII, enquanto regular e concomitantemente, a burguesia assumia o destino da Nação. De feito, na época de FREDERICO II, a separação social que opunha a aristocracia prussiana à burguesia, não permitia à esta se identificar com os valores contidos no vocábulo Zivilisation e expressos pela classe no Poder.
(IV)
Eis porque, a expressão Kultur, elaborada pela classe média, contém, ipso facto, uma visão do Mundo que se opõe ao ideal cortês (da Corte): este ideal de homem delicado e cultivado, que tem para modelo um rei galante e uma Corte magnífica é rejeitado como algo, quão falso e hipócrita pelos intelectuais burgueses: Estes exaltam, em contrapartida, as qualidades de “coeur” e não como natural a distinção entre os homens. O conceito de Kultur se transforma, ulteriormente, ou seja, quando a burguesia germânica apodera-se do poder político ao qual aspira. Deste modo, o conceito em apreço, de carácter peculiar e sui generis inerente à uma camada social, será sentido e experimentado como um carácter nacional.
(V)
Já agora, vale a pena, analisar o que se passou, por exemplo, em Inglaterra, Itália e França, neste âmbito: Em Inglaterra, o termo é confirmado desde o ano de 1722, triunfando (levando a melhor) sobre Civility, porém, no século XIX, um outro vocábulo entra em cena para opor as sociedades modernas às sociedades Primitivas. Estamos a referir ao lexema Cultura. No atinente à Itália, o vetusto vocábulo civiltà, já utilizado pelo Poeta DANTE ALIGHIERI (1265-1321) veda a intrusão de novas aquisições. Finalmente, em França, os estudos conduzidos acerca do advento e a história do vocábulo “civilização” demonstram como se operou uma dupla identidade entre o elóquio acerca da língua e o discurso acerca da civilização, por um lado e entre civilização francesa e civilização universal, por outro. Demais, de sublinhar, que os especialistas estão de acordo, no atinente à data do advento oficial do lexema “civilização”, em França: 1771.
E, rematando assertivamente, se afigura, quão pertinente, e quão interessante observar que desde as suas primeiras utilizações, este vocábulo/lexema revela a sua polissemia. Indica, concomitantemente “[…] um processo de aperfeiçoamento das conexões sociais e dos recursos materiais; […] o conjunto das Instituições e das técnicas” logrados pelos grandes Impérios antes da sua decadência; “[...] a realidade contemporânea com tudo o que comporta de irregularidade e de injustiças”. Enfim e, em suma: Verifica-se, em particular, que designa um processo e o seu respectivo corolário lógico. Demais, deste modo, “civilização” se torna o objecto de uma crítica moral, visando as suas falsas interpretações, que consistem num abrandamento superficial dos costumes sem atingir “le fond et la forme”, consoante a clássica concepção do político francês, Honoré, conde de MIRABEAU (1749-1791).
Lisboa, 24 Março 2010 KWAME KONDÉ (Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo).
“Teme-se” que Obama tenha praticamente inviabilizado a sua possível reeleição ao cumprir a promessa eleitoral da criar nos Estados Unidos um sistema de saúde universal que abranja todos os americanos levando os cuidados de saúde a cerca de 32 milhões de novos beneficiários que deles estavam excluídos pelas seguradoras que eram donas e senhoras da saúde, da bolsa e da vida dos americanos.
Não passou ainda pela cabeça de nenhum dos profetas, opinantes, analistas e demais istas, que finalmente pode ter surgido um político (Barak Hussein Obama) que coloca os interesses do seu povo e do seu país acima das suas ambições pessoais e partidárias.
Concordo que isto é esquisito, é verdade, mas só quem esteja distraído dos discursos de Obama, ou quem os toma por discursos de político normal e obrigatoriamente tacticista e mentiroso, é que pode estar admirado que Obama cumpra uma promessa eleitoral e não se importe com impactes da mesma numa futura eleição presidencial.
Ao contrário do que se faz agora em Portugal, a América universaliza a cobertura do seu Sistema Nacional de Saúde.
