quinta-feira, 14 de maio de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO TRIGÉSIMA SEXTA:


Não há dúvida nenhuma, que a hipótese de um desaparecimento do essencial dos jornais papel e da subversão da produção da informação, cada vez, mais e mais, se assume, em força, no horizonte dos futuros grandes Eventos humanos, que, ipso facto, e, por razões e motivos óbvios, se impõe estudar, consentânea e apropriadamente, em tempo útil e oportuno.
Sim, efectivamente, toda a gente reconhece que a imprensa está “em crise”. Todavia, como para os mercados financeiros, só se trataria, reformando a regulação, como sentenciam os responsáveis pela situação… Ou seja:
Melhorar a distribuição, se diminuir os custos da produção,
Recapitalizar os grupos de imprensa,
Desenvolver os sites Internet,
Reorganizar os apoios,
Deste modo, as pessoas precipitar-se-ão, de novo, nos quiosques para comprar os seus jornais…Enfim…Hélas!

Com efeito, afirmar, muito e, porque não, demasiadamente que não é necessário jouer as Cassandras, se terminou por olvidar que o problema não estava na Cassandra, desgraçada condenada a repetir uma verdade que o seu povo não queria ouvir e escutar, porém, os Troianos, que não a davam crédito, quando ela lhes anunciava a destruição da sua cidade. Todavia, o que é facto é que a denegação da realidade não impediu, antes pelo contrário, a morte de Tróia, tanto como (não mais que, obviamente), não evitará a falência dos jornais.
Demais, de sublinhar, que esta atitude de denegação não diz respeito, unicamente à imprensa. Verificou-se com os economistas e com os responsáveis políticos ante à crise financeira e económica. Eles, outrossim, repetiam inlassablemente au fil des mois, fórmulas apaziguadoras, do género, designadamente, “a crise se encontra atrás de nós”, “o perigo sistémico foi conjurado” e de demais afirmações e quejandos estultamente panglossianos.

Antes de mais, vale a pena, por imperativo pedagógico, apresentar em síntese apropriada, o Ponto da Situação adentro desta problemática. Temos então:
---Uma ascensão em flecha da Internet, migração dos budjets publicitários e pequenos anúncios para médias electrónicos, desafeição do jovem público para a escrita, cultura do tout-gratuit…Tais são algumas das tendências pesadas enformadoras da revolução em curso, no âmbito da imprensa escrita.
---Dos Estados Unidos da América à Europa e, outrossim, à demais outros países do Planeta, se nos deparam uma indústria sinistrada, que se vendo duplamente desamparada pelo público e pelos anunciantes, já não outorga demasiados mercês para permanecer viável e, outrossim acumula os planos de rigor e os despedimentos, quando não estão na bancarrota.
De consignar avisadamente, que a ideologia “libertária”que acompanha o triunfo da Internet contribui, por vezes, para sonhar, com um outro modo de comunicar, melhor dito, constitui, frequentemente apenas um biombo atrás do qual se edificam poderosos monopólios económicos para os quais a informação é apenas um mero produto de chamamento entre tantos outros.
Enfim e, em suma: a revolução numérica das médias mascara, aliás, uma outra subversão, posta em marcha, muito antes da Internet, outrossim, porém, devastadora, cujos os efeitos se combinam doravante (de hoje, em diante, nos nossos dias, e, outrossim e ainda para o futuro): Sim, efectivamente, o interesse das nossas sociedades para a informação se carcome, corroendo fatalmente.

Todavia, o que é importante assinalar, com ênfase, é que, na verdade, os problemas da imprensa não podem e não devem, destarte, se resumir na existência ou não de “grandes grupos médias”, mesmo se os entraves legais à sua diversificação constituíram durante demasiado tempo, um autêntico handicap. De feito, a constituição de tais grupos não correspondem necessariamente aos desafios/reptos colocados à produção da informação. Por outro, a confusão entre o que se habituou a denominar “médias” e os órgãos de informação contribui sobremaneira para enredar, ofuscando os respectivos diagnósticos. Eis porque, se deve estar, necessária e seriamente inquieto, no atinente à sobrevivência da imprensa e “médias” de informação.
Estes vivem uma revolução de origens, assaz remotas, designadamente, desafeição e desconfiança dos leitores, concorrência das televisões, envelhecimento do leitorado, custos de fabrico elevados, etc. mas que, desde o tournant dos anos 2000, se acelerou bruscamente.
Na realidade e, na verdade, três novas revoluções se produzem quase concomitantemente, a saber:
---A generalização do numérico;
---A queda quão colossal e quão brutal do interesse das jovens gerações para a escrita e para a informação e,
---O abandono da informação como suporte privilegiado para a publicidade, o que exauriu a sua principal fonte de receitas.
Tudo isto, é bastante para comprometer a sobrevivência dos jornais, dos quotidianos, em primeiro lugar, quiçá, outrossim, porém da maior parte de médias de informação e, porque não, da informação de qualidade. Existe, evidentemente, uma massa crítica – de leitores, de receitas, de difusão – deste lado da qual tudo pode se desmoronar.

Quando uma revolução se produz, tudo deve ser repensado. O sistema de produção e de difusão da informação tal como conhecemos desde aproximadamente dois séculos atingiu um ponto de balanceamento. Dentro em breve já não será o que foi, efectivamente. Donde, já não se trata de reformar para continuar como antes, sim de reinventar. E, se as organizações da cena pública, onde se confrontam as opiniões, à luz dos factos enunciados, o mais claramente possível, é a própria possibilidade da democracia que deverá ser redefinida, evidentemente.

“La mutation des médias classiques vers le numérique
Prendra du temps et, pour la recherche de l’information,
Google est en train de rafler la mise »
Alain LÉVY, in Le monde, 21 juin 2008

Efectuar o diagnóstico, mais pormenorizado possível destas subversões e reflectir apropriadamente sobre as respostas que urgem ser elaboradas deve constituir a verdadeira e autêntica ambição de todos os cidadãos conscientes, sem excepção. Sim, efectivamente, entramos num período de “caos”, sendo o caos um mero período de experimentações e, não, das ilusões, obviamente. Eis porque, mesmo o sonho de uma transferência pacífica do “print para o Web”, a passagem do papel para a Internet, deve ser discutida quando “a rendibilidade dos sítios de infos sobre Net, como o escreve um excelente observador, parece tão impossível de achar que se atreve seriamente a afirmar que ela não será provavelmente encontrada antes muito, muito tempo”.

As transições, mesmo revolucionárias, duram, por vezes, muito tempo. Sabe-se, aliás, que é difícil admitir que um mundo se acabe, se resignar a ver desaparecer o que conhecemos durante toda a nossa vida. Repetir que um mundo sem jornais é inimaginável, não dispensa assumir a dimensão do problema, porém, sem se embalar em ilusões, para poder o fazer frente e, deste modo, encontrar novas vias.
Eis, de facto, o sentido da démarche que se deve privilegiar, no âmbito desta dinâmica, obviamente.
E, comungando pedagogicamente com o conceituado filósofo francês, Jean-Pierre DUPUY, tendo presente a sua célebre teoria do “catastrophisme éclairé”, se afigura pertinente e oportuno transcrever o seguinte: “Même lorsque nous savons que la catastrophe est devant nous, nous ne croyons pas ce que nous savons. Ce n’est pas l’incertitude qui nous retient d’agir, c’est l’impossibilité de croire que le pire va arriver”.
Enfim, de feito, é unicamente, considerando que a catástrofe é inevitável que se pode disponibilizar, a sério, os meios para se a opor, com eficácia consentânea.
Todavia e, sem embargo, o essencial é abrir o debate sem astúcia, melhor dito, sem aparência enganosa.

Lisboa, 12 Maio 2009
KWAME KONDÉ
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domingo, 10 de maio de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO TRIGÉSIMA QUINTA:


(II):

O Pensamento sengoriano conheceu no período da sua juventude um episódio de racismo, quão breve e, quão efémero, conceptualizado sob a famigerada fórmula sartriana designada de “racisme antiraciste”. De anotar, em jeito de precisão oportuna, que esta fórmula em apreço e análise, foi assumida, num determinado momento por SENGHOR e rejeitada noutras ocasiões, tais como, por exemplo, no seu discurso pronunciado, a 21 Abril 1961, na Sorbone. Nesse dia, SENGHOR, no atinente à referida fórmula asseverá que:”Sartre n’a pas tout à fait raison”. Todavia, opostamente, na sua obra Négritude et humanisme (1964, p. 8) SENGHOR se fez exacto, ou seja:”La Négritude – asseverou – n’est donc pas racisme; si elle s’est faite d’abord raciste, c’était par antiracisme, comme l’a remarqué Jean-Paul Sartre, dans Orphée noir ».

De feito, SARTRE tinha forjado esta noção, em 1948, no prefácio que escreveu para uma antologia da poesia negra e malgaxe organizada então por SENGHOR, em que outorgou uma interpretação dialéctica da ideologia nascente: “En fait – asseverá SARTRE – la négritude apparaît comme le temps faible d’une progression dialectique; l’affirmation théorique et pratique de la suprématie du Blanc est la thèse; la position de la négritude comme valeur antithétique est le moment de la négativité. Mais ce moment négatif n’a pas de suffisance par lui-même et les Noirs qui en usent le savent for bien ; ils savent qu’il vise à préparer la synthèse ou réalisation de l’humain dans une société sans race. »

De sublinhar, porém, o que podia ser denominado racismo antiracista em SENGHOR legitimava duas coisas, designadamente:
---Primeiramente, pelo facto de desde a primeira Guerra Mundial, a questão racial e, mais precisamente, a “questão negra” se politizou, apoiada nesta dinâmica, pela rejuvenescência intelectual do panafricanismo que se organiza desde o início do século e da revolução de OUTUBRO na Rússia.
Ulteriormente, porque, em torno, do ano de 1929, a ideia de consciência racial desenvolvida por revistas especializadas e, não só, outrossim, revezada, através de uma nova literatura negra em gestação, vai determinar posturas e atitudes reivindicativas e militantes voltadas para a busca ou para a conquista da dignidade racial ao nível da intelligentsia negra na Europa.

