quarta-feira, 22 de julho de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO QUINQUAGÉSIMA TERCEIRA:


Recordando FRANTZ FANON (1925-1961):

“Faire sauter le monde colonial est désormais
une image d’action très claire, très compréhensible
et pouvant être reprise par chacun des individus
constituant le peuple colonisé. »FRANTZ FANON

PRIMEIRA PARTE :

O psiquiatra, escritor e ensaísta antilhano, de ascendência africana, FRANTZ FANON, que faleceu bastante jovem, ou seja aos trinta e seis (36) de idade, na sequência de uma leucemia, se hoje estivesse, ainda vivo, completaria, no próximo dia 20 de Julho, deste corrente ano de 2009, a bela idade de 84 anos.
Com efeito, nasceu, em Fort-de France, Martinica, a 20 de Julho de 1925, tendo vindo a falecer, a 6 de Dezembro de 1961, em Washington. DC.
Quiçá tenha sido, o maior pensador do século XX pretérito, no âmbito dos temas da descolonização e da psicopatologia da colonização. As suas obras foram inspiradas nos movimentos de libertação anti-coloniais, por mais de quatro décadas.
Militante do Movimento para a Independência da Algéria, no seio da Frente de Libertação Nacional (FLN), é autor das seguintes obras:
--- Peau noire, masques blancs (Seuil, 1952) ;
--- L’An Vde la révolution algérienne (Librairie François MASPERO, 1959) ;
--- Pour la révolution africaine (Librairie François MASPERO, 1964) ;
--- Les damnés de la terre : publicado pela primeira vez, no ano de 1961, pelas Edições François MASPERO e, em 1968, pelo mesmo editor, com o famigerado prefácio de Jean-paul SARTRE.

De feito, FRNTZ FANON nasceu no ano de 1925, em Fort-de France, MARTINICA, no seio de uma família da pequena burguesia abastada. Criança oriunda de uma fratria numerosa evolui, num mundo da vetusta colónia, onde não é ainda uso se interrogar acerca da escravatura. Todavia, muito jovem, FANON se compromete nas Forças gaulistas, o batalhão V, reagrupando os voluntários das Caraíbas. E, é, na realidade, no decurso deste “engagement”que adquire a sua cultura de Resistência e, identicamente fez a experiência do racismo trivial, quotidiano.
Uma vez, desmobilizado, com a Cruz de Guerra retorna a Martinica em 1945, passa o seu Baccalauréat e frequenta as tertúlias de Aimé CÉSAIRE (1913-2008).
Rapidamente, se reencontra em França para prosseguir os seus estudos de Medicina, na cidade de Lyon. Paralelamente, a estes estudos, se apaixona pela filosofia, antropologia, o Teatro e se embrenha, empenhando, a fundo, na sua especialização, no âmbito da Psiquiatria.
Simultaneamente, conquanto não adira a nenhum partido político, participa, porém, em todo movimento anti-colonialista e contribui na redacção de um pequeno periódico, Tam Tam destinado aos estudantes originários das colónias. E escreve, então, um primeiro artigo na revista Esprit (1952), “Le syndrome nord-africain”, no qual se interroga acerca do operário nord-africain, exilado, sofrendo por ser um “homme mort quotidiennement” que, afastado das suas origens e separado dos desígnios e objectivos, tornam um objecto, uma coisa arremessada no grande tumulto.

No Hospital de Saint-Alban, onde permanecerá quinze (15) meses, FANON fez um encontro fundamental, com o psiquiatra de origem espanhola e militante anti-franquista de nome François TOSQUELLES. Este encontro soldou para ele numa formação assaz determinante, no plano e domínio da Psiquiatria, outrossim e, ainda, no dos seus futuros compromissos ideológicos e políticos. Encontra, então aí, o verdadeiro ponto de encontro, onde a alienação é interpelada, em todo os seus registos, em vez da junção do somático e do psíquico, da estrutura e da história.
Finalmente, em 1953, conclui os exames de médico dos hospitais psiquiátricos e é, então, nomeado para o hospital de BLIDA, na Argélia.

Em Argélia, se encontra confrontado, não unicamente com a Psiquiatria clássica dos asilos, porém, identicamente com a teoria dos psiquiatras da Escola de Argel, acerca do primitivismo dos indivíduos.
A pouco e pouco (gradualmente) descobre a realidade colonial da Algéria da época. Num primeiro tempo, colocará toda a sua energia, com o objectivo de transformar os serviços, sob a sua responsabilidade efectiva, introduzindo a “social-thérapie” estudada e praticada com TOSQUELLE. Não terá de cessar de transformar, deste modo, a conexão dos pacientes com os alienados, com os Europeus, identicamente, porém, com os “indígenas” muçulmanos, procurando restaurar os seus referentes culturais, a sua língua, a organização da sua vida social, tudo quanto pudesse fazer sentido, obviamente. De consignar, que esta pequena revolução psiquiátrica é reconhecida tão bem pelo pessoal dos cuidados de Saúde (na maioria, empenhados politicamente), como outrossim, por militantes da região. Deste modo, a sua reputação se estende e de que maneira. Estamos já no Ano de 1955 e a guerra conducente à Libertação da Algéria do domínio colonial francês, principiou, sob o bom Signo.

Por razões assaz óbvias, FANON não compreende a deletéria cegueira do Governo socialista francês de então ante o sério desejo de Independência dos Argelinos. Eis porque, as suas robustas posições anti-colonialistas são, cada vez mais e mais, conhecidas. Assim, será contactado pelo movimento “Amitiés algéreinnes”, Associação humanitária destinada a levar apoio material às famílias dos detidos políticos, dirigida, de facto, por militantes nacionalistas em ligação com os combatentes, que abraçaram a guerrilha, perto de BLIDA. E o primeiro pedido que lhe é feito é de assumir a responsabilidade de cuidar dos guerrilheiros, padecendo de perturbações psíquicas.

É, deste modo, por capilaridade entre Psiquiatria e empenhamento político, que FANON se compromete na luta dos Argelinos para a conquista da sua Independência efectiva.
No ano de 1956, demite do seu cargo de médico psiquiatra, através de uma carta aberta endereçada ao Résident General, Robert JACOSTE em que escreve, asseverando que lhe é impossível querer, custe que custar, desalienar indivíduos, os “remettre à leur place dans un pays où le non-droit, l’inégalité et le meurtre sont eriges en príncipes législatifs, où l’autoctone, aliéné permanent dans son propre pays, vit dans un état de dépersonlisation absolu”. E, como corolário lógico desta famigerada carta aberta FANON é expulso da Argélia.

Passa, em seguida, três (3) meses em França, no primeiro trimestre do ano de 1957, estadia, no decurso do qual não encontra eco à sua sólida convicção, que a Independência da Argélia é inelutável. Apoiado pela Federação de França da FLN, regressa a Tunes (Capital da Tunísia, sendo esta, por seu turno, Estado da África Setentrional e que confina com a Argélia, a Oeste), onde implanta a Organização externa do Movimento de Libertação Nacional. Está, deste modo, consumada a ruptura.

FANON, uma vez, na Cidade de Tunes, prosseguirá uma dupla actividade, concomitantemente, como Psiquiatra e Político. Tornará membro da equipa do Jornal da FLN, El Moudjahid. Assistirá do interior a todas as contradições, grassando no seio da Frente de Libertação Nacional, inclusive as querelas crescentes entre os representantes políticos e o exército. Frequentemente, decepcionado permanecerá, contudo, um acérrimo defensor da Luta de Libertação da Argélia e um Psiquiatra continuadamente inovador. Interessar-se-á, cada vez mais e mais, pela África Sub-Sariana e será designado pelo Governo Provisório da República da Argélia, como Embaixador Itinerante em África Negra, no término do ano de 1959. É o Ano das Independências africanas.
De feito, FANON será veridicamente um autêntico Itinerante, na verdadeira acepção do termo e da expressão respectiva, se consumindo, sem levar em conta, do Gana aos Camarões, de Angola ao Mali, no desígnio de promover um combate para uma verdadeira Independência. Encara, identicamente a possibilidade de edificar uma Frente que partiria do Mali para atravessar o Sara e reunir os combatentes argelinos.
Todavia, infelizmente, em Dezembro de 1960, no decurso de uma Estadia em Tunes, descobre que está enfermo de uma Leucemia mielóide. Resta-lhe, apenas um ano para viver, no decurso do qual, escreverá Les Damnés de la terre.

Lisboa, 17 Julho 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista – Cidadão do Mundo).
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sábado, 18 de julho de 2009

ENTRE A MENTIRA E A FALTA DE ESCRÚPULOS

Dentre em breve haverá eleições legislativas em Portugal. Com dois protagonistas mais visíveis. O PSD e o PS. Que trarão aos eleitores destes dois campos políticos uma dor de cabeça dos diabos.

A escolha entre Manuela Ferreira Leite e José Sócrates é uma escolha difícil senão impossível.

O PSD apelidou Sócrates de Pinóquio apresentando-o com um nariz de pau maior que o mundo em cartazes que mandou espalhar por este Portugal fora enquanto trazia a público inúmeras promessas eleitorais não cumpridas por Sócrates, para além de o desnudar naquilo em que os seus (de Sócrates) assessores de imagem o terão transformado: em perito de «Anúncios e Propaganda» sem suporte real; em mestre da realidade virtual.

Adriano Moreira num dos programas “Prós & Contras” da RTP disse, e cito de cor, “Governar não é representar uma comédia com a finalidade de ganhar eleições”.

Ouvindo e lendo tudo isto, e auscultando as pessoas à nossa volta, conclui-se que o PSD convenceu muitos eleitores, mesmo muitos, que José Sócrates é Mentiroso.

Ora bem, vejamos agora Manuela Ferreira Leite.

Entre muitas incongruências detectadas no seu discurso em que hoje diz o contrário do que dissera e fizera no passado quando fora ministra de duas pastas em governos PSD (a pasta da Educação e depois a das Finanças), agora, no espaço de uma semana esta senhora disse uma coisa Enorme (uma enormidade) e o seu contrário:

Disse: «Se o PSD ganhar as próximas eleições, rasgará todas as políticas sociais deste Governo do Partido Socialista».

E passada uma semana ― sete diazinhos apenas ― o que é que diz a senhora quando lhe pedem publicamente que confirme o que dissera antes?

Não esteve com meias medidas! Disse ― com a maior desfaçatez que se pode encontrar num indivíduo inescrupuloso ― o seguinte:

«O PSD não rasga coisa nenhuma».

Pois bem, digam-me lá por favor: entre um mentiroso contumaz e uma incoerente natural (que se contraria como quem respira), quem escolher para Primeiro Ministro de Portugal?

Eu escolho o Menino Jesus.
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KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO QUINQUAGÉSIMA SEGUNDA:

(III)

Uma Questão, que não deixa de ser, assaz pertinente, colocar e analisar, ipso facto e, por motivos óbvios, com o mínimo de bom senso e entendimento respectivo, diz respeito à rejeição e a dificuldade respectiva do Estado de Israel em se adaptar à verdade activa dos factos e, assim, poder se libertar da estulta obstinação, que vem assumindo… São, aliás, várias as razões que se encontram na base desta deletéria obstinação e, que vamos dilucidar as mais percucientes. Donde, temos então:
A Primeira Razão se prende com o facto da guerra assimétrica, jamais faz parte das prioridades de TSAHAL (o exército israelita). Este tem sempre por objectivo uma atenção privilegiada à guerra convencional, em que teria a se opor à uma ameaça maior da parte de vários exércitos árabes para a existência de Israel, reputada como “segurança fundamental” (“ BITAHON YESSODI”). Por outro, a ameaça dos grupos irregulares, relevando da “segurança corrente” (“BITAHON SHOTEF”), jamais foi vista como susceptível de pôr em causa a existência do País.

No entanto, o que é facto é que a Instituição militar jamais pensou a guerra assimétrica enquanto tal. Não originou, com efeito, uma doutrina de acção inovadora, ad hoc, específico. Jamais tentou conceptualizar esta nova ameaça, se fiando nas qualidades de improvisação e de inventividade das suas unidades de combate e dos seus oficiais, sem se preocupar com a coerência do conjunto.Com efeito, são os constrangimentos, de curto prazo, que definem o tipo de reacção como grau de violência ostentada e desfraldada pelos grupos armados, ou as pressões exercidas pela opinião pública israelita, as quais os dirigentes políticos e militares são sobremodo sensíveis. De referir ainda, que o peso do factor corporativista nunca foi desprezível. Enfim, é necessário, entender, outrossim, com isso, os comportamentos decorrendo da vontade de restaurar a imagem de TSAHAL cada vez que estima ter sido atingida.

Uma outra razão, ou seja a segunda, que merece ser estudada adequadamente, se vincula à convicção que toda a estratégia correria o risco de deixar uma impressão de fraqueza e encorajar os “terroristas” a prosseguir a via da violência. Eis porque muitos generais se recusaram à estratégia da “força mínima”, excluindo a “estratégia do terror”.
No fundo, tudo termina por conduzir ao problema da “capacidade de dissuasão do exército” que se confina na obsessão (sem dúvida, compreensível), num País, que vive sob o receio permanente de ser “apagado um dia do mapa”. É efectivamente, a vitória, a título póstumo, das concepções do General MOSHÉ DAYAN (1915-1981) e as de MOSHÉ SHARETT (1894-1965), sendo este, o Segundo Primeiro-Ministro de Israel (de 1953 a 1955), entre os dois mandatos de BEN--GURION, um dos signatários da Declaração do Estado de Israel. Outrossim e, ainda, dos “activistas” sobre os “moderados”.

Não deixa de se afigurar, assaz pertinente, sublinhar que as elites dirigentes israelitas, civis e militares acreditaram, identicamente, sempre nas virtudes da capacidade militar de TSAHAL, da sua potência de fogo, muito consideravelmente superior à dos Grupos armados. Bastaria fazer dele “bom uso”:”castigar” duramente os homens armados e os seus sponsors, exercer pressão sobre as populações civis que os abrigam voluntariamente ou em defesa própria. Depois esperar e “ver como as coisas se desenvolverão”. No entanto, a ideia que uma tal estratégia “exacerba a violência anti-israelita não faz parte do discurso estratégico em Israel”.
O que é facto, é que os malogros/fracassos de repetição desta estratégia jamais conduziram à sua colocação em causa, que não poderia se fazer sem dor. Aceitá-la equivaleria, com efeito, a reconhecer que o fundamento sobre o qual assenta a política de defesa de Israel, “a capacidade de dissuasão de TSAHAL”, não é apropriada para este conflito, o que seria, aliás, reconhecer a impotência da sua real potência bélica. Isto poderia, por outro, conduzir a um choque psicológico importante, porém salutar, porquanto TSAHAL veria coagido em encontrar vias clássicas, mais imaginativas que a força armada para defrontar, fazendo frente ao “terrorismo” e cessar, pelas suas reacções desproporcionadas, de fazer o jogo do inimigo.

Enfim e, em suma:
-- 1 A adesão à esta estratégia, em apreço, se encontra vinculada à ausência, entre os dirigentes políticos Israelitas de visão, a longo prazo, dizendo respeito à solução do conflito israelo-palestiniano, aos contornos do futuro Estado Palestiniano, o porvir das colónias da Cisjordânia, as fronteiras definidas, ou ainda o estatuto de Jerusalém.
-- 2 A excepção notável dos Acordos de Paz de Oslo (1995), rapidamente violados, nenhum dirigente israelita propôs um projecto político global, dizendo respeito as relações israelo-palestinianas susceptível de pôr cobro ao conflito.
-- 3 Na ausência de directivas políticas claras, o exército, frequentemente se contentou com reacções, au coup par coup (seja, por acções específicas e dissemelhantes de cada vez), de forma improvisada. Eis porque, não pode, seguramente ser considerado como único responsável desta estratégia da resposta desproporcionada, salvo, no início da Segunda Intifada, em que o Estado-maior do exército tentou contrariar os esforços do Primeiro-Ministro de alcançar uma solução negociada com o Chefe da Autoridade Palestiniana.
-- 4 Finalmente, todavia, nenhum militar de alta patente, nunca sugeriu uma abordagem algo inovadora, diferente, comparável a do marechal LYAUTEY (1854-1934), que esperava ardentemente que a separação se “fasse sans douleur”, ou à que o general norte-americano PETRAEUS (n-1954) tentou no Iraque, não sem um determinado êxito.

Lisboa, 12 Julho 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista — Cidadão do Mundo).
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terça-feira, 14 de julho de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO QUINQUAGÉSIMA PRIMEIRA:
(II)

Prosseguindo o nosso Estudo sobre a Estratégia militar israelita, impõe-se, sublinhar, que, na verdade e, na realidade, os responsáveis israelitas nunca levaram em conta a exacta dimensão do peso dos médias e da opinião pública mundial. O Mundo teria aceite, em princípio, que TSAHAL (o exército israelita) violasse o Direito Internacional, com a condição de o fazer, de modo parcimonioso e, na ausência de poder dispor de outros meios de defesa, seguramente.

De feito, a opinião que circulava na década de noventa do século XX pretérito, teria acabado por aceitar e, quiçá mesmo relevar Israel pelo facto de se defender contra o “terrorismo” de “Setembro negro”, liquidando, um a um, os membros do comando que tinha organizado e executado o assassinato dos atletas israelitas em Munique (Alemanha, aquando dos Jogos Olímpicos), no já longínquo ano de 1972. Todavia, as liquidações assinaladas de repetição, no decurso da Segunda Intifada, o uso de Tanques de combates em zonas urbanas, a ostentação perante população pobre e, outrossim e, ainda, o recurso a combatentes invisíveis foram percebidos, de forma, sobremaneira negativa e, muito, muito negativa, mesmo, obviamente.

Sim, efectivamente, a opinião pública Internacional não suportou o excesso da resposta israelita. De feito, os Israelitas não compreenderam que não bastava possuir o direito de exercer a legítima defesa para ganhar a simpatia do público Internacional Era necessário fazê-lo, em proporções razoáveis e, ipso facto, quiçá aceitáveis para a sua sensibilidade. Analisaram, identicamente a opinião pública, de forma passional, acusando-a de se revelar, assaz iníqua e injusta.

Lamentavelmente, em vez de fazer uma análise fria da forma de gerir este constrangimento, os Israelitas, todas as tendências somadas, se inclinam para as recordações do passado anti-semita da Europa, como elemento explicativo do desamor e indiferença respectiva do qual amargam. Existe, com efeito, em Israel, uma ausência total de reflexão acerca da desaprovação internacional a que se encontra condenada, mesmo pelos que fazem parte da oposição de “esquerda” e que contestam os métodos do exército. Esta posição ora enunciada, é visto sistematicamente como uma injustiça insuportável.
Perante à ameaça activa de grupos armados, mestres assumidos na manipulação de imagens endereçadas e dirigidas, em força, ao Público, os Israelitas continuam, neste aspecto, ainda na autêntica Idade da Pedra da Comunicação, que menosprezam, pois, realmente, de tal modo, é convicção que são as vítimas, com razão (com justiça e merecidamente), cujo o resultado é uma deletéria incapacidade para compreender as energias e competências respectivas da emoção do Público.

E, para uma elucidação, do que temos vindo a exarar, vale a pena trazer à colação, o exemplo seguinte, por constituir o paradigma, assaz convincente, no atinente à debilidade enunciada. Ou seja:
Precisamente, no dia do “massacre” de uma família judaica ocupada em festejar PESSAH, em Março de 2002, o Primeiro-Ministro ordena a mobilização de reservistas e a ocupação das cidades palestinianas transpostas sob controlo da Autoridade Palestiniana.
De anotar, antes de mais, que PESSAH significa, em hebraico, Páscoa e é a principal festa familiar da Cultura judaica. Simboliza a Festa da Liberdade e comemora, por conseguinte, a libertação de Israel da servidão Egípcia.
E, como vínhamos dizendo, de repente, a atenção da opinião pública, quão comovida e quão enternecida, porém alarmada, como se pode compreender, pelo atentado perpetrado por NETANYA se voltou para a Cisjordânia. Deste modo, em vez de “enceleirar” os “resultados” do “massacre”, e lograr mobilizar um apoio duradoiro das Nações Unidas e dos Médias, em torno deste Evento/Acontecimento trágico, o governo israelita de então, na sua pressa e rapidez, com isto poder aproveitar o desejado ensejo de dilacerar os activistas palestinianos, acabou por fazer olvidar a tragédia e, deste modo, revirou a opinião pública mundial contra si mesma.