Num discurso memorável, após votação favorável da sua proposta no Senado, Barak Obama teve estas palavras que resumem o essencial da questão e só não servem de lição ao PS, a Sócrates e à Direita a que eles pertencem, porque para isso são precisas: cultura, sensibilidade e inteligência acima da média.
«A votação de hoje responde aos anseios de cada americano que desejou profundamente que se fizesse alguma coisa a um sistema de saúde que funcionava para as companhias seguradoras, mas não para o cidadão comum.»
BE: Bloco de Esquerda (Esquerda de Inspiração Trotskysta) PCP: Partido Comunista Português (Comunista) CDS: Centro Democrático Social (Partido Social Democrata) PSD (Entre o Liberalismo, o Neoliberalismo e a confusão) PS (Partido Neoconservador de Direita). .
1) Manter e aprofundar as propostas ultimamente feitas.
2) Propor a redução significativa do número total de deputados à Assembleia da República.
3) Garantir explicitamente aos eleitores que não mente e não os trairá após as eleições fazendo letra morta de qualquer parte do seu programa eleitoral.
Et voilá! Mais simples do que isto não há.
É que está bem à vista que o CDS é neste momento o partido da classe média;
Enquanto o PS é Neoconservador de Direita; E o PSD é coisa nenhuma.
O Partido Comunista e o Bloco de Esquerda são como o algodão ― não enganam. .
Apesar de ser um sportinguista dos mil costados, devo ser um degenerado ― pelo menos na óptica dos fala-barato de cachecol que costumam dizer a despropósito (ou com o propósito da autopromoção) que não viram um jogo porque estavam a «operar um doente àquela hora». Como quem diz: “eu estava a fazer um milagre”. Quando muitas vezes apenas se limitam a ver outros fazerem o trabalho.
Passe o desplante e o atrevimento, mas para colocar as coisas nos seus devidos termos, direi: eu que estou aqui obscurinho e sentadinho, e me sinto como se tivesse nascido ontem e feito ainda nada na vida, já fiz mil e tal “milagres” desses. O que prova que não é milagre nenhum.
Claro que não é bem assim. Mas. Exagerando um bocado ― a coisa é um tanto parecida com o milagre do canalizador que nos resolve um problema de inundação em casa, em que não sabíamos de onde chegava a água e como estancar a torrente destrutiva.
Isto para dizer (também) que ontem torci muito pelo Benfica e fiquei contente que tivesse eliminado o Marselha.
Um primeiro-ministro com maioria absoluta, bem acolitado por um hoje “servidor” de um grupo económico com interesses na área da Saúde, Correia de Campos, hostilizou os médicos, mobilizou para esse combate o apoio de uma população que sempre detestou os médicos, e tomou em mãos a tarefa ingente de «melhorar a saúde dos portugueses» e de «dar melhores cuidados de saúde aos que mais precisam» adoptando medidas que foram debilitando de forma planeada o Serviço Nacional de Saúde, permitindo com isso o surgimento gradual dos hospitais privados que só em teoria servem a todos os portugueses ― servem uma minoria.
Resultado: uma resposta mais que esperada da parte dos médicos ― reformas antecipadas e o abandono em massa do Serviço Público por parte dos mais velhos e dos mais qualificados. Que assim resolveram ― finalmente, diria eu ― ajudar de forma patriótica e politicamente empenhada, José Sócrates e o Partido Socialista a continuarem tão meritório “trabalho” no domínio da Saúde, agora que o PS está em minoria absoluta.
Esse “trabalho” ainda não está completo ― vai ser melhor, isto é, vai ser pior, podem crer! Pior para a população e melhor para os médicos. Pois então!...
Dispensam-se falsas preocupações. Dos portugueses em geral; do seu governo eleito; e do Partido Socialista. O país tem o governo que merece e os Serviços de Saúde que merece.
Apraz-me verificar que os médicos estão tranquilos. Nada de greves; de paralisações; de manifestações; de combates verbais nos média. Nada disso! Acção! Apenas acção.
Com 35 anos de experiência e uma especialidade de que Portugal mais tem falta (Obstetrícia), estou em casa faz hoje 42 dias, de perna traçada (é uma forma de dizer porque tenho passado os dias a ler, a estudar e a blogar).
