sexta-feira, 18 de setembro de 2009

DOENTE ME CONFESSO

Acho. É minha opinião. Que o Sr. Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, tem intervindo objectivamente na vida partidária; e agora na campanha eleitoral, favorecendo o PSD e desfavorecendo o PS.

Desde alguns textos de vetos políticos; passando por algumas declarações como as sobre a pretensa “asfixia democrática”; e agora a declaração hoje feita de que «depois das eleições» vai-se informar e ocupar-se melhor de questões de segurança ― sabendo-se como se sabe hoje que foi um assessor seu (certamente com o seu consentimento) quem plantou num jornal a notícia de que Belém poderia estar a ser escutado pelo Governo ― tudo isso é, para mim, uma evidência de interferência na campanha eleitoral.

Deus! Perdoai-me mais uma vez! E crê que já fui suficientemente castigado por isso ― José Sócrates foi eleito com o meu voto ― !...

Como primeiro-ministro, Sócrates lixou-me e lixou a maioria dos portugueses com uma actuação altamente lesiva do interesse de todos: foi arrogante com as oposições, cruel com os professores, desastrado com os juízes, insensível com os funcionários públicos e os trabalhadores (baixando as pensões de reforma e alterando o cálculo das mesmas no mesmo sentido); fragilizou até ao limite da “zona perigosa” os serviços hospitalares públicos promovendo uma política de extinção das Carreiras Médicas que desertificou os hospitais dos quadros mais experientes e mais válidos, ao mesmo tempo que entregava a gestão de muitos deles (hospitais) a administrações de tipo empresarial e mesmo fabril que acabaram por promover a mercenarização de grande parte do trabalho médico através da contratação de “empresas” sem a imprescindível avaliação curricular e exame de capacidades profissionais; em suma: José Sócrates lixou tudo em que o Governo meteu a mão.

Mas o paradoxal nisto tudo é que José Sócrates é, neste momento, o único candidato a primeiro-ministro a dar aos portugueses algum grau de esperança de que o que resta da destruição que causou até agora vai ser em parte preservado não se o entregando aos abutres ainda mais à direita do que ele, ou aos que à esquerda já têm o dedo untado com vaselina apontado à classe média.

Não votarei agora no PS ― Isso é claro! Isso é claríssimo para mim!

Mas desejo que Sócrates ganhe as eleições com maioria relativa.

É que eu sofro de hemorróidas!...
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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

ELOCUBRAÇÃO QUARTA:

Na peugada das Eleições…

“Ser culto es el único modo de ser libré”
José MARTI (1853-1895)

Cada Sociedade tem o Governo que merece…

Vem se afirmando, repetida e exaustivamente, que os Portugueses se desinteressaram da “política” e, mais ainda, dos próprios “políticos”, de quem nada esperam.
Com efeito, nos nossos dias, a eleição (as eleições) se mostra (m) como uma mera experimentação, fazendo surdir o que mascara e dissimula o curso ordinário das coisas, a rotina que perde a vivacidade, tornando menos insuportável a incapacidade dos poderes. O tempo eleitoral é o momento em que tudo se apresenta, numa espécie de desencaixotamento das queixas, recriminações e reclamações respectivas, continuadamente aberta. Eis porque, um tanto ou quanto, num tom eufemístico, se assevera, tratar-se de uma escassa e rara ocasião “verdadeiramente democrática”.
É, outrossim, o tempo de um ritual político de inversão, em que as pessoas, o povo “dispõem do poder” de abanar os políticos, de os colocar na situação de incerteza ou de derrota. É bem isto, que é preciso colectar, classificar, ordenar e tornar significante para além da dispersão dos factos e dos eventos.

A Incerteza eleitoral corrobora o exercício da democracia, o simulacro das vias confirma a utilização autocrática das Instituições políticas, visto que, o resultado estando adquirido, antecipadamente (à partida), sem surpresa, como o são, os dados estatísticos, que o exprimem. Enfim, é o grau de incerteza que determina o grau de intensidade dramática de uma campanha eleitoral.
Costuma, em princípio atingir uma duração propícia para a repetição do inesperado, aos ressaltos, a queda e derrota das retóricas e demais quejandos. Todavia, outrossim, pela sua própria durabilidade, engendra fases de lassidão, momentos de saturação e expectativa impaciente do término do drama, a sua conclusão respectiva. Os candidatos, eles próprios se esfalfam, pois urge forçar a presença, fixar o voto dos jovens, ainda, assaz flutuante que pode trazer a diferença decisiva.

Vivemos, sem dúvida, o momento da agonia da Democracia Ocidental, em que o sistema, degenerado, se converteu, num modelo, de um autêntico mau gosto, de meros círculos eleitorais. É o verdadeiro momento da distribuição, deleteriamente aliciadora de um programado “bodo aos pobres”, em que, ipso facto, os “sacos azuis” reservados para a ocasião e efeitos respectivos, circulam, a rodos, por tudo quanto é sítio. Enfim!...
Sim, efectivamente, deste modo, tudo vai por saltos e ressaltos, paixões devotas e paixões homicidas. Eis porque, se asseverou, desde há já demasiado tempo e que, se assume, eloquentemente na vetusta asserção: A política releva do trágico! E, cada vez menos, neste tempo, em que as histórias se impõem, como substituto da História e o poder se enfatua como gerador de ficções dramáticas ou/e romanescas. Todavia, todos os actores, as primeiras figuras, designadamente, não são equivalentes, nem na escolha do desafio, nem na performance.

Vejamos, então, um pouco mais, em pormenor:
(1) José Sócrates:
---Suscita paixões extremas: o vínculo a um homem cuja a coragem e a vontade de triunfar inspiram, efectivando o quase salvador de um país privado de herdeiros de verdadeiro governo, por um lado, a desconfiança total a respeito de um homem cujas as certezas, a confiança em si e o gosto de si, a vontade de omnipresença pela acção e de decisão em todas as coisas levam a recear e temer uma deriva autocrática, por outro. É desta contradição, da fuga exercida na acção política eleita como meio existencial, que resultam as representações de um “herói” empenhado numa sequência de conquistas.
---De feito, o espaço nacional se conquista pelo espaço mediático, o espaço do exterior (o dos outros), que não se encontra ainda, amplamente aberto a eventuais e possíveis conquistas. Nesse espaço, a figura do “herói” se assume delicada ou em negativo, sendo, deste modo, a sua identificação, assaz incerta.
---E, parafraseando, o escritor francês, Jean-Marc PARISIS: “Il parle et se montre beaucoup, mais l’important est ce qu’il ne dit pas et ce qu’on ne voit pas… Derrière ses sourires, il y a des cauchemars dont il a le secret. De lui émane un fort parfum de tragédie ».
(2) Manuela Ferreira Leite :
a. Portadora, soit disant, de todos os conspectos de uma mulher de boas origens e de “boa educação” (e, por que não, quiçá de “boa” instrução académica) que reage aos constrangimentos do seu meio pelo seu caucionamento social-democrático.
b. Enfim, a candidata: o seu “charme” é reconhecido (aparentemente), sublinhado, sobretudo pelos seus apaniguados/lacaios, no entanto, concomitantemente a liga: torna um ícone, todavia, os ícones são feitos para a adoração e não para a condução política das Nações, uma madona, porém, as madonas existem para o culto da beleza e, a revelação pela Arte e, sobre uma forma, mais crítica, torna a Santa Padroeira social-democrática que leva a boa palavra. Uma social-democrata cujo o conservadorismo obsoleto estaria dissimulado, uma espécie de devota “solidária”, uma “patriota” vinculada ao estandarte verde/rubro e à divinação do hino nacional…
c. Sim, enfim, uma “mulher” que “ousa” (segundo os seus apaniguados, obviamente), a despeito dos entraves que os “dignitários” e os “barões” do seu partido (o PSD) queriam lhe atar, que arvora uma paixão popular (“populista”, asseveram quiçá os seus adversários?).
d. Faz frente: “Sou uma mulher firme e em pé”. Se sobre este fundo, se acrescenta mais as ausências/deserções, outrossim, as traições, as feridas sofridas, no decurso da campanha, aparecem todos os elementos necessários para uma dramatização dos efeitos do mérito e a procura (a todo o custo e preço) do poder, afrontamentos em que a “solidez” do carácter e a vontade de vencer em prol do serviço do “bem”, se aventuram.