(III):

E, no âmbito desta dinâmica e perspectiva, em SENGHOR, que vai lançar com os intelectuais antilhanos, Aimé CÉSAIRE (1913-2008) e Léon Gontran DAMAS (1912-1978), respectivamente, o movimento da négritude a patir do ano de 1932, o culto dos valores da raça e do “sang noir” vai se traduzir numa Literatura que se prolongará, ulteriormente, em elaborações teóricas mais ponderadas.
E, outrossim, mais tarde, o teórico da négritude dirá: “Je le confesse, toute orgueil se transforma vite en racisme; il n’est pas jusqu’au nazisme qui ne fut accepté pour renforcer notre refus de coopération…Nous avions alors la sincérité de la jeunesse et de la passion ». SENGHOR in Pierre Teilhard de Chardin et la politique africaine, Paris, Seuil, 1965, p. 20 et sq.

Deste modo, como corolário lógico, SENGHOR instalará num racialismo não racista.
Eis porque, a sua problemática de civilização do Universal só podia resultar de um pensamento da exclusão, de preferência, porém da complementaridade. Esta problemática em questão será desenvolvida através de um recurso a metáforas agronómicas e ópticas.

SENGHOR principia, destarte, por se servir dos ensinamentos oriundos da lavra do humanista francês, o reverendo/padre Francis AUPIAIS (1877-1945), recorrendo a imagem do enxerto do “scion sur le sauvageon”. Será questão de “lumière” e de “nuit”, de “levain” necessário para a “farine blanche”. Todavia, é sobretudo o pensamento do padre Teilhard de CHARDIN que fornecerá a SENGHOR a trama teórica permitindo ordenar de modo coerente, as suas ideias acerca da complementaridade das raças. Assim, o humanismo universalista e um determinado evolucionismo de tipo biologista constituem os factores de desconexão ou de libertação do pensamento sengoriano de toda lógica racista.
Demais, SENGHOR encontrará na linguagem “metabiológica” (oriunda de BERGSON e de Teilhard de CHARDIN), um meio de expressão apropriado e, outrossim, um pólo de ancoragem para um elóquio fundamentalmente biologista, pelo facto de se encontrar estruturado, em torno, de um determinismo racial além dos enunciados culturalistas.

Com efeito, a cultura ela própria é outrossim definida pelo teórico da négritude como uma “reacção racial” do homem sobre o seu meio.
Eis porque, a raça em SENGHOR se converte no lugar de verdade de toda cultura. É por ela que se explica a existência de invariantes culturais observados no Negro Africano transplantado para outros meios geográficos (América do Norte e do Sul entre demais outros).

Enfim e, em suma, na verdade, a despeito das condições sociais e económicas dissemelhantes do meio de origem, SENGHOR preservaria, no entanto, a mesma cultura pelo constrangimento da biologia racial: “Ce qui me frappe – assevera SENGHOR – chez les Nègres d’Amérique, c’est la permanence des caractères non pas physiques mais psychiques du Negro-Africain malgré le métissage, malgré le milieu nouveau”. SENGHOR, Liberte I, Paris, Seuil, 1964, p. 254. E, avisadamente prossegue: Que não me falem de “segregação”: seguramente a segregação explica, em parte, a permanência dos caracteres psíquicos, singularmente o dom de emoção. Ela não explica tudo, sobretudo nos Negros da América latina, onde a segregação é menos real.
E remata: “J’ai dit malgré le milieu, car le milieu agit à la longue. C’est d’abord lui qui informe l’économie, puis la société, et finit par provoquer ces mutations qui deviennent héréditaires. »
Donde e daí, a presença do paradigma biologista se afigura francamente manifesto no cerne do seu pensamento.
Finalmente, por outro, não há dúvida nenhuma, que a divisão racial das aptidões culturais se assume, no pensamento de SENGHOR, uma convicção teórica indiscutível. Ou seja:
“Il ne faut pas méconnaître et forcer son génie – assevera -, même, surtout dans le domaine de l’âme et de l’esprit.
« Croyez-vous que nous puissions jamais battre les Européens dans la mathématique, les hommes singuliers exceptés, qui confirment que nous ne sommes pas une race abstraite. » SENGHOR, Liberté II, Paris, Seuil, 1968, p. 154.

Lisboa, 10 de Maio 2009
KWAME KONDÉ
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DO ESTADO DA ALMA

Li hoje uma nota biográfica sobre o famoso matemático alemão, Richard Dedekind, que após brilhar a altíssimo nível mundial ― sendo professor na prestigiada e prestigiante Universidade de Göttingen, na Alemanha ―, resolveu abandonar a cátedra, voltar à sua terra natal, Brunswick, e contentar-se em dar aulas durante 50 anos (o resto da sua vida) no ensino secundário.

O autor da nota biográfica, Amir D. Aczel, relata assim a sua perplexidade quanto à opção de Dedekind:

«Ninguém conseguiu ainda explicar por que razão um matemático brilhante que elevou a álgebra a um nível incrivelmente alto de abstracção e generalidade deixou de repente um dos cargos mais prestigiados numa universidade europeia para ir ensinar numa escola secundária desconhecida.»

Eu acho a explicação tão óbvia que não entendo a perplexidade do biógrafo.

Ou será que esta gente não tem alma?!...
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sexta-feira, 8 de maio de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO TRIGÉSIMA QUARTA:

(I)



O Pensamento de Léopold Sédar SENGHOR, nascido, no Senegal, no ano de 1906 e cujo trespasse ocorreu, em França, em 2001, (particularmente, na sua qualidade de conceituado teórico da ideologia denominada “Négritude”), está profundamente impregnado de determinismo de tipo biologista-hereditarista.
De feito, aí a “raça” não é unicamente um leimotiv poético. Funciona, sim, como factor causal presumido possuir robusto valor explicativo para os comportamentos e traços culturais até mesmo para determinadas performances.
Na verdade, no pensamento de SENGHOR se encontra a noção de postulado da existência de uma invariância/constância, reconhecida por um conjunto de traços culturais entre os negros. Deste modo, as capacidades físicas como as propensões afectivas e as predisposições psicológicas entre eles são reputadas e supostas encontrar uma raiz comum na comunidade de raça. Eis porque et pour cause, o “biologismo” sengoriano consistirá em consignar um valor explicativo à raça quando se trata de elucidar fenómenos culturais e/ou psicológicos. Enfim e, em suma: SENGHOR postulará uma correlação entre o racial e o cultural.
Destarte, haveria uma identidade cultural negra (da qual expôs a ideologia da négritude) e que estaria vinculada e determinada pelo facto de ser negro. E, neste “facto de ser negro” não é a condição histórica e/ou social, sim, efectivamente a irredutível racialidade determinada pelo carácter biológico da raça que é essencial.
A ideologia do sangue negro não se declina, por conseguinte, meramente em termos metafóricos e sob modalidades poéticas. A permanência do “Sangue negro”, incluído através da mestiçagem ao nível das diásporas negras, constitui o esteio do postulado sengoriano de uma correlação entre a raça e as tendências culturais e psíquicas.
Eis, efectivamente, a marca do racialismo recorrente na ideologia da négritude. A raça determinaria as qualidades, vocações, outrossim porém, as insuficiências que cada grupo humano terá que satisfazer, indo ao encontro dos outros.
Seria, assim, do predomínio da emoção em lugar e em vez da razão analítica nos Negros, visto que segundo SENGHOR “l’émotion est nègre comme la raison est hellène”.

Com efeito, o pensamento sengoriano, racializando as aptidões intelectuais e os traços culturais, supõe, por conseguinte, para ser completo e coerente, a existência de uma teoria da complementaridade entre as raças, outrossim, porém, as civilizações que elas definiram. De consignar, que esta “teoria” se exprime numa doutrina denominada “du métissage culturel voire biologique” que dá conta da função “compensatrice” das misturas raciais.
Por outro, as teorias racistas, das quais, a oriunda da estulta lavra do escritor e diplomata francês joseph Arthur, conde de GOBINEAU (1816-1882) é bem representativa, denunciam geralmente a mestiçagem como causa de uma “diminuição” do “nível médio” da raça branca. Simultaneamente, GOBINEAU reconhecia ao cruzamento racial a virtude de ofertar qualidades necessárias para a criatividade. De sublinhar, que este húmus ideológico influenciou paradoxalmente a doutrina sengoriana da mestiçagem. Simplesmente, esta assume uma dupla perspectiva racialista e humanista lá onde GOBINEAU e os demais outros ideólogos do racismo se encerram numa lógica de separação e de preservação das qualidades raciais “superiores” (na ocorrência do Branco).
Antes de mais, se impõe elucidar, que o próprio SENGHOR cita GOBINEAU, visando fortalecer a sua peculiar problemática do Negro emocional e o interesse dos cruzamentos para suscitar os dons da criação. (A este propósito, vale a pena compulsar, Liberté I, Paris, Seuil, 1964, p. 258).

Finalmente, há que convir, asseverando adequadamente, que a utilização sengoriana de determinadas ideias de GOBINEAU se acompanha do contornamento (acto de contornar) da sua finalidade racista e da sua funcionalização oposta numa teoria dos cruzamentos raciais como meio da conclusão da Humanidade, rica de possibilidades dissemelhantes e complementares dos seus variegados frôndeos naturais, parafraseando, avisadamente o pensador, paleontólogo e geólogo francês, Pierre TEILHARD de CHARDIN (1881-1955).

Lisboa, 07 Maio 2009
KWAME KONDÉ

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quarta-feira, 6 de maio de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO TRIGÉSIMA TERCEIRA:

Acerca da Noção de Raça humana:

A expressão, grupos étnicos é usada, no âmbito
Da Antropologia (“Ciência do homem”) para designar
Grupos humanos que possuem em comum uma cultura
A que se sentem vinculados
E à qual se refere a sua vivência
E a sua mundividência cujos membros
Se sentem interligados por uma identidade
Historicamente construída.
O conceito não se confunde com o de “raça”, Pelo contrário,
A Noção de grupo étnico constitui uma forma de classificação
Cuja afirmação depende de limites e codificações relativas
Às diferenças culturais entre grupos vizinhos
Que afirmam a sua singularidade, uns em relação aos outros,
Sem que os caracteres raciais, biológicos ou linguísticos,
Assumem, por si só, necessariamente elementos caracterizadores.
Eis porque deste modo,
A identidade cultural dos grupos étnicos
Não é rígida, nem imutável,
Envolvendo processos de composição e recomposição
Dentro de um espaço determinado
Dos quais resulta uma consciência individual e colectiva.