Apesar de ter feito há dois meses um check-up médico completíssimo que, felizmente para mim, me deu como apto a 100% ― decidi pela reforma antecipada. Já não aguentava constatar, ver desfazer-se em meu redor a capacidade formativa e assistencial do meu e de outros Serviços do hospital onde comecei a trabalhar desde o dia da sua inauguração.
Na altura em que saiu a notícia da corrida às reformas antecipadas em que se disse que 300 médicos pediram a reforma numa só semana, uma Pediatra (outra especialidade com escassez de médicos) me confidenciou ― juro pela minha honra ― «Já meti os papéis para a reforma antecipada, mas ainda não disse nada à Directora do meu Serviço; estou à espera que os papéis dêem entrada na Caixa Geral de Aposentações para só depois a informar porque senão ela ainda era capaz de me obrigar a retirar o pedido».
Este é o ambiente entre os médicos mais experientes nos muitos hospitais (quiçá em todos os hospitais públicos: de Lisboa pelo menos). Falo com médicos, da minha geração, de todos esses hospitais, e sei muito bem o que sentem e pensam. E a solução não passa nem passará pela contratação de médicos aposentados. Muito poucos trocarão a sua posição de aposentados (de pessoa finalmente "livre") por dinheiro; ainda por cima regressando ao Serviço, agora em posição subalterna, com miúdos a mandarem nele.
Assobia-se para o lado e vai-se arranjando desculpas esfarrapadas, não reconhecendo que o que falta nos hospitais é pessoal ― pessoal qualificado e em número suficiente ―. Mas um dia qualquer no futuro, se por acaso os responsáveis do poder não acordarem a tempo para esta realidade, ainda serão capazes de já terem à porta a Maria da Fonte.
Quais são os responsáveis por isto?! São os sucessivos ministros da saúde dos últimos sete oito anos. Mas são sobretudo os Governos que definiram a política de Saúde aplicada por aqueles ministros. Pressionados ou não por interesses económicos instalados. Mas satisfazendo-os claramente.
Quero fazer justiça à actual Ministra da Saúde, Dra. Ana Jorge, Pediatra, que tal como eu trabalhou sempre e apenas no Serviço Público; que quando entrou para o Governo já encontrou a terra quase completamente queimada. Eu sei! Muito tem tentado fazer esta Ministra para evitar a morte do Serviço Nacional de Saúde. Mas ela própria já deve ter consciência que não tem nem terá os apoios necessários para inverter o rumo dos acontecimentos.
É que o problema agora já não é sequer o de qual o Modelo de Saúde para o País; é mais complexo: é mais que o “vamos privatizar a Saúde porque assim prestaremos melhores serviços à população” (o que é uma refinada mentira! E seria ou será um desastre). O problema, quer se trate do sector público ou do sector privado, é já ― e vai passar a ser ainda mais ― um problema de capacidade nacional para; e de qualidade assistencial para; acudir com equidade e universalidade a população deste Portugal onde os mais velhos estão praticamente abandonados à sua sorte. O caso dos doentes oncológicos, por exemplo, é preocupantíssimo ― demasiadas vezes não chega a resposta em tempo oportuno.
É por isso que, quando oiço um político falar em «os que mais precisam» ― francamente! ― O que me apetece é cortar-lhe a língua e dá-la ao gato.
P.S. Este blogue tem sete anos de existência. E nunca eu disse em qualquer posta aqui publicada qual era a minha profissão. Mas hoje senti-me na obrigação de o dizer ― no que é a primeira, e espero que seja a única vez. Porque sei que eu não interesso para nada. O que interessa é a Saúde dos portugueses. E é o que a mim me interessa também. E já agora se me permitem: desde de 1976 que não sou filiado em qualquer partido político. Voto e opino segundo a minha consciência, e mudo às vezes de opinião. Já votei em mais que um partido. Só sou ortodoxo numa coisa: sou adepto do Sporting, sou sportinguista dos mil costados ― «forever», como disse o outro. .