quinta-feira, 13 de maio de 2010

NA peugada de NOVOS RUMOS:

Peça ensaística segunda:

Ser culto es el único modo de ser libre

José MARTÍ (1853-1895)

(4) Não se deve admirar, que o êxito contemporâneo da expressão “sociedade civil” esteja vinculado à forma como ela, deste modo, pode remeter para doutrinas e correntes éticas e políticas distintas. Antes de mais, se antolha oportuno, advertir, que o momento fundador das teorias da sociedade civil corresponde a segunda metade do século XVIII.

Se atribui, geralmente, o interesse para este conceito à “transição da sociedade aristocrática comercial”. De sublinhar, que o desenvolvimento do capitalismo, a escalada, em potência correlativa da burguesia têm por corolário o advento de uma esfera pública autónoma e a génese do Estado nação moderno e do indivíduo cidadão. E, retomando, por motivos óbvios a fórmula de MARX e ENGELS, a sociedade civil, enquanto tal, só se desenvolve com a burguesia.

Enfim, de sublinhar, com ênfase, que com o triunfo do que o influente cientista politico canadiano, CRAWFORD BROUGH MACPHERSON (1911-1987), autor da célebre obra: The Political Theory of possessive Individualism, Hobbes to Locke (1962), (ou seja do que ele denominou de “O individualismo possessivo”), se precisa a ameaça de uma atomização da Sociedade conducente a uma submissão dos seres ao seu interesse particular.

Neste contexto, se vê emergir uma reflexão sobre a possibilidade do advento eventual de uma ordem moral que faça de contrapeso aos riscos até anomia (ausência de organização legal ou natural/anarquia) e a instauração de uma “sociedade de estrangeiros”.

(5) Vale a pena, trazer aqui à colação as ideias enformadoras do quadro traçado e formulado pelo economista e filósofo escocês, Adam SMITH (1723-1790), que aponta para a existência de um eventual universo, onde reina a mão invisível do mercado e que só anima o interesse (evidentemente, dos indivíduos), universo esse que devia ser anulado por uma organização, que permite recuperar valores de civilidade. Donde, a multiplicação de discursos acerca da Sociedade civil que toma por tema a conexão problemática entre Estado e Sociedade, a questão que se prende com o público e, ainda com o papel das associações como lugar alternativo para a realização do bem comum.

Identicamente, a problemática da família (entendida como fundamento da comunidade ética da articulação possível entre esta última e o espaço do mercado livre).

De consignar, que todas estas interrogações formuladas se postam como núcleo central dos grandes textos consagrados à sociedade civil, que alimentarão a reflexão hegeliana, constituindo esta, em determinados aspectos, apenas uma reassunção, no âmbito do movimento dialéctico, que produz o Estado, como ele mesmo, intransponível.

(6) Pode-se questionar com o filósofo francês, Michel FOUCAULT (1926-1984), se um dos textos chaves “para compreender este movimento não constitui um Ensaio sobre a história da Sociedade civil, da autoria do filósofo e historiador escocês, Adam FERGUSON, conhecido, outrossim, como Ferguson of Raith (1723-1816), na medida em que se afigura como o exacto contrapeso das teses do seu contemporâneo”. O que é posto em causa, segundo ele, com a entrada em cena do homo oeconomicus é a concepção, até então dominante da “governamentabilidade” que se exerce, num espaço de soberania habitado por sujeitos jurídicos.

Porém, na monarquia de direito divino, o Soberano obtinha a sua legitimidade de Deus. Aplicava o seu poder aos seus súbitos, em virtude deste direito. Até então, apenas esta dimensão divina lhe permanecia impenetrável. Quando se impôs a figura de sujeito económico, uma enorme transformação se produziu. A arte de governar, até aqui limitada ao domínio jurídico, deveu se desenrolar, num espaço económico. Ora, este último obedece à mão invisível do mercado. Eis porque, neste caso, o soberano se encontra despojado, pois algo escapa à sua influência.

Lisboa, 11 Maio 2010

KWAME KONDÉ

(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo)

.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

NA peugada de NOVOS RUMOS:

Kwame Kondé inicia hoje um novo ciclo de colaboração com este blogue que em parte também é seu.


Estudo Primeiro:

Ser culto es el único modo de ser libre

José MARTÍ (1853-1895)

Acerca da Génese da Sociedade Civil:

Peça ensaística Primeira:

(1) Face às dissemelhantes formas de coerção e de exploração, se vê constituir, movimentos, que visam exprimir as aspirações dos que aparecem como vítimas da globalização, na sua assunção, a mais deletéria.

(2) Face ao establishement, nos elóquios das elites e das instituições, a referência ao conceito de Sociedade Civil é, frequentemente utilizada para denominar o que é, por excelência, da ordem do “não-governamental”.

(3) No entanto, a Sociedade Civil é uma noção relativamente delicada, à qual se associa as redes e as ONG (Organizações não governamentais) que se desfraldam através do Planeta. Deste modo e, no âmbito desta dinâmica e, visando uma melhor reflexão sobre esta percuciente temática, se impõe considerar, algumas questões de ordem genealógica (assaz pertinentes).

a. Em primeiro lugar, tem-se, demasiado, frequentemente tendência a ver na expressão Sociedade Civil, um conceito eminentemente hegeliano. Na verdade, se o autor dos Princípios da Filosofia do Direito popularizou a expressão, ele próprio, a emprestou à uma tradição mais antiga, que remonta ao koimona politiké de Aristóteles (384-322 a C), em latim (Societas civis) e que foi amplamente utilizada, no âmbito da Filosofia Política dos séculos XVII e XVIII, respectivamente.

b. Por sua Vez, o filósofo empirista inglês, Jonh LOCKE (1632-1704), consagra um capítulo inteiro, à esta questão, em análise e estudo, concretamente, no seu Segundo Tratado do Governo civil, onde opõe a sociedade ao Estado de Natureza: ela se submete às leis, marca o triunfo da civilização sobre a “selvajaria”. A acepção que LOCKE outorga à noção, tem, muito a ver com uma sociedade dotada de uma organização Jurídica e Política. Aliás, não é, por um mero acaso, que o filósofo intitula o capítulo VII do seu Tratado: “Da Sociedade Política ou da Sociedade civil”.

c. E, mais geralmente, autores tão dissemelhantes como o filósofo e escritor francês, de origem suíça, Jean-Jacques ROUSSEAU (1712-1778) e o filósofo inglês (o primeiro dos empiristas ingleses), Thomas HOBBES (1588-1679), identicamente, legitimaram a formulação: sociedade civil e sociedade política, pois o que lhes importa é sublinhar a diferença deste “estado civil” em relação ao estado de natureza, que se caracteriza pela ausência de vínculo político.

d. Por seu turno, o filósofo, pensador e político canadiano, Charles TAYLOR (n-1931), ao retraçar a genealogia do conceito moderno de sociedade civil, atribui-lhe uma dupla origem, por um lado, em LOCKE e, por outro, em MONTESQUIEU (o crítico e moralista francês---1695-1755).

e. LOCKE, por sua vez, considera, que a sociedade civil assenta num contrato social inviolável, que precede o Estado. Ela (a Sociedade) é, por conseguinte, assaz independente e, existe, por assim dizer (de algum modo) “para além” dele e pode lutar contra a sua influência e ascendente respectivo. Existe, de feito, uma diferença entre o pacto de união e o pacto de sujeição pelo qual, se aceitam submeter a um poder.

f. Já para MONTESQUIEU, em contrapartida, a sociedade civil não é separável da autoridade política. Nesta perspectiva, o que interessa ao autor De l’esprit des lois (obra de 1748, aliás, a sua grande obra política) é o modo cujo o poder, coluna vertebral da sociedade, se diversifica e gera corpos intermediários, que desempenham o papel de contra-poderes, ou, pelo menos, permitem o exercício do check and balance fundamental para que o estado de direito seja efectivo.

g. De feito, importa sublinhar, que na versão de LOCKE, a sociedade civil seria, por conseguinte, um espaço público susceptível de preservar a sua autonomia em relação ao poder político, enquanto, na versão de MONTESQUIEU, os organismos e as associações, que a constituem prolongam o político, de forma não unívoca, visto que podem ser, outrossim, contestatários como instrumentalizados por este último.

h. Evidentemente, acrescenta TAYLOR, ao longo do tempo, as duas correntes confluíram. Se mesclaram e, eis porque, uma distinção rígida não é defensável. O que é seguro é que se pode, presentemente, ainda interpretar a referência ao conceito, utilizando esta grelha. Ou seja:

i. Por um lado, permite compreender em quê a questão da articulação entre política e sociedade permanece central para pensar o ataviamento do conceito.

ii. Por outro, ajuda a problematizar o carácter, frequentemente ambivalente das organizações, que se reclamam da sociedade civil, quando afirmam a sua independência dos poderes, a sua “não governamentabilização” e, que, em outros contextos, fazem influir todo o seu peso sobre estes poderes.