No decurso do século XX pretérito, a noção de raça humana foi repensada e se viu fortemente posta em causa. De feito, a genética das populações nascida nos anos de 1930, contribuiu vigorosamente para a elaboração, em comparação com a noção eminentemente descritiva e tipológica (normalmente hierárquica) de raça, a noção, mais exactamente biológica e histórica de população.
De consignar, que uma população, é, no seio de uma espécie, o conjunto dos indivíduos entre os quais existe uma permuta efectiva dos genes. Por conseguinte, já não é a pureza racial, sim, efectivamente, a diversidade no seio da espécie humana que se encontra no ponto de partida da reflexão em causa. Na verdade, não sendo a raça como a espécie, limitada pelo critério da inter-fecundidade, o estudo das raças humanas, só pode ser pensado, ipso facto et pour cause, em termos exclusivamente tipológicos, porquanto exige uma abordagem histórica que dá conta das migrações e das mestiçagens.
Eis porque, no âmbito desta dinâmica, o notável geneticista e biólogo evolutivo, o ucraniano, Theodosius Hryhorovych DOBZHANSKY (1900-1975), contestando a “parte major de arbitrário”que existe nos cortes raciais, propôs em 1964 uma abordagem histórica das raças, tendo em conta a sua vida e a sua morte, as suas formações, favorecidas pelas misturas de populações e aceleradas pela facilidade acrescida das permutas desde, três séculos, aproximadamente. De consignar, que, ao contrário de uma abordagem exclusivamente descritiva, esta leva em conta permutas genéticas que podem ter como consequência a formação de novas raças.

No decurso das décadas que seguem, alguns geneticistas recusam mesmo a necessidade e a pertinência dos cortes raciais para a sua própria prática científica. Eis então, que o conceituado antropólogo, Jean HIERNAUX, em 1968 concluiu o seu célebre estudo sobre a diversidade humana em África subsariana, proferindo magistralmente a conclusão seguinte:
“La diversité biologique des groupes humains (…) figurée sur un plan (…) présenterait un nuage de point répartis de façon quasi uniforme. De proche en proche, on pourrait parcourir le nuage dans toutes ces directions, sans rencontrer de discontinuité majeure, si ce n’est en certains secteurs de la périphérie du nuage (…). Il s’ensuit que toute réduction de la diversité des populations africaines à un nombre restreint de taxons, comme le font toutes les classifications raciales proposées, présente un nombre élevé de contradictions logiques et ne saurait donc qu’engendrer la confusion ».

E, prosseguindo, avisadamente este nosso Estudo, temos que, na verdade, a descrição quantitativa da variabilidade geográfica evidencia continuidades antes mesmo que classes estanques e artificialmente descontínuas. Hodiernamente, os geneticistas definem pela frequência dos seus genes de pequenas populações mendelianas cujos os indivíduos fruem entre si permutas sexuais. Eis porque, alguns consideram que a diferença genética entre as populações assim definidas já não é importante como a diferença entre indivíduos. Deste modo, uma tal abordagem tende a invalidar a própria necessidade da noção de subespécie (ou de raça) para descrever as variações geográficas, o estudo multi-variado das distribuições de caracteres no seio de um continuum, se revelando muito mais fecundo para dar conta da diversidade no seio da espécie.

Todavia e, sem embargo, nos debates científicos actuais em torno da questão da origem (ou das origens) da diversidade humana actual permanecem presentemente ainda vinculadas representações a priori do homem e do seu devir, construções débeis, apostas ideológicas, escolhas sociopolíticas. Por outro, no atinente a determinadas deferências, a questão em si mesma e as dissemelhantes respostas que lhe foram trazidas são amiúde determinadas por escolhas ideológicas subjacentes. De anotar, ainda que algumas discussões em torno do “monocentrismo” e do “policentrismo” da espécie Homo sapiens parecem reconduzir, por vezes, nos pressupostos até mesmo nos seus próprios termos, aos debates dos séculos pretéritos entre monogenistas e poligenistas. Contudo, as pesquisas edificadas sobre a repartição geográfica e a análise multi-variada dos caracteres, sobre a biologia molecular e a genética das populações, tornaram caducas as classificações raciais da antropologia clássica. Além de uma abordagem descritiva e hierárquica das raças humanas, o campo de reflexão se deslocou da especulação teológica para a investigação de campo e de laboratório.

E, à guisa de remate assertivo, com efeito, discrepâncias permanecem actualmente entre a paleontologia humana e a genética das populações, identicamente, aliás, no interior de cada uma destas disciplinas, quanto à questão da origem da diversidade humana actual. Todavia, a despeito das suas peculiares e sui generis dificuldades e das divergências, estas disciplinas se envidam em colocar, separadamente ou conjuntamente, a questão da origem da diversidade das populações humanas actuais e reconstruir a complexa rede dos seus itinerários respectivos e, outrossim e, ainda da sua história. Enfim, dos apropriados debates e confrontações poderão quiçá resultar, em breve, conclusões comuns, ao mesmo tempo, ideologicamente críticas e cientificamente informadas.

Lisboa, 02 Maio de 2009
KWAME KONDÉ
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terça-feira, 5 de maio de 2009

POIS É

Quando o vírus infecta pessoas saudáveis, parece que a coisa se fica por uma gripe vulgar de Lineu.

E, assim sendo ― ou os governos arranjam já outra desgraça iminente que os ajude a desviar a atenção do pagode da crise instalada, ou o pagode toma consciência da gravidade da situação económica e financeira e vai ser uma dor de cabeça de todo o tamanho para os governos e para os partidos do poder.

Vai uma aposta em como vai aparecer outra desgraça?
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sábado, 2 de maio de 2009

MAS QUE CHATICE!!!

Não é que o raio deste vírus da gripe parece ter resolvido não colaborar com a imprensa, rádio e televisão!

(E parece que também não vai colaborar com os governos fazendo esquecer a crise).

Parece até que este H1N1 está em vias de lhes fazer um grande manguito, pois, até agora está-se a revelar de baixa virulência, fazendo coceguinhas aos doentes infectados em vez de os matar horrendamente como seria de desejar ─ mortos aos montões pelas ruas, jazendo em poças de sangue enxameadas pelas moscas; corpos hirtos recolhidos por trabalhadores altamente protegidos por fatos brancos de tipo espacial, com luvas enormes amarelas e a cabeça protegida por uma espécie de escafandro deixando pender à frente do nariz e da boca enormes trombas pretas com filtros pretos tipo chuveiro da tropa ─ imagens tipo day after para apresentar nas televisões acompanhadas pelo tema musical do filme Apocalypse Now.

Mas com o raio deste vírus parece que tudo se vai por água abaixo.

É que das notícias conhecidas, as pessoas que têm morrido até agora com esta gripe eram pessoas débeis previamente fragilizadas por outras doenças.

Não aparece uma hepatite, uma insuficiência renal, uma meningite, uma pericardite ─ sequer uma pneumoniazita de merda ─ subsequentemente à gripe que se possa apresentar ao mundo para honrar o vírus e infundir em nós respeito e medo pelo bicho.

Assim não! Assim é demais!

Se é só uma gripe como as outras...

Bolas para ele: Bolas para o H1N1!!!
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KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO TRIGÉSIMA SEGUNDA:

(A)-Na verdade, qualquer que seja o período que se considera, a África aparece como um cruzamento de línguas e culturas diversas. De feito, apenas no âmbito linguístico, é realmente, o Continente mais diversificado do Planeta. Demais, é, unicamente na duração que a “África” principia a aparecer. Assim, efectivamente, no âmbito desta dinâmica, enquanto massa continental, se estende do cabo de Boa Esperança ao delta do Nilo, englobando simultaneamente Marrocos e Moçambique. Todavia, muitos dos seus habitantes, identicamente numerosos Americanos e Europeus, não a consideram como uma entidade unificada e fazem uma distinção nítida entre a “África do Norte” e a “África sub-sariana”ou “África negra”. De anotar, que a linha de divisão é frequentemente entendida, em termos raciais, ou seja: a África é o lugar donde são oriundos os Negros.
(B)- O eminente filósofo ganense/ganês, o docente universitário Kwame Anthony APPIAH (n-1954), Professor de Filosofia na Universidade Laurence S. Rockefeller e, outrossim, membro do Centro para os Valores Humanos da Universidade de Princepton – dizíamos – de modo abertamente consequente, assumiu a seguinte interpelação, ou seja: como representar a “África” se recusa a classificação das populações do mundo em grupos raciais? Classificação que todos sabem, que os biólogos reputaram sem fundamento. Assumidamente, os Africanos são, outrossim, dissemelhantes entre si, como o são de toda outra pessoa sobre terra e, unicamente, erigindo a cor da pele como critério supremo que se lhe pode declarar que os Africanos formam uma raça única? Por outro, pode-se, todavia, considerar que os habitantes, vivendo ao sul do Sara formam um único e mesmo povo, na ausência de raça?
E, prosseguindo a nossa interpelação, de cariz eminentemente pedagógico, sempre na esteira e peugada do filósofo APPIAH, temos ainda que:
--- O facto que aproximadamente um terço de entre eles sejam muçulmanos não significa, afinal de contas, que se deveria os classificar juntamente com os seus correligionários muçulmanos da África do Norte, quer estes últimos se consideram ou não, eles próprios africanos?
--- A pretensa solidez dos vínculos de parentesco entre Africanos, o respeito generalizado que as pessoas, dos Zulos aos Uólofes/Wolofs, manifestam para com os seus primogénitos e os seus antepassados e o papel central das relações sociais individuais nas aldeias não definem uma colectividade cultural através de todo o Continente, facto que influenciou os descendentes dos Africanos no Brasil, em Cuba e nos Estados Unidos da América?
--- Ou ainda, o que todos os Africanos possuem em comum é, outrossim, o que é comum na maior parte das comunidades “campesinas”?
--- E, outrossim e, ainda, o que as pessoas designam por “cultura” em África, corresponde algures a traços duradouros e comuns, ou a esquemas de adaptação em permanente evolução (em presença) e perante às situações novas?
(C) De sublinhar, assertivamente, que a resposta de APPIAH não depende da existência, ou não, de uma correspondência entre as culturas africanas, quaisquer que sejam as suas analogias ou as suas discrepâncias e a cor da pele. Na verdade, ele afirma que o vocábulo “África” possui, efectivamente, um sentido e, que este sentido é histórico. De feito, aliás, desde à partir do século XVI, os negreiros europeus se puseram a considerar diversos portos africanos como centros de compra de mão-de-obra escrava, servindo as características físicas dos escravos de critério para determinar quem, de um lado do Atlântico, podia ser comprado e, de outro lado, ser suposto tornar escravo.
(D) Todavia, se a África foi definida, primeiramente, pelo aspecto, o mais horrível da sua história, o sentido do vocábulo “África”principiou a mudar no seio mesmo da diáspora africana. Com efeito, os indivíduos escravizados e os seus descendentes principiaram a se considerar “africanos”e, não mera e simplesmente como a propriedade de outras pessoas. Sim, efectivamente eram indivíduos que procediam de algures. E, explicitando adequadamente, deste modo, nos Estados Unidos da América, alguns cristãos descendentes de escravos principiaram a se considerar “etíopes”não porque os seus antepassados provinham desta região de África, sim, efectivamente, este facto evocava as narrativas bíblicas do rei Salomão e da rainha de Sabá. Eis porque, deste modo, a Etiópia ou a África assinalava o seu lugar numa história universal. E, na sequência, determinados intelectuais afro-americanos proclamaram que os antigos Egípcios eram Negros de África e que via Egipto, a África contribuíra, de molde, decisiva, para o desenvolvimento e o engrandecimento respectivo das civilizações helena, romana e do Mundo inteiro. Enfim, se afigura importante, consignar, com ênfase, que, na realidade, é que a África se revelou, na sua plenitude, quando uma diáspora afirmou o seu lugar no Mundo.
(E) Destarte, o estudo das redes que sulcavam o oceano Atlântico, o oceano Índico, o deserto de Sara e o próprio Continente Africano, outorga da África uma imagem dissemelhante dos estereótipos vinculados às “tribos” africanas. Por seu turno, intelectuais muçulmanos da África do Sahel ocidental atravessavam o deserto para se dirigir para a África do Norte ou iam para o Egipto ou para a Arábia Saudita para estudar ou cumprir uma peregrinação. Outrossim e, ainda, de referir, que redes islâmicas análogas se estendiam ao longo da costa este africana e no interior do Continente, até aos lagos Vitória e Tanganhica. Já, no interior da África, alguns reinos ou impérios englobavam populações de culturas diversas, assimilando-os, por vezes, acordando, em determinadas circunstâncias, uma autonomia cultural considerável, exigindo, integralmente, neste caso, submissão e impostos. Finalmente, em determinadas demais outras regiões, grupos de uma idêntica família se reconheciam afinidades com parentescos distantes de centenas de quilómetros.

E, prosseguindo, esclarecida e elucidadamente, este nosso Estudo, temos, então, complementarmente que:
(1) A diversidade cultural era, decerto, real e, numa determinada medida, identicamente, verídica que a especificidade cultural se transformava, por vezes, num sentimento de pertença a um “povo” distinto. Porém, a distinguibilidade, ora enunciada, não era sinónimo de isolamento e, demais, não apagava as inter-conexões, as relações e as influências mútuas. Efectivamente, a carta cultural da África está marcada por graduações de dissemelhanças e de vínculos e, não por uma série de espaços herméticos, cada qual com a “sua” cultura respectiva, o “seu” idioma e o “seu” sentimento de unicidade. Na verdade e, por certo, um empreendedor político, tentando mobilizar “o seu” povo para defender os seus interesses podia se apoiar sobre um sentimento de grupo, todavia, isso funcionava, do mesmo modo, para um organizador político ou religioso que tentasse pôr em contacto povos separados por débeis ou grandes distâncias. De anotar, que a tendência que a dominava dependia das circunstâncias históricas e, não de uma suposta unidade racial ou singularidade cultural africana.
(2) Nos meados do século XX pretérito, o vocábulo “África” recobre várias significações políticas. Donde e daí:
---Para um pan-africanista, a unidade pertinente era a diáspora.
---Já para o psiquiatra, escritor e ensaísta antilhano, de ascendência africana, Frantz FANON (1925-1961) (quiçá, o maior pensador do século XX passado, no âmbito dos temas da descolonização e da psicopatologia da colonização) – dizíamos – a política era determinada pelo imperialismo e, eis porque, recusava a ideia de nação negra para lhe preferir a de unidade dos povos oprimidos pela colonização.
Deste modo, no âmbito desta dinâmica, quando o Presidente egípcio Gamal Abd Al NASSER (1918-1970) desafiou as potências estrangeiras, designadamente a britânica, a francesa, a norte-americana e a israelita no Médio Oriente, tornou-se, para numerosos Africanos, o símbolo de um dirigente autenticamente nacional.

Demais, outrossim e, ainda, na década de cinquenta do século XX pretérito, as lutas comuns travadas contra as potências coloniais, visando a construção de economias nacionais e, em prol da dignidade nacional, deram origem à uma concepção militante do “Terceiro mundo”, nem capitalista e, nem comunista, unindo, todavia, a Ásia, a América latina e a África contra o “Norte” – contra as potências “imperialistas”.
Enfim, no âmbito desta perspectiva, temos de referir também, que outros dirigentes políticos procuraram uma unidade especificamente africana, limitada ao Continente.
E, finalmente, demais outros, ainda e, outrossim, se opuseram acerca das bases ideológicas e estabeleceram alianças com blocos de influência conduzidos pelos Estados Unidos da América ou com a União Soviética.
(3) De sublinhar, que os vínculos internacionais não convinham apenas aos militantes políticos. Com efeito, Africanos, desejando efectuar estudos, encetando uma carreira na ONU ou, em demais outras organizações internacionais, ou migrante para economias europeias que, nesse momento, pretendiam a sua respectiva força de trabalho nos próprios solos — tornaram, cada vez mais, numerosos na Europa, na União Soviética e nos Estados Unidos da América do Norte. Na verdade, possuíam, ora contactos com os autóctenes, ora formavam comunidades de origem relativamente independentes, outrossim, ainda, possuíam vínculos mais estreitos com demais outros migrantes de ascendência africana.

E à guisa de remate/conclusão seria, todavia um erro crasso, substituir a visão quão errónea e, assaz adulterada de uma África de tribos isoladas por de uma África submersa numa rede infinita de movimentos e de permutas. De feito, em África, a população era desproporcionadamente distribuída, num enorme espaço, por outras palavras e, para melhor dizer, as deslocações eram possíveis, no entanto, sobremaneira, onerosos os transportes. Na verdade, lucrativo era permutar bens de grande valor, inexistentes em determinadas regiões, contudo menos rentável que construir densas redes de permutas e de relações diversificadas.
Por outro, de consignar, que os dirigentes africanos podiam encontrar lugares susceptíveis de assegurar a prosperidade dos seus povos, porém, havia identicamente demais outros sítios, onde as pessoas podiam se refugiar e sobreviver, o que tornava difíceis a consolidação do poder e a intensificação da exploração. Demais, as permutas com o resto do mundo eram habitualmente muito especializadas — horrivelmente especializadas, no caso concreto, do comércio dos escravos, designadamente. De anotar, destarte, que os centros de produção específicos – de ouro ou de óleo de palma, por exemplo – ou as estradas comerciais específicas – a do marfim, que ligava o interior do Este africano à costa -funcionavam assaz bem. Todavia, a sua acção respectiva foi criar vínculos particulares, exclusivos, entre o interior da África e as economias exteriores à África e, não de desenvolver uma economia regional densa e diversificada.
De sublinhar, que após a conquista europeia, as economias coloniais construíram, caminhos ferroviários e estradas respectivas, para fazer escoar o cobre ou o cacau e fazer entrar os produtos manufacturados europeus, canalizando, deste modo, o movimento dos bens, das pessoas e das ideias para a metrópole e, não para o conjunto do mundo.
Efectivamente, os regímenes coloniais edificaram uma grande parte do seu poder na sua capacidade para controlar os pontos nodais chaves, tais como os portos em águas profundas, de um sistema de transportes e de comunicações relativamente limitado.
Enfim, os Africanos procuraram criar as suas próprias redes: estradas comerciais no seu próprio Continente com conexões políticas, com demais outros povos colonizados. De anotar, com, um certo e determinado êxito. Porém, quando os impérios coloniais se desmoronaram, os dirigentes africanos foram, outrossim, confrontados, com a tentação de reforçar o seu controlo nestas redes limitadas, de preferência, antes que ampliar e multiplicar os vínculos através do espaço.

Lisboa, 11 Fevereiro 2009.
KWAME KONDÉ
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quarta-feira, 29 de abril de 2009

UFF!!! JÁ NÃO ERA SEM TEMPO

Portugal tem finalmente o seu primeiro caso de gripe suína.

Estava-se mesmo a ver que nunca mais saía esta sorte grande aos jornais portugueses.

Agora sim, agora o que falta mesmo é que a coisa se alastre rápida e extensamente pelo país fora para que se possa noticiar com grande alarido e espalhafato o entupimento dos hospitais e dos centros de saúde e as mortes ― ai as mortes ― das primeiras vítimas da gripe suína.

Que haja muitas mortes, é o que se deseja para gáudio e conforto dos “jornalistas” dos jornais e dos telejornais.

Espera-se que seja um fartote de notícias quais delas as mais aterradoras.

Viva a imprensa portuguesa! Viva!

Viva o “jornalismo” português! Viva!
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terça-feira, 28 de abril de 2009

CONVITE




A pedido do nosso leitor, Luis Serpa, publicamos, com todo o prazer,
este convite que, da nossa parte,
agradecemos penhorados.
Para mais esclarecimentos, siga este link.
[Clique na imagem para ler melhor]
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DA GRIPE SUÍNA

Por enquanto, em Portugal, as únicas vítimas da Gripe Suína, são as rádios e as televisões.

O alarido é enorme, o alarme é geral, a masturbação é completa.

A acreditar nas televisões e nas rádios, metade da população mundial pode encomendar desde já os caixões e os funerais ― vai ser uma razia como nunca se viu.

É no que dá a crise económica ― a crise de notícias e o empolamento hiperbólico das poucas notícias que há.

O povo treme e olha para a carteira: cada embalagem de TAMIFLU custa €25,17 . E NÃO TEM COMPARTICIPAÇÃO. Esta é que era uma boa notícia! Mas os jornalistas de pacotilha, pagos a pataco, que enxameiam as redacções dos jornais e televisões, entretêm-se a assustar o pagode com o papão do vírus.

O Professor Nina, virologista do Serviço de Infecciologia do Hospital Egas Moniz, já disse ontem que «Quem tenha tomado a vacina da gripe, o ano passado, está PARCIALMENTE vacinado» pois essa vacina contemplava dois genes do actual vírus da gripe.

Mas as rádios noticiaram hoje que «O Prof. Nina disse que a vacina protegia quem a tivesse tomado». E foram logo, céleres, ouvir um pateta qualquer dizer que «essa vacina não protege ninguém».

Da protecção «PARCIAL» de que falara o Prof. Nina (com toda a razão e autoridade, diga-se), passou-se para a protecção total noticiada pelas rádios, e daí para protecção nenhuma garantida pelo tal pateta.

E continua em cena a ópera bufa portuguesa representada pelo governo, pelos partidos políticos, pelos empresários, pelos órgãos de comunicação social e tutti quantti, todos servidos pela arte medíocre de intérpretes medíocres.
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sexta-feira, 24 de abril de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO TRIGÉSIMA SEGUNDA:

“Les Africains, tout comme leurs partenaires au
développement, s’accordent à dire que la réponse
devra être donnée par les Africains eux-mêmes. Ils
devront décider quelle manière et dans quelle mesure,
ils devront reformuler leurs politiques nationales et
internationales et les adapter aux changements des
années quatre vingt dix qui offrent à ce continent à la
fois des défis et des opportunités. »
Jean P. PRONK, in L’Afrique maintenant de Stephen
SMITH, Khartale 1995

« Le processus actuel de la mondialisation génère des
déséquilibres, entre pays et à l’intérieur des pays. Des
richesses sont crées,mais elles ne sont d’aucun profit
pour trop de personnes faute d’avoir suffisamment voix
au chapitre, ils ne peuvent guère influer sur le processus.
Pour la vaste majorité des femmes et des hommes, la
Mondialisation n’a pas répondu à leurs aspirations,
Simples et légitimes, à un travail décent et à un meilleur
Pour les enfants .Beaucoup d’entre eux vivent de l’économie
Informelle, sans droits reconnus, et dans de nombreux pays
Pauvres qui subsistent de façon précaire en marge de
L’économie mondiale. Même dans les pays dont l’économie
Est florissante certains travailleurs et certaines collectivités
Ont souffert de la mondialisation…Ces déséquilibres
Mondiaux sont moralement inacceptables et politiquement
Intenables. » In les conclusions de la Commission Mondiale
Sur la Dimension Sociale de la Mondialisation de 2004.

É um facto, assaz elucidativo, que a África, na verdade, se encontra confrontada com guerras de repetição, com a dependência económica, com a marginalização crescente, com delitos e danos das démarches obsoletas, com o esboroamento constante da autoridade pública, a despeito da legitimidade recuperada graças aos recentes impulsos democráticos.
De consignar, porém, que as populações africanas possuem todas (sem excepção) a sensação que os dias vindouros serão ainda mais piores que os de outrora e, mais, que os próprios de hoje, infelizmente.
Deste modo e, no âmbito deste contexto, a questão central consiste em encontrar as vias e meios, da mesma forma, criar todos os novos mecanismos que já mostraram eloquentemente toda a sua pertinência e toda a sua eficácia respectiva.

Demais e, por outro, revisitando os processos históricos do Continente, melhor se compreende quão urgente se afigura actuar, reencontrar um outro caminho e inventar novos conceitos que respondem à uma série de exigências incontornáveis, designadamente: a mundialização/globalização, a Paz e a estabilidade, a reinvenção de novas autoridades públicas eficazes, a ascensão para a modernidade, a construção de um pedestal de prosperidade, a luta contra os micro nacionalismos sempre devastadores.
Na realidade, actualmente, ou seja, melhor dito: Hoje, efectivamente, mais que nunca, ante à complexidade do desenvolvimento, a África deve agir, actuando, com segura e efectiva eficácia, pois que cedo ou tarde determinadas orientações já bem identificadas terão, ipso facto, de ser aplicadas e, outrossim implantadas, por motivos e razões assaz óbvias.
De feito, sobre as areias movediças da mundialização/globalização, as vibrações são tão fortes que a reorientação do porvir (devir) dos Africanos se torna um imperativo perante a robusta dinâmica da História. Sim, efectivamente, para resistir, com acertada eficácia, a África deve extrair dos arcanos da sua Alma as energias mais profundas para construir um novo Destino/Desígnio portador de três Vontades. E, explicitando adequadamente, temos, então:
--- Em primeiro lugar, a Solidariedade, para conduzir, juntamente, um aggiornamento, sempre, evitando deixar passar uma parte dos povos “au bord de la route”.
--- Ulteriormente, a ancoragem de novos paradigmas da acção pública, a soberania partilhada, a gestão transfronteiriça, a démarche participante, a descentralização, a escolha do diálogo e da concertação para expulsar os demónios do ódio entre as nações e no seu seio respectivo.
--- Enfim, a Preparação do futuro, pela criação de mega espaços de convergências, quadros de reagrupamentos indispensáveis para a dupla dinâmica, resistência e adaptação.

O tríptico acima enunciado e explicitado, de molde consentâneo, porá cobro à exclusão à contrapelo (melhor dito de forma adversa) da qual tantos sofrimentos foram, destarte, causados a tantos e tantos inocentes. Por outro, a movimentação dos Estados e, muito além das sociedades, constitui fonte de riqueza e de modernização. Permite, outrossim, reformar as formas de autoridades públicas actuais para os adaptar às inevitáveis evoluções. A ambiguidade actual, sinónimo de não escolha e a expectativa abonam em favor da incapacidade em inscrever a consequente acção na duração e, outrossim possuir ambição.
E, nesta dinâmica, acima enunciada, de uma margem para outra, todos (cada um de per si e, em si) experimentam dificuldades em compreender a frescura das ideias do intelectual, em aceitar as iniciativas dinamizadoras do empreendedor, em encorajar o trabalho de alerta das ONG (S), em melhor difundir o poder e em nivelar um corpo social inapto para defrontar os desafios da modernidade.

Finalmente, para concluir, na verdade, a sedimentação dos problemas e a fragilidade estrutural dos países Africanos, desorientam os cidadãos ante às forças de arrebatamento que, se não são domadas e reguladas adequadamente, conduzem ao precipício.

Lisboa, 23 Abril 2009
KWAME KONDÉ
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domingo, 19 de abril de 2009

XUTOS E PONTAPÉS



Anda tudo do avesso
Nesta rua que atravesso
Dão milhões a quem os tem
Aos outros um passou - bem
Não consigo perceber
Quem é que nos quer tramar
Enganar
Despedir
E ainda se ficam a rir
Eu quero acreditar
Que esta merda vai mudar
E espero vir a ter
Uma vida bem melhor
Mas se eu nada fizer
Isto nunca vai mudar
Conseguir
Encontrar
Mais força para lutar…
(Refrão)
Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a comer
É difícil ser honesto
É difícil de engolir
Quem não tem nada vai preso
Quem tem muito fica a rir
Ainda espero ver alguém
Assumir que já andou
A roubar
A enganar
o povo que acreditou
Conseguir encontrar mais força para lutar
Mais força para lutar
Conseguir encontrar mais força para lutar
Mais força para lutar…
(Refrão)
Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a foder
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Mas eu sou um homem honesto
Só errei na profissão
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BOM DIA

Estou de volta e com vontade de almoçar bacalhau no forno, por isso não há tempo para mais; por isso apenas publico a seguir, com o gosto de sempre, mais uma "Intervenção" do meu amigo e colega F. Fragoso.

Mas ainda há tempo para dizer que já tomei conhecimento da canção dos Xutos.

Gostei...
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KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO TRIGÉSIMA PRIMEIRA:

“En refusant le schéma hégélien de la lecture
de l’histoire humaine, Cheik Anta Diop s’est
par conséquent attelé à elaborer, pour la
première foi sen Afrique noire une intelligibilité
capable de rendre compte de l’évolution des peuples
noirs africains, dans le temps et dans l’espace[…] Un
ordre nouveau est né dans la compréhension du fait culturel
et historique africain. Les différents peuples africains sont des
peuples « historiques » avec leur État :L’Égypte, la Nubie, Ghana,
Mali, Zimbabwe, Kongo, Bénin, etc. leur esprit, leur art, leur science.
Mieux ces différents peuples historiques africains s’accomplissent en
Réalité comme des facteurs substantiels de l’unité culturelle africaine ».
Théophile Obenga, Dakar 1996.
Grosso modo, se define o Pan-africanismo, como o momento político e cultural que reputa a África, os Africanos e os descendentes de Africanos, vivendo e labutando no exterior de África, como uma única Unidade, visando regenerar e unificar a África, assim como encorajar um sentimento de solidariedade entre as populações do mundo africano.
No fundo, no fundo, o Pan-africanismo glorifica o Passado da África e inculca, outrossim e, ainda, o orgulho pelos valores africanos.

De anotar, que foi, efectivamente, um sociólogo e historiador norte-americano, de nome completo, William Edward Burghart DU BOIS (1868-1963) que definiu o Pan-africanismo, na sua assunção categorial hodierna e, não só.
Com efeito, uma década após ter fundado a National Association for the Advancement of Coloured People, reuniu em Paris (França), o Primeiro Congresso Pan-africano que congrega 57 delegados oriundos das colónias britânicas e francesas, assim como dos Estados Unidos e das Antilhas.
Por outro, se afigura pertinente consignar que, aquando do IIº Congresso, em Londres, no ano de 1921, foi exigida a igualdade dos direitos entre Brancos e Negros. E, na sequência, no mês de Março de 1945 teve lugar, em Manchester (Inglaterra) o Vº Congresso pan-africano que marcou um tournant, na medida em que foi dominado, concomitantemente, por delegados marxistas à imagem do antilhano Frantz FANON e do ganês Kwame NKRUMAH, outrossim porém, por nacionalistas como o queniano Jomo KENYATTA. De sublinhar pertinentemente, que as Declarações finais insistiram sobre o imperativo da concessão das Independências, visando a pôr término a “exploração colonial”, bem como da necessidade de pôr termo às divisões do Continente, postuladas, um tanto ou quanto, a la diable, constituindo, ipso facto, o corolário lógico da colonização.

E, em complemento pertinente, vale a pena, acrescentar o seguinte:
a)— O notável pedagogo e Estadista, oriundo da Libéria, Edward Wilmot BLYDEN (1832-1912) é considerado o Pai do movimento pan-africanista hodierno.
b)— O movimento Rastafari de Jamaica nasceu do pan-africanismo. De feito, quando o Comunicador, Empresário e Activista jamaicano, Marcus Mosiah GARVEY (1887-1940) declarou “Voltai para a África para a coroação de um Rei negro” os Rastas se voltaram para Hailé SÉLASSIÉ Iº da Etiópia.
c)— Existe outrossim, uma outra interpretação do Pan-africanismo – o Afrocentrismo – que se apoia nos trabalhos do cientista senegalês, Cheik Anta DIOP (1923-1986), ulteriormente retomados, designadamente pelo conhecido teorizador afrocentrista, o afro-americano, Molefi Kete ASANTE (n-1942) e, assim como, em França por Jean-Philippe OMOTUNDÉ, Réné Louis PARFAIT. De consignar, que este movimento, em apreço, tenta reexaminar a história da África e da sua Diáspora respectiva de um “ponto de vista africano”, se opondo ao Eurocentrismo. Trata-se de retorno para conceitos tradicionalmente denominados africanos e referenciados à “Cultura Africana”. A Civilização Egípcia, assim como, demais outras, são então reputadas como Civilizações que buscam, fundo, as suas origens respectivas em África, o Continente, Berço da Humanidade.
d)— Existem Departamentos de Estudos Pan-africanos em numerosas Universidades da América do Norte, desde os anos de 1960. Ama MAZAMA, Professor antiliano aí ensina na Pensilvânea, assim como Teófilo OBENGA, Professor congolês, outrossim ensina aí, no Estado da Califórnia.

Finalmente, no atinente aos símbolos (aquilo que possui um poder evocativo; emblema/divisa), importa referir, que um dos símbolos do pan-africanismo é o gesto materializado no punho da glória (Fist of Glory), o Símbolo do movimento Black Power. Vários grupos retomaram este símbolo, designadamente: Otor, na Europa de Leste.
E, no respeitante às cores, temos que:
---As cores do pan-africanismo seriam: o verde, o ouro e o vermelho, cores oriundas da Etiópia. Se os reencontram presentemente em numerosas bandeiras de Países Africanos.
---Enfim: As cores: vermelho, negro e verde foram declaradas cores oficiais da raça africana pela Universal Negro Improvement Association and African Communities League (a UNIA), no já remoto ano de 1920.

Lisboa 18 Abril 2009
KWAME KONDÉ
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sábado, 4 de abril de 2009

ATENÇÃO GALERA!

Obama está na Europa e eu estou no país mais interessante do mundo: em Cabo Verde, pois claro.

E isto quer dizer que pode não haver postadura por aqui até ao próximo dia 18 pelo menos.

Um abraço amigo aos leitores deste blogue.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO TRIGÉSIMA:

“Em Setembro do ano passado fomos surpreendidos por
uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo
seguro, apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas
que aconteciam, sim, mas longe de nós, em países distantes e selvagens,
nós vivíamos seguros com o nosso dinheiro guardado em um banco
respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da bolsa quando fomos
informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção
de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis.
Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos
Ganhavam muito e muitos perdiam tudo.
Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões
Secretas e de lá saíram com soluções mágicas.
Nós, vítimas de suas decisões, continuamos
Espectadores sentados na última fila das galerias”.
Augusto BOAL
(Encenador e Formador brasileiro e Inventor do “Teatro do Oprimido”),
In Mensagem Internacional para o Dia Mundial do Teatro para o Ano de 2009.

(I) Historicamente, exprimindo, a Banca hodierna se afirmou no término do século XVII graças a um duplo “tournant”, no âmbito da história económica. E, explicitando as ideias, temos então que:
--- Em primeiro lugar, o seu mister deixou de se confundir com o dos negociantes que acumulavam uma profissão anexa de mutuante com a sua actividade principal. Com efeito, o advento da banca resultou de uma especialização decisiva no seio do sistema económico.
--- Em segundo lugar, este novo mister se colocou, logo à primeira (sem dificuldade, à primeira tentativa) a ofertar créditos muito mais do que o montante dos recursos confiados aos agentes.
De anotar, que os primeiros banqueiros entendiam, deste modo, poder corresponder às necessidades económicas que se incrementavam já sensivelmente, muito antes, aliás da fase denominada de “décollage économique”. Todavia, os riscos que assumiam necessitavam ser controlados, obviamente. Então, efectivamente apareceu o banco central. Assim, no âmbito desta dinâmica controlar o desenvolvimento é a primeira, senão, a única, das razões que impeliram a instituição dos bancos centrais da Suécia e da Inglaterra e, ulteriormente dos seus homólogos advindos na sequência.

(II) Com efeito, os primeiros bancos procuravam crédito para a sua clientela respectiva, emitindo notas análogas às que jazem nas nossas carteiras. Contudo, enquanto as nossas constituem meros direitos de tiragem a respeito dos bens e serviços disponíveis, oriundos directamente das tipografias dos bancos centrais, as primeiras notas representavam, em primeiro lugar, as espécies metálicas entregues aos banqueiros pelos depositantes. De consignar, que foi, efectivamente sobre esta base prática que o poder de emissão bancária se pôde instituir.

(III) Na verdade, há, aproximadamente três décadas atrás, ainda a banca era um organismo, exercendo o mister de colocar o dinheiro de uns (os depositantes e os economizadores) às ordens (e porque não, à discrição) dos outros (as empresas e os lares investidores e consumidores). De consignar, que este dinheiro podia ser entregue aos seus destinatários sob a forma de empréstimos ou subscrições ao capital das empresas. Eis porque, se pode asseverar que, efectivamente, a banca se situava por constituição no percurso que deve obter por empréstimo de que alguns não precisam e que outros todavia reivindicam.

(IV) Eis nos, de feito, ante o ponto primordial a reter, mesmo se as coisas eram, na sua essência, mais complexas na prática. A banca, por seu turno, desempenhava, obviamente o seu mister com o dinheiro dos outros e esta situação lhe conferia uma posição de força no seio do sistema económico. Aliás, devia, de modo que, as somas procuradas pelos obséquios lhe assegurem um rendimento suficiente para remunerar os seus depositantes e os seus economizadores, cobrir os seus encargos e libertar um provento de exploração sobremaneira dissemelhante, no seu princípio do rédito das empresas, relevando os demais outros sectores de actividade.

(V) No entanto e, antes de mais, vale a pena abordar, de forma avisada, os perigos que ameaçavam os banqueiros, no desempenho do seu mister respectivo. Ou seja:
a) O primeiro era o que se prendia com a questão da insolvência do mutuante, perigo que, aliás, ameaça todo o emprestador.
b) O segundo perigo decorria do risco de levantamento das espécies, que lhes tinham sido confiadas, espécies metálicas, numa primeira fase, espécies fiduciárias, num fase ulterior.
Deste modo, evidentemente, o papel dos brancos centrais, face aos perigos, ora enunciados, consistiu em enquadrar a actividade de empréstimos dos banqueiros, oferecendo-lhes, concomitantemente uma determinada caução. Nesta dinâmica, os banqueiros foram autorizados a emprestar junto deles (referindo-se obviamente, aos bancos centrais), em caso de dificuldades transitórias. E, simultaneamente, as notas que eram títulos de créditos privados representativos das espécies metálicas depositadas neles, emitidos sob a sua responsabilidade, se “pressentiram”estarem a substituir títulos de pagamento universais directamente emitidos pelo banco central.
De referir, outrossim, que enquanto os bancos comerciais puderam, entretanto, se aplicar, mais comodamente no desempenho da sua actividade de mutuantes, os bancos centrais assumiram o título oficial de institutos de emissão, acentuando o seu monopólio na matéria. Demais, outrossim e, ainda, reforçaram progressivamente as suas intervenções e participação respectiva na dinâmica da economia, ofertando liquidez aos bancos comerciais, no limite fixado pelas suas próprias reservas em metais preciosos, até ao que este limite terminasse por desaparecer, por seu turno. De feito, foi transpondo estas dissemelhantes etapas que o sistema bancário assumiu a sua parte, essencial, na expansão económica destes três derradeiros séculos.

(VI) Assim, desde então, a fortiori, a actividade tradicional da banca comercial passou a ser analisada, soit disant, “metodologicamente”, como uma tarefa dupla (de mediação e de transformação), inseparáveis, uma da outra. Deste modo, por um lado, a banca actuava como grossista (negociante por grosso), “comprando” ou “armazenando” a moeda que os agentes económicos entendiam, quer manter na tesouraria, quer fazer frutificar. E, por outro, emprestava a prazo, enquanto a massa principal das suas disponibilidades podia ser recuperada a cada instante pelos seus depositantes, obviamente.

Lisboa, 29 Março 2009
KWAME KONDÉ
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domingo, 29 de março de 2009

NO FUNDO FAZ PENA



Eu peço desculpas, mas Carlos Queiros faz-me lembrar aqueles médicos que são brilhantes a dissertar sobre as doenças e que quando têm pela frente um doente vêem-se às aranhas para fazer um diagnóstico, às vezes simples.

Podem crer que há disso. Eu sei o que digo. E Queiroz, quanto a mim, é desse género.



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AI QUE SAUDADES DE SCOLARI, AI AI

PORTUGAL O - O SUÉCIA


Quatro defesas centrais ― quatro ― jogando contra a Suécia.
Essa foi mesmo de génio, não foi?!

Como diria Scolari: «E o burro sou eu?!»

BOM DIA
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sexta-feira, 27 de março de 2009

ELOGIO DOS BLOGUES


Não há nada de jeito que se possa ler nos jornais.

Se não fossem os blogues a fornecerem a notícia, o debate, a polémica, a análise e o comentário ― o que seria de nós leitores? Qual seria o panorama cultural português? Mais pobre, certamente. Apesar dos célebres 99% de lixo que todos vamos produzindo por aqui. (Eu, 100%).

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quarta-feira, 25 de março de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO VIGÉSIMA NONA:

“Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos
Em todas as sociedades, etnias, géneros, classes e castas, vemos o
Mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo
Porque sabemos que outro é possível. Mas cabe a nós construí-lo 
Com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida”.
Augusto Boal, director artístico brasileiro, inventor do 
“Teatro do Oprimido”
In Mensagem Internacional do Dia Mundial do Teatro
Para o Ano de 2009.

Estudando, de forma dialecticamente consequente, os Eventos enformando a crise económico-financeira hodierna, somos coagidos a afirmar pertinentemente que a crise financeira que se declarou em Agosto de 2007 acrescentou um quinto episódio dramático à aventura financeira engagée au tournant dos decénios de 1970 e 1980.
Todavia e, antes de mais, sobretudo por imperativo didáctico-pedagógico, se impõe recordar, para principiar adequadamente esta nossa “posta”, os quatro episódios precedentes, a saber:
1) Craque bolsista em Outubro de 1987;
2) Crise europeia das permutas, em 1992 e 1993;
3) Crise dos pagamentos externos na Ásia, na Rússia e no Brasil, em 1992;
4) Nova crise bolsista ampla e profunda, vinculada à crise dos valores da Internet, em 2000 e 2002.

E, por razões e motivos assaz óbvios, se nos afigura, quão oportuno e percuciente, descrever a derradeira metamorfose do sistema financeiro desacreditado estes últimos tempos pela crise do mercado hipotecário norte-americano. Esta metamorfose coroa, não só provisória como quiçá, porque não definitivamente, a evolução sem freio que levou a recobrir o Planeta de dezenas de milhares de operadores que levam a vida, assumindo riscos quotidianos sobre as flutuações de activos financeiros de todas espécies. De elucidar avisadamente que assumiu a sua forma à partir das bases anteriores, apoiando-se na política de crédito, a mais laxista que tenha sido aplicada desde o término das hostilidades mundiais, sob a impulsão conjunta dos grandes bancos centrais, dos bancos comerciais e de negócios, das sociedades especializadas no crédito aos privados. Por seu turno, a crise actual revela disso os perigos e, concomitantemente, outrossim os maquinismos. Todavia, esta metamorfose e as suas atribulações recentes nos obsequiam com o ensejo e a oportunidade respectiva, para extrair um ensinamento de alcance geral, independente dos vícios de funcionamento do sistema financeiro.

Antes de mais, se impõe, evidentemente, consignar que este sistema financeiro, em apreço e análise, que preconizava reduzir o recurso ao crédito e apoiar, mais amplamente, o conhecimento económico acerca dos recursos da poupança, desdobrou os recursos ao empréstimo, sob fórmulas desconhecidas e em proporções até aqui inauditas.
Demais, outrossim e, ainda, jamais o acto de se expor à dívida, não foi tão elevado; jamais as economias haviam assentadas sobre um “apport” crescente de dinheiro oriundo do sistema bancário e dos bancos centrais que o sustentam, obviamente. O efeito de alavanca logrado na produção e na especulação pela disponibilidade de dinheiro “fresco” encontra-se no seu máximo histórico quando as ausências de pagamento dos lares norte-americanos sabotaram a confiança dos mercados internacionais do crédito.

Deste modo, evidentemente (melhor dito, aliás), no âmbito desta dinâmica, legítimo se afigurou asseverar, sem rebuço, que a experiência do último quartel do século XX pretérito terminou por renegar integralmente todos os seus fundamentos intelectuais de origem. Demais, por outro, a estulta atitude de voltar à carga da bolsa, decidida, visando reforçar os capitais próprios das empresas cotadas, desembocou na sua descapitalização reclamada pelos grandes accionistas do mercado. Eis porque, a reabilitação dos economizadores, cujo apport financeiro era reputado vital para o investimento, dissimulou um fenómeno oposto de endividamento dos lares, vindo suprir o crescimento insuficiente de rendimentos, fenómeno de endividamento do qual a crise do mercado hipotecário norte-americano proporcionou um doloroso sintoma. De anotar, enfim, que a gestão financeira dos Estados endividados pelos seus mutuantes dos mercados obrigatórios se revelou inoperante do facto da presunção de solvabilidade absoluta da qual continuam beneficiar os Tesouros públicos dos países ricos. Tudo isto principia, aliás a saber-se e o lustro cujos os mercados financeiros tanto beneficiaram se põe enfim a ofuscar. Donde e daí, então, efectivamente constituir a dívida e não a poupança, o fundamento real da expansão do capitalismo contemporâneo.

E, prosseguindo sagazmente o nosso estudo, se nos antolha pertinente, consignar que a expansão incessante e perseverante do crédito, o seu desdobramento respectivo assentam na possibilidade outorgada de o garantir por intermédio de activos. E, a título de elucidação eloquente, vale a pena, esclarecer que a expressão inglesa “Asset backed securities” serve para designar um dos procedimentos financeiros que estimulam a expansão indefinida do crédito.
Por outro, outrossim e, ainda, de assinalar os empréstimos contraídos são garantidos por o que eles permitem comprar, nomeadamente: os empréstimos hipotecários pelos imóveis, os empréstimos dos correctores de bolsas pelas acções que adquirem, as transacções sobre a dívida pública pelos títulos desta dívida, etc.
Finalmente, no fundo, no fundo, tudo isto significa que não é a solvabilidade pessoal do mutuante que se encontra na base da confiança dos mercados de empréstimos, sim, efectivamente toda a quinquilharia imobiliária e financeira que permitem adquirir, quer para uso económico trivial, quer para um fim meramente especulativo.

E, em jeito de remate consentâneo, na verdade, é este fenómeno central ora expendido, que a crise financeira do Verão de 2007 revelou, enfim a um vasto público. Demais, de sublinhar adequadamente que esta crise em apreço é o resultado de um craque do crédito. Explicitando, vale a pena recordar, que existe craque quando, num mercado, os compradores se esquivam ante os bens que lhes são propostos, designadamente: craque bolsista quando as acções cotadas, na sua grande maioria, abandonadas pelos compradores potenciais; craque imobiliário quando os imóveis vetustos ou novos já não encontram arrendatários; craque do crédito quando os títulos de dívidas emitidos pelos mutuantes são rechaçados pelos seus emprestadores habituais. Não deixa de ser bastante pertinente elucidar que o craque do crédito representa “un cas de figure” que convém, ipso facto, não confundir com o fenómeno denominado credit crunch. De anotar, que neste último caso, a massa dos empréstimos novos torna inferior ao montante dos empréstimos antigos efectivamente reembolsados. Existe, outrossim, contracção do crédito, porém o mercado continua preenchendo a sua função habitual.
Demais, por outro, a despeito dos riscos de abrandamento económico provocado pelo credit crunch, os bancos centrais não têm motivo para intervir, no caso de urgência, salvo aquando dos seus encontros respectivos, na data estabelecida com os bancos, sob a forma de adjudicações hebdomadárias de moeda, em função da procura expressa pelos bancos comerciais, pois que preservam uma lata faculdade de apreciação e de acção. Aliás, podem inteiramente afinal deixar se operar durante algum tempo a contracção do crédito que tentar remediar a situação, adoptando uma política monetária mais favorável ao sistema bancário. Eis porque, as suas intervenções inopinadas e maciças, a partir de Agosto de 2007 até aos derradeiros dias do ano, só se podem se justificar a contrario pela “détresse” de numerosos mutuantes cujos os títulos eram rejeitados, frequentemente a despeito da reputação excelente da qual usufruíam antes no mercado.
Lisboa, 25 Março 2009
KWAME KONDÉ
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domingo, 22 de março de 2009

RELEMBRANDO

Nunca é demais relembrar certas coisas. Relembrar coisas importantes. Sim, são coisas importantes estas.


Primeira coisa: Manuel Dias Loureiro continua a ser Conselheiro de Estado. Conselheiro do Senhor Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. E o Senhor Presidente sabe disso ― sabe, sabe!







Segunda coisa: Augusto Santos Silva. Ministro do actual governo. Gosta é de «MALHAR».

Como é importante aquele “é”, não acham?




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POBRE FUTEBOL E POBRE PAÍS


O que se passou ontem no estádio do Algarve é um retrato exacto da sociedade portuguesa actual: mediocridade, incompetência, roubalheira, falta de vergonha e impunidade total.

E Pedro Silva, brasileiro jogador do Sporting, foi aquele que melhor espelhou o desprezo a que se deve votar toda aquela gente envolvida na fraude:

Na impossibilidade de enfiar a medalha no cu dos responsáveis por aquela vergonha organizada, ou no cu do árbitro Lucílio Baptista, atirou-a fora na presença dos putativos vips que as distribuíam.

Os responsáveis do Benfica, com proverbial falta de pudor, em vez de mostrarem alguma pedagogia e algum carácter envergonhando-se e demarcando-se daquele «roubo de igreja», festejaram o resultado daquela palhaçada toda associando-se aos seus adeptos acéfalos a quem vão transmitindo a filosofia de que «o que interessa é ganhar, seja por que preço for».
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sábado, 21 de março de 2009

AU-AU-AU

Eu sei ladrar. E ladro bem. Fui actor nos tempos de estudante: tínhamos um grupo cénico que actuava numa sala da Junta de Freguesia do Castelo (de S. Jorge); então, numa peça satírica sobre o quotidiano do PREC, havia uma parte da representação em que eu imitava o ladrar de um cão ― e aquilo saiu-me tão bem que desde então penso que, se quiser, um dia posso ser cão... desde que isso me pareça ser melhor que a minha situação do momento. E é o caso.

Sinto tanto a degradação da Qualidade das instituições que, como cidadão, até me apetece oferecer-me como cão do Obama do que continuar nesta triste vida assistindo à permanente queda de qualidade ― sobretudo da qualidade das pessoas que fazem as instituições.

Auuuuuuuuuuuu!...

[Isto sou eu a dizer boa tarde.]
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quinta-feira, 19 de março de 2009

O EGO NUM MAR DE NADA

Esta governação monocórdica e sem contraditório; sem contraditório e sem oposição; feita por uma pessoa arrogante e de pouca cultura, que engoliu um partido político e vai morrer de indigestão, que preza o número dos votantes mas despreza o dos manifestantes ― sejam elas as mesmas pessoas: as que votaram e as que manifestaram ―, só pode acabar mal para Portugal. Por culpa exclusiva dos portugueses. A quem, por infeliz atraso cultural estrutural (mas também por medo, por medo, por medo), interessa mais a vidinha que a vida da Nação, pois, tal como o seu governante, “para além da ponta do meu nariz... está o nada”.
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KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO VIGÉSIMA OITAVA:

Nota Prévia:
Não há dúvida nenhuma, que neste momento francamente crucial, no âmbito dos Grandes Eventos da Humanidade, por isso mesmo, mais que nunca, necessário se impõe o debate de fundo, no domínio da matéria de política económica, é que esse se volatilizou, desaparecendo das agendas, sumindo-se e se ocultando nos profundos arcanos do olvido.
Todavia,
Obviamente, existe um vigoroso protesto altermundialista, no entanto, o seu propósito releva antes da denúncia que da compreensão do Capitalismo que grassa e prospera, a olhos vistos.
Com certeza, evidentemente, conquanto conceda o elóquio oficial, subsistem nuances entre “políticas de direita” e “políticas de esquerda”, porém as premissas são idênticas.
Donde e daí, urge interrogar avisadamente e, porque não, já agora, numa perspectiva eminentemente dialéctica, na peugada e esteira do economista francês (antigo perito do Movimento das empresas de França), Jean-Luc GRÉAU (n-1943), por motivos e razões assaz óbvios. Ou seja:
(1) Em que consiste esta famigerada concorrência suposta possuir terapêutica apropriada para tudo?
(2) A veneranda teoria das vantagens comparativas justifica a abertura mundial das permutas, sempre válida, efectivamente?
(3) Vivemos, realmente numa “sociedade pós-industrial”?
(4) Enfim, como funciona a esfera financeira?


A crise financeira do Verão de 2007 chamou à atenção, recordando eloquentemente, se necessário fosse, a instabilidade fundamental do sistema financeiro implantado, por etapas, desde aproximadamente três décadas. Por outro, a série de crises violentas, afectando ossaturas inteiras da economia mundial, entre 1987 e2007, contrasta com a surpreendente e singular estabilidade que reinou após a guerra.
Antes de mais, vale a pena consignar, com ênfase, o quão necessário, se afigura, chamar à devida atenção pelo facto que as economias devem assumir o tournant que os tornará menos dependentes dos mercados e dos seus operadores respectivos.

Com efeito e, tentando precisar as coisas e as ideias, o sistema que alguns denominam capitalismo, que outros, por seu turno designam como uma economia de mercado é em substância o sistema em que a produção é governada pela concorrência (rivalité d’intérêts provoquant une compétition, spécialement dans le secteur industrial ou commercial). De anotar, por outro, que a lengalenga da vulgata neo-liberal em torno do tema da competitividade implica que os mecanismos da concorrência se apresentem sob uma forma óbvia e clara e que não constitui, ipso facto, ocasião própria para abrir um debate preliminar sobre o assunto. Todavia, o que é facto é que a concorrência permanece um conceito obscuro do pensamento económico. Desenha paradoxalmente a forma de um enigma num mundo económico que lhe consagra uma devoção constante e sem reserva.
Demais, temos de convir, no âmbito desta dinâmica, que a própria teoria económica não procura nenhuma resposta quão firme e sólida. Oscila entre uma concepção naturalista da concorrência, que encara esta como uma manifestação inevitável da liberdade dos indivíduos e uma concepção artificiosa que a faz depender, ao invés, da impulsão e da vigilância dos poderes públicos. E, já agora, vale a pena, consignar com ênfase, que estas duas concepções ora enunciadas coabitam nas “cabeças” da burocracia sediada em Bruxelas.
Eis porque, evidentemente, mais que nunca, se impõe fazer de um mal efectivo um bem potencial. De feito, a miséria confessada pela economia neo-liberal nos deve servir como um positivo estimulante intelectual, pois que impende sobre todos nós, sem excepção, cidadãos conscientes, esta ingente tarefa de instituir a terapêutica consentânea, visando outorgar o remédio apropriado para esta miséria em apreço, sem receio algum de se mostrar imodesto, antes pelo contrário.

Na verdade e, na realidade, sob o regímen do mercado cativo, os vendedores, monopolísticos ou não monopolísticos, têm garantido o acto de escoar as suas produções. Aliás, o monopólio é apenas uma versão particular, no fim de contas (em resumo, obviamente) secundária, de uma economia constituída por produtores beneficiários de mercados cativos. Em compensação, a concorrência significa que os vendedores já não possuem garantia do montante aproximativo das suas vendas, porquanto podem ser outrossim excluídos do mercado, em proveito de rivais sobremaneira melhor apetrechados.
E, procurando elucidar, um pouco melhor o nosso estudo, se afigura importante referir que, efectivamente, a passagem da economia mercantil vetusta, que Karl MARX denominava a “economia mercantil simples” para uma economia de mercado concorrencial consistiu na supressão progressiva dos mercados cativos sob a acção de verdadeiros empreendedores sem título, que encaminharam para o triunfo numa nova lógica da actividade produtiva. Deste modo, consoante esta lógica, o objecto das transacções que se operam nos mercados económicos já não consiste em definir os termos da permuta entre os vendedores e os compradores, em proporcionar os seus interesses recíprocos, sim, efectivamente em determinar as parcelas de mercado outorgadas aos vendedores por compradores pronunciados livres pelas suas escolhas.

Uma vez, posto isto, nos vos convidamos a nos acompanhar, num pertinente e oportuno Exercício Intelectual, cujo objectivo primordial é mostrar, a contrario, as realidades dissimuladas sob as aparências da vida económica corrente. Com efeito et pour cause, não há dúvida nenhuma que:
(1) A desregulamentação organizada da produção de determinados bens ou serviços não caucionou o advento de uma concorrência efectiva. Demais, de consignar adequadamente, pode-se mesmo desembocar num resultado inverso, como o patenteia a experiência norte-americana em matéria de produção de electricidade.
(2) Os mercados financeiros não conhecem a concorrência sob a sua forma produtiva. Efectivamente, as instituições económicas colocadas no centro do sistema económico obedecem a uma lógica tão especial que se indaga como puderam acabar por incarnar, na vulgata actual, a noção de concorrência perfeita.

Enfim e, em suma, rematando destarte avisadamente, no fundo, no fundo, no que envidam encarniçadamente os nossos “mentores”da vulgata, é nos fazer assumir as bagatelas e futilidades respectivas da acumulação financeira e da exploração cínica do trabalho e do talento do Homem para as patranhas/balelas da concorrência, finalmente (e por último) plenamente desabrochadas.

Lisboa, 17 Março 2009
KWAME KONDÉ
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domingo, 15 de março de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO VIGÉSIMA SÉTIMA:

A força do preconceito:

Para Principiar adequadamente esta nossa “posta”, vamos partir de um elucidativo paradoxo (asserção na sua acepção imediata contrária a uma opinião usualmente aceite), paradoxo esse incarnado nas atitudes e nas condutas denominadas “racistas”, observáveis presentemente, que, aliás, dá bastante que pensar. Sim, efectivamente, estamos ante um paradoxo de um racismo não biologisante, não explícito, nem quiçá identicamente concebível no âmbito de uma diferença de raça. E, que, por outro, aparece às vezes sem referência, tão pouco à tese de desigualdade, que, outrossim, já não admite uma classificação hierárquica dos “tipos” ou dos grupos humanos. Eis porque, desde alguns anos, o vocábulo “racismo” aparece amiúde escrito e apresentado entre aspas nos discursos eruditos isto com bastante legitimidade, como corolário lógico de um labor de desconstrução deste “ismo” utilizado imoderadamente.
Destarte, no âmbito desta dinâmica, se nos afigura pertinente consignar que o carácter singular do lexema “racismo” deve ser posto em dúvida, por motivos e razões, assaz óbvios. Donde, outrossim, aliás, se pode e se deve aventar a hipótese que existe racismos. E, à consideração da pluralidade dos racismos se acrescenta a do seu carácter “evolutivo”. Ou seja, evidentemente que o polimorfismo do que se denomina “o racismo”parece ser inseparável das suas metamorfoses.

E, prosseguindo assertivamente, perante o racismo, quando flagrante, parecendo, ipso facto, intolerável, impõe-se, concomitantemente envidar explicá-lo como um facto e combatê-lo como um autêntico opróbrio. Tentar, outrossim e, ainda conhecê-lo e compreendê-lo e, simultaneamente se esforçar, o máximo em reduzi-lo ou a neutralizá-lo, de molde eficaz. Também, se impõe tentar compreender a sua persistência e a sua resistência à crítica, à indignação moral consensual e às medidas práticas que o tem em mira.
Com efeito, para quem não o admite e o combate consequentemente, o racismo se apresenta, por conseguinte, concomitantemente, como um objecto, até mesmo, um verdadeiro desafio para o pensamento e, enfim, um domínio de luta para a acção. Sim, efectivamente, para a acção política e moral, pois que, o mal racista é, à primeira vista e, antes de tudo o que não deveria ser (não deveria existir), melhor dito, já não deveria suceder, absolutamente. E, eis porque, deve, em conformidade, ser combatido acérrima e pertinazmente.
De anotar, todavia, que a dificuldade, neste caso, em concreto, consiste, seguramente em suprimir a violência, sem, no entanto, provocar uma nova violência, para não acrescentar à aquela, evidentemente. No fundo, no fundo, o fim prático é a subtracção da taxa de sofrimento no Mundo; do sofrimento injusto ou injustificado e, não desta dimensão do sofrimento, fazendo parte da condição humana. Leia-se, obviamente, sofrimento metafísico. Na verdade, mais precisamente o trabalho do progresso consiste em suprimir no sofrimento o inútil. Eis, com efeito, o que justifica a luta ética, jurídica e política contra o mal, em que o racismo constitui um símbolo.

E, em jeito de remate percuciente e oportuno:
Antes de mais, se impõe questionar, com o verdadeiro sentido de responsabilidade, ou seja: Onde se situa precisamente o desígnio moral? Com certeza e, sem sombra de dúvida, na exigência que sejam abolidas os sofrimentos infligidos ao homem pelo próprio homem, evidentemente.
Donde e daí a importância dos deveres no âmbito do desígnio universal: Repúdio da tortura, da escravatura, da xenofobia, do racismo, da exploração sexual das crianças ou dos adultos, etc.
E, vendo bem com olhos de ver, de feito, o dever anti-racista é apenas uma especificação do dever de lutar contra todas as formas de violência inter-humana. E, eis porque, a tarefa não é nem simples e nem fácil, porquanto o racismo não sendo um fenómeno nem estável e nem homogéneo, a luta contra o racismo não pode ser edificada sobre uma estratégia única. Esta (referindo-se, obviamente à estratégia em si) passa por análise crítica das representações anti-racistas do “racismo”, não unicamente na linguagem ordinária, porém ainda e, sobretudo nos trabalhos eruditos, em que certos resultados provisórios e discutíveis não cessaram de alimentar o discurso anti-racista militante e de orientar a luta organizada contra o racismo.

Lisboa, 14 Março 2009
KWAME KONDÉ
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