De sublinhar, enfim, que, no âmbito desta deletéria perspectiva israelita, se ouve, quase sempre (a maior parte das vezes, ordinariamente), da boca dos seus dirigentes e responsáveis respectivos e, outrossim e, ainda, de simples cidadãos, o seguinte lamento: “De toda a maneira, o Mundo está contra nós”. Donde, relevante, se assume consignar, que tudo isto se afigura, pelo menos (quanto menos), assaz inconsequente esperar um apoio do Mundo, quando se o acusa de parcialidade.

Lisboa, 10 Julho 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista – Cidadão do Mundo).
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domingo, 12 de julho de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO QUINQUAGÉSIMA:


Para Principiar:

Na era das migrações permanentes devidas a pressões económicas, culturais, militares ou climáticas, o Estado torna, cada vez mais e mais, num lugar transitório, temporário e os seus habitantes respectivos são, cada vez mais, outrossim, verdadeiros apátridas.

E, no âmbito desta dinâmica, se impõe, avisadamente levantar algumas questões pertinentes, designadamente:
(1) O que é que os filósofos e os intelectuais coevos podem asseverar acerca deste fenómeno que diz respeito, tanto como, afinal, aos palestinianos como aos membros da União Europeia?
(2) Como se pode possuir, ainda o sentimento de pertencer à uma Nação?
(3) Quem exerce, efectivamente, o poder actualmente?
(4) Temos sempre o direito de possuir direitos?
(5) Enfim, que significa, por exemplo, o facto de cantar o hino americano, no idioma cabo-verdiano?
Sim, efectivamente Questões, assaz oportunas e, quão percucientes!

(I)

O Regionalismo Crítico é algo de difícil entender, pelo facto do robusto poder do Nacionalismo (Sentimento de pertencer a um grupo por vínculos étnicos, linguísticos e históricos que reivindica o direito de formar uma Nação autónoma), até mesmo do sub nacionalismo étnico e demais outros quejandos, pelo facto, que os Agentes transnacionais grassam, imperando de Estado nação por Estado nação.

E, já agora, et pour cause, vale a pena, trazer à colação, algumas ideias acerca da Constituição Europeia. Trata-se, acima de tudo, de um documento económico. E, para a aplicar, se invoca uma determinada memória cultural – quiçá para substituir o Nacionalismo puro e duro.
De anotar, demais, que o Tratado para a Constituição Europeia não passou porque a França e os Países Baixos votaram contra. Na verdade, o documento principia como se tivesse havido sempre uma Europa, mesmo no momento em que os Países aí davam entrada. Sabemos, no entanto, que as Constituições devem sempre inserir uma contradição, quiçá singela ou, outrossim, nas antípodas dos grandes objectivos.
Contudo, existe uma assimetria entre dissemelhantes considerações performantes. Deste modo, a Europa se encontra ocupada em outorgar o seu nascimento, invocando a sua presença original para consolidar a unidade económica no novo mercado global – e, assim se outorgar acesso a cosmo política – só pode ser percebida como evento idêntico aos trabalhadores “sem papel” da Califórnia, reclamando um direito para além da Nação, conducente, desta forma, ao advento desta. Isto, simplesmente porque a habitam, variedades dissemelhantes de condição performative.
Eis porque, quando o filósofo alemão Jörgen HABERMAS (n-1929) fala dos “prosélitos de uma democracia cosmopolita”, baseada na Europa de um novo estatuto político de “cidadãos do Mundo”, fá-lo no quadro desta discussão, em apreço e análise, quão pertinente e, quão oportuna.

Por outro, o Sentido do Global dos dominantes europeus se encontra, outrossim, parcialmente vinculado à Imigração.
E, de consignar, DESTARTE, que os Estados emergentes do Sul Global estão para limitar o acesso à esfera pública para o cidadão, simplesmente porque a esfera pública específica ao Estado se reduz à esfera económica global.
Na verdade, o que é facto é que não existe cidadania sólida para as pessoas na mais baixa da escala. Estes Estados gerentes globais do Ultraliberalismo são apátridas dentro dos seus próprios Estados, se considera o Estado como uma estrutura abstracta. É, aliás, esta estrutura de redistribuição de protecção Social e de constitucionalidade do interior do Estado que se encontra actualmente em curso de se corroer e se carcomer.

Aqui se nos afigura assaz pertinente e oportuno, chamar à atenção, outrossim e, ainda, em complemento elucidativo, para os doutos ensinamentos da lavra do filósofo francês, Jacques DERRIDA (N-1930) exarados no trabalho ensaístico---VOYOUS (Paris-2004), em que aborda toda a arquitectura Kantiana para pensar o Mundo, a Liberdade e o Vínculo entre a cosmo política e a guerra o que tornam KANT (quiçá) inoperante para pensar e se comprometer numa democracia global vindoura.
Todavia, DERRIDA em Politiques de l’amitié (Paris, 1994), no intuito de uma melhor precisão das suas ideias e forma de pensar, no âmbito desta problemática, em estudo, denominou, DESTARTE, este desliamento/desfecho/desenlace do vínculo entre nascimento e cidadania, de: o desconstrucionismo da Genealogia. É aí, efectivamente que principia o Regionalismo Crítico.

Finalmente e, em jeito de Remate assertivo:
Com efeito, os nossos movimentos sociais globais nos foram confiscados. Somos “apoiados”, a cada passo (a todo o momento). No entanto, se verifica porquê o “crítico” intervém neste pensamento do regionalismo. E, explicitando, melhor as nossas ideias, temos então:
(1) Nos jornais, a Índia e o Paquistão são sempre inimigos, mesmo se ocorre permutas entre os seus Primeiros-Ministros respectivos.
(2) A China e a Índia são reputados como estar em concorrência, visando obter o favor dos USA e, assim, sucessivamente.
(3) Os vetustos limites, datando de antes Bandung, entre Pan-africanismo e anti-colonialismo existem ainda?
(4) Os Heróis da Humanidade no-lo fariam esperar.
(5) Enfim: A nova América latina pode controlar o desejo euro americano de Universalismo?
Deste modo, (quiçá) se pode lobrigar porquê “crítico” e porquê “regionalismo”.
De feito, todo o seu húmus de fundo se encontra aquém de e, outrossim além do nacionalismo, preservando as estruturas abstractas de Algo que se assemelha ao Estado. Isto permite uma correcção constitucional contra a mera vigilância e recolha de dados, no atinente aos Direitos Humanos, ou aos processos de interesse público, tudo isto em nome de um público que não pode agir e actuar por si próprio, ipso facto…

Lisboa, 06 Julho 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual/internacionalista Cidadão do Mundo).
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terça-feira, 7 de julho de 2009

THE SHOW MUST GO ON

(OU O NEGÓCIO DAS ALMAS)
(OU AINDA: ANTES MORTOS QUE VIVOS)


Pois é! Já os juntaram: Marilyn, Elvis e Jacko.

E as notícias que se lêm em jornais de todo o mundo são de que
Jacko vende agora muito mais que quando estava vivo.
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domingo, 5 de julho de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO QUADRAGÉSIMA NONA:

Nota Preliminar:

O Estado de Israel, desde a sua criação no ano de 1948, conheceu várias vagas de “terrorismo”, designadamente:
--- A dos fedayins vindos à partir do Egipto ou da Jordânia, na década de cinquenta do século XX pretérito;
--- A de Setembro “negro” nos anos setenta do século XX passado;
--- A conduzida contra aldeias no Norte de Israel em 1974;
--- A dos anos 90, do século XX passado, após os Acordos de Oslo (Noruega), estabelecidos e acordados no ano de 1995;
--- A da Segunda Intifada, marcada, enfim, por uma vaga de atentados suicidas, sem precedente.
Do acima, expendido, somos conduzido, ipso facto, às interrogações seguintes:
(1) Como TSAHAL (o exército israelita) conduziu ou vem conduzindo a sua luta contra o “terrorismo”?
(2) Soube, por outro, gerir este tipo de conflito “no seio das populações”?
Todavia, o que é facto, é que o Balanço respectivo não encontrará graças, nem ante os olhos dos incondicionais de Israel, nem, obviamente perante aos da causa palestina. Na verdade, o exército israelita não escolheu a estratégia do pior, a da violência extrema, no entanto, efectivamente, não há dúvida nenhuma, que cometeu vários erros.
Não assimilou, outrossim, as regras implacáveis da “guerra assimétrica”.
Enfim, desde a criação do Estado de Israel em 1948, privilegiou-se a doutrina do risco da “resposta desproporcionada”, inapropriada a este conflito. Este tipo de procedimento cumpriu mal (muito mal, mesmo) a sua função dissuasiva e conduziu todo o País para uma situação, cada vez mais inextrincável.

(A)
Todavia, Sessenta (60) anos de experiência de luta desenfreada contra o “terrorismo”, muito poucas coisas parecem ter mudado nos esquemas de Pensamento do exército israelita, desde a criação do Estado de Israel. De feito, ante uma ameaça “terrorista” ou uma insurreição, quer armada ou desarmada, TSAHAL recorre a idêntico tipo de resposta, à famigerada “resposta desproporcionada”, fustigando, punindo, concomitantemente combatentes e não combatentes, quando não for possível fustigar um sem atingir o outro, com uma determinada desmesura calculada, envidando-se evitar derrapar, num crime em vasta escala.

(B)
Este tipo de reacção faz parte integrante da Cultura estratégica de Israel. Obviamente, a sua aplicação respectiva, pode variar, em função do contexto e, não só. Outrossim e, ainda, dos Primeiros-Ministros, em pleno exercício de seus mandatos e da personalidade dos dirigentes do Exército. Todavia, estas variações são geralmente de débil efeito.
De facto, praticamente, todos os Primeiros-Ministros e os Ministros da Defesa, quer de “esquerda” ou de direita, sustentaram o Princípio de uma reacção brutal e “desproporcionada” em detrimento à uma táctica “terrorista”, ou à uma insurreição, designadamente:
-- David BEN GOURION (1886-1973), nos anos cinquenta do século XX pretérito;
-- Menahem BEGIN (1913-1992), durante a guerra do Líbano;
-- Itzhaz RABIN (1922-1995), durante a primeira Intifada;
-- Ariel Scheinemann SHARON (n-1928), aquando da segunda Intifada.
Por seu turno, EHUD BARAK (n-1942) envolvido em negociações com a Autoridade Palestiniana, era neste aspecto mais reticente, porém, não soube impor a sua vontade ao Exército.

(C)
A resposta desproporcionada é, efectivamente, um elemento essencial da cultura estratégica de Israel. Trata-se de um conjunto de crenças, de atitudes e de práticas, dizendo respeito ao uso da força, ao qual aderiram praticamente todos os dirigentes civis e militares de Israel. Esta forma de actuar e agir reenvia para a identidade que os Israelitas se forjaram a seu modo, de se poder situar num espaço geográfico que lhes é francamente hostil, à sua percepção da ameaça, à sua angústia para a sua existência, ao seu receio de só poder contar com eles próprios.
Estamos, na verdade, ante algo de sui generis e de peculiar. Sim, concretamente perante:
---O Reflexo desta mescla de sentimento de poder e de grande vulnerabilidade que conduziu o exército a utilizar meios sobredimensionados em relação à ameaça real.
---Uma Fórmula de estar e de se defender contra uma agressão externa.
---Uma Reacção reflexiva, constituindo o objectivo, de um amplo consenso no País, ou seja: “Se formos atacados, os nossos agressores devem saber que pagarão o robusto preço pela sua agressão”.
Enfim e, em suma: No fundo, todo o resto passa para o segundo plano, designadamente: a eficácia de uma idêntica visão; o preço para eles desta reacção; os ataques dos civis de outra facção, os desgastes feitos às suas relações com o mundo árabe e com os seus aliados ocidentais, a degradação da sua imagem no Mundo, a legitimação, in fine, do seu próprio combate.

(D)
TSAHA não assumiu, ou não quis assumir, a consciência que esta estratégia era admissível num conflito clássico, não numa guerra assimétrica, contra grupos irregulares. Jamais reconheceu a sua inadequação a este tipo de conflito, que os seus peritos denominam de “baixa intensidade”. Opostamente, aos demais outros exércitos, americano, britânico e francês, não procurou, na verdade, se adaptar aos constrangimentos da guerra assimétrica, salvo para melhorar o seu serviço de Informação e as suas capacidades militares. Jamais houve no interior do TSAHA uma doutrina respeitante à “guerra no seio das populações”. Facto que parece, um tanto ou quanto, pouco desconectado desses debates doutrinais que agitaram os estados-maiores dos Países Ocidentais, nestes derradeiros anos:
Deste modo, no âmbito desta dinâmica, se impõe colocar avisadamente uma pertinente questão. Ou seja: Possui, na verdade, uma estratégia de luta contra-insurreição?
A este propósito, vale a pena trazer à colação, as ideias avançadas pelo Tenente General, Aviv KOHAVI (Comandante das tropas pára-quedistas, no início da Segunda Intifada), aquando de uma conferência de Imprensa concedida, no princípio do ano 2003, ao afirmar o seguinte: que, na verdade, quando a Segunda Intifada rebentou, o exército não possuía “nem doutrina, nem técnicas adequadas para o combate de débil intensidade em zonas urbanas povoadas”.
Como facilmente, se pode depreender:
--- Não houve Reflexão organizada acerca dos mecanismos complexos da guerra assimétrica, nem acerca da forma de gerir objectivos que podem se verificar contraditórios.
--- Não houve, outrossim pensamento rigoroso acerca da articulação entre os objectivos e os modos operatórios, sim, efectivamente está-se ante uma autêntica ausência de Reflexão construída no atinente às consequências do uso de tal ou tal arma, dos efeitos de tal ou tal tipo de e operações.
Enfim, de sublinhar, que ainda, consoante este, que foi um dos Altos Responsáveis da luta “anti-terrorista” no Conselho Nacional de Segurança, “não existe em Israel, uma estratégia escrita de guerra contra o “Terrorismo”.
Demais, reforça o seu pensamento, nesta matéria, asseverando avisadamente, que “A estratégia não é, nem clara, nem coerente, dependendo demasiado das posições ideológicas dos decisores e da situação política em Israel”. E, que “demasiada importância é acordada ao oral, à palavra”. Finalmente, que “A estratégia se preocupa do que aconteceu ontem e do que passará amanhã. Temos necessidade de uma estratégia organizada e os líderes políticos têm dificuldade em assumir decisões de longo prazo, por causa do equilíbrio das forças políticas interna em Israel, o que não facilita uma tal démarche”.
Resumindo e concluindo, a persistência destes reflexos contrasta com a sua flexibilidade e a sua capacidade respectiva de adaptação, num conflito clássico, exército contra exército, como foi o caso da famigerada Guerra dos Seis Dias, no ano de 1967, com apoio expresso dos USA. Com efeito, perante o conflito assimétrico, o exército israelita não deu provas de muita imaginação.

(E)
O que é facto, é que nenhuma lição parece ter sido sacado e extraído das experiências pretéritas, quer no atinente à Guerra de Algéria, da Guerra do Vietname, ou outrossim da Guerra do Afeganistão, porém identicamente e, sobretudo, das do próprio Israel, que foi, contudo, ele mesmo, na época do Mandato britânico, no papel do “fraco” que torturava o peão, no auge (no momento mais intenso) da contenda, com o apoio de meios que incitava, coagindo este último a cometer erros quão imperdoáveis e quão estultos.
Todavia, por outro, o que não deixa de ser significativo, sublinhar é, que, na verdade, ninguém parece ter lido ou relido os escritos do sexto Primeiro-Ministro de Israel, Menachem BEGIN (1913-1992), Prémio Nobel da Paz, em 1978, em parceria com o Presidente egípcio Muhamed Anwar al-SADATE (1918-1981), evocando o seu combate contra os Britânicos nos anos de 1946-1948.
Trata-se, com efeito, de escritos de uma ardente actualidade, onde mostra como a repressão de uma revolta “acaba por enfraquecer o prestígio de um regímen colonial, vivendo sobre o mito da sua omnipotência”. De feito, “cada ataque que não pode prevenir constitui um golpe vibrado à sua Existência. Demais, se o ataque malogre, corrói o seu prestígio e, esta fissura não cessa de se alargar a cada agressão.

Finalmente, os Generais israelitas, nunca reflectiram, outrossim sobre os lúcidos escritos da lavra do militar francês, (de origem tunisina), DAVID GALULA (1916-1967) para quem: “Dans une guerre conventionnelle, un soldad qui, pris à partie, ne riposterait pas avec la puissance de feu maximale, manquerait à son devoir. Dans une guerre révolutionnaire, la situation est inverse: la règle est d’en faire un usage aussi limité que possible », in Contre-insurrection, théorie et pratique.

Lisboa, 03 Julho 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista Cidadão do Mundo)
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sábado, 4 de julho de 2009

ABAIXO DE CÃO



Eis claramente definido aquilo em que esta gentalha tem estado, e está, a transformar o velho grande Benfica: numa autêntica Merda!

«Gagando», pois claro! Em plena Mesa da Assembleia Geral do Glorioso.

«Cagando».
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RESPEITO E AMOR

Uma cama desfeita: quatro almofadas, lençóis e um edredão. E dois gatos estrategicamente aninhados e em sono profundo em espaços privilegiados da cama ― o Picasso até ressona ― pode cair o prédio que ele não acorda por nada deste mundo ―.

Claro, eu sei: eu posso ir fazer a sesta para outro quarto! ...

Mas eu gostaria era de fazer a sesta... na minha cama!...

E não tenho coragem de incomodar ― e muito menos de acordar ― os meus gatos.

Prefiro vir para aqui blogar...

Até logo Gauguin e Picasso!

Tenham bons sonhos!
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sexta-feira, 3 de julho de 2009

CUIDADINHO MINHA AMIGA!


As agências de marketing, comunicação e imagem deram-lhe cabo... da Imagem.
Durante estes últimos quatro anos a dose foi de tal maneira excessiva que hoje em dia só de vê-lo apetece vomitar; nem sequer é por causa da política ― é porque aquela imagem já enjoa de tanto nos entrar pelos olhos adentro.

E agora subsiste um dilema que pode acabar em tragédia: se o PSD ganhar as próximas eleições legislativas, o caminho para a meta da destruição do que resta do aparelho de Estado (caminho encetado pelo PSD e continuado paulatinamente pelo PS de Sócrates) será rapidamente percorrido rumo ao abismo.



Quem não se lembra de ter havido já uma Ministra da Educação chamada Manuela Ferreira Leite?

― Uma péssima Ministra da Educação ao tempo!

Quem não se lembra de ter já havido uma Ministra das Finanças chamada Manuela Ferreira Leite?

― Uma péssima Ministra das Finanças ao tempo!

Toda a gente se lembra disso, com certeza.

Aliás, foi essa mesma Ministra quem estrangulou as Pequenas e Médias Empresas (PME) com um imposto chamado PEC (Pagamento Especial por Conta). E hoje essa mesma Manuela Ferreira Leite, criadora do PEC, anda a gozar com a memória da malta exigindo veementemente ao Governo que extinga o famigerado imposto que ela criou, como se ela nada tivesse a ver com a coisa.

Haja ao menos um pouco de vergonha! E também um pouco de humildade já agora.

É que a votação nas europeias não é sondagem em que se possa confiar para as legislativas. O PSD ficou todo ufano e agora já fala alto e canta de galo por ter ganho as eleições europeias em que houve uma abstenção monumental.

Mas seria bom que certas pessoas no PSD pensassem bem qual o campo político que tinha razões para se abster de votar. Certamente não era o campo da Direita; quem se absteve de votar foi a Esquerda. Esta, sim ― zangada, ferida, traída, achincalhada e desprezada pelo PS e sua maioria absoluta ―, não foi votar desta vez.

Um exemplo apenas: aqui desta humilde palhota de onde escrevo, o PS teve 4 votos nas últimas legislativas; nas europeias de há dias... teve: zero, noves fora, Zero.

Mas a malta irá votar nas legislativas!...

Querem saber o sentido do voto? Telefonem a perguntar que já vos damos uma resposta errada para vos baralhar as sondagens.
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terça-feira, 30 de junho de 2009

A VIRTUDE FILHA DO PECADO

(SEMPRE ME PARECEU QUE ASSIM É)

Notas biográficas de Winston Churchill colhidas aqui do Abrupto. Que publico para dizer que este é o homem que me merece toda a confiança e em quem na altura eu também votaria. Por toda a sua experiência de quarenta anos mas também porque, entre outras coisas, «era velho, gordo, bebia, era demasiado nobre de nascimento, tinha dívidas, maus costumes e língua afiada.»

«Quando Churchill chegou em 1940 ao lugar de primeiro-ministro de uma nação em guerra e a perder essa guerra, tinha quase quarenta anos de experiência parlamentar. Tinha sido quase tudo o que se podia ser: militar, estratega, parlamentar, ministro, jornalista, escritor, historiador, homem público, tudo. Era certamente uma das faces mais "gastas", como agora se diz, da vida política britânica. Era, com igual certeza, uma das pessoas que menos "renovação" traziam ao governo, ele que já por lá tinha passado várias vezes e algumas delas de forma bem conflitual. Era, com a certeza das certezas, uma personalidade "pouco consensual", tendo distribuído uma seara de ódios, de facções, de confrontos, de polémicas, ímpar nesses mesmos quarenta anos que o século durava. Tinha inimigos, completamente hostis, que o consideravam tudo aquilo que a política não devia ser: era acusado de ser irresponsável, incompetente, vingativo, belicista, conflituoso, quase um traidor. Os seus adversários odiavam-no muito menos do que os seus correlegionários, um sinal de intensidade do ódio muito particular. No seu partido tinha os maiores inimigos, que o acusavam de tudo o que de mal acontecera ao Reino Unido, desde derrotas militares sangrentas até a desastres eleitorais. Para além disso, era velho, gordo, bebia, era demasiado nobre de nascimento, tinha dívidas, maus costumes e língua afiada. E, homem da escrita e dos jornais, panfletário e excessivo, também não tinha os jornalistas em grande consideração.»
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sexta-feira, 26 de junho de 2009

DA MORTE DE JACKO

A morte de Michael Jackson impressiona-me. E impressiona-me da mesma maneira como me impressionava a sua vida (pelo menos na forma como era relatada ao público): estranha.

Juntamente com Marilyn Monroe e Elvis Presley, Jacko, para além de estrela excepcional do mundo da arte musical e do espectáculo, era também um mito vivo.

Com a morte de Jacko constato que nos Estados Unidos as estrelas míticas de excepcional dimensão costumam desaparecer tragica e inesperadamente quando começam a entrar em declínio.

(Será assim tão perigoso ser-se estrela artística de excepcional grandeza na América?)

Constato ainda que a morte dessas estrelas contribui imprescindível e definitivamente para a perpetuação do mito.

E do negócio.
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terça-feira, 23 de junho de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO QUADRAGÉSIMA OITAVA:


(C)

E, prosseguindo o nosso Estudo, na realidade, o desprezo afixado, tornado público, divulgado à exaustão e ostentado pelas antigas potências coloniais exprimia o seu desacordo acerca do processo de descolonização e, concomitantemente, outorgava, em África, a ilusão de uma nova etapa franqueada, no âmbito do percurso da Liberdade. Nos factos, sem nenhuma excepção, os senhores de outrora julgavam os Africanos “de incapazes”/”incompetentes”/”corruptos”.
Todavia, se asseguraram, de modo insidioso, da penhora sobre o nosso futuro. Novos mecanismos, ainda mais humilhantes e mais destruidores, vão se afirmar. O contexto difícil vai mergulhar o Continente, num marasmo económico sem precedentes. Os efeitos acumulados do endividamento, da deterioração dos termos da permuta e os deficits públicos abissais ensombram os horizontes.
(b)
A reorganização política, institucional e económica posta em marcha, na sequência do acesso à soberania internacional, será rapidamente aniquilada, esmagada pela mecânica complexa de uma Ordem Internacional dominada pela “guerra-fria”, com todo o seu cortejo de tensões e de conflitos respectivos. Novos cismas aparecem. A símile referência ideológica vai servir de leme a Estados nascentes sem marca de referência e sem rasto. Muitos entre si se confundem, no campo democrático e liberal. Outros se juntam o “campo socialista” (soit-disant).
(c)
De sublinhar, entretanto, que sob a égide destas duas vertentes, uma idealista, igualitária e autoritária, outra antes portadora da Liberdade e da Igualdade, a Ordem Internacional só fez acelerar a ocorrência das trevas da decadência.
De feito, desde, aproximadamente, duas décadas, o uso do modelo milagre principiou. O balanço do novo modelo de desenvolvimento, inspirado nos seus fundamentos conceptuais do neo-liberalismo triunfante, é contestado, por causa da transgressão de regras simples que têm por designações a igualdade das oportunidades, a competição franca e leal e a primazia do Direito.
(d)
O vazio semântico, com uma nova conceptualização centrada na redução da pobreza, não traz nada de novo. Os factos estão aí! A semântica, sem dúvida simpática, não muda nada, no fundo. O dogmatismo nas escolhas, a despeito dos fracassos recorrentes é revoltante. A passividade dos poderes políticos ante uma coorte de funcionários arrogantes das Instituições Internacionais, pirotécnicos da desordem e da confusão respectiva, afiança deste consenso planetário, em torno dos valores desumanos e do estiolamento organizado da autoridade política, mecanismo necessário para a regulação e, sobretudo, para a protecção dos cidadãos.
De anotar, no entanto, que enquanto a África, estagnada, vivendo na imundice, sob o peso da miséria, as revoluções industriais, tecnológicas e científicas dinamizam as forças de produção e oferecem à Humanidade, riquezas ilimitadas.
Eis porque, actualmente mais que outrora, chegou o tempo azado da revolta, Revolta para a construção/edificação de novas regras do jogo, para a refundação das conexões sociais e da implantação de uma Ordem Internacional menos iníqua.
(e)
DESTARTE, Autoridades e Povos hesitam ante o desconhecido, mesmo, querendo, sempre se desarreigar da irremediável declinação da Potência.
Todavia, nesta fase de incertezas e de angústias, a aposta/repto constitui em escolher uma direcção, com audácia para sair das cruéis engrenagens actuais. Donde e daí, escolher sinal/marca de referência, num labirinto de fracturas, com tripla fácies Nacional, Continental e Mundial, se afigura inevitável, obviamente.
E, explicitando pertinentemente:
--- O Primeiro repto/aposta consiste em extrair ensinamentos dos nossos fracassos após tantos anos, ousar então fazer frente a realidade, para se levantar. O malogro económico, mais aparente que os demais outros, decorre da ausência de sólidas e robustas fundações institucionais democráticas. O modelo democrático só pode ancorar, de modo credível, em sociedades modernas. Com efeito et pour cause, a modernidade, filha da revolução cultural, se edifica, num sistema educativo performante e, no âmbito de uma “alfabetização” de massa eficaz.
--- A sedimentação das ideias de Progresso, graças à difusão do Saber, cria novas mentalidades, mais esponjosas aos ideais de Justiça, de Liberdade e de Equidade. A emergência, tanta admirada dos dragões da Associação de Nações do Sudoeste Asiático (ASEAN), se encontra associada, entre outros, a bases simples, designadamente, ler, escrever, contar e empreender. A deslocação não se faz em direcção à África por causa da ignorância, da ausência de Justiça e, consequentemente, pela gravidade dos riscos.
Antes de mais, uma Elucidação oportuna:
A Associação de Nações do Sudoeste Asiático (ASEAN) é uma organização regional de Estados do Sudoeste Asiático, constituída a 8 de Agosto 1967. Os principais objectivos da ASEAN são acelerar o crescimento económico e fomentar a Paz e a estabilidade regionais. A ASEAN estabeleceu um Fórum conjunto com o Japão e um Acordo com a UNIÃO EUROPEIA (U. E.). A sua sede e o seu secretariado permanente encontram-se em Jacarta (cidade capital da Indonésia).
DESTARTE, no ano de 1992, os Países participantes decidiram transformá-lo em zona de Comércio Livre, a ser implantada gradualmente até 2008. Foi fundada originalmente, pela Tailândia, Indonésia, Malásia, Singapura e Filipinas.
Dos seus Membros de Pleno Direito:
Os actuais membros da ASEAN são (por ordem da data da adesão):
--- Tailândia (1967);
--- Malásia (1967);
--- Singapura (1967);
--- Indonésia (1967);
--- Brunei (1984);
--- Vietname (1995);
--- Mianmar (1997)
--- Laos (1997);
--- Cambodja (1999).
Membros observadores:
--- Papua Nova Guiné;
--- Timor-Leste.

Lisboa, 20 Junho 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista—Cidadão -do Mundo).
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quinta-feira, 18 de junho de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO QUADRAGÉSIMA SÉTIMA:


(B)

(1)

Na verdade, realmente, a situação dramática exige um novo tipo e modelo de Combate, o da Coragem para a Justiça, contra a brutalidade e a crueldade, ao Serviço da Solidariedade enérgica e activa, visando à eclosão/nascimento de uma Alma sã e pura num Continente olvidado, marginalizado e esmigalhado.
Hoje, com efeito (nos dias que escoam, célere e, sob o Signo da Incerteza), despontam, no Horizonte, sinais anunciadores do Advento de uma Nova ERA. A marcha imparável para a Democracia (na sua assunção, a mais genuína e autêntica), principiando, pelo modelo participativo, é irreversível. De anotar, no entanto, que as resistências são naturais, obviamente. Porém, os diques, os mais sólidos e robustos, cederão sob a pressão das ondas da Esperança. Enfim, esmagar as resistências far-se-á, na Dor e Sofrimento.

(2)

De feito, as Mudanças se operam, frequentemente na Dor, Dor, aliás, geradora da felicidade do Porvir. As Revoluções inglesa e francesa são disso, exemplos, quão eloquentes e, quão, assaz vivos. A Inglaterra decapitou o Rei Carlos I, no longínquo ano de 1649. Na verdade, o conflito metafísico, opondo os puritanos protestantes do Político e Lorde Inglês, OLIVER CROMWEL (1599-1658) contra os prosélitos dos reis STUART passou por isso. Por seu turno, a Guerra da Secessão fez, na América do Norte, 620 000 vítimas, das quais 51,6% eram nordistas, muito mais que as vítimas causadas pelos conflitos no Vietname e na Primeira Guerra do Golfo, somadas.
Não há dúvida nenhuma, que a passagem para uma fase de modernidade, se encontra em plena Marcha. Uma série de Universais Humanos, suavemente se ancoram, no entanto, de consignar irremediavelmente no quotidiano das populações africanas. As inevitáveis fases tumultuosas exprimirão esta modernização que apenas se demorou demasiado.

(3)

No nosso Mundo Hodierno, a localização geográfica dos Grandes Eventos/Acontecimentos Humanos, em nada, aniquila o seu impacto sobre as novas vidas de Alger ao Cabo, donde então, evidentemente a necessidade imperiosa da grande complexidade que deve nortear a organização da resistência a implantar.

O Combate a se devotar é, assaz multiforme e, quão complexo, ipso facto. Não é o de uma categoria contra uma outra, nem de uma etnia contra a outra, ainda menos, de um país contra o seu vizinho. Muito pelo contrário, é Solidário. Deve servir para dinamitar a golilha da submissão, da incultura e da ignorância, da discriminação e da desigualdade entre os sexos, da crueldade e da fome.

(4)

A ruptura de ao pé do modo actual de orientar o nosso devir é uma Exigência Histórica.
E colocar, sobre o nosso Destino/Desígnio, diante dos que nos conduziram na démarche da vergonha e da humilhação, é, uma outra. Os prontos a vestir programáticos malograram, se fracassando sobre os muros da Injustiça, da Incúria e do Arbitrário, frutos da reprodução dos Sistemas oligárquicos em vigor e funcionamento respectivo.
De feito e, sem sombra de dúvida nenhuma assumir esta decisão é a única alternativa possível e, consequentemente, com grande hipótese de êxito seguro contra à decomposição em curso.

(5)

E, em jeito de remate assertivo:
Efectivamente, a exigência do risco, para renascer e emergir, pressupõe muita, muita audácia. Aí se jogam o nosso porvir e o das gerações vindouras. É, realmente, desta vontade que virá o sobressalto para forçar o Destino/Desígnio, num Mundo pleno e, outrossim prenhe de incertezas e de angústias.
Ontem, com o advento das Independências, os Africanos imaginaram edificar Estados nações, onde a Honra, a Justiça, a Dignidade, a Procura da Felicidade estarão garantidos, da forma, a mais consequente possível. Muitos Africanos acreditavam no término da miséria e da servidão. Este desejo, quão profundo e, quão legítimo, não era algo, sem fundamento óbvio. Com efeito, o acesso à soberania suscitou, em numerosos países, imensas esperanças ante às devastações inerentes às condições de vida de todos os dominados.

Lisboa, 17 Junho 2009
KWAME KONDÉ
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segunda-feira, 15 de junho de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO QUADRAGÉSIMA SEXTA:
A
(I)

“L Afrique noire (est ou était) mal partie” escrevia, com densidade e húmus respectivo, no ano 1962, o pacifista, agrónomo de prestígio internacional, ecologista conceituado, o francês, RENÉ DUMONT (1904-2001).
Desde então, as imagens difundidas pelas médias de massa são bem mais funestas, que esta profecia anunciada não deixa pressagiar. Os factos são acabrunhantes para a África, para a espécie humana, enfim, para Todos, sem excepção.
Explicitando adequadamente, vejamos então:
O Genocídio Ruandês, a Sobrevivência e o Antagonismo bárbaro dos tribalismos residuais, a ruína avançada da Somália, a Proliferação dos órfãos, corolários revulsivos do SIDA, o Terrorismo de massa concebido pelo fundamentalismo obscurantista e resíduos dos sincretismos religiosos, a desintegração virtual da Costa do Marfim, a persistência da crónica e deletéria crise no Zimbaubwe e os recentes Eventos/Acontecimentos, assaz trágicos no Quénia e na África do Sul, não são, na verdade, meros factos isolados.
Com efeito, não há dúvida nenhuma, que estamos perante um autêntico e verídico enfraquecimento, quão generalizado e, quão preocupante!

(II)

Todavia e, a despeito de tudo, muitas mulheres e muitos homens decididos e afoitos tentam se desarreigar da rampa da miséria. O seu combate francamente temerário, apesar das divisões e das temporalidades diferenciadas, testemunha acerca desta marcha forçada para vislumbrar e, porque não, poder ocupar um lugar ao sol.
Eis que, então o céu pardacento da África foi iluminado por quatro (4) Acontecimentos de alcance Continental, ou seja: O fim do odioso Sistema do Apartheid, na África do Sul, a Instauração gradual de Sistemas políticos de “tonalidade”- soit disant – “democrática e liberal”- o Nascimento da União Africana e o Lançamento do Novo Partenariado para o Desenvolvimento da África.
Trata-se, apenas de mais um dos sinais anunciadores de um possível renascimento africano, ou, não passa de uma mera expressão de uma remissão fugaz de um cancro metastasado? É a questão que paira soturnamente, no Horizonte incerto dos Grandes Eventos Humanos, mais uma vez. A ver, vamos! ...

(III)

Por razões e motivos óbvios, a nossa convicção é que a África só é tão grande, quando se volta para si mesma e extrai do mais profundo dos seus arcanos, nos seus valores de elevado Humanismo, força e, outrossim, uma esperança eminentemente viva e prenhe de porvir. Deste modo, nestes azados momentos, sabe, evidentemente, se congregar e banir, com uma robusta eficácia, os estultos demónios do ódio.
Continente aparentemente “pobre”, singular e, outrossim sui generis, infelizmente marginalizado, a África é um dos berços, melhor dito, aliás, o verdadeiro Berço da Humanidade, com todo o seu esplendor, de forma cientificamente, concreta, à partir da descoberta dos australopithecos, no Rift Valley e, recentemente do de Toumai (o Primeiro Homem), encontrado, num fóssil de sete (7) milhões de anos, na República do Chade (Estado da África Central), no ano 2003, sem olvidar, obviamente, o homo habilis e o homo errectus. Desde então, se o sabe actualmente, que, na verdade, principiou a longa e complexa “Aventura Humana”.
De feito, de sublinhar, que Jazigos Africanos receptam os mais vetustos Hominídeos cuja a evolução se acompanhou da indústria acheulense com o homo errectus. Na Europa, a espécie denominada, o Homem de Neandertal é um derivado do Homo Sapiens africano.
Já agora, uma elucidação pertinente e oportuna: Acheulense se diz de uma indústria do paleolítico antigo/inferior, caracterizada pelo uso de grandes sílex talhados como bifaces.
Por outro, tão longe, quanto se possa remontar no tempo, na Idade do Ferro, na conjuntura, se observa que os Povos Africanos terão franqueados estas decisivas etapas associadas às mutações demográficas, às alterações erráticas, porém, contínuas do Ambiente, assim como, aos efeitos associados às múltiplas deflagrações dos sincretismos religiosos e culturais.

(IV)

Todavia, se impõe consignar, com ênfase, que é a rigidez e a brutalidade da ancoragem da África, no Sistema Mundial que engendrou as rupturas, as mais profundas, absolutamente.
Nesta Terra, (hoje em dia), presentemente, quão abandonada e, quão desamparada, porém, outrora, autêntica locomotiva do Mundo com o Egipto, nasceram escravos e mãos de obra servis, vassalos do tráfego de uma importante porção da Espécie Humana.
Historiadores idóneos relataram, com um mínimo de rigor científico as etapas marcantes das mutações do Homem Africano e das suas capacidades, onde se pode verificar claramente que, na verdade, as Sociedades Africanas demonstraram as suas habilitações e aptidões respectivas em se transformar. Demais, de referir, ainda que, ulteriormente, o Continente conheceu epopeias com os Fatimidas, os Almoranidas, os Almohadas, o Mali, os reinos Yorubas, os Impérios do Benin e Gao, para só citar estes, evitando ser exaustivo.
Eis porque, os Africanos podem e devem ser considerados, sem favor e preconceito de espécie alguma, como os edificadores/construtores anónimos de grandes Civilizações. Donde, com assumida modéstia, se impõe, asseverar avisadamente que a África serviu eloquentemente o Universal dominado actualmente, pela potência do dinheiro. Aliás, não é por mero acaso, que o conhecido e conceituado historiador africano (natural de Burkina Faso) o Professor Joseph KI-ZERBO (1922-2006), escreveu, em substância, na sua obra mais recente (Repères pour l’Afrique, Panafrika), que ela (a África) “a enfanté la civilisation humaine”.

(V)

No entanto, o que é facto é que o tempo da conquista pelas armas terminou. As guerras coloniais, as vagas dos djihads, os contextos bélicos, a espiral dos actos de violência militares, enfim e, em suma: numa eloquente asserção o caos de outrora terminou.
Porém, a violência perdura sob a forma, a mais perniciosa possível. Aliás, foi neste sentido, que o filósofo francês, Jean-Paul SARTRE (1905-1980) asseverou avisada e magistralmente nos termos seguintes: “La violence n’est pas nécessairement un acte …Elle est absente en tant qu’acte de nombreux processus … Elle n’est non plus un trait de Nature ou une virtualité cachée… Elle est inhumanité constante de conditions humaines en tant que rareté intériorisée, bref, ce qui fait que chacun voit en chacun l’Autre et le Principe du Mal… Aussi n’est-il pas nécessaire pour que l’économie de la rareté soit violence qu’il y ait des massacres et des emprisonnements, un usage visible de la force… Il suffit que les relations de production soient établies et poursuivies dans un climat de crainte, de méfiance mutuelle, par des individus toujours prêts à croire que l’autre est un contre homme et qu’il appartient à l’espèce étrangère ; en d’autres termes que l’Autre comme « celui qui a commencé » … Cela signifie que la rareté comme négation en l’homme de l’homme par la matière est un principe d’intelligibilité dialectique ».
De consignar, que efectivamente, esta reflexão remete para esta violência permanente, fugaz, indescritível, porém sempre presente, como uma assumida variável estruturante da nova cosmogonia. De feito, mais odiosa que um mero acto, estende a sua esfera em África, onde as populações desarmadas se sentem abandonadas por todos os homens que renegaram todos os elementos fundamentais da ética humana.

Lisboa, 13 Junho 2009

KWAME KONDÉ
(Intelectual Internacionalista Cidadão do Mundo)
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quinta-feira, 11 de junho de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO QUADRAGÉSIMA QUINTA:


Para Principiar:

A emergência da África homicida é uma responsabilidade de Porvir. Compreender para explicar e tratar as problemáticas relevantes do nosso Continente passam pela equação de uma infinidade de variáveis. Isto exige e necessita, ipso facto, um hercúleo trabalho de reflexão e de implantação de propostas acerca do nosso devir colectivo. Deste modo, aliás, no âmbito desta dinâmica, ora enunciada, lançar um olhar, sem complacência, sobre a história africana e sobre a sua alma profunda devolve duas imagens contraditórias, designadamente:
-- Por um lado, uma imagem “papão” e funesta restituída pelos médias de massa;
-- Por outro, a portadora de esperança e selo de dignidade inspirada da maat faraónica e da mogoya bambara.
A despeito dos imensos desafios e reptos, despontam no horizonte, sinais anunciadores de renascimento. Renascimento tanto mais possível, pois que a “Mundialização”, apesar dos efeitos negativos, oferece a oportunidade e o ensejo para a construção de um outro destino e desígnio respectivo com a condição de se adaptar, resistindo, com uma eficácia consequente.
De consignar, que esta dupla dinâmica ora enunciada, na aparência, assimétrica, visa um único objectivo: O reforço solidário. Este, por seu turno, não é uma ideologia, ainda menos, uma concepção congelada. De feito, o uso, os contextos e as experiências conseguidas em África e algures fixarão as regras e o modo de funcionamento. Este se deseja evolutivo e aberto, pois que a sua essência, de fundo e primordial é inspirar para a acção.
Trata-se, enfim, de uma oportunidade de transportar solidariamente uma ambição inovadora, melhor adaptada aos egrégios desafios/reptos da nossa época. Por outro, não poderia, aliás, pôr em causa as identidades nacionais robustas. Muito, pelo contrário, abre-lhes uma outra avenida menos caótica. Ainda por cima, coloca ao seu serviço um poderoso vector de alerta/aviso da consciência africana e da democratização, na sua assunção, mais elevada e genuína, da própria governação.

(1)
Durante, mais de meio século, aproximadamente, a África viveu numa miragem de certezas quase instintiva cuja a mais distinta corresponde à noção do “cada um por si”. De feito, um tal individualismo, ingenuamente mais confiante, edificado sobre as bases de uma ascensão, mais célere, releva de uma ilusão evidente, tanto mais que cria as condições para um exercício absoluto do poder.
Esta visão ilusória, assaz redutora, conduziu ao impasse institucional e à inércia, ao naufrágio económico, à exacerbação da fragmentação territorial e a desigualdades intra nacionais e inter-regionais.
Engendrou, por outro, com efeito, um contexto inédito em África, onde se telecopiam desafios avultados e apreciáveis de natureza e de escala dissemelhantes. Eis porque, se afigura, quão difícil restituir os múltiplos efeitos e interacções respectivas oriundos, como corolário lógico, de tais reptos, que participam de uma idêntica mecânica global da derrota/falência/ruína generalizada.

(2)
Donde, para responder a estes desafios, concomitantemente, estratégicos e urgentes, em tempo útil e oportuno, com uma eficácia, quão assumida, requer muita audácia, vontade férrea e humildade respectiva. Não se trata menos que de pôr em causa, o nosso modo de ver, de actuar, agindo e de prosseguir sobre o longo prazo para crer, acreditando em futuros, assaz melhores. O que supõe, aliás, obviamente, a assunção em nosso proveito, da acertada visão do conceituado filósofo alemão (um exímio historiador do gnosticismo), HANS JONAS (1903-1993), ou seja: “a responsabilidade para outrem”. O que significa, acima de tudo, que devemos ser dextra e abertamente audacioso (s) e determinado (s) e dar a voz a vontade para falar, o mais eloquentemente possível.

(3)
Não há dúvida nenhuma, efectivamente que é possível, renascer das cinzas, dotando-se de ambições vastas e amplas, aliando o progresso social à prosperidade económica e “governá-las doutro modo, aliás”. A este respeito, uma governação baseada na edificação de novas territorialidades concertadas e aprazadas e, outrossim e, ainda, uma restauração completa da integralidade das novas conexões com a comunidade internacional, abre, ipso facto, uma outra avenida portadora de esperança.
De feito, se impõe sublinhar, que as demagogias incessantemente destiladas nos precipitaram numa anfractuosidade abissal. Donde e daí, urge desarraigar do declive da decadência, propondo uma alternativa apta a responder, com eficácia aos desafios/reptos convergentes que interpelam a África contemporânea.
No fundo, no fundo, hoje mais que nunca, temos necessidade de ter coragem assumida, quite para virar de baixo para cima, assertivamente as verdades impostas pelo pardo tempo, o mimetismo cego e o conformismo contra-produtivo.

(4)
E, finalmente, em jeito de remate assertivo: Uma nova África é necessária. Deve ser, obviamente a filha eleita de uma vontade comum, esteando, numa robusta convicção partilhada, de uma visão estratégica luminosa e, outrossim, de uma definição judiciosa das respostas coordenadas aos desafios/reptos e às ameaças respectivas susceptíveis de as de levar de vencida, se não forem domadas e, bem assim, as barragens, as mais betonadas possíveis. Eis, sim, efectivamente, o sentido da restauração e renovação, a levar a cabo, ao serviço da esperança e da grandeza africana.
Constitui, seguramente, outrossim, uma forma inteligente de se revoltar e de fazer uma introspecção apropriada a respeito dos nossos percursos, assaz caóticos.
Na verdade, são os fundamentos, ora enunciados que outorgam o nosso Continente, o berço da Humanidade e, outrossim e, ainda berço da Escrita, uma oportunidade única de transportar colectivamente uma ambição prestigiante, acelerar as indispensáveis mutações estruturais e, quiçá poder desempenhar um papel fulcral à altura da sua real dimensão e envergadura respectiva, no âmbito da História da Humanidade.

Lisboa, 10 Junho 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual Internacionalista — Cidadão do Mundo).
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segunda-feira, 8 de junho de 2009

DE DEUS E DO HOMEM

Descoberto há cerca de 26 anos, mas só este ano dado a conhecer ao público, Ida, baptizado de Darwinius masillae em homenegem aos 200 anos de Charles Darwin completados este ano, é um fóssil de um vertebrado em tudo semelhante aos mamíferos, e sobretudo ao homem: tem quatro membros (embora o membro de trás e esquerdo não tenha sido encontrado) terminados em 5 dedos sendo um deles o polegar; a coluna vertebral bem como o tórax e a bacia fazem lembrar a anatomia humana; e a cabeça com os maxilares um pouco salientes à frente aproxima-se na sua conformação à dos hominídeos e primatas mais antigos de que descendemos.
O mais espantoso aqui é saber que Ida foi datada de 47 milhões de anos (de idade).

Isto dá que pensar. Muito. Pensar em Deus. E pensar nas várias religiões que o homem entretanto inventou em nome de Deus.

Deus meu!
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KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO QUADRAGÉSIMA QUARTA:

(…)
“Deixemos de histórias: toda a gente sabe que
os cabo-verdianos, negros, mestiços ou de pele branca,
são africanos de uma colónia africana de Portugal.
Para aqueles que porventura não saibam onde fica
Cabo Verde basta que olhem bem para um mapa.
Para aqueles que não conhecem Cabo Verde, basta
dizer-lhes que a sua população é constituída de 97%
de negros e mestiços e apenas 3% de gente branca,
Incluindo os europeus”. (…)
“Mas não é demais lembrar que a população de
Cabo Verde provém fundamentalmente de escravos
levados da Guiné e da costa ocidental africana”. (…)
“É bom afirmar sem rodeios que, mesmo que em
Cabo Verde houvesse uma população nativa cuja maioria
Tivesse pele branca, como acontece nos países da
África do Norte (Argélia, Marrocos, Tunísia, etc.) os
Cabo-verdianos não deixariam de ser africanos”. (…)
Extractos respigados do Manifesto (Carta Aberta) “Aos Cabo-verdianos residentes na República do Senegal”, da autoria de
Amílcar CABRAL, vindo a lume no ano de 1961.

(II)
“J’appartiens au grand jour”proclama eloquente e veementemente o Poeta camaronense/camaronês, Paul DAKEYO (Doutor em Sociologia, identicamente Editor), nascido no ano de 1948, um dos críticos mais ácidos da Négritude de SENGHOR.
No entanto, o que mais importa, obviamente, é que, na verdade, para além do essencialismo das teorias raciais e da ilusão da solidariedade vinculada à cor suposta da pele, existe, sobretudo a activa e imparável erosão do tempo que passa. Donde e daí, a pertinência das questões seguintes:
--- Com efeito o que existe entre a filosofia de vida da multimilionária afro-americana de Chicago, a OPRAH WINFREY e a das senegalesas emigradas que vendem bibelots nas ruas de Nova Iorque ou de Dacar?
--- Outrossim, o que existe de comum entre um Barach OBAMA (nascido de um pai queniano, que praticamente não conheceu) e de uma mãe norte-americana do Kansas, que o educou no Hwai e na Indonésia e os seus irmãos e sobrinhos de Nairobi, que nem sequer ele sabia da respectiva existência e com os quais jamais manteve relações familiares?
--- Enfim, o que significa a biologia num mundo, onde o negro e o branco se declinam numa paleta infinita de cores?
E, concluindo avisadamente, na verdade, o mito da homogeneidade racial do mundo negro e das visões do Mundo, que supostas daí emanam não resiste à análise, e, por que não, outrossim à uma exegese objectiva.

E, prosseguindo, dextramente esta nossa elocubração, se nos afigura pertinente, consignar, que os Africanos actualmente são amiúde, autênticos cidadãos do Mundo, mesmo quando não abandonaram o seu território de nascimento. E, explicitando um pouco melhor as nossas ideias, temos que:
-- Deste modo, eis porque, os progressos tecnológicos e os desenvolvimentos da comunicação permitem (doravante, de hoje em diante, para o porvir) a camponeses cabo-verdianos conhecer, concomitantemente, as decisões e comportamentos respectivos dos agricultores zimbaubianos ou indianos.
-- Identicamente, os estudantes camaronenses podem acompanhar através da Internet todos os cursos de economia que ministram os professores do Massachussetts Institute of Technology em Bóston.
-- Enfim, militantes dos direitos humanos no Gana podem seguir praticamente em directo nas cadeias de televisão, a evolução da situação política no Darfur ou na Etiópia.
Na verdade, verdade, o Mundo se encontra, realmente, muito, muito mais, mesmo, acessível que há meio século atrás. E, como corolário lógico de tudo isto, os nossos imaginários extraem, muito mais que não se acredita, no património filosófico desse Mundo, de que todos nós, sem excepção, fazemos parte integrante, absolutamente. Eis porque, a Négritude, como filosofia de vida não poderia, hoje, nos nossos dias, ser o que fora outrora, por motivos óbvios.
Aliás, é no âmbito desta dinâmica e perspectiva respectiva, que o insigne historiador camaronês, Achile MBEMBE (n-1957) fala de um “afropolitanisme” que designaria a emergência de uma nova sensibilidade cultural, histórica e estética, da “conscience de cette imbrication de l’ici et de l’ailleurs, la présence de l’ailleurs dans l’ici et vice versa, cette relativisation des racines et des appartenances primaires, et cette manière d’embrasser, en toute connaissance de cause, l’étranger et le lointain, cette capacité de reconnaître sa face dans le visage de l’étranger et de valoriser les traces du lointain dans le proche, de domestiquer ‘in-familier, de travailler avec ce qui a tout l’air des contraires ».

Eis porque, como milhões de demais outros Africanos, sentimos sobremaneira, o herdeiro desta longa tradição de permutas que invalida todo feitichismo (idolatria/veneração) biológico e racial. De feito, não há dúvida nenhuma, que as civilizações não são partículas químicas estanques. Dito isto, algumas gerem melhor o processo de fusão absorção do que outros. Destarte, aliás, ninguém diria, por exemplo, que a China já não é “chinesa” porque, em cinco mil anos de história, integrou costumes e hábitos da Ásia Menor ou do Japão.
Na verdade e, na realidade, a imbricação do aqui e do algures em cada um de nós é um facto óbvio e inegável, porém, não se opera com idêntica intensidade, por toda a parte, e, os seus resultados não são, ipso facto, uniformes. Demais, por motivos e razões assaz óbvios, o fenómeno que consiste em se fundir em culturas oriundas de algures não atinge toda a gente e, decerto, não em idêntico grau. E de resto, aliás, se todos os cidadãos tivessem os mesmos backgrounds culturais, acabaríamos rapidamente por tornar idênticos. Deste modo, no âmbito desta dinâmica, a mestiçagem cultural já não teria razão de ser.

Donde e daí, como remate pertinente, definimos, por conseguinte, como autêntico cidadão do Mundo, obviamente, porém, Cabo-verdiano/ Africano, a despeito de tudo. Sim, efectivamente, é a partir da perspectiva desta “africanidade” sincrética que agimos, actuando, o mais conscientemente possível, outrossim e, ainda, observamos os nossos semelhantes e interpretamos os seus Pensamentos respectivos.
Lisboa, 05 Junho 2009

KWAME KONDÉ
(Intelectual Internacionalista - Cidadão do Mundo).
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ELEIÇÕES?

Disseram-me que ontem houve eleições.
Vou já ler a imprensa a ver se é verdade.

BOM DIA
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sexta-feira, 5 de junho de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO QUADRAGÉSIMA TERCEIRA:

(I)
--- O vocábulo/lexema “Négritude” é, na verdade, destes termos/expressões que embotaram, adormentando pela sua própria história. Eis porque, se afigura prudente, se esforçar por precisar os seus contornos respectivos, antes de o utilizar.
--- Vindo a lume, pela primeira vez, sob a pena do poeta e dramaturgo antilhano, Aimé CÉSAIRE (1913-2008), no longínquo ano de 1935, num famigerado artigo da revista L’Étudiant noir, designava, sobretudo, um movimento literário e político. Procurava exprimir “l’ensemble des valeurs culturelles du monde noir”, segundo o intelectual senegalês Leopold Sédar SENGHOR (1906-2001) e de se servir dessas como alicerce para a revalorização da humanidade contestada dos povos negro africanos.
No fundo, no fundo, definia, por conseguinte, concomitantemente, uma atitude de orgulho filosófico e a nervura intelectual de um movimento político de reconhecimento de um povo oprimido, se encontrando, na época ainda, sob o domínio colonial. Deste modo, impossível, aliás, se afigura avaliar o impacto da négritude sem a re situar no contexto da sua peculiar génese histórica.

--- Os seus prosélitos inscreviam, demais a sua acção respectiva no rasto de uma vetusta tradição negra americana de dissidência e de valorização de uma identidade achincalhada pelo Tráfego dos Negros e a escravatura. Donde e daí, o vocábulo “Négritude”, estandarte desta revolta, recuperava a Ideia de Blackness, já em voga nos escritos de autores norte-americanos, designadamente o poeta, novelista, dramaturgo, contista e colunista, Langston HUGHES (1902-1967) e o escritor engajado, aliás, sem dúvida, o maior romancista norte-americano, Richard WRIGHT (1908-1960) e, de demais outros animadores da Harlem Renaissance.
Vale a pena abrir um breve parêntese para elucidar acerca da Harlem Renaissance: Trata-se de uma expressão oriunda do nome do célebre bairro negro de Nova Iorque e que ia ser ulteriormente o título de uma antologia The New Negro (1925) dirigida pelo escritor, filósofo e pedagogo norte-americano, Alain LeRoy LOCKE (1885-1954), congregando textos de intelectuais e artistas negros que pretendiam apresentar aos olhos do mundo uma amostra da efervescência cultural e da liberação do imaginário negro norte-americano.

--- De feito, de sublinhar, que a “Négritude” era, por conseguinte, na sua génese e origem respectiva, um vector de reapropriação da dignidade dos povos oprimidos.
Assim, no âmbito desta perspectiva e contexto respectivo, o filósofo, romancista e autor dramático francês, Jean-Paul SARTRE (1905-1980), ao prefaciar, no ano de 1948, a Antologie de la poésie nègre publicada por SENGHOR, se exaltava arrebatadamente ante esta tomada de palavra por pessoas a quem tinha sido, durante bastante tempo, imposto uma mordaça, afirmando com uma adorável ingenuidade: “La poésie noire est angélique, elle annonce la bonne nouvelle; la négritude est retrouvée”.
Todavia, o que é facto, em se posicionando como um movimento de resposta ao domínio branco, a Négritude assentava na visão idílica e sumptuosa de um mundo negro que, na realidade, jamais existira. Eis porque, a Négritude como mera rejeição do sofrimento e exaltação da alegria de dançar e de reivindicar a “personalidade negra”, permitiria, obviamente, aos novos leaders políticos e elites africanas se ofertar um lugar ao sol. No entanto, se afigura percuciente consignar, que exactamente porque se focalizava sobre a questão racial, sonegava, por exemplo, os problemas de classes.

--- De sublinhar, que no término da década de 1960, CÉSAIRE se esforçara por repor a Négritude no seu verdadeiro contexto histórico, insistindo no seu papel de conexão entre grupos de populações, partilhando uma história comum plena de sofrimento e de humilhação: “C’est un mouvement qui affirme la solidarité des Noirs de la Diáspora avec le monde africain. Vous savez, on n’est pas impunément Noir, et que l’on soit Français – de culture française - ou que l’on soit de culture américaine, il y a un fait essentiel : à savoir, que l’on est Noir, et que cela compte. Voilà la négritude. Elle affirme une solidarité. D’une part dans le temps, avec nos ancêtres noirs et ce continent dont nous sommes issus (cela fait trois siècles, ce n’est pas si vieux), et puis une solidarité horizontale entre tous les gens qui en sont venus et qui ont en commun cet héritage. Et nous considérons que cet héritage compte ; il pèse encore sur nous ; alors, il ne faut pas le renier, il faut le faire fructifier – par des voies différentes sans doute – en fonction de l’état actuel – et devant lequel nous devons bien réagir » ( Entrevista concedida ao Magazine littéraire, 1969).
Por conseguinte, a Négritude, se assume, como relevadora de uma experiência particular de vida peculiar a povos disseminados através da África, das Caraíbas, da América e da Europa. A Négritude assume, outrossim e, ainda, como revelação de um património de Humanidade que vários séculos de uma história ensanguentada não apagaram completamente. Enfim e, em suma: A Négritude se assume, como um aggiornamento filosófico necessário para a restauração de um imaginário ofendido e ferido pelas injustiças da opressão, porém, sempre capaz de se reinventar para fazer frente (opondo-se) às necessidades e às urgências do momento.

Lisboa, 02 Junho 2009
KWAME KONDÉ
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