Lisboa, 10 Maio 2010

KWAME KONDÉ

(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo)

.

domingo, 9 de maio de 2010

PROVOCAÇÕES

Há intelectuais cabo-verdianos de altíssimo coturno (e outros pretensos intelectuais de baixíssimo coturno) que têm convergido numa coisa: aderiram uns, e são simpatizantes outros, de muitas ideias espúrias do movimento Negritude. E teimam a vida toda em transformar Cabo Verde numa terra de negros e de pretos.


Se, parafraseando o outro, andassem por aqui e convivessem com o verdadeiro povão, facilmente mudariam de opinião, pois, como disse uma vez, regra geral, o cabo-verdiano não se considera negro e muito menos “preto”.


Mudando agora de assunto ficando no mesmo.


Um patrão português, racista, aqui radicado, que viveu a maior parte da sua triste vida na África do Sul, num dos seus habituais acessos de desadaptação social e de manifestação das suas já conhecidas qualidades de animal culturalmente inferior, chateado com qualquer coisa feita ou não feita por três dos seus empregados, chamou-os à sua presença e disse-lhes:



«O que vocês fizeram está mal feito. Olhem para mim: sou branco; eu não faria isso assim», e mandou-os regressar ao trabalho.


Um dos rapazes, com o 12º ano, contou-me há pouco o episódio e disse-me:


«Nós, um dia, se calhar, teremos que lhe dar o devido troco em sopapos; por enquanto vamos tentando civilizá-lo mostrando-lhe que deve ser educado e usar outra linguagem para falar com as pessoas; temos-lhe perdoado devido à sua idade e porque sabemos que ele não tem cultura; porque: se conhecesse a história de Cabo Verde saberia que aqui não há pretos, saberia que NÓS SOMOS MESTIÇOS».


Aí cimentei ainda mais a minha convicção de que o cabo-verdiano, qualquer que ele seja, não se considera preto – mas sobretudo confirmei mais uma vez uma outra convicção minha: o cabo-verdiano, na sua terra, não é normalmente violento como se tenta fazer crer em muito lado por este mundo.


Eu e certos intelectuais somos excepções à regra: eles quanto à "pretice"; eu quanto à violência intrínseca.


BOM RESTO DE DOMINGO!

.

ELOCUBRAÇÃO QUINQUAGÉSIMA TERCEIRA:

Ser culto es el único modo de ser libre

José MARTÍ (1853-1895).

Posta Segunda:

1) As situações interculturais na empresa constituem um fenómeno, quão vetusto e assaz prístino, porém a preocupação de as apreender, tendo em conta, precisamente diferenças culturais provém de uma conjunção de evoluções económicas, sociais e científicas recentes. Desde, quatro lustros, as empresas comprometidas, em processos de internacionalização, através das operações de fusões, aquisições, sociedades ou alianças, multiplicaram experiências de colaboração interculrural, que representam tantas oportunidades de encontros das culturas.

2) De consignar, entretanto, que se os “mal-entendidos” se revelam, por vezes, benignos, ameaçam, amiúde, a performance das empresas interessadas e conduzem, nos casos mais graves ao malogro completo de projectos, contudo, promissores de sinergias. Numerosas empresas verificam, por conseguinte, o fracasso de uma política que ignora as diferenças ou que tenta apagá-las pela imposição de um modelo dominante reputado de vocação universal.