Das duas personagens principais apostados neste drama em numerosos episódios e inversões de situação é Sócrates que assume o papel mais turbulento, o mais ofensivo, enquanto Manuela se remete aos papéis reunidos de autor-actor-encenador que escreve, gere, encena a sua peça e a interpreta: título possível: O verdadeiro nascimento da “Democracia participativa”.
Para ambos, a prestação possui, em si mesma, uma dimensão, uma significação política, visto que é consoante esse critério que ela (referindo-se, obviamente à prestação) será apreciada.
E, enquanto o texto representado, composto e adaptado, no decurso do movimento dramático é julgado sobre o que exprime e deixa entender, sobre o que modela a sua expressão. Um modelo mais centrado sobre a procura do resultado, sobre a performance com afrontamento concorrencial e imagem da empresa eficaz, para o “texto” Sócrates; um modelo de recepção e acolhimento respectivo de todas as palavras urbanas, outrossim de todos os lamentos e de composição da récita, ao mesmo tempo (regularmente), para o texto Manuela.

Em termos, imediatamente políticos, ter-se-á asseverado, que estes “textos” representados constituem o suporte de um programa, de contornos flutuantes conforme as reacções das audiências. Nas sociedades ultramodernas, simultaneamente “numerizadas” e “teatralizadas”, o segundo destes aspectos introduz, com uma evidência, cada vez mais e mais, marcada a necessidade de uma avaliação efectuada segundo os critérios dos espectáculos. Os candidatos são, primeiramente experimentados, apreciados, desejados ou não, de modo imediato, à partir da sua “imagem” e do seu modo de falar, da sua voz, evidentemente. A sua presença na imagem, as suas posturas, o seu gestual peculiar e a expressividade do seu rosto fazem da impressão ressentida um juízo espontâneo, não elaborada, monótona e insipidamente carregada de afectos.

NEVOEIRO
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra.
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

É a hora!
Valete, Fratres.
10.12.1928
Fernando PESSOA
In Mensagem

Nota final:
Esta ELOCUBRAÇÃO é dedicada ao nosso Grande Amigo (notre frère aimé), o Dr. Fortunato Vaz RODRIGUES, com um robusto abraço do Chicão.

Lisboa, 16 Setembro 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo)
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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

ELOCUBRAÇÃO TERCEIRA:

No cerne da Mundialização das desigualdades:

(I)
A escala Mundial, não é surpreendente que a extensão das desigualdades dos ganhos e das fortunas tenha, outrossim mudada de escala de valores. O concurso dos rendimentos dos proprietários e dirigentes de empresas (financeiras ou não), os dos ídolos em todos os géneros, negociando em hasta pública os seus retratos, os seus juízos de cybercafé, os seus vestuários de um dia, a sua presença física, mesmo em meias não vestidos, os prestidigitadores de dinheiro negro, explica a emergência de uma coorte já fornecida de ricos Mundiais, de todas as obediências nacionais ou raças, dispondo, em comum, de meios financeiros, outrora indispensáveis.
Enfim, representando, puramente o “individual”, alguns, nascidos em berço de oiro da Sorte, do seu trabalho ou do seu Génio, acedem, enquanto vivo (termo da lógica do Mercado salvador) a um estatuto próximo da Santidade religiosa.

(II)
Uma Nova desigualdade oriunda da Mundialização, se acrescenta, doravante a às tradicionais de um Capitalismo que favorece muito legitimamente as aptidões individuais cujos os titulares de um QI médio, entre outros se recusam a considerar a raridade. A evolução dos rendimentos da Economia de mercado, por excelência, a dos Estados Unidos da América é significativa: o crescimento não é para todos, ou nada de modo idêntico.
O salário real médio americano é quase igual ao seu nível de há, aproximadamente, três décadas. O rendimento de um homem de trinta (30) anos é inferior de 12% ao que era há trinta (30) anos. A quase totalidade dos frutos do crescimento foi aos 5% para os mais ricos, pioneiros dos actuais”verdadeiros ricos”.
Eis porque, um indivíduo sobre vinte (20) pode sonhar americano, enquanto os dezanove (19) outros se adaptaram (constituindo esta capacidade a qualidade fundamental do humanóide), antes de mais, fazendo trabalhar as mulheres (inclusive as amas de cor), trabalhando mais bastante tempo, se endividando, enfim, o que teve para efeito, através dos proventos bancários, de alimentar o bacinete dos 5% e, in fine, provocar a crise actual dos empréstimos hipotecários que não podem ser reembolsados. Em suma: a acumulação do passado, favorecendo a evolução do consumo, permitiu o fundamental desta adaptação.

(III)
Que existe de mais necessário, que se ocupar de si próprio e, antes de tudo, do seu Corpo, deste corpo cujos os tormentos, mesmo congeminados, prejudicam ao único objectivo que granjeia: a sua felicidade, melhor, o seu bem-estar? Corpo que enclaustra em si próprio, a aziaga ideia de envelhecer, por vezes, durante bastante tempo (demasiado mesmo?) ante uma extinção, que não é preciso afrontar.
Representemos, de modo individual, relaxemos, diminuamos a tensão, após termos nutrido Bio, ter bebido uma água verdadeiramente pura, estarmos afastados de todos os vapores perigosos das energias não renováveis. Sejamos verdadeiramente verdes, antes de outorgar ao nosso psique, uma atenção que ela não reclama, aliás, não antes que tenhamos dispensado todos os cuidados devidos ao nosso “Hardware”!

