segunda-feira, 29 de março de 2010

ELOCUBRAÇÃO QUADRAGÉSIMA:

Ser culto es el único modo de ser libre

José MARTÍ (1853-1895)

(A)

(1) Com efeito, não há dúvida nenhuma, que o Homem é eminentemente um ser de Cultura. O longo processo de hominização principiou, já lá vão, mais ou menos quinze (15) milhões de anos. Consistiu fundamentalmente em passar de uma adaptação genética, no ambiente natural, para uma adaptação cultural.

(2) No decurso desta evolução cujo corolário foi o advento do Homo Sapiens sapiens, o Primeiro Homem, se operou uma colossal regressão dos instintos, “substituídos” progressivamente pela Cultura, isto é, por esta adaptação imaginada e controlada pelo Homem que se revela muito mais funcional que a própria adaptação genética, porquanto muito mais flexível e mais fácil e mais rapidamente transmissível. De feito, a Cultura permite ao Homem, não apenas se adaptar ao seu meio, outrossim, porém, adaptar este à si próprio, às suas reais necessidades e aos seus projectos respectivos, em outras palavras (e, para melhor dizer), a Cultura se torna possível a transformação da Natureza.

(3) Demais, se todas as “populações” humanas possuem o mesmo stock genético, se diferenciam pelas suas escolhas culturais, cada uma, inventando soluções originais para os problemas que se lhes colocam. Todavia, estas diferenças não são irredutíveis umas às outras, visto que, tendo em conta, a unidade genética da Humanidade, representam aplicações de princípios culturais universais, aplicações estas susceptíveis de evoluções e, identicamente de transformações.

(4) Eis porque, no âmbito desta óptica e perspectiva, a Noção de Cultura se assume, por conseguinte, como o utensílio adequado para pôr termo às explicações naturalistas dos comportamentos humanos. A Natureza, no Homem é integralmente interpretada pela Cultura. As diferenças que poderiam parecer, mais vinculadas à propriedades biológicas particulares, como, por exemplo, a diferença dos sexos, não podem elas mesmas, se observar jamais “à l’état brut” (natural), visto que, por assim dizer, a Cultura se apodera disso, imediatamente: a divisão sexual dos papéis e das tarefas nas Sociedades Humanas resulta fundamentalmente da Cultura. E, eis porque, varia de uma sociedade para a outra.

(B)

Os vocábulos possuem uma história. Outrossim, em certa medida, os vocábulos fazem a história. Assim sendo, no atinente a todos os vocábulos, isto se afigura, particularmente verídico, no caso do termo “cultura”. O “ peso dos vocábulos se encontra carregado desta conexão à história, a história que os fez e a história que contribuem para fazer.

Os vocábulos aparecem para responder à determinadas e certas interrogações, à certos e determinados problemas que se colocam em períodos históricos determinados e em contextos sociais e políticos específicos. Donde e daí, denominar é, simultaneamente colocar o problema e já resolvê-lo, de uma certa forma.

A invenção da Noção de Cultura é, em si mesma, reveladora de um aspecto fundamental da Cultura no seio do qual, pôde se fazer esta invenção. Inversamente, é assaz significativo que o vocábulo “cultura” não tenha equivalente na maioria das línguas orais das sociedades, que estudam habitualmente os etnólogos. Isto não implica, evidentemente que estas sociedades não possuem “cultura”, conquanto a elas, não se colocam, a questão de saber se elas possuem ou não uma cultura e ainda, muito menos, de definir a sua própria cultura.

Enfim e, em suma: A evolução de um vocábulo depende, com efeito, de numerosos factores, que não são todos de ordem linguística. A sua herança semântica cria uma certa dependência relativamente ao passado, nos seus usos contemporâneos.

(C)

--- No decurso do século XIX, a adopção de “démarche positive”, no âmbito da reflexão acerca do Homem e da Sociedade desemboca na criação da Sociologia (ciência que se dedica ao estudo dos fenómenos sociais) e da Etnologia (ciência que estuda os povos integrados no contexto dos seus agrupamentos naturalmente constituídos) como disciplinas científicas.

A Etnologia vai tentar outorgar uma resposta à prístina questão que se prende com a definição da Diversidade Humana. Ou seja: como pensar a especificidade humana, no âmbito da diversidade humana.

Importante sublinhar, com ênfase, que os fundadores da Etnologia científica partilham todos um postulado idêntico: o da unidade do Homem, herança da filosofia das Luzes. Para eles, a dificuldade estará, por conseguinte, no pensar a diversidade na unidade.

Todavia, à questão assim colocada eles não entendem que se satisfaça com uma mera resposta biológica. De feito, se reclamam fundadores de uma nova ciência para trazer uma outra explicação à humana diversidade que a da existência de “raças” dissemelhantes. Deste modo, duas (2) vias vão ser exploradas, simultânea e conjuntamente pelos etnólogos:

a) A que privilegia a unidade e minimiza a diversidade, reduzindo-a à uma diversidade “temporária”, segundo um esquema evolucionista;

b) E a que, pelo contrário, outorga toda a sua importância à diversidade, se envidando em demonstrar que não é contraditório com a unidade fundamental da Humanidade.

Eis porque, no âmbito desta dinâmica epistemológica, um conceito vai emergir como utensílio privilegiado para pensar este problema e explorar as dissemelhantes respostas possíveis: Eis nos, então ante o advento, em força do lexema Cultura”, aliás, melhor dito, o vocábulo se encontra a pairar no ar do tempo, porém é utilizado, ordinariamente, tão bem, como isto foi visto em França como na Alemanha, num sentido normativo. De sublinhar, que os fundadores da Etnologia vão lhe outorgar um conteúdo puramente descritivo. Já não se trata para eles, como para os filósofos, de asseverar o que deve ser a “Cultura”, sim, descrever o que ela é, tal como aparece nas Sociedades Humanas.

Todavia, a Etnologia, nos seus inícios não escapará completamente a toda a ambiguidade e não se conformará facilmente com todo juízo de valor, nem de toda implicação ideológica. No entanto, o facto de se tratar de uma disciplina em vias de constituição, que identicamente não podia exercer uma influência determinante no campo intelectual da época, permitiu que a reflexão acerca da questão da cultura escapasse, em grande parte à problemática do debate apaixonado que opunha “cultura” e “civilização” e preservasse uma relativa autonomia epistemológica.

Enfim e, em suma: A introdução do conceito de Cultura far-se-á com um êxito desigual nos dissemelhantes países, onde nasce a Etnologia. E, por outro lado, não haverá entendimento entre as dissemelhantes “escolas” acerca da questão de saber se é necessário utilizar o conceito no singular (a Cultura) ou no plural (as culturas), numa acepção universalista ou particularista.

(D)

Na verdade, se o conceito, ou pelo menos, a ideia de cultura se impõe, a investigação sistemática sobre o funcionamento da cultura, em geral, ou das culturas, em particular não se desenvolve, de modo tão importante em todos os países, onde começa levantar voo a Etnologia. É nos Estados Unidos da América do norte que o conceito recebe o melhor acolhimento e, é no seio da Antropologia norte-americana que vai conhecer o aprofundamento teórico mais notável e relevante. Neste contexto científico particular, a investigação, no âmbito da questão da ou das cultura (s) é veridicamente cumulativa e não conhecerá, ipso facto, o real declínio. Isto é, de tal modo, verídico que falar de Antropologia norte-americana ou de “Antropologia cultural”equivale praticamente o mesmo. A consagração científica da “Cultura” é tal nos Estados Unidos, que o termo foi adoptado rapidamente na sua acepção antropológica por disciplinas afins, designadamente a Psicologia e a Sociologia em particular.

Eis nos, então, ipso facto, ante o triunfo indiscutível do Conceito de Cultura.

(E)

Vale a pena, sublinhar que a Investigação científica jamais se efectiva, completamente independente do contexto no qual se efectua, obviamente. De feito, o contexto nacional americano é assaz específico, comparado com os contextos nacionais europeus. Os Estados Unidos se assumem eles mesmos, desde sempre, como um País de imigrantes de dissemelhantes origens. Nos Estados Unidos, a Imigração, não só, funda como precede outrossim, por conseguinte, a Nação, que, por seu turno, se reconhece Nação pluriétnica.

De feito, o mito nacional norte-americano, consoante o qual a legitimidade da Cidadania está quase vinculada à Imigração – o Americano é um imigrante ou um descendente de imigrantes – está no fundamento de um modelo de integração nacional original que admite a formação de Comunidades étnicas particulares. A pertença do indivíduo à Nação vai, frequentemente, a par com a participação reconhecida à uma comunidade particular. Eis porque, a identidade dos Americanos foi qualificada por alguns de “identidade a traço de união”. Donde, pode-se ser, com efeito, “Ítalo americano”; “Polaco americano”, “Judeu americano”, etc. etc. E, deste modo, resulta, obviamente o que se pôde denominar como um “Federalismo Cultural”, servindo-se da consagrada expressão da autoria da socióloga francesa Dominique SCHNAPPER (n-1934), pois que permite a expressão pública das culturas particulares, que não são, todavia, uma pura e mera reprodução das culturas de origem dos imigrantes, Sim, efectivamente a sua adaptação e a sua reinterpretação respectiva em função do novo Ambiente Social e Nacional. De anotar, entretanto, que o mito americano leva a considerar os Índios (leia-se, os Ameríndios), que não são, por definição, imigrantes e os Negros cuja a imigração forçada, como não sendo Americanos à part entier.

Demais, pelas mesmas razões históricas, a Sociologia norte-americana recente privilegia a recherche sobre o fenómeno da imigração e das relações interétnicas. Os sociólogos da Universidade de Chicago, primeiro centro de ensino e de difusão da Sociologia nos Estados Unidos, colocam no cerne de suas análises a questão dos estrangeiros na cidade, contribuindo, deste modo, para promover um campo de estudo fundamental para as sociedades modernas.Com efeito, o contexto, assaz peculiar e sui generis dos Estados Unidos favoreceu uma interrogação sistemática no atinente às diferenças culturais e, outrossim acerca dos contactos entre as culturas.

Lisboa, 28 Março 2010

KWAME KONDÉ

(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo)

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domingo, 28 de março de 2010

CHISPANDO FOGO...



Apareceu com a auto-estima nos píncaros.

E anunciou a vinda do Espírito Santo em seu nome para lembrar aos infiéis votantes no Senhor dos Passos (Coelho) as palavras do Pai predizendo o Apocalipse.





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PROCURA-SE



POIS...

Aguarda-se com natural expectativa

o seu reaparecimento.





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UNS PÂNDEGOS

A página intitula-se pomposamente “DN Ciência”;
e o artigo tem o título “Erotismo”.

Uns pândegos estes dois! (jornalista e urologista).

BOM DIA!
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sábado, 27 de março de 2010

STILL DEAD

Como já nos habituou em situações anteriores de derrota política, o Abrupto mantém-se mudo e quedo há mais de 24 horas.

Ainda não veio "prestar contas" do apoio a Sócrates no Parlamento, com o seu voto de abstenção, e muito menos saudou a eleição do seu novo chefe partidário.

Deve estar a fabricar umas setinhas esquisitas para oferecer a Passos Coelho.

Aguardemos...
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BLOGAR É FÁCIL

Está enganado se pensa que isto é um chapéu invertido.

Trata-se de uma máquina de blogar. Na parte de cima colocam-se as palavras, carrega-se nos botões para programar o tipo de posta que se quer fazer, espera-se cinco minutos e pode-se então tirar o chapéu com a posta quentinha lá dentro.

Se porventura escolher a opção “posta erudita”, já terá que esperar mais tempo (uns dez minutos), e antes disso terá que carregar em todos os botões ao mesmo tempo. Neste caso a máquina fumega um bocadinho e a espera é maior porque a mistura das palavras é mais complexa.

Mas a posta sairá com suprema erudição: ninguém a conseguirá perceber.
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sexta-feira, 26 de março de 2010

ISTO NÃO É UMA FACA

OU A MISTIFICAÇÃO HABITUAL

«todos [os países da Zona Euro] participarão» na ajuda, incluindo Portugal.»
«Não se trata de ajudar a Grécia a pagar as suas dívidas. Trata-se, isso sim, de dar um sinal claro de que estaremos ao lado da Grécia,».
[José Sócrates à imprensa]

Tradução para Português :
Esta faca não é uma faca. Esta faca não é para matar ninguém como andam a dizer os bota-abaixistas. Cada vez que se enfiar esta faca nas costas do povo o que se faz é provar ao mundo que se sabe manejar uma faca com mestria fazendo com que a alma do povo se eleve até Deus, lhe agradeça as benesses veiculadas pelo Governo e assim se mostre ao povo o caminho da santidade e da bem-aventurança.

Esta faca não é uma faca.

Esta faca é um meio, um instrumento sagrado através do qual o Governo consegue fazer com que o povo conheça Deus e o Paraíso.
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ERA MELHOR GUANTÁNAMO

VLX é do Fóculporto, e FNV é do Benfica. Escrevem no mesmo blogue, Mar Salgado. E cada um defende naturalmente o seu emblema. Divertido é ver como a cada bicada ou tentativa de bicada de VLX, FNV responde com invejável conhecimento histórico e uma saraivada de argumentos no mínimo demolidores.

De cada vez que VLX tenta tirar a cabeça do tanque ― bora lá p’ra debaixo da água, morcão ― FNV volta e enfiar-lha lá dentro com ambas as mãos.

Dois exemplo apenas:

1) VLX escreveu timidamente “BATOTA CONFIRMADA!”, e linkou a frase para aqui. FNV não esteve com contemplações: disparou uma girândola de fogo e ― uma, duas, três vezes ― sufocou VLX no tanque.

2) VLX encheu-se de brios e escreveu uma posta substancial apelando à jurisprudência para defender a sua dama, o Fóculporto. FNV não se encolheu, agradeceu a dica a disparou uma, duas zarabatanas às jugulares de VLX.

Eu já acho a coisa demais. Penso que é chegada a hora de os morcões libertarem VLX da tortura; façam ao menos uma petição online, caramba. Afinal a época medieval já foi há uns anitos, não é?
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ELOCUBRAÇÃO TRIGÉSIMA NONA:

“Ser culto es el único modo de ser libre”
José MARTÍ (1853-1895)

Não há dúvida nenhuma, que o vocábulo “civilização” se enquadra no elenco de lexema que se opõe a conceitos preexistentes. Donde, de uma forma, um tanto ou quanto, simplista, para que exista a “civilização” devem existir identicamente a “barbárie”, a “selvajaria”. De feito, a história do vocábulo “civilização” mostra que, em conformidade com a sua etimologia, este termo designou originariamente o que podia separar os povos (os “mais evoluídos”) dos demais “outros”.

Aliás, vendo bem, verificamos, que, efectivamente outros vocábulos, designadamente “civilidade” tinham já remetido para esta oposição entre o homem civilizado (que habita a civitas) e o homem selvagem (que habita a silva). Todavia, este vocábulo perdeu o seu valor positivo quando foi suposto representar uma aparência esvaziada de realidade. A mesma sorte esperava o termo “polidez”, contendo a ideia de luzente, liso, sem aspereza. Tinha suplantado “civilidade”, por volta da metade do século XVIII, para exprimir uma educação excelente, a amabilidade, a honestidade, no entanto, foi percebido, em seguida, como a arte de imitar as virtudes.
De sublinhar, antes de mais, que o que permitiu ao vocábulo “civilização” livrar-se de idêntico destino e percorrer um longo percurso foi, em primeiro lugar, o sufixo em acção. Este, por um lado, permite à assimilação deste vocábulo aos numerosos neologismos (sendo, neologismo: palavra ou expressão tida como de introdução recente em uma determinada língua), facto que lhe assegura uma difusão imediata.
De anotar, por outro, que o sufixo indica uma acção e não uma qualidade adquirida, o que permitiu ao vocábulo “civilização” se identificar com a ideia de uma evolução linear, de um processo transformador.

Não deixa, aliás, de ser curioso, verificar que ideia de progresso, ora enunciada, acima, conheceu gradualmente várias interpretações, por vezes, assaz contraditórias, designadamente:
a) A fé revolucionária (leia-se: Revolução Francesa) atribuiu-lhe uma força inesgotável e um valor sagrado. O Positivismo e o Marxismo, por razões distintas e com resultados dissemelhantes, manifestaram confiança idêntica na marcha incessante do Progresso Humano.
b) Pelo contrário, os adversários da Revolução negaram-lhe toda a acção de melhoria da Sociedade, acusando a civilização de ter destruído os valores tradicionais da religião e da cavalaria.
c) Por seu turno, os da Restauração renovam a sua confiança num incremento indefinido do usufruto, da descoberta e do bem-estar material.

No entanto, a Europa incrementa a sua produção global, se moderniza, se empenha na revolução industrial: entra, deste modo, na era do caminho ferro e do barco à vapor.
Todavia, o custo destas conquistas desemboca no advento de um proletariado industrial cujas as condições de vida são horrendas.
Eis que, então, ante este ingente problema social, pensadores, tais como CONSTANT, SAINT-SIMON, FOURIER já não podem e nem devem se abster de criticar a civilização encarnada no modelo de sociedade da época. Todavia, as suas críticas não atingem aos próprios fundamentos da ideia de civilização.

E, em jeito de Remate pertinente:
Na verdade e, na realidade, as aberrações existentes são interpretadas como incidentes passageiros ao longo de um percurso que atravessa períodos positivos e períodos negativos. E, explicitando, adequadamente:
“Il résulte de ceci que ce n’est point la civilisation qu’il faut proscrire et qu’on ne doit ni ne peut l’arrêter. […] Il faut apprécier l’époque où l’on est, voir ce qui est possible, et en secondant le bien partiel qui peut encore se faire, travailler surtout à jeter les bases d’un bien à venir ». In De la religion, da autoria do escritor francês, Benjamim CONSTANT (1767-1830), editada em Paris (1824-1831).
Aliás, segundo CONSTANT, os pensamentos elevados e nobres, a moral e a religião contribuirão para lançar estas bases enunciadas.
Por sua vez, para o doutrinante socialista francês (outrossim, um observador perspicaz), Charles FOURIER (1772-1837), a questão se prende com uma nova organização do Trabalho que poderá corrigir os danos e prejuízos causados pelo desenvolvimento da Grande Indústria:
“Du reste la civilisation occupe en échelle du mouvement un rôle important, car c’est elle qui a créé les ressorts nécessaires pour s’acheminer à l’association ; elle crée la grande industrie, les hautes sciences et les beaux-arts. On devait faire usage de ces moyens pour s’élever plus haut en échelle sociale, ne pas croupir à perpétuité dans cet abîme de misère et de ridicule nommé civilisation, qui avec ses prouesses industrielles et ses torrents de fausses lumières ne sait pas garantir au peuple du travail et du pain ».In Préface de Le Monde industriel de Ch. FOURIER (1829).

Enfim e, em suma :
Estes propósitos, por mais críticos que sejam, depõem como testemunha de uma época que vê a burguesia se consolidar e se lançar na aventura colonial. A própria ideia de civilização parece, por conseguinte, coincidir com o desenvolvimento, em força, do capitalismo.

E, em complemento oportuno:
Um vocábulo muito próximo da “civilização” é o da “cultura”. Os dois vocábulos pertencem ao mesmo campo semântico, reflectem as mesmas concepções fundamentais. Associados, por vezes, no entanto, não são integralmente equivalentes. De feito, enquanto “civilização” evoca os progressos colectivos, a “cultura”, por seu turno, evoca mais os progressos individuais. Ambos e, por razões idênticas, são conceitos unitários e só se empregam no singular.
Do seu sentido original (recente), “civilização” (o vocábulo aparece apenas, no século XVIII), que designa a afinação de costumes, se emancipou rapidamente, com os filósofos reformistas e passa a significar para eles o processo que arranca a Humanidade da ignorância e da irracionalidade. Preconizando esta nova acepção de “civilização”, os pensadores burgueses reformadores, que não se encontram desprovidos de influência política, impõem a sua concepção do governo da sociedade que consoante eles, deve-se apoiar na razão e nos conhecimentos.
Deste modo, a civilização é, por conseguinte, definida como um “processus d’amélioration des instituitions, de la législation, de l’éducation”. Ou seja e, de modo mais consequente: A civilização é um movimento que “est loin d’être achevé”, que é necessário manter e apoiar e que afecta a sociedade, no seu todo, principiando pelo Estado, que deve se libertar de tudo quanto for ainda insensato no seu funcionamento. E, rematando avisadamente, a civilização pode e deve se estender a todos os Povos componentes da Humanidade.
Finalmente, o uso e utilização respectiva da “cultura” e de “civilização”, no século XVIII, marca, por conseguinte, o advento de uma nova concepção dessacralizada da História. A filosofia (da história) se emancipou da teologia (da história). Eis porque, as ideias optimistas de progresso podem ser consideradas como uma forma de sucedâneo da esperança religiosa. Doravante, o Homem é colocado no centro da reflexão e no centro do Universo.

Lisboa, 26 Março 2010
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo).
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quinta-feira, 25 de março de 2010

SABIA DISTO?!

Sabia que este número do jornal francês Libération não foi distribuído em Lisboa no passado dia 18 por ter acontecido «uma oportuna falha de impressão»?
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USANDO A MEMÓRIA






Este só foi engavetado depois de sair da presidência do Benfica.







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UM IMBRÓGLIO

A suspeita seria sempre inevitável ― é um ónus a pagar. E há certamente casos (muitos?) em que há razão para suspeita. Mas também os filhos de governantes não podem ficar obrigatoriamente no desemprego por serem quem são.
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ELOCUBRAÇÃO TRIGÉSIMA OITAVA:

Da Civilização:

“Ser culto es el único modo de ser libre”
José MARTÍ (1853-1895)


(I)
A história do vocábulo/lexema “Civilização”mostra que o seu papel consistiu, antes de mais, sublinhar a diferença entre os povos mais “evoluídos” e os demais outros. Donde, no âmbito desta perspectiva, a Civilização representa, por conseguinte, as características dos povos que empregam este vocábulo e fazem dele uma teoria. Ou seja: os países da Europa Ocidental que, num contexto colonialista (sendo colonialista o partidário do colonialismo, obviamente), classificaram, deste modo, a sua cultura como superior à dos demais outros.

(II)
Todavia, para além desta atitude comum dos dissemelhantes países europeus, a história deste lexema (e, por conseguinte, do conceito que exprime) esteve estreitamente vinculado à história da Língua e das Ideias de cada país. De feito, nas diversas línguas, o termo “civilização” assumiu tonalidades assaz variegadas, o que torna, demasiado difícil, a sua tradução respectiva.

(III)
Por seu turno, o erudito sociólogo alemão, Norbert ELIAS (1897-1990) descreveu a evolução conducente à modificação da acepção dos termos Kultura e Zivilisation, na sociedade germânica a partir do século XVIII, enquanto regular e concomitantemente, a burguesia assumia o destino da Nação. De feito, na época de FREDERICO II, a separação social que opunha a aristocracia prussiana à burguesia, não permitia à esta se identificar com os valores contidos no vocábulo Zivilisation e expressos pela classe no Poder.

(IV)
Eis porque, a expressão Kultur, elaborada pela classe média, contém, ipso facto, uma visão do Mundo que se opõe ao ideal cortês (da Corte): este ideal de homem delicado e cultivado, que tem para modelo um rei galante e uma Corte magnífica é rejeitado como algo, quão falso e hipócrita pelos intelectuais burgueses: Estes exaltam, em contrapartida, as qualidades de “coeur” e não como natural a distinção entre os homens. O conceito de Kultur se transforma, ulteriormente, ou seja, quando a burguesia germânica apodera-se do poder político ao qual aspira. Deste modo, o conceito em apreço, de carácter peculiar e sui generis inerente à uma camada social, será sentido e experimentado como um carácter nacional.

(V)
Já agora, vale a pena, analisar o que se passou, por exemplo, em Inglaterra, Itália e França, neste âmbito:
Em Inglaterra, o termo é confirmado desde o ano de 1722, triunfando (levando a melhor) sobre Civility, porém, no século XIX, um outro vocábulo entra em cena para opor as sociedades modernas às sociedades Primitivas. Estamos a referir ao lexema Cultura.
No atinente à Itália, o vetusto vocábulo civiltà, já utilizado pelo Poeta DANTE ALIGHIERI (1265-1321) veda a intrusão de novas aquisições.
Finalmente, em França, os estudos conduzidos acerca do advento e a história do vocábulo “civilização” demonstram como se operou uma dupla identidade entre o elóquio acerca da língua e o discurso acerca da civilização, por um lado e entre civilização francesa e civilização universal, por outro. Demais, de sublinhar, que os especialistas estão de acordo, no atinente à data do advento oficial do lexema “civilização”, em França: 1771.

E, rematando assertivamente, se afigura, quão pertinente, e quão interessante observar que desde as suas primeiras utilizações, este vocábulo/lexema revela a sua polissemia. Indica, concomitantemente “[…] um processo de aperfeiçoamento das conexões sociais e dos recursos materiais; […] o conjunto das Instituições e das técnicas” logrados pelos grandes Impérios antes da sua decadência; “[...] a realidade contemporânea com tudo o que comporta de irregularidade e de injustiças”.
Enfim e, em suma: Verifica-se, em particular, que designa um processo e o seu respectivo corolário lógico. Demais, deste modo, “civilização” se torna o objecto de uma crítica moral, visando as suas falsas interpretações, que consistem num abrandamento superficial dos costumes sem atingir “le fond et la forme”, consoante a clássica concepção do político francês, Honoré, conde de MIRABEAU (1749-1791).

Lisboa, 24 Março 2010
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo).
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quarta-feira, 24 de março de 2010

«DÁ-ME O TELEMÓVEL JÁ!»

VERSÃO AMERICANA


Coitadinha da aluna!...
A Associação Portuguesa de Pais,
com o apoio da Assembleia da República,
vai enviar um protesto a Obama.
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terça-feira, 23 de março de 2010

HABITUEM-SE

OBAMA É MESMO DIFERENTE

“Teme-se” que Obama tenha praticamente inviabilizado a sua possível reeleição ao cumprir a promessa eleitoral da criar nos Estados Unidos um sistema de saúde universal que abranja todos os americanos levando os cuidados de saúde a cerca de 32 milhões de novos beneficiários que deles estavam excluídos pelas seguradoras que eram donas e senhoras da saúde, da bolsa e da vida dos americanos.

Não passou ainda pela cabeça de nenhum dos profetas, opinantes, analistas e demais istas, que finalmente pode ter surgido um político (Barak Hussein Obama) que coloca os interesses do seu povo e do seu país acima das suas ambições pessoais e partidárias.

Concordo que isto é esquisito, é verdade, mas só quem esteja distraído dos discursos de Obama, ou quem os toma por discursos de político normal e obrigatoriamente tacticista e mentiroso, é que pode estar admirado que Obama cumpra uma promessa eleitoral e não se importe com impactes da mesma numa futura eleição presidencial.

Habituem-se!...
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GRANDE DICA

segunda-feira, 22 de março de 2010

ESTÚPIDOS

Ao contrário do que se faz agora em Portugal, a América universaliza a cobertura do seu Sistema Nacional de Saúde.

Num discurso memorável, após votação favorável da sua proposta no Senado, Barak Obama teve estas palavras que resumem o essencial da questão e só não servem de lição ao PS, a Sócrates e à Direita a que eles pertencem, porque para isso são precisas: cultura, sensibilidade e inteligência acima da média.




«A votação de hoje responde aos anseios de cada americano
que desejou profundamente que se fizesse alguma coisa
a um sistema de saúde
que funcionava para as companhias seguradoras,
mas não para o cidadão comum.»

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sábado, 20 de março de 2010

ACTUALIDADES

EIS O ESPECTRO POLÍTICO PORTUGUÊS ACTUAL

Da esquerda para a direita:

BEPCPCDSPSDPS

BE: Bloco de Esquerda (Esquerda de Inspiração Trotskysta)
PCP: Partido Comunista Português (Comunista)
CDS: Centro Democrático Social (Partido Social Democrata)
PSD (Entre o Liberalismo, o Neoliberalismo e a confusão)
PS (Partido Neoconservador de Direita).
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3 CONDIÇÕES PARA VOTAR CDS

1) Manter e aprofundar as propostas ultimamente feitas.

2) Propor a redução significativa do número total de deputados à Assembleia da República.

3) Garantir explicitamente aos eleitores que não mente e não os trairá após as eleições fazendo letra morta de qualquer parte do seu programa eleitoral.

Et voilá! Mais simples do que isto não há.

É que está bem à vista que o CDS é neste momento o partido da classe média;

Enquanto o PS é Neoconservador de Direita; E o PSD é coisa nenhuma.

O Partido Comunista e o Bloco de Esquerda são como o algodão ― não enganam.
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O GRUNHO

Em estalando o verniz, surge lá de dentro o grunho que existe em cada um de nós.

Este de há muito que vivia com o grunho de fora.

Outros nunca conseguiram sequer disfarçar o seu grunho.

E outros ainda, de tão grunhos, nem sabem sequer que o são.
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E AGORA PSD?





Ferreira Leite espera que o próximo líder do PSD

«não seja escolhido pelo aspecto físico».





BOM DIIIA!

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sexta-feira, 19 de março de 2010

SEM DÚVIDA NENHUMA

Tudo melhorou ao longo destes últimos anos.

E no futuro, então...
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BENFIQUISTA POR HORA E MEIA

Apesar de ser um sportinguista dos mil costados, devo ser um degenerado ― pelo menos na óptica dos fala-barato de cachecol que costumam dizer a despropósito (ou com o propósito da autopromoção) que não viram um jogo porque estavam a «operar um doente àquela hora». Como quem diz: “eu estava a fazer um milagre”. Quando muitas vezes apenas se limitam a ver outros fazerem o trabalho.

Passe o desplante e o atrevimento, mas para colocar as coisas nos seus devidos termos, direi: eu que estou aqui obscurinho e sentadinho, e me sinto como se tivesse nascido ontem e feito ainda nada na vida, já fiz mil e tal “milagres” desses. O que prova que não é milagre nenhum.

Claro que não é bem assim. Mas. Exagerando um bocado ― a coisa é um tanto parecida com o milagre do canalizador que nos resolve um problema de inundação em casa, em que não sabíamos de onde chegava a água e como estancar a torrente destrutiva.

Isto para dizer (também) que ontem torci muito pelo Benfica e fiquei contente que tivesse eliminado o Marselha.

E viva o Sporting!
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JOSÉ ADELINO MALTEZ

Com humor e com classe. Como é normal e natural nos espíritos cultos e livres.

Sim! Livres!

Porque há espíritos cultos vendidos. Há-os comprados; lambe-botas, papistas, etc.

E há-os ainda açaimados.

Adenda (20/03/2010, 02:16 PM). Atenção! Nada de confusões. Eu só falei de "espíritos cultos".
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SOBRE O “CASAMENTO” LARILAS

Na minha besteira, desde o início me pareceu que isto se nos mete pelos olhos adentro. Mas ainda bem que Freitas do Amaral vem agora dizer, com a autoridade que se lhe reconhece, que a Constituição Portuguesa acolhe o bom senso.
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quinta-feira, 18 de março de 2010

PERFEITO

Um primeiro-ministro com maioria absoluta, bem acolitado por um hoje “servidor” de um grupo económico com interesses na área da Saúde, Correia de Campos, hostilizou os médicos, mobilizou para esse combate o apoio de uma população que sempre detestou os médicos, e tomou em mãos a tarefa ingente de «melhorar a saúde dos portugueses» e de «dar melhores cuidados de saúde aos que mais precisam» adoptando medidas que foram debilitando de forma planeada o Serviço Nacional de Saúde, permitindo com isso o surgimento gradual dos hospitais privados que só em teoria servem a todos os portugueses ― servem uma minoria.

Resultado: uma resposta mais que esperada da parte dos médicos ― reformas antecipadas e o abandono em massa do Serviço Público por parte dos mais velhos e dos mais qualificados. Que assim resolveram ― finalmente, diria eu ― ajudar de forma patriótica e politicamente empenhada, José Sócrates e o Partido Socialista a continuarem tão meritório “trabalho” no domínio da Saúde, agora que o PS está em minoria absoluta.

Esse “trabalho” ainda não está completo ― vai ser melhor, isto é, vai ser pior, podem crer! Pior para a população e melhor para os médicos. Pois então!...

Dispensam-se falsas preocupações. Dos portugueses em geral; do seu governo eleito; e do Partido Socialista. O país tem o governo que merece e os Serviços de Saúde que merece.

Apraz-me verificar que os médicos estão tranquilos. Nada de greves; de paralisações; de manifestações; de combates verbais nos média. Nada disso! Acção! Apenas acção.

Há sempre um hospital perto de cada médico.
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quarta-feira, 17 de março de 2010

domingo, 14 de março de 2010

APOSENTADO POR DESCRENÇA (EU!)

35 ANOS DE EXPERIÊNCIA
P’RÓ CAIXOTE DO LIXO


Com 35 anos de experiência e uma especialidade de que Portugal mais tem falta (Obstetrícia), estou em casa faz hoje 42 dias, de perna traçada (é uma forma de dizer porque tenho passado os dias a ler, a estudar e a blogar).

Apesar de ter feito há dois meses um check-up médico completíssimo que, felizmente para mim, me deu como apto a 100% ― decidi pela reforma antecipada. Já não aguentava constatar, ver desfazer-se em meu redor a capacidade formativa e assistencial do meu e de outros Serviços do hospital onde comecei a trabalhar desde o dia da sua inauguração.

Na altura em que saiu a notícia da corrida às reformas antecipadas em que se disse que 300 médicos pediram a reforma numa só semana, uma Pediatra (outra especialidade com escassez de médicos) me confidenciou ― juro pela minha honra ― «Já meti os papéis para a reforma antecipada, mas ainda não disse nada à Directora do meu Serviço; estou à espera que os papéis dêem entrada na Caixa Geral de Aposentações para só depois a informar porque senão ela ainda era capaz de me obrigar a retirar o pedido».

Este é o ambiente entre os médicos mais experientes nos muitos hospitais (quiçá em todos os hospitais públicos: de Lisboa pelo menos). Falo com médicos, da minha geração, de todos esses hospitais, e sei muito bem o que sentem e pensam. E a solução não passa nem passará pela contratação de médicos aposentados. Muito poucos trocarão a sua posição de aposentados (de pessoa finalmente "livre") por dinheiro; ainda por cima regressando ao Serviço, agora em posição subalterna, com miúdos a mandarem nele.

Assobia-se para o lado e vai-se arranjando desculpas esfarrapadas, não reconhecendo que o que falta nos hospitais é pessoal ― pessoal qualificado e em número suficiente ―. Mas um dia qualquer no futuro, se por acaso os responsáveis do poder não acordarem a tempo para esta realidade, ainda serão capazes de já terem à porta a Maria da Fonte.

Quais são os responsáveis por isto?! São os sucessivos ministros da saúde dos últimos sete oito anos. Mas são sobretudo os Governos que definiram a política de Saúde aplicada por aqueles ministros. Pressionados ou não por interesses económicos instalados. Mas satisfazendo-os claramente.

Quero fazer justiça à actual Ministra da Saúde, Dra. Ana Jorge, Pediatra, que tal como eu trabalhou sempre e apenas no Serviço Público; que quando entrou para o Governo já encontrou a terra quase completamente queimada. Eu sei! Muito tem tentado fazer esta Ministra para evitar a morte do Serviço Nacional de Saúde. Mas ela própria já deve ter consciência que não tem nem terá os apoios necessários para inverter o rumo dos acontecimentos.

É que o problema agora já não é sequer o de qual o Modelo de Saúde para o País; é mais complexo: é mais que o “vamos privatizar a Saúde porque assim prestaremos melhores serviços à população” (o que é uma refinada mentira! E seria ou será um desastre). O problema, quer se trate do sector público ou do sector privado, é já ― e vai passar a ser ainda mais ― um problema de capacidade nacional para; e de qualidade assistencial para; acudir com equidade e universalidade a população deste Portugal onde os mais velhos estão praticamente abandonados à sua sorte. O caso dos doentes oncológicos, por exemplo, é preocupantíssimo ― demasiadas vezes não chega a resposta em tempo oportuno.

É por isso que, quando oiço um político falar em «os que mais precisam» ― francamente! ― O que me apetece é cortar-lhe a língua e dá-la ao gato.

P.S. Este blogue tem sete anos de existência. E nunca eu disse em qualquer posta aqui publicada qual era a minha profissão. Mas hoje senti-me na obrigação de o dizer ― no que é a primeira, e espero que seja a única vez. Porque sei que eu não interesso para nada. O que interessa é a Saúde dos portugueses. E é o que a mim me interessa também.
E já agora se me permitem: desde de 1976 que não sou filiado em qualquer partido político. Voto e opino segundo a minha consciência, e mudo às vezes de opinião. Já votei em mais que um partido. Só sou ortodoxo numa coisa:
sou adepto do Sporting, sou sportinguista dos mil costados «forever», como disse o outro.
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É LADY GAGA



BOM DIA!
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sexta-feira, 12 de março de 2010

E O DESBOCADO SOU EU?!...

Em “pequenadas” de ontem e de hoje (dias 11 e 12) João Gonçalves deu numa de vituperar a triste vida da “piolheira” desancando os piolheiros com «encornações», «felatios», «pão-de-ló» e arremessos de «baldes de merda», coroando o discurso com «puta que os pariu» para todos.

E eu que me julgava um malcriadão da silva!...

Vejam lá a minha ingenuidade!
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«MENINO» ME CONFESSO

Pois confesso que não sabia disto.

Sendo assim, então Lula da Silva já estava moralmente corrompido mesmo antes de chegar ao poder.
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quinta-feira, 11 de março de 2010

ABERRAÇÃO SEM NOME

LULA “LEGITIMA” TODAS AS DITADURAS

Diz que a ditadura cubana «age segundo a legislação cubana». Sim, é verdade; mas age segundo leis próprias criadas em gabinetes e não sujeitas a sufrágio; não é segundo legislação aceite e votada livremente pelos eleitores.

Felizmente que essa frase que bem podia ser dita por qualquer vegetal da selva amazónica não legitima coisa nenhuma. Nada. Apenas ridiculariza e ofende o povo cubano e o povo brasileiro. E todas as consciências livres deste planeta.

Ferreira Fernandes, no DN, faz a crónica sobre o caso escrevendo:

«Há homens que estão presos em Cuba por causa das suas opiniões. Não estão presos ilegalmente, a Justiça cubana permite presos de opinião. Mas isso só significa que, em Cuba, mesmo o errado pode ser legal. Em entrevista, Lula disse: "Temos que respeitar a determinação da Justiça e do Governo cubano de deter pessoas segundo a legislação cubana."»[...]
[...] «"A greve de fome não pode ser utilizada como um pretexto de direitos humanos para liberar as pessoas. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade."»

Jornais brasileiros deploraram as palavras do seu presidente (sim, com letra minúscula) titulando O GLobo a notícia assim:

«Lula compara dissidente cubano a bandidos em São Paulo

Leia mais aqui também na Folha de S. Paulo.

Lula é hoje um homem poderoso na América Latina, mas não passa de um simplório. Lembremo-nos daquela sua frase: «Minha mãe quando nasceu era analfabeta». Pois, e Lula não está longe dessa curiosa herança quando se fala de direitos humanos. Dá pena ver o antigo sindicalista moralmente corrompido pelo poder.
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ELOCUBRAÇÃO TRIGÉSIMA SÉTIMA:

“Ser culto es el único modo de ser libre”.
José MARTÍ (1853-1895)

Acerca da etimologia do
Vocábulo Eutanasia:

1) Actualmente, se concorda, em peral, que o termo “eutanásia”, na sua definição primordial, mais clássica, ipso facto, designa a morte provocada por um terceiro para pôr fim a sofrimentos reputados como insuportáveis. Todavia, o vocábulo continua induzindo malentendidos enormes.

2) Na verdade, construído com duas (2) raízes gregas: “eutanásia”, etimologicamente, significa “boa morte” e, a ele (somente), este lexema não pressagia em nada os meios que uns ou os outros propõem para conseguir o desiderato proposto.

3) E, já agora, o Dicionário HOUAISS da Língua Portuguesa, no seu tomo IX (2005), nos elucida acerca do vocábulo, em apreço e análise respectiva, o seguinte:
Etimologicamente: oriundo do grego (euthanasia: morte sem sofrimento) e do latim (euthanasia: morte sem sofrimento);
Medicamente: Acto de proporcionar morte sem sofrimento a um doente atingido por afecção incurável que produz dores intoleráveis.

4) Donde, enfim e, em suma: o vocábulo “eutanásia”, substantivo feminino, oriundo do grego (eu: bem e thanatus: morte) se assume, não só, como: “morte sem sofrimento”, como outrossim “teoria segundo a qual é lícito abreviar a vida de um enfermo incurável para o poupar dos sofrimentos”, in (LAROUSSE de la langue française, 2002.


5) Na Grécia Antiga, a “eutanásia” designou, deste modo, a possibilidade de uma morte “boa” e sem perda de dignidade. Ao longo dos séculos, a denominação foi sendo impregnada de significações várias (possíveis, obviamente) e revestir-se de matizes dissemelhantes.


6) Abreviar a vida de um enfermo que sofre de doença incurável, ou não, é considerado homicídio (leia-se, homicídio a pedido da “vítima”), quer pelas leis humanas, quer pelas leis religiosas. Os partidários da eutanásia, argumentam que é desumano deixar viver seres que sofram de taras, estando, ipso facto, condenados a uma existência vegetativa, indivíduos que sofrem de uma degenerescência física e intelectual ou enfermos incuráveis condenados a uma agonia atroz. Apreciariam, deste modo, que o Médico, a pedido do enfermo ou dos seus familiares respectivos, fosse autorizado a praticá-la. Em contrapartida, os que se opõem à legitimação desta prática objectam, alegando que a vida é sagrada e que ninguém tem o direito de a fazer terminar. Finalmente, por seu turno, para os crentes em Deus, só Este é juiz da utilidade do sofrimento.


7) Complementarmente, se nos afigura, pertinente, consignar, que ocasionalmente, demais outras acepções são outorgadas ao vocábulo “Eutanásia”:

Recusar, no caso de enfermidade incurável, o encarniçamento terapêutico, definido como o uso de Biotecnologias que prolongam uma vida física e moralmente muito inconfortável, sem nenhuma hipótese de curar.
Numa enfermidade incurável, reduzir as dores com um sedativo tão forte susceptível de encurtar a vida.
“Fazer morrer” uma pessoa definitivamente deficiente física ou mentalmente, julgando que a sua vida é “desinteressante” para ela, ou melhor, para responder a preocupações colectivas de eugenismo, selecção ou economia de meios.
Enfim e, em suma: É deste modo, que o lexema “eutanásia” é utilizável em acepções dissemelhantes que podem esconder intenções não declaradas. Eis porque, no âmbito desta dinâmica, surge como portador de confusões e malentendidos, por pouco, que se assume a precaução de o definir, de modo preciso, em cada caso (em particular), obviamente.

OOO
Acontece se, em determinadas circunstâncias, agregarmos um adjectivo ao termo “eutanásia”, lhe outorgarmos um sentido particular. Estamos ante a classificação que distingue: Uma Eutanásia activa e
Uma Eutanásia passiva.

Vejamos, em concreto, o que significam estas duas expressões:
a) A eutanásia activa já não assume, presentemente o sentido que lhe outorgava a recomendação da autoria do estadista e filósofo inglês, Francis BACON (1561-1626): dom activo e contínuo de todas as formas possíveis de alívios médicos, psicológicos, afectivos e espirituais até que venha a morte. Esta descrição corresponde, actualmente aos cuidados paliativos, que foram propostos e desenvolvidos, desde trinta anos (30), aproximadamente e, que excluem a denominação, presentemente de morte para aliviar o enfermo, obstinação terapêutica.

b) Pelo contrário, de consignar, que a eutanásia activa se verifica quando se administra um produto tóxico, susceptível de acarretar a morte em alguns minutos. E se designa, outrossim de eutanásia directa. Evidentemente, existe, neste caso, um sentido novo, completamente dissemelhante do primeiro pela intenção, por acção farmacológica e pelo prazo da vinda inopinada da morte.

c) De anotar, caso se refere à esta segunda acepção, é necessário ainda distinguir variantes à esta morte, consoante é “dada” com ou sem solicitação explícita do próprio enfermo. Numa linguagem, assaz trivial, fala-se, presentemente, algumas vezes, de eutanásia voluntária. Ainda, seria necessário precisar se a intenção mortífera é da responsabilidade do enfermo que explicitou anteriormente, ou se a intenção foi apenas do médico. Neste caso, existe um risco severo de confusão.

d) Enfim, se afigura pertinente, recusar inteiramente o termo de “eutanásia”, no caso de uma morte que sobrevém, na sequência da administração de um medicamento de alívio sem que o médico a tenha desejado, visto se tratar de uma morte acidental.


E, no atinente, à Eutanásia passiva designava, num primeiro tempo, o facto de deixar se conduzir para a morte um enfermo ao abandono, sem o aliviar, nem o ajudar, o que criticava Francis BACON. Todavia, o sentido resvalou e a “eutanásia” passou-se a designar, presentemente, a abstenção de todos os cuidados vitais com a intenção deliberada de encurtar a vida. Trata-se do que alguns denominam “eutanásia indirecta”.
Donde temos, no âmbito desta dinâmica:
--- Que os adjectivos agregados ao vocábulo “eutanásia” podem criar um imbróglio mais complexo que o uso unicamente do substantivo. Acontece que já não se saiba quem fez quê, quando, porquê, nem como. Donde, de anotar: Na verdade, a declaração de intenção de uns e dos outros brilha pela sua ausência!
--- O que é facto é que as discussões fora do meio médico, longe de todo o conhecimento exacto acerca da natureza da enfermidade e o seu estado de progressão, são particularmente confusas ou inexistentes.
--- Assim, se impõe, dissipar os malentendidos e as confusões. A precisão é indispensável, num domínio tão sério como o fim de vida, dos cuidados paliativos e do acompanhamento ou da morte outorgada para aliviar.
Demais, só se devia conservar o lexema “eutanásia”, no seu sentido etimológico, em geral, para indicar a procura de uma atenuação dos sofrimentos que afectam o fim de vida. Eis porque, deste modo, o vocábulo “eutanásia” não é apropriado para designar o fim de vida que preconiza, em particular, a do de “homicídio para aliviar”, a não ser, que se pretenda, que a morte preconizada pelo médico não seja forçosamente a “boa morte”.

Finalmente, se nos afigura, assaz útil, recordar a definição de alguns vocábulos de uso corrente, designadamente:
a) O homicídio é a acção de matar um ser humano sem conjecturar acerca das intenções e das circunstâncias respectivas, sendo o qualificativo agregado que o especifica: homicídio voluntário ou involuntário; homicídio por imprudência, por negligência, por incompetência, por interesse, por paixão, por piedade (ou por compaixão).
b) Matar é fazer morrer de morte rápida.
c) O assassínio é um homicídio voluntário.
d) O assassinato é um homicídio voluntário e premeditado. É nos factos que o caso interessa. Trata-se de uma morte outorgada por um médico, visando aliviar.
No fundo, no fundo, o essencial pressupõe aclarar o seguinte:
--- Quem tem a intenção de dar a morte?
--- Por quem a solicitação é formulada?
--- E quem põe a ideia em acção?

Lisboa, 08 Março 2010
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo).
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segunda-feira, 8 de março de 2010

O FUTURO PREVISTO

GOVERNO APRESENTOU P.E.C.

PROGRAMA DE ESTABILIDADE E CRESCIMENTO

A única coisa que vai melhorar são os números.
Também é o que interessa, não é?
Pessoas!?... O que é isso? Pessoas?!... PFFFFFFFF...
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domingo, 7 de março de 2010

REFORMAS ANTECIPADAS 1

À Senhora Ministra e sobre esta notícia, eu disse a frase popular: “Tarde Piaste”.

A JPP e sobre esta posta, direi esta outra frase popular: “Nunca é Tarde”.

Mas só agora, Dr. Pacheco! Olhe, o Senhor é deputado ― e que tal uma intervenção na Assembleia da República sobre este problema?! É que se na área da Saúde me parece que pouco ou nada de bom já se pode fazer no actual quadro partidário e regime político, já nas outras áreas também importantes que o Senhor aborda, ainda haverá tempo de arrepiar caminho.

O Senhor escreveu ontem na revista Sábado e hoje no seu blogue: «No caso dos professores, desertificou-se as escolas dos mais experientes, e noutros casos, como por exemplo, na Polícia Judiciária, decapitou-se áreas de combate à criminalidade em que não abunda gente sabedora e testada por muitos anos de acção.»

São casos graves, sem dúvida; mas reafirmo-lhe: o caso da Saúde não é grave, é gravíssimo: qual seja a reforma antecipada de médicos e enfermeiros. Não tenha relutância em falar nisso e até levá-lo ao Parlamento pois prometo não me aproveitar do facto para me armar em laureado e escrever que o Senhor ter-se-á finalmente interessado sobre o que eu venho denunciando há muitos anos aqui na blogosfera e por onde tenho falado ― a desertificação PLANEADA dos Hospitais Públicos.

Este problema das reformas antecipadas na Saúde não é mais que um aspecto derivado desse PLANEAMENTO, pode crer. E atendo só ao problema “reformas antecipadas”, falo nele há pelo menos dois anos e tal. Mas prometo ficar calado se o Senhor levar o assunto ao Parlamento.

E como nunca é tarde... Avance se faz o favor!

Desde já os meus agradecimentos.
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RETRATO ROBÔ

O SPORTING C. P. APRESENTA

O PRIMEIRO CANCRO REMUNERADO DO MUNDO

José Eduardo Bettencourt

Apesar de tudo, BOM DIA!
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sábado, 6 de março de 2010

«CONTROLO DA MEMÓRIA»

Um artigo longo, da autoria de Humberto Cardoso, no jornal A Semana, de Cabo Verde.

Publicamo-lo na íntegra pelo seu interesse e actualidade; mas também por espelhar de forma cristalina a liberdade de expressão e de opinião num país com apenas 35 anos de existência, Cabo Verde, onde, felizmente, a sociedade vive em democracia e em liberdade.

Obsessão pelo controlo da memória.

Em 1986, o jornal governamental, o Voz di Povo proclamou em manchete: “Aos 50 anos Claridade entra oficialmente na História de Cabo Verde”. O regime de partido único finalmente tinha decidido integrar na historiografia oficial o Movimento Claridoso de Baltasar Lopes da Silva, Manuel Lopes, Jorge Barbosa e António Aurélio Gonçalves. Ao fim de dez anos o regime já se sentia suficientemente seguro para cooptar, na sua versão da história das Ilhas, essas personalidades e as suas contribuições fundamentais para a afirmação da caboverdianidade.

Aristides Pereira, o então Presidente da República, discursando no Simpósio Claridade, mostrou como as coisas deviam ser vistas: “o Movimento Claridoso encontra as suas raízes num terreno laborado por uma plêiade sucessiva de homens de cultura, que vinha pugnando pela afirmação da caboverdianidade, (...) cuja obra se deve apreciar e acarinhar até chegar a Amilcar Cabral (..). A lenta mas segura gestação do nacionalismo caboverdiano”Dessa e de outras muitas declarações similares fica claro que, para o Regime, o ponto de confluência da história do País é Amilcar Cabral e, por extensão, o PAIGC e o PAICV. Também fica claro que factos históricos só têm significado e são reconhecidos como tais quando servem, justificam e confirmam a luta de libertação, apresentada como ponto de origem de tudo: da Nação e do Estado.

O Partido único, enquanto força dirigente, precisa dessa validação permanente para se legitimar no Poder e para negar aos cidadãos a Liberdade e o direito de escolher quem os deve governar. Nesse sentido, memórias devem ser rearranjadas, outras memórias extirpadas, outras ainda implantadas, para que a realidade e a ficção se confundam e ninguém saiba quando termina uma e começa a outra. È uma luta permanente. Daí a obsessão pelo controlo, o policiamento do que é dito e feito, a substituição da informação pela propaganda e o assenhorear das iniciativas e de tudo o que é inovador.

O controlo de memórias foi mais penoso para Cabo Verde do que noutras paragens. A badalada luta de libertação não aconteceu em Cabo Verde. Aristides Pereira, no Relatório aos órgãos superiores do PAIGC em Agosto de 1976, em Bissau, deixou claro qual era a real situação do Partido, antes do 25 de Abril de 74: “Pouco implantado no arquipélago, a organização resumia-se a algumas células em Santiago, no Mindelo e em S.Antão. “(…) a massa militante englobava, por ordem decrescente de importância, estudantes, alguns pequenos funcionários e poucos trabalhadores”. Imagine-se o esforço titânico necessário para incutir numa população que a sua história passada é só aquela que justifica e conduz inevitavelmente à luta de libertação. Uma luta que lhe dizem ter acontecido a mais de 600Km de distância mas que não viveu nem sentiu de forma directa. Relatos fidedignos apontam para um máximo de quarenta caboverdianos numa organização que se gabava de ter mais de 12 mil guerrilheiros. É quase surreal.

A instauração de um Poder absoluto logo após a independência imprimiu a esse esforço carácter urgente e impiedoso. Extraia-se legitimidade dos mitos criados à volta de Amílcar Cabral e da luta na Guiné. Nada podia contrariá-los. Nem o seu inevitável choque contra uma história de séculos e uma vivência social e cultural, distinta de onde o PAIGC nasceu e cresceu como organização político-militar. A pressão ideológica do Estado sobre a sociedade desembocou, pontualmente, em violência explícita, particularmente contra as elites intelectuais, culturais e sócio-económicas do País.

Prisões, humilhações, torturas e mortes verificadas em 1977, 1979, 1980 e 1981 em S. Antão, S. Vicente, Santiago e Brava são exemplos do muito que aconteceu nos primeiros anos de independência. Como também são certas leis, em particular a lei de Boato, 37/1975, e a lei 97/1976 dos cinco meses de prisão sem culpa formada, que só viriam a ser revogadas em Maio de 1990. São anos que não deviam orgulhar ninguém, muito menos o primeiro-ministro de um governo democraticamente eleito. A iniciativa infeliz do Sr. Primeiro Ministro de organizar a conferência “Os primeiro anos de independência”, tendo como conferencista o então primeiro-ministro e actual presidente da República, Pedro Pires, revela o quão ainda se insiste na legitimidade histórica. Implicitamente está-se a reiterar que votos não chegam para governar. E que o País deve estar é com o partido demiurgo, o partido do fundador da Nação, o partido que trouxe a independência, construiu o Estado e, quinze anos depois, concedeu a democracia.

Por isso, é que para as crianças de quarta classe a história de 550 anos de Cabo Verde é resumida no seguinte: “O arquipélago de Cabo Verde foi durante séculos governado por Portugal. Era uma colónia. No dia 19 de Setembro de 1956, Amílcar Cabral fundou o PAIGC. Em 1963, o PAIGC começou a luta armada na Guiné. No dia 5 de Julho 1975 Cabo Verde tornou-se um país independente. No dia 13 de Janeiro realizaram-se as primeiras eleições legislativas” (pags. 44, 45 do manual de Ciências integradas 4º ano). É o mesmo simplismo de motivação ideológica que orienta o Governo quando encomenda um Monumento à Liberdade. Quer que se retrate a história do país em dois períodos: primeiro como país-vítima, nos temas colonização, escravatura, fome, emigração forçada seguido do período da redenção nos temas luta armada, independência, reconstrução e desenvolvimento. Significativamente fica ausente dessa interpretação da história a exaltação do processo de emergência de uma nova nação dentro do império português, sem complexos de vítima e capaz de conservar o seu carácter e desejo de liberdade mesmo confrontando-se com mais de seis décadas de regimes inimigos da liberdade e do pluralismo: os 45 anos do regime autoritário de Salazar/Caetano e os 15 anos do regime totalitário do PAIGC/PAICV.

A insistência na validade da legitimidade histórica, mesmo na era da democracia e do pluralismo, significa que o esforço para manter vivos os mitos anteriores não diminuiu. Pelo contrário, aumentou, pois agora, não só tem que manter a memória fictícia do envolvimento de Cabo Verde na luta armada, como também há que fazer acreditar que o partido/Estado em Cabo Verde era benigno e único do género no planeta. Ficções corroboradas por António Correia e Silva, no artigo do jornal “anação” de 25 de Fevereiro, ao afirmar que foi de vontade própria que o PAICV fez a abertura política. “Vontade” que só se manifestou quando todos tinham bem presente que dominós caiam por todo o planeta, na sequência das políticas de perestroika e glasnost de Gorbatcev, e que a queda do Muro de Berlim a 9 de Novembro de 1989 veio acelerar ainda mais o desmoronar de regimes de inspiração leninista. Alguém acredita que o PAICV, a 19 de Fevereiro de 1990, tenha dito: vamos cair também, mas não somos um dominó nem nos revemos em Lenine!?.

Manter esse nível de ficção, de fuga à realidade dos factos exige um esforço tremendo que se manifesta pelo menos a três níveis: da propaganda, da restrição da liberdade intelectual e de luta política constrangedora do pluralismo.

Da propaganda qualquer observador fica elucidado com o desabafo da jornalista Margarida Fontes no seu blog, odiaquepassa.blogspot.com: “A questão é: para quê silenciar, se a propaganda é liberada nos mais públicos meios de difusão? Num país onde a propaganda flui com naturalidade, perante o silêncio da oposição que sonha fazer o mesmo quando ocupar o Palácio, o jornalista não passa de um lacaio vencido pelo cansaço… daí que eu defendo, criem um Gabinete de Propaganda do Governo (GPG) com legitimidade para ludibriar os cabo-verdianos e as cabo-verdianas, e extinguem (melhor, mudem os estatutos) dos órgãos públicos de comunicação, começando pela TV pública” (1/03/2010).

Quanto á liberdade intelectual, o violentíssimo ataque que publicamente o presidente da Fundação Amílcar Cabral desferiu contra a tese de doutoramento, “Em Busca da Nação” do investigador Gabriel Fernandes, no jornal “asemana” de 2 de Março de 2007, foi aviso claro para todos os estudiosos: Qualquer um pode correr o risco de ver uma tese ou um estudo acusado de “emprestar chancela académica a teses partidárias” se algum mito, dos que pululam na sociedade caboverdiana, for de alguma forma beliscado por factos, análises ou teorias.

Quanto à luta contra o pluralismo, ela é diária e violenta. Assume várias formas de acordo com as circunstâncias. Ás vezes é aberta, outras vezes é dissimulada, quase subtil. Os alvos preferenciais são o parlamento, o sistema de partidos e a credibilidade pessoal de quem tem ideias diferentes. Aos ataques seguem-se apelos a consensos. Mas a luta nunca pára. Mesmo quando o meio político adversário, de alguma forma, capitula perante a pressão dos mitos, a ofensiva continua. O PAICV não permite que Amílcar Cabral descanse acima dos interesses partidários de hoje. Proclama-se partido de Cabral e depositário dos seus ensinamentos e insiste que todos o devem aceitar na forma mitológica da sua preferência.

A política em Cabo Verde parece cativa da História. E é. Porque estranhamente, mesmo 19 anos após eleições livres e plurais, a ideia da legitimidade popular, como legitimidade única e válida na República, ainda não foi completamente aceite. Muitos procuram capitalizar sobre a legitimidade histórica para ganhar votos. O início das Comemorações do 35º Aniversário da Independência a 1 de Março para se prolongaram até Outubro, em ano pré eleitoral, deixa imediatamente a suspeita do aproveitamento dos recursos, das instituições e da autoridade do Estado para exaltar o papel do partido que se auto intitula partido da independência, com fins claramente eleitorais.

Isso é de facto inadmissível particularmente porque é acompanhado de uma ofensiva ideológica e propagandística com vista a liquidar a memória da década de noventa. Precisamente a década, em que o País conquistou a Liberdade e construiu as suas instituições democráticas. O uso abusivo do Estado para controlar as memórias e servir agendas partidárias tem que acabar. Para que haja real liberdade de expressão, liberdade de informação, liberdade intelectual e pluralismo verdadeiro em Cabo Verde.
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POIS É VÊ-SE...




O que eles querem é mesmo igualdade.

São tratados como gado e pelos vistos aceitam com toda a normalidade. Talvez até gostem.



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