3) Com efeito, de sublinhar, que a competitividade procurada exige, não unicamente, judiciosas escolhas estratégicas, identicamente o êxito da cooperação intercultural e a adaptação local de utensílios de gestão necessários para a sua execução. Interrogando-se, acerca de novas práticas de gestão respeitadoras das culturas, as empresas fazem eco aos debates sobre o multiculturalismo que agita as sociedades ocidentais. Efectivamente, vozes aí se elevam para reivindicar o direito das diferenças, se baseando numa releitura do princípio de igualdade. Nesta perspectiva, a igualdade não significa um tratamento rigoroso idêntico, indiferenciado e cego aos modos dos quais os cidadãos diferem entre si, todavia pelo contrário, de um tratamento modelado consoante as especificidades de cada um. Em outros termos, a política de não discriminação requer que as distinções constituem o próprio esteio de um tratamento diferencial, adaptado a cada um, elocubrando, crítica e pedagogicamente, na esteira e peugada do conceituado professor de Filosofia e Ciências Políticas, o canadiano, CHARLES TAYLOR. E, para uma melhor elucidação no atinente à esta problemática, vale a pena, compulsar a sua Obra: “Multiculturalisme: Différence et démocratie (1992/1994).

4) No plano científico, a década de 1980 conhece vários êxitos relevantes, no âmbito da matéria, que se prende com a articução entre as práticas de gestão e as culturas nacionais, designadamente (sem sermos exaustivo), temos a referir:

a. O investigador holandês, o conceituado psicólogo, GEERT HOFSTEDE (n-1928), prossegue um ambiciosíssimo programa de Estudo comparativo (quantitativo), incidindo sobre mais de 50 países. Trata-se de evidenciar (leia-se, outrossim, tornar explícito) o modo como “cada país gere os seus homens”. A investigação, em apreço, desemboca sobre quatro dimensões fundamentais, que permitem caracterizar uma cultura nacional e deduzir, na sequência, as implicações, em termos de práticas de gestão.

b. Por seu turno, em França, o investigador, Philipe d’IRIBARNE (n-1937), director de pesquisa no CNRS, se esteando, numa démarche de inspiração etnográfica, demonstra como os modos dos quais, as empresas se organizam para produzir eficazmente, assentam em concepções da boa maneira de viver em sociedade e que estas concepções são marcadas por tradições dissemelhantes conforme os países. Deste modo, o campo da gestão intercultural, fruto da vontade de melhorar a eficácia económica das empresas multiculturais e da exigência ética pelo respeito pelas diferenças, se estrutura em torno de abordagens fundadoras.

c. Eis porque, não se poderia, contudo, concluir precipitadamente que a gestão intercultural constitui, presentemente uma apelação controlada associada a um domínio de investigação bem definido, assim como em práticas de gestão experimentadas. Pelo contrário, a Gestão intercultural é algo de emergente, surto, ipso facto, sob o signo de animados debates, incidindo bem sobre o que ela “oculta”, precisamente acerca da noção de cultura (em si própria) que sobre os modos pertinentes de gerir a diversidade das culturas.

Finalmente, em jeito de Remate assertivo:

a) Muitas empresas, inclusive, as grandes multinacionais, não implantaram medidas particulares, no desígnio de enfrentar, adequadamente as diferenças culturais que as atravessam. Eis porque, quando as questões, no âmbito da Cultura não são, pura e simplesmente evacuadas, são deixadas a cargo dos indivíduos implicados nas interfaces culturais.

b) A coordenação intercultural releva, então do ajustamento recíproco, interpessoal. Demais, em muitos dos casos, o expatriado, o negociador de um contrato no estrangeiro ou o membro de uma equipa de projecto intercultural é, explicitamente chamado para apresentar provas das suas qualidades de adaptação, tolerância à ambiguidade, abertura de espírito, etc.

c) Sim, efectivamente, no fundo, no fundo, a gestão intercultural constitui assunto (de construção de paciência denodada), de regimes de cooperação apropriados, não unicamente das culturas, em presença, mas também de outros parâmetros do contexto.

d) Enfim, na verdade, tanto os processos de funcionamento adaptados à uma situação intercultural como os próprios meios de definir estes processos estão estreitamente dependentes das situações concretas.

Lisboa, 06 Maio 2010

KWAME KONDÉ

(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo)

.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

ALÔ ALÔ PORTUGAL

ALÔ PORTUGUESES


Os meus amigos têm por aí uma crise do caraças, mas têm vocação comercial e querem ficar ricos?


Então sigam este meu conselho: tragam algum dinheiro ou arranjem crédito bancário; montem o negócio que quiserem em Cabo Verde, vendam e cobrem tudo a 50% do preço aqui praticado pelos cabo-verdianos; vão ver a clientela que terão e como é possível fazer fortuna em pouco tempo.


Mas não esqueçam esta regra de ouro: 50%.


De outro modo não venham porque não vai dar. Para vender caro, temos aqui muita gente.

.

NOTÍCIAS DA TERRA DO FOGO 3

FUNCIONÁRIOS DO ESTADO, UMA CÓPIA COLONIAL

Aqui Em Cabo Verde, onde me encontro agora, a maioria dos funcionários públicos e seus superiores acham que pertencem a um corpo cuja função é reprimir os utentes; faz lembrar a frase uma vez dita por Ferraz da Costa, então presidente da Confederação da Indústria Portuguesa, numa entrevista televisiva: «eles e elas [os funcionários] mal se apanham atrás de um guichet ou dentro de uma farda, metem-se nas suas tamanquinhas e pensam que estão ali para dificultar a vida a quem lhes aparece pela frente».


Como aconteceu em Portugal − e porque Cabo Verde, nisso e noutras coisas, é uma cópia fiel dessa sua mãe povoadora e colonizadora −, vamos ter que esperar ainda algumas décadas até que o pessoal da administração pública e dos diferentes Serviços do Estado e das autarquias se aperceba de que sua função é outra e é essencialmente SERVIR o utente e facilitar-lhe a vida junto das instituições do Estado.


Por enquanto e nesse particular vamos estando neste "Portugalzinho" dos anos 70 e 80 do século passado. Com pelo menos uma vantagem inequívoca: um quilograma de lagosta custa sete a oito euros aqui no Fogo. Convenhamos que nem tudo é mau, não é?!

.

ELOCUBRAÇÃO QUINQUAGÉSIMA SEGUNDA:

Ser culto es el único modo de ser libre

José MARTÍ (1853-1895)

Acerca da Gestão Intercultural:

Um Ponto prévio:

a) O termo “intercultural” é mais, geralmente utilizado em oposição à “multicultural”, não unicamente como pertencendo a meios de origem distintos, outrossim, porém, como exprimindo duas perspectivas distintas:

a. Uma, mais exactamente, descritiva;

b. A outra, mais centrada, na acção.

b) A este propósito, a distinta docente universitária francesa, M. Abdallah-Preitcelle define o Intercultural como uma “construction susceptible de favoriser la compréhension des problèmes sociaux et éductifs, en liaison avec la diversité culturelle”, enquanto o multicultural, conquanto reconheça “la pluralité des groupes”, se preocupando evitar “l’éclatement de l’unité collective”, não possui intenção educativa.

c) Os dois termos se refeririam, por conseguinte, a contextos dissemelhantes. Ou seja: se a migração das populações corresponde a exigências de sobrevivência materiais e existenciais, os factores conducentes a esta planetarização das relações humanas ultrapassam, à larga, as capacidades de controlo, não unicamente dos indivíduos, mas outrossim, dos poderes locais. Eis porque, deste modo, o intercultural se definiria então como uma escolha pragmática face ao multiculturalismo que caracteriza as sociedades contemporâneas. É, precisamente a impossibilidade de manter separados grupos que vivem em contacto constante que acarreta a necessidade de construir modalidades de negociação e de mediação dos espaços comuns.

d) A abordagem intercultural representa, presentemente uma resposta possível ao repto lançado pelos novos cenários sócio-culturais: “L’emploi do mot “intercultural” implique nécessairement, si on attribue au prefixe “inter” sa pleine signification, interaction, échange, élimination des barrières, réciprocité et véritable solidarité. Si au terme “culture” on reconnaît toute sa valeur, cela implique reconnaissance des valeurs, des modes de vie et des représentations symboliques auxquels les êtres humains, tant les individus que les sociétés, se réfèrent dans les relations avec les autres et dans la conception du monde. » In Conseil de l’Europe, L’Interculturalisme : de l’idée à la pratique didactique et de la pratique à la théorie, Strasbourg, 1986.

Sendo, por seu turno, GESTÂO :

Grosso modo: Ciência da técnica de direcção e de gestão da empresa.

E, já agora, Duas pertinentes MARCAS:

1) Com a mundialização, os confrontos das culturas no meio profissional se multiplicam, se tornando necessário, uma abordagem intercultural da Gestão.

2) Por outro, de sublinhar, que a Gestão tem, progressivamente levado em conta a diversidade das culturas o que pressupõe, a necessidade da formulação de um conjunto de formas concretas de organizar o seu encontro no mundo da empresa, que evolui doravante num ambiente multicultural.

POSTA PRIMEIRA:

(I)

O Management Intercultural (leia-se, outrossim, Gestão Intercultural), enquanto conjunto de práticas, diz respeito, em primeiro plano, às empresas internacionais. Ele se edifica na análise das diferenças culturais dos termos que só assume sentido, definindo o conceito de cultura e desenhando áreas culturais que permitem o cotejo das culturas.

Ora, o conceito de Cultura remete para uma gama enorme de sentido. Ou seja:

a) As Ciências Sociais mobilizam o termo, identicamente quando for questão de identidade, de património hereditário, produções artísticas e materiais como símbolos e demais outras representações. Outrossim, analisam e comparam culturas de classe, culturas de empresa, culturas dominantes e contra-culturas, definindo, deste modo, o objecto de estudo das áreas culturais como geometria visível.

b) Identicamente, se restringirmos ao domínio da Antropologia, que fez da Cultura um objecto privilegiado, a noção permanece associada a realidades múltiplas, desde o projecto colonial, até ao ideal de comunicação entre os povos.

(II)

Não há dúvida nenhuma, que nestes derradeiros anos, aparece claramente, que a sensibilidade às questões interculturais dos responsáveis das empresas internacionais e os esforços realizados para as tratar, adequadamente, progridem. O desenvolvimento rápido das formações, no âmbito da gestão intercultural, quer se trate de formação contínua ou inicial, está presente para atestar o facto.

De anotar, todavia, que, no momento actual, os conhecimentos mobilizados e as experiências conseguidas são ainda demasiado escassos para que as práticas tenham atingido à maturidade. Na verdade, se muito dos discursos consideram, a tida em conta das culturas, como um factor de êxito, a utilização deste princípio se resume, amiúde, em se agregar às operações de gestão, que permanecem fundamentalmente idênticas a um verniz intercultural pouco eficaz. Donde e daí, um longo percurso resta a percorrer para que as empresas tomem acto do facto, que as culturas afectam profundamente as representações e coagem a renovações de práticas de Gestão.

(III)

Identicamente, a investigação deve progredir para ajudar as empresas a elaborar modos de gestão adaptados à interculturalidade. Trata-se, em primeiro lugar de estender a análise dos contextos culturais de gestão a novos países. A extensão do campo de estudos permitirá, não unicamente melhorar as práticas em cada lugar, alimentar outrossim as análises comparativas e aperfeiçoar as tipologias de áreas culturais.

Enfim, a investigação em gestão intercultural ganharia em combinar uma variedade de disciplinas e em mobilizar trabalhos conexos. Com efeito, numerosos domínios, designadamente, a Educação, o Trabalho Social ou os Médias estão em conexão estreita com problemáticas interculturais.

(IV)

Primeiramente, a Gestão Intercultural pode ser definido pelas questões às quais tenta trazer respostas:

1) Que dificuldades as diferenças culturais suscitam no âmbito da gestão de empresas e, sobretudo, quais as vias concebíveis e possíveis para ultrapassar estes obstáculos, poder, outrossim, beneficiar da diversidade cultural?

2) Mais precisamente, a gestão intercultural visa, em primeiro lugar, as interacções interculturais em meio laboral, melhorias que se medem pela vara da performance técnica e económica das equipas multiculturais, porém que remetem, outrossim para a experiência subjectiva das pessoas implicadas? Com efeito, a análise de depoimentos de imigrantes e expatriados revela o potencial de frustração, sofrimento até da patologia que encerra a imersão num universo cultural estranho e desconhecido.

3) Eis porque, se pode afirmar, avisadamente que a Gestão Intercultural consiste, por conseguinte, em construir articulações entre portadores de culturas dissemelhantes afim de minimizar as consequências negativas das diferenças para os indivíduos e as empresas e beneficiar dos recursos potenciais que oferece cada cultura.

(V)

A gestão intercultural recorre, identicamente ao estudo e a gestão das transferências internacionais, de ferramentas/utensílios de gestão, onde o choque cultural para ser menos visível não se afirma menos frontal.

De feito, os utensílios de gestão não são, nem neutros, nem universais, porém veiculam uma concepção da organização e do trabalho próprio do contexto cultural, que os viu nascer. Por exemplo:

a) Tal utensílio de controlo de gestão se edifica numa representação específica das conexões hierárquicas e dos papeis de cada um.

b) Mais precisamente: define implicitamente que deve prestar conta a quem, sobre que assunto e com que precisão.

De facto, não há dúvida nenhuma, que por detrás do utensílio técnico se perfila uma concepção da autonomia e da responsabilidade dos utilizadores. Quando estes utensílios impregnados de concepções culturais se encontram a disposição de pessoas oriundas de um outro contexto cultural, um choque cultural, de forma correcta, se realiza, mesmo que não assume a forma de contactos directos entre pessoas. A gestão intercultural se vincula, então às modalidades de execução local, adaptação e apropriação pelos actores destes utensílios importados.

Lisboa, 05 Maio 2010

KWAME KONDÉ

(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo)

.

terça-feira, 4 de maio de 2010

BEM SE ESFORÇA, CARAMBA!

A minha tia Arlete, que lê jornais todos os dias, fez um exercício igualzinho a este, sem tirar nem pôr.

«É o que todos têm dito e escrito nos últimos anos», disse-me ela.

Pois, mas... e coisa e tal... é Doutor e tal...
.

PORTUGUÊS TÉCNICO

Ahhh! Finalmente já se vai descobrindo que o Senhor Doutor “Neologista” está a celebrizar-se no uso da Língua Portuguesa: a cada dia que passa cresce (ou creche?) a sua lista lexical nova, uma espécie de Português Técnico que vai espalhando pela blogosfera e pelos jornais qual discípulo da escola socratista de sucesso meteórico, autopromoção e auto elogio ameaçando o pagode com uma “ministerialização” próxima que seria (pelos vistos, mas sobretudo pelos lidos) uma desgraça inevitável se viesse a acontecer.

Não se imagina sequer um “produto” deste calibre numa pasta ministerial. Mas se hoje se “ameaça” colocar a incompetência mais evidente, roliça e sebosa à frente de um hospital do Estado (depois esclarecerei isto se a coisa se concretizar), porque não admitir que "o passarão” será um dia ministro da piolheira?!

.

domingo, 2 de maio de 2010

NEOLOGIAS E NEOLOGISMOS

Bem, se "módico" como substantivo é neologismo;

será que usar "sobre" em vez de "sob" também o é?

Vicente Jorge Silva uma vez falou da geração rasca; hoje talvez se possa falar da "geração Sócrates": a que perante o erro foge p'rá frente até ao estado de negação. Mas nunca reconhece o erro.

BOM DOMINGO!
.

sábado, 1 de maio de 2010

É TRISTE MAS É ASSIM

Não gostaria de escrever isto, mas sinto-me no dever de o fazer.


Eu sei, eu sei que sendo embora doutorado não o é em Língua Portuguesa (nem sei se há tal doutoramento). Mas Nogueira Leite é doutorado e reincide (estranhamente ou talvez nem por isso), no espaço de uma semana, em erros de Português. Primeiro empregou o adjectivo “módico” como substantivo; e hoje reproduz no blogue outro erro que escreveu no Correio da Manhã:


«Uns e outros não podem determinar o nosso futuro a curto prazo sobre pena da maximização do prejuízo de todos.»


É mais que óbvio que devia ter escrito “sob pena de” e não “sobre” (até porque, e ao contrário do que se costuma dizer, o que está por cima não é igual ao que está por baixo); mas no estado a que chegou a preparação dos políticos, governantes e candidatos a ministros de Portugal, tudo isto é normal e admissível. Mas o pior é que estes tratos de polé à Língua Portuguesa retiram confiança nestes putativos ministeriáveis. Por mais pletóricos, canoros e "canudados" que se apresentem ao cidadão eleitor.

.