(IV)
Esta evolução dos modos de vida norte-americanos precedem, como, se amiúde, a dos Europeus, seria completamente admirável, se não tivesse incitado alguns caturras, cada vez mais e mais numerosos, a associar, duas disposições, que exprimem muito, vinculados a mercantilização: o anti-intelectualismo e o anti-racionalismo.
E, explicitando, de modo consentâneo as coisas, temos que:
(1) O primeiro assenta no postulado que “saber demasiado é perigoso”, saber demasiado, outrossim, como apreciar demasiado o que os Europeus, no âmbito da história mais longa, denominam Cultura. Este princípio é quiçá excessivo, porém não desprovido de alguma sensatez. Tantos seres vivem como podem, sem saber grande coisa e correm o risco de se sentir destabilizados, se estudam. As vidas vegetativas, num nível de desenvolvimento idêntico ao dos países denominados desenvolvidos se desenrolam muito bem, sem nenhum sentimento de culpabilidade e sem comentários. Este postulado releva, em parte, de uma verificação e outorga boa consciência ao grande número, o que favorece, aliás, a ordem Social.
(2) O segundo é quiçá mais pernicioso, em todo o caso, coloca problema, tendo em conta, o seu renascimento na Nação, onde o Progresso científico foi, nestes últimos anos, o mais rápido. O êxito crescente deste anti-racionalismo se compreende facilmente. Este postula, que nenhum facto, nem nenhuma ideia, releva de um saber científico irrefutável, sim, na verdade, só existe meras opiniões. Esta atitude, por sua vez, legitima todas as seitas: o incógnito, se aspirando a todas as opiniões possíveis, assim como, a todos os recuos, como o que traduz o Criacionismo. Subsiste então, o facto que, aproximadamente, metade de cidadãos norte-americanos, são evangelistas e o facto que o Mundo foi criado tal dia a tal hora, por uma potência divina se encontra doravante, sob a sua pressão, é ensinado nas escolas. Os caturras correm o risco de o permanecer demasiado tempo e a Idade que denunciam se revelar duradoura (mais que o seu próprio ambiente).

(V)
Estas duas disposições, enunciadas e estudadas, podem parecer sobremaneira paradoxais. O anti-racionalismo, designadamente, tendo em conta o papel das elites cientificas norte-americanas, do domínio militar até à Biologia, passando pelo conjunto das descobertas físicas que permitiram o advento da Internet.
Paradoxo aparente, unicamente na medida em que se vê, muito bem, como podem se articular, no domínio político, a coexistência de uma minoria hiper-racionalista e de uma grande maioria ignorante da História e da Geografia, fora da sua rua, onde se encontram estes arquétipos da vida social norte-americana: donas de casa periodicamente desesperadas cujas as preocupações não parecem ultrapassar o seu estrito interesse, sem mesmo passar pela sua cozinha. Esta desigualdade cultural, a do saber, se acrescenta relativamente à desigualdade económica e à da riqueza. Se adicionam, aliás, sem se corresponder. Os ricos texanos, segundo o que nos ensinava este extraordinário Dalas, que virtualmente a vulgarizou antes da Hora do Mundo desenvolvido, só aprovam para o conhecimento do seu ambiente dissemelhante do que feminino ou petrolífero, um interesse apaixonado.

(VI)
Não há dúvida nenhuma, que as duas Américas, a dos Prémios Nobel e a das “donas de casa exploradas”, dos seus esposos (evidentemente), amiúde frustradas e dos seus progenitores condenados à mesma sorte, só fazem favorecer o exercício, assaz racional, do poder económico político concentrado nas mãos de alguns. Estamos ante uma pseudo democracia (uma democracia sonhada que se presta ao estatuto de produto de apelo à exportação).

(VII)
Na verdade e, na realidade, os USA suplantaram para sempre, a “Bona velha Albion” cuja a influência é, cada vez mais e mais, reduzida no perímetro londrino.
Antes de mais, de elucidar, que o vocábulo Albion é um nome alternativo, de conotação poética da Grã-Bretanha, ou da Inglaterra. É uma helenização renovada do nome da Grã-Bretanha, Alba.
E, reatando, o fio da nossa elocubração e raciocínio respectivo, de feito, para apreciar o poder ideológico do Mercado, basta substituir os Estados Unidos da América pela Inglaterra, no trecho da obra “Para além do bem e do mal” em que o filósofo alemão Friedrich NIETZCHE (1884-1900), assertivamente avisa, nestes termos: “No fundo, todos os moralistas estão decididos a dar razão à moralidade [americana], na medida em que esta moral será útil à Humanidade ou à felicidade do maior número […]. Pretenderiam, custe o que custar, se persuadir que o esforço para a felicidade [americana] quero dizer o conforto e a moda (e, em última instância), um assento no [Congresso], que tudo isso, se encontra precisamente na senda da virtude, enfim, que toda a virtude que jamais existiu, em qualquer parte do Mundo, se encarnou num tal esforço. Nenhuma destas vagarosas bestas de rebanho da consciência perturbada (ou comprada), (que empreenderam fazer observar a causa do egoísmo como a do bem-estar geral), jamais quis compreender e pressentir que o bem-estar geral não é um ideal, um fim único, uma escolha concebível de um modo qualquer, mas tudo simplesmente um vomitório”.

(VIII)
De consignar, todavia, que NIETZCHE não era nisso, menos demasiado filósofo, demasiado europeu, sim, assaz pragmático, o que os herdeiros imigrantes norte-americanos são e permanecerão muito tempo. Aliás, sem o dizer, nem o escrever, alguns de entre eles sabem que “existe uma hierarquia entre homem e homem e, por conseguinte, outrossim entre moral e moral”, se opondo firmemente ao juízo do filósofo alemão acerca dos Anglo-Saxões, segundo o qual: “é uma espécie de homens modestos e forçosamente medíocres como estes [Americanos] utilitários […] sem entusiasmo nem graça […], sem génio e sem espírito” (salvo os que ocupam o vértice da hierarquia que compreenderam perfeitamente que o exercício do seu poder é tanto mais tranquilo e proveitoso, se a base for anti-intelectual e mesmo anti-racional…?!).

Lisboa, 14 Setembro 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo).
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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

MAS QUE GRANDE SURPRESA!

Não se pode estar mais de acordo. Eu vi apenas a casa de Paulo Portas: Meu Deus! Aquela decoração nem sequer é kitsch como diz JPP ― é simplesmente inqualificável ―: desde o azulão do céu com as estrelinhas brilhantes na parede, passando pelo aquário e por aquele painel “publicitário” rotativo ora mostrando Winston Churchill, ora Corto Maltese, ora Sharon Stone (coitada, fez pena ver a ex-sex symbol naquela companhia), e terminando naquelas cores tremendíssimas das paredes, tudo aquilo faz lembrar cenas e ambientes de certos livros infantis muito coloridos, muito coloridos, ou ainda dos bonecos Pini Pons.

Não se viu um gato, um cão, uma arara ou qualquer outro animal doméstico que, por exemplo, faça cocó lá em casa e dê assim ao menos um cheirinho mais natural àquele ambiente de celulóide.

Fiquei francamente perplexo. Não imaginava nada daquilo...
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ELOCUBRAÇÃO SEGUNDA:

O económico é abstracto;
O social pertence à realidade quotidiana…

NP:
O Corporativismo jamais foi, nem supremo,
Nem superior e, não será jamais. Bastar-lhe-á
Ser o estado último do Capitalismo triunfante
Do qual foi o preâmbulo, antes da Industrialização
E do qual será o herdeiro, uma vez, pacificada (quiçá)
A violência necessária a toda a criação, fosse ela de
Valor.
O Capitalismo, por seu turno, está condenado a ser
Apenas uma transição, tanto menos, duradoira, se
geral e rápido for o seu Êxito.
Afinal, o proveito inteligente não se transforma
Em rendimento? E o progresso técnico, oriundo do
Génio de alguns, incorporado e espalhado no conjunto
Dos Povos do Planeta, não possui razão fundamental,
Até único, para democratizar a sorte invejável dos
Capitalistas (leia-se, outrossim possuidores de rendimentos),
Activos e inactivos, seguros da estabilidade da sua
Condição?

A árvore, ela, brota por razões oriundas do Céu: Deus
Decide. Todavia, são os homens que assumem o
Revezamento para se os partilhar. O económico é abstracto;
O social pertence à realidade quotidiana…

(a) Na verdade, esta incapacidade das teorias económicas e capitalistas em responder à interrogação: “Porquê é que fulano ganha mais do que eu ganho? É justo? Que fazer para melhorar a minha condição? “ explica, obviamente, a focalização sobre o social, sobre a pertença a um ofício, a uma profissão, a um tipo de actividade e edifica, in fine, as raízes do Corporativismo.

(b) De feito, as duas políticas económicas (liberal e keynesiana) sob a égide das quais se desenvolveu o mundo Ocidental, pioneiro de uma industrialização doravante Mundial foram sobremaneira apresentadas, falsamente como antagónicas. Os seus meios de garantir o desenvolvimento eram dissemelhantes: economia da oferta para os liberais; economia da procura entre os reformistas. Porém, tinham idêntico objectivo: o crescimento no longo prazo, isto é, a acumulação colectiva e individual de bens materiais e imateriais o que acaba precisamente por os tornar obsoletas.

(c) Com efeito, cada Ser produz e exige, tanto mais, quanto nada possui. Quanto mais êxito tiver, em acumular, tanto mais a sua preocupação fundamental passa a ser manter e conservar e, cada vez menos, produzir, se concentrando, sempre mais, sobre a sua herança, os seus louros e os seus bens respectivos. E eis que o êxito da sua conjugação, desde mais de meio século desemboca, na sua totalidade, normalmente no seu retraimento e apagamento respectivo. Processo hegeliano, obviamente: um de mais!


(d) As duas Virtudes Cardinais do Corporativismo se devem precisamente à perfeita conciliação de um egoísmo temperado (leia-se “sociável”) e de uma redução considerável do risco major de baixa de nível de vida e, sobretudo, da perda de um emprego que determina a economia da vida quotidiana.


(e) Uma vez afastada a eventualidade de ver amputados senão aniquilados os direitos adquiridos pela sua actividade, a “pura” segurança se obtém, sem dificuldade, com prazer, mesmo, na participação a uma Comunidade de religião, de raça, de raízes geográficas, de língua, às vezes a vários de entre elas, onde a cumplicidade é evidente no interior de um grupo cujas as regras de vida e as atitudes morais são, assaz próximas. Além disso, é ali onde se assume o húmus privilegiado do princípio dinástico: as crianças encontram mais facilmente o seu lugar no interior da Corporação do seu respectivo pai (ou da sua mãe) que algures, no famigerado “mercado do emprego”.

Precisando as coisas:
--- Corporativismo para garantir a perenidade dos seus meios de existência;
--- Comunitarismo para a viver e a
--- Felicidade se encontra, tanto mais no rendez-vous quanto mais elevado for o nível de desenvolvimento da Nação ou do Continente de pertença.

(f) Quando a pobreza for geral (excepto para um diminuto número), a ambição individual constitui a única saída aberta e vale ser protegida quaisquer que sejam os riscos. E, outrossim, a ambição colectiva como, aliás, demonstraram Grandes Povos.


(g) De anotar, todavia, que à medida que o nível de vida médio se eleva, o receio do risco aumenta com a vontade de não obedecer, sem pestanejar, às palavras de ordem colectivas. Um pequeno empurrão e o risco torna irracional para a maioria, conduzindo a empreender sob a batuta do dissabor de obedecer, sem reivindicar.


(h) Donde qualquer que seja a situação original, presentemente em que o Capitalismo triunfou pelo baixar dos braços do seu adversário, o Corporativismo acabará sempre por se impor, aliado a um Comunitarismo que se alimenta da circulação Mundial das populações transportando nas suas costas e, para muito tempo, os seus modos de vida.


(i) O Continente poderá continuar a desempenhar um papel que depende do peso da História não estudada, todavia, vivida. O Corporativismo europeu será sempre mais estruturado, em todo o caso, muito mais demasiado tempo, que o norte-americano que advirá infalivelmente e o asiático que o precederá provavelmente.


(j) E, rematando: De feito, de qualquer modo (seja como for), o Corporativismo é um regime cujo o equilíbrio é bem superior ao do colectivismo e do capitalismo, que lhe outorgará, tanto mais célere, as suas cartas de Nobreza, que serão mundializadas, quiçá, com êxito…


Lisboa, 11 Setembro 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista – Cidadão do Mundo).
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

UM TIRO NO ESTÔMAGO

Frequentemente ouvimos ou lemos que fulano ou sicrano do partido tal “deu um tiro no próprio pé” significando com isso que se prejudicou com algum dito ou feito que pretendia tivesse efeito contrário ao obtido.

Pois bem, Francisco Louçã, há dois dias, no “debate” que teve com José Sócrates, confirmou que no programa eleitoral do Bloco de Esquerda, este partido, se for governo, se propõe legislar no sentido de ACABAR COM AS DEDUÇÕES FISCAIS DAS DESPESAS DE SAÚDE E DE EDUCAÇÃO em sede de IRS.

Eu creio que com aquela declaração Louçã fez perder centenas de milhar de votos ao Bloco de Esquerda. E que quer o PS, quer a Direita, não precisam de mais nada para combater o Bloco nesta campanha eleitoral, senão “avisar a malta” que eles querem acabar com aquelas deduções fiscais no IRS.

Quando ouvi aquilo, disse logo para os meus botões:

― É pá! G’anda tiro no estômago!

Naquele momento a classe média devia estar toda de boca aberta dizendo: ― Olh’ó gajo!... Embala-nos naquele discurso inflamado de «Justiça nisto, justiça naquilo, justiça em tudo»; mas tem o dedo escondido untado de vaselina e pronto para no-lo enfiar lá onde mais dói! ―.

Pensei nos trezentos mil professores e numa vastíssima fatia de funcionários públicos que sabem muito bem quanto deduzem por ano em despesas de saúde e educação e quão importante é para eles esse reembolso no Verão.

Louçã explicou que propõe essa medida porque defende saúde gratuita para todos (todos?) e ensino gratuito para todos (todos?). Ninguém com meio dedo de testa acredita que isso será algum dia possível em Portugal. O que se sabe é que acabar com aquelas deduções fiscais é facílimo e obtém-se num fósforo; mas que criar aquelas gratuitidades é impossível.

Para já só em países e territórios muito ricos, como a Líbia ou Macau, por exemplo, a Saúde e a Educação são gratuitas. Agora, na Europa?!...

Ficaríamos sem as deduções fiscais, sem saúde gratuita e sem educação gratuita.

Em suma: f****** e mal pagos.
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NO POK, NO POK

Um indivíduo resolveu ligar para um restaurante que vende comida para fora, mas que, por motivos religiosos não confecciona pratos que contenham carne de porco. Eis a conversa hilariante, gravada, das tentativas de encomenda feitas.


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ELOCUBRAÇÃO PRIMEIRA:

(Kwame Kondé propõe-nos nesta rentrée a manutenção da sua apreciada colaboração, a partir de agora sob o tema “Elocubrações”. É com todo o prazer que o recebemos de volta e aqui têm o seu primeiro texto):

Quiçá a Fraqueza ou
As Fraquezas Humanas!?

Efectivamente, o Mal existe. Aliás, todos
Os males que provocam a desordem
(individual ou social) estão no cerne/imo
dos Seres Humanos, suficientemente numerosos
(senão de todos) para que o seu convénio total
e definitivo constitua mais uma das utopias!
Na Sociedade, os homens são inevitavelmente
Atraídos pela vontade de se explorar, não de
Se reconciliar, numa parúsia dançante.
Enfim, não há dúvida nenhuma, que todas as
Religiões prometem a todos, a Eternidade,
Todavia, velam, esperando a que uns não
Agridem demasiado os outros…

(1) A Evolução das técnicas, desde aproximadamente, meio século, em particular, a emergência da Informação, permite a mundialização de novos mercados às dimensões tanto mais sedutoras que os bens materiais atingiram já a sua maturidade. Eis porque, a compra de um Banco Central, emitindo “Gates” pelo seu epónimo não traria mais novidade na Sociedade Mundial que a origem financeira desta intenção eventual.
(2) Evidentemente, o “Individualismo” é a chave do crescimento exponencial de todos os Mercados cuja a oferta e a procura, se dirigem, com enorme êxito, nem ao Bem, nem ao Mal, porém, ao que, sem dúvida, justifica o termo de Pecado nas religiões mediterrâneas: a Fraqueza ou, antes (melhor dito) as Fraquezas Humanas.
(3) Com efeito, aproximadamente metade da mensagem da Internet diz respeito, senão exclusivamente ao sexo, pelo menos, o que o envolve: a procura de uma alma gémea, mais exactamente afortunada e amável para a mulher e de preferência libidinosa e cozinheira para o homem, sem contar, menos numerosos, todos os (as) que a desejam de “bonne religion”.
(4) Sim, efectivamente, no âmbito desta procura, ponto de fronteiras e menos de raça que foi um tempo, porém, mais um empurrão para a redução das desigualdades intercontinentais. Fraqueza tanto como a procura dos êxtases pretendidos por todas as drogas disponíveis, cujo o número se incrementa com os progressos dos nossos conhecimentos químicos e cujo o uso, o dos álcoois, designadamente, acompanha os denominados de “relaxamento/descontracção”.
(5) Eis porque, outrossim e, ainda, no âmbito desta dinâmica, quando a música nisso se mistura, o endomorfismo provocado pelas algazarras pedestres junta-se ao ambiente. A canção latina está inteiramente voltada para a alcova. A sinfonia germânica nasce na floresta, onde aspira retornar tão depressa quanto possível. O Rock e demais outras variantes dos sincopados norte-americanos manifestam a intensidade de um relaxamento necessário às vidas normalizadas ao estilo germânico, entretanto sem floresta.
(6) Eis nos ante o Mercado próspero Mundial tanto como o do sexo e que, presentemente, excede ele, outrossim, o da procura. O desenvolvimento, assaz célere, de um Mercado Mundial dos jogos de dinheiro, o do Poker, entre demais outros e de todos os géneros de apostas, permitido pela Internet e favorecido pelos Médias que nisso encontra seguramente a sua “conta”, manifesta a vontade dos jogadores de se subtrair a todos os constrangimentos regulamentares públicos, a principiar pela punção fiscal da qual são “vítimas”: Pouco importa o risco de perder sem poder exercer o menor controlo sobre as vias do acesso, pouco importa o de não receber o seu ganho, desde que tenha a embriaguês, mesmo muito passageira, de se imaginar enfim rico!
(7) Estes três Mercados cujo o desenvolvimento permanece sempre quão promissor, não tendo mesmo esgotado as suas potencialidades no âmbito das Nações Ocidentais, correspondem à procura premente da disposição humana, a mais espalhada: o receio de um tédio que se envida em dissipar. O que os Europeus denominam, ainda Cultura implica enormes esforços.
(8) Explicitando, assertivamente:
--- As belas imagens bastam às crianças e a todos os que sentem a nostalgia.
--- A idolatria, em particular, após ter passado pelo buraco da fechadura, já não é o peculiar e sui generis das singulares tribos primitivas (o que jamais foi).
--- A multidão de PLATÃO adorava já, algumas estátuas e vivia na intimidade das personalidades às quais confiava a sua sorte ou o que estimava.
--- Ás vezes, os mesmos numa ordem qualquer.
Na verdade, evidentemente, os meios actuais da comunicação das imagens e dos textos (imagens sobretudo, menos fatigantes) permitem que o desejo de ver o ou a que enxota o seu tédio seja satisfeito a muito débil custo. Demais, ele (ela) pode mesmo experimentar comunicar directamente com o objecto da sua atenção, até da sua paixão. Com ele (ela) pode “blogar” e partilhar as suas fraquezas e as suas alegrias, quaisquer que sejam as suas qualidades menores e as suas condições necessárias. A “pipolização” não possui fronteiras naturais, unicamente as indefinidas, da aptidão dos indivíduos médios em se pretender desviar a atenção pelos que escaparam à sua condição.
(9) Aliás, efectivamente, a dos “outros universos”tão pouco, que têm para eles a extraordinária superioridade de ser desconhecidos e de procurar a sorte de admiração que faz olvidar o quadro familiar. Os mais comuns dizem respeito ao mundo da violência e ao crime. O velho romance policial, mais ou menos, bem escrito e bem-educado, se desvaneceu em benefício das séries do mesmo nome. Em acreditando, que a contemplação dos corpos inertes e a procura dos seus homicidas, oferecidas doravante, em contínuo, por pouco que o telespectador ou o cibernauta propensos a mudar de canal, se confundem com a aquisição de uma cultura “moderna” em série.
(10) E, finalmente, visando Rematar, pertinentemente, se afigura necessário, consignar, com ênfase, que nos Estados Unidos da América, esta mercadização se estendeu, desde há, muito, muito tempo, até às religiões cujos os adeptos vêm a importância do seu número ponderado pelas suas superfícies financeiras. Donde e daí:
--- É, realmente o mercado da religião que o pretende?
--- Todavia, o dinheiro e o fanatismo (misticismo se o pretende) fizeram excelente conúbio, uma ajuda outorgada aos dois pela televisão.
De feito, o dinheiro arrecadado no momento destas celebrações que os Gregos outrora reservavam à vida da sua Cidade, não diz respeito ao resto do Mundo, ao conteúdo do fanatismo que aliado ao anti-racionalismo ajuda os evangelistas a se organizar em torno do Criacionismo? De elucidar adequadamente, que CRIACIONISMO, outrossim, Fixismo (em oposição a evolucionismo) é a doutrina segundo a qual o Mundo foi criado por Deus.
Hélas! Sempre, sempre o Mercado! Pas d’argent, pas de Suisse, se asseverou eis cinquenta anos, nos países, onde o Catolicismo conhecera a pacificação. Enfim, sem dinheiro, não há religião: Assim vai o Progresso da Metafísica!

Lisboa, 10 Setembro 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista --- Cidadão do Mundo).
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sábado, 5 de setembro de 2009

VIRAM?

O jogo acacabou há bocado.

DINAMARCA 1-1 PORTUGAL

Golo de Portugal marcado por Liedson.

Não digo mais nada!...
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QUIROZ É UM COBARDE

O jogo está no intervalo. E Portugal perde por uma bola a zero.

Toda a gente viu a falta que fez lá na frente um verdadeiro ponta-de-lança: tantas bolas boas desperdiçadas, algumas a seis sete metros do guarda-redes!

Raio de merda de treinador este que se foi arranjar!

Liedson é para jogar desde o início. É assim que ele marca golos; não é a jogar meias-partes ou quartas partes dos jogos.

Tem alguma lógica convocar um ponta-de-lança para uma selecção que não tem mais nenhum e colocá-lo no banco de suplentes?

Francamente!...
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QUEIROZ E LIEDSON

O jogo vai começar.

Oxalá Portugal ganhe por 10 a zero mesmo que jogue apenas com o guarda-redes.

Mas convocar Liedson e deixá-lo no banco de suplentes é um mau sinal e um mau princípio.

Se querem marcar golos, Liedson tem que jogar o maior espaço de tempo possível.

Assim é perigoso...

É à Carlos Queiroz...

Infelizmente todos já se habituaram a ver isto: até os dinamarqueses.
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VAMOS E VENHAMOS

A coisa é muito simples. Mas também é séria.

Quem conhece e seguiu o percurso político, a prática e a composição directiva do Partido Socialista desde o 25 de Abril de 1974 até hoje, não pode deixar de tirar esta conclusão:

As sucessivas direcções do PS foram mudando o partido desde então, adaptando-o aos novos tempos que foram surgindo, com sucessivas e constantes guinadas ao centro e à direita ― sendo que a primeira mudança de fundo sucedeu com Mário Soares quando o mesmo “meteu o Socialismo na gaveta” ―.

José Sócrates, politicamente inculto e sem qualquer ideologia (é ouvi-lo e lê-lo nos discursos e nas entrevistas para se tirar esta conclusão), escaqueirou completamente o que restava do património histórico e ideológico do Partido Socialista e hoje é um homem só: nenhum dirigente histórico do PS claramente respeitado, com peso político incontestado, veio até hoje defendê-lo abertamente, dar a cara por ele de forma evidente, veemente e dura como seria de esperar; ficou apenas com o seu ministro Santos Silva, qual bombeiro incendiário, lançando ontem gasolina no fogo e hoje sem mãos a medir para atenuar as labaredas que já estão às portas do castelo.

Sócrates descredibilizou a Escola atirando alunos e pais contra professores e achincalhando estes através da sua ministra da educação, Maria de Lurdes Rodrigues; permitiu e incentivou, através do seu ex-ministro Correia de Campos, a sangria nas instituições do Serviço Nacional de Saúde, sobretudo nos hospitais públicos, ― com a saída dos melhores médicos, desmantelando sem qualquer alternativa válida as Carreiras Médicas e lançando incertezas e enormes dificuldades no funcionamento e idoneidade de Serviços Hospitalares essenciais, alguns hoje tão desfalcados que grande parte das vezes têm mais de 60% de elementos externos ao hospital, contratados sem qualquer avaliação interna, a assegurarem as urgências ―; atacou os juízes e os funcionários públicos num falso combate àquilo que ele chamou de “privilégios”, retirando-lhes com isso parte da sua dignidade e credibilidade.

Os ataques às “corporações” (como se disse então) foram também acompanhados por ataques individuais (feitos por “funcionários” solícitos pretendendo apresentar serviço) que levaram alguns de nós e relembrar os tempos da PIDE.

Quem não se lembra do “Caso Charrua”: em que o professor Fernando Charrua foi denunciado por um bufo e depois punido por superior hierárquico por puro delito de opinião (PRIVADA): fizera em privado um comentário jocoso sobre a licenciatura do primeiro-ministro. Só isso.

Quem não se lembra da demissão da directora do Centro de Saúde de Vieira do Minho por a mesma ter permitido (ainda por cima sem o saber) a colocação de um cartaz em que se adicionava a uma entrevista do então ministro da Saúde, Correia de Campos, a frase «Façam como o ministro, não venham ao SAP».


Não se pode ter a memória curta. E se, como se diz, “cá se fazem cá se pagam”, então Sócrates merece pagá-las cá.

Mas agora, calma que eu não vou bem por aí!

Por aquilo que Manuela Ferreira Leite fez no passado quando foi ministra da Educação e depois ministra das Finanças (péssima em ambas as pastas) e por aquilo que lhe temos ouvido em sussurro (porque não fala claramente de nada ― limita-se apenas a martelar a palavra “verdade” em jeito de anúncio publicitário tipo “água mole em pedra dura” ―), um Governo de Manuela Ferreira Leite agravará a maior parte dos problemas criados por Sócrates (sobretudo nas áreas da Saúde e da Educação) e, ao tentar criar um Estado minimalista ― propósito, aliás, que se depreende de várias declarações dispersas daquela senhora ― levantará clamor popular. Creio que é nisto que estava a Pensar Medina Carreira quando disse que se se mantiver o mesmo rumo na governação do país, no período 2015/2020 «o regime democrático será substituído».

O problema é este: Eu não sei escolher o sentido do meu voto neste momento. Terei que meditar muito para saber o que vou fazer com ele (o voto).

O que me apetece é dizer aos partidos políticos: baralhem e dêem de novo.
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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

AH CÂ DI-RÊ!...AQUI D'EL-REI!

O que eu sei é que:

1) Em 2004, Santana Lopes, então primeiro-ministro, queixou-se publicamente dos comentários semanais de Marcelo Rebelo de Sousa, aos domingos, na TVI, dizendo que eram ataques ao Governo sem direito ao contraditório.

E na sequência daquelas queixas ― sei que Marcelo foi sumariamente despedido da TVI
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Nessa altura José Sócrates veio dizer entre outras coisas o seguinte:

”Em seis anos que estive nos governos de António Guterres, nunca aconteceu uma coisa destas. Isto que se passou com o actual Governo foi mau demais”. “Houve uma queixa do Governo que levou ao silêncio de um comentador, uma acção do Governo para reprimir uma livre crítica. Não me lembro de um episódio tão triste e que envergonhe tanto a democracia”.

2) Agora há um caso com muita semelhança àquele:

E o que eu sei é que:

José Sócrates, pelo menos por duas vezes (numa entrevista à RTP, bem como no último congresso do PS), denunciou aquilo que apelidou de “uma campanha negra”, criticando frontalmente o Jornal Nacional da TVI e Manuela Moura Guedes.

E na sequência daquelas denúncias ou queixas ― sei que Moura Guedes foi sumariamente despedida do Jornal Nacional da TVI.

Essa é que é essa! E! Mais! Nada!

Tudo o resto é barulheira para confundir os eleitores.

Mas o que acho mesmo cómico, sinceramente, é isto que vem na TSF online:

Segundo o Ministro Santos Silva:

«com a autoridade que assiste ao PS de ser o principal alvo do Jornal Nacional da TVI e sua orientação editorial - que sistematicamente se pontuou pelo ataque ao PS, ao seu líder, ao Governo e ao primeiro-ministro -, exigimos à administração da TVI uma explicação cabal sobre as razões que motivaram esta decisão».

Imaginem agora que a administração da TVI lhes responderia dizendo: ― Dando razão às queixas e denúncia do Sr. primeiro-ministro relativamente ao Jornal Nacional da TVI e a Manuela Moura Guedes, achámos por bem silenciar esta jornalista suspendendo o Jornal Nacional.
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domingo, 30 de agosto de 2009

O RETRATO DE DORIAN GRAY

O Professor Medina Carreira, através desta análise publicada hoje no Correio da Manhã, alerta uma vez mais a navegação para o perigo de afundamento da economia portuguesa, e, com esta, do regime democrático.

(Tem piada! A certo ponto da sua análise Carreira pede aos partidos políticos, entre outras duas coisas, que «restaurem a ética na política» dizendo):

«Pede-se-lhes, por isso, três coisas apenas: primeira, um pequeno programa, claro e curto, e não, como usualmente, uma ‘apólice’ de seguro para enganar os eleitores, que contemple só as medidas indispensáveis para atingir os objectivos económicos enunciados; segundo, a indicação dos nomes previstos para as Finanças, a Economia, a Justiça, a Educação e a Segurança Social, garantes da sua execução, já que os ‘partidos’, em si mesmos, não gozam da confiança da maioria dos portugueses; e, terceiro, que restaurem a ética na política.»

Mas o que mais me chamou a atenção no jornal online foram os comentários lá deixados por alguns leitores: um autêntico retrato do eleitor portuga deste portugalex.

Leiam aqui a análise de Carreira e ou desçam até à caixa de comentários da mesma que ficarão esclarecidos quanto ao retrato que os "comentadores" deixaram de si próprios e dos que em certa medida "representam":

UMA AUTÊNTICA MISÉRIA! Uma merda é que é!
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A CARTILHA DE RANGEL/MAQUIAVEL

BOM DIA
Desculpem retornar logo com a política neste regresso à blogosfera, em vez de vos contar saborosas historietas destas férias; mas, como dizia o outro, um homem não é de pau.

Mal regressado, ouvi em directo Marques Mendes defender «A Ética na Política» como valor essencial a esta actividade e aos desígnios que devem guiar à finalidade dos partidos e dos políticos: Servir a Comunidade. Escusado será dizer que aplaudi de pé a sua coragem e frontalidade ao vê-lo colocar-se num patamar diferente do que estão a maioria dos políticos ditos “do poder”, do seu próprio partido, tentando dar àquela juventude que o escutava (e o aplaudiu muitas vezes) temas e exemplos interessantes e importantes para reflexão.

Logo no dia seguinte o novel revelado Paulo Rangel subiu à mesma tribuna da chamada “Universidade(?) de Verão do PSD” para, entre outras enormidades, dizer isto aos participantes (futuros políticos, supõe-se):

«A Política não tem nada a ver com a Ética.»

«A Ética é independente da Política e a Política é independente da Ética».

E mais à frente disse: ― ...«aconselho-vos a lerem Maquiavel»... Cetamente para aprenderem esses princípios e lhe darem razão no que lhes estava a ensinar ― isto digo eu ―.

Ora bem, vejamos o seguinte:

1) A primeira frase (A Política não tem nada a ver com a Ética) é errada porque o mais desatento cidadão facilmente compreende e deseja que haja ética na política; porque se não, então abram-se as portas das prisões e deixe-se sair de lá todos os potenciais belíssimos políticos e governantes que se encontram atrás das grades.

2) A segunda frase (A Ética é independente da Política e a Política é independente da Ética) só está certa na sua primeira metade: de facto a Ética é independente da política, mas a Política não é independente da Ética; ou pelo menos não o deve ser. Se assim não fosse, estaria certo dizer-se: "O coração é independente do braço" (o que é verdade: pode-se amputar o braço que não se afecta o coração); mas já seria errado, como é mais que óbvio, dizer-se: “O braço é independente do coração”.

Mas, claro, todos sabemos que há “políticas” independentes da Ética. Praticadas por políticos que não observam a Ética. A política que Maquiavel propôs ― cuja leitura Paulo Rangel aconselhou aos meninos do PSD ― é um excelente exemplo disso.

E para que quem ainda não leu Maquiavel aprecie o calibre dos seus ensinamentos, aqui vão algumas citações deste excelente guru cujo santuário espera a visita dos PSDs de Verão:

Estou convencido de que é melhor ser impetuoso do que circunspecto, porque a sorte é como a mulher; e, para dominá-la, é necessário bater nela e contrariá-la

Fonte: "O Príncipe"

Mas a ambição do homem é tão grande que, para satisfazer uma vontade presente, não pensa no mal que daí a algum tempo pode resultar dela.

Fonte: "Discursos de Tito Lívio"

Uma guerra é justa quando é necessária

Fonte: "Pensamentos"

Os homens devem ser adulados ou destruídos, pois podem vingar-se das ofensas leves, não das graves; de modo que a ofensa que se faz ao homem deve ser de tal ordem que não se tema a vingança

Fonte: "O Príncipe"

Quem se torna senhor de uma cidade habituada a viver em liberdade e não a destrói, espere para ser destruído por ela

Fonte: "O Príncipe"

As injúrias devem ser feitas todas de uma só vez, a fim de que, saboreando-as menos, ofendam menos: e os benefícios devem ser feitos pouco a pouco, a fim de que sejam mais bem saboreados

Fonte: "O Príncipe"

Toda a acção é designada em termos do fim que procura atingir

Fonte: "O Príncipe"

O fim justifica os meios

Fonte: "O Príncipe"

Nota: Longe de mim dizer que não se deve ler Maquiavel. Uma coisa é ler criticamente Maquiavel (como deve ler-se qualquer escrito, penso eu), e outra muito diferente é aprender com Maquiavel a separação da Política da Ética quando se trata de governar e exercer o poder, ou simplesmente a actividade política partidária.
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sábado, 29 de agosto de 2009

ACABOU-SE A PAPA DOCE

Sancho-pançando ao almoço, retomaremos mais logo a quixotesca acção de blogar.

Há assunto, há; quanto mais não seja temos a companhia dos políticos na produção de "lixo" blogosférico, televisivo, sonoro e impresso.

Não resisto a levantar o véu: ouviram o Paulo Rangel na "Universidade(?) de Verão do PSD"? Entre outras coisas inacreditáveis, recomendou aos miúdos a aprendizagem dos ensinamentos de Maquiavel. Tudo a bem da Democracia e no interesse do Povo.

Uma autêntica e inesperada revelação, esse homem!

BOM SÁBADO E BOM FIM-DE-SEMANA.
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segunda-feira, 27 de julho de 2009

AI A BICICLETA!...

Estou de férias.

Andando pelas ruas da localidade onde me encontro, li numa banca de jornais duas notícias que comentei para mim mesmo em silêncio; e li um papel que me deixou pensativo.

Primeira notícia:
«No pódio do Tour de France que terminou ontem, Lance Armstrong, de 37 anos, ocupou o terceiro lugar».

Meu comentário ― Bravo Lance! Admiro a tua tenacidade, capacidade de luta e de resistência à adversidade; para o ano espero ver-te no primeiro lugar, para que o Bérnard Hinault se engasgue de vez com as suas próprias palavras.

Segunda notícia:
«Nicolas Sarkozy, Presidente francês, amante e praticante de ciclismo, não pôde estar presente, como gostaria, à coroação dos vencedores do Tour, pois, foi hoje (ontem) hospitalizado por se ter sentido mal quando fazia exercício». Pode ler-se aqui mais isto: "This episode, which happened after 45 minutes of intensive physical exercise, was not accompanied by a loss of consciousness."

Meu comentário ― Também... na sua idade... há que ter cuidado com o tipo de exercício que se faz; se estivesse a pedalar na sua bicicleta a coisa podia ser bem pior.

Andei um pouco mais, e, perto de uma farmácia, no chão, aberta à minha frente, vi uma bula de VIAGRA (o papel que acompanha o medicamento); apanhei-a do chão maquinalmente como um supersticioso que pensa ter encontrado um aviso divino que não deve ignorar.

E li ao acaso:

«Antes de iniciar qualquer tratamento para a disfunção eréctil, o médico deve considerar a situação cardiovascular dos seus doentes, na medida em que existe um risco cardíaco associado à actividade sexual».

Não fiz nenhum comentário.
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KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO QUINQUAGÉSIMA QUARTA:

Segunda Parte:

Uma Sucinta e pertinente abordagem das obras, mais significativas de FRANTZ FANON (1925-1961):

(A)

Les Damnés de la terre, publicada pela primeira vez, em Paris, no ano de 1961:
Trata-se de uma obra publicada, no remoto ano de 1961, numa época, em que se desencadeia a violência colonial, com a Guerra da Argélia. Apreendida várias vezes, aquando do seu advento, ulteriormente prefaciado por Jean-Paul SARTRE (1905-1980), conheceu um Destino excepcional.
Serviu e serve, aliás, ainda, presentemente de inspiração e de referência a gerações de militantes anti-colonialistas. A sua análise do traumatismo do colonizado, no quadro do sistema colonial e o seu projecto (reputado “utópico”) de um Terceiro Mundo revolucionário, ipso facto, portador de um “Homem Novo” permaneceu um grande clássico do terceiro mundo, a obra capital e o seu verdadeiro Testamento Político, sem sombra de dúvida.

Este livro, cujo o título, foi o único que ele próprio escolheu e, não os editores, foi redigido por um homem que se sabia condenado, por uma enfermidade, da qual, enquanto médico, que era incurável.
E, numa autêntica corrida contra o relógio e, outrossim contra a própria morte, FANON pretende fazer passar uma derradeira mensagem. A quem?
A resposta assertiva, pronta surge: Aos Deserdados, que já não são, fundamentalmente os proletários dos países industrializados, no término do século XIX, cantando, em alto e bom som: De pé, os condenados da terra, de pé os degredados da fome.
Com efeito, de anotar, avisadamente, que os condenados da terra, aos quais FANON se dirige, são os deserdados dos países pobres, que querem, realmente a terra e o pão, enquanto, na época a classe operária do mundo ocidental, amiúde racista e manifestamente ignorante das populações de ultramar, testemunha uma relativa indiferença no atinente à sorte das colónias das quais extrai, indirectamente benefício.

Esta obra, em apreço e análise, não é, nem um tratado de Economia, nem um Ensaio de Sociologia e, nem, tão pouco de Política, sim, um verdadeiro Apelo e, identicamente, um grito de alarme sobre o estado e o futuro dos países colonizados. Como, em toda a sua obra, aliás, FANON coloca nela em tensão política, cultura e o próprio indivíduo, tendo em conta, os efeitos do domínio económico, político e cultural sobre o dominado. A sua análise insiste sobre as consequências da escravização e da servidão respectiva, não unicamente dos povos, porém, dos indivíduos/sujeitos e sobre as condições da sua libertação, que é, antes de tudo, uma libertação do indivíduo, uma “descolonização do ser”.

Nos Condenados da terra se prossegue a sua lúcida e avisada interrogação acerca da alienação por um mundo dominante/dominador, que subverte e altera tão bem as colectividades como os indivíduos no seu devir pessoal.
A Obra retoma, radicalizando-os, no quadro do combate político, os dados das conexões dominador/dominado e as condições de Libertação, aliando ao político e à cultura, a libertação do sujeito/indivíduo. Os dois derradeiros capítulos são, aliás, consagrados, um à cultura e o outro às perturbações psíquicas traumáticas, respectivamente, engendradas de parte e de outra pela
Guerra de Argélia.

FANON escreveu, servindo-se da sua experiência singular, desde a história imediata, da sua imersão nesta mesma história, experiência que lhe é necessária elaborar e transmitir. A escrita segue outrossim, este movimento: os dissemelhantes temas que compõem os cinco (5) capítulos do livro são dispostos como fragmentos, como as estrofes de um poema às quais se mesclam tempos de análise rigorosa, porém, sempre escrita, numa linguagem que procura produzir, para além das significações, uma compreensão, que não se encontra vinculada a um único manuseio do conceito.

Enfim e, em suma:
Os Condenados da terra, reputado como uma obra farol e guia dos anos Setenta do Século XX pretérito, se assume vinculada fundamentalmente ao “terceiro mundo”, em que os avanços políticos eram então privilegiados, em detrimento da sua interrogação persistente e porfiada sobre os fundamentos da alienação do oprimido, em que se encontra, sucumbiu ulteriormente no olvido e, com ele, o conjunto da própria obra de FANON reputada, um tanto ou quanto, irreflectidamente como uma obra datada.
As suas audácias políticas foram consideradas e designadas estultamente de obsoletas. E a questão, que se levanta, obviamente, não havia FANON sobrestimado a força das massas camponesas nas lutas de Libertação? O que acontece, porém, é que, no contexto político da luta argelina, na época, os camponeses constituíam o contingente maioritário dos combatentes argelinos.
Não se pode e, nem se deve olvidar que FANON escreveu, baseando-se numa experiência histórica pontual. Eis porque, para ele, o dinamismo do camponês pode tão bem, como explica, aliás, no capítulo segundo dos Condenados da terra: “Grandeur et faiblesses de la spontaneité” acompanha a reacção como outrossim, a revolução.
Sim, efectivamente, FANON analisava uma realidade contingente Eis porque, o seu Livro não pode (aliás, não deve) ser percebido como algo despropositado, que se o limita ao contexto da sua época, em vez de o entender como um autêntico Apelo ao que seria possível.
Que as suas esperanças não tenham sido concretizadas tornam errónea a realidade a partir da qual as exprimia? É outra questão que se levanta. Todavia, se o sabe bem, esta realidade, em questão, inclusive a da violência, já não se assume, presentemente, em termos de opressão colonial ou de futuro do terceiro mundo, porém, em termos de incremento das desigualdades, de desvio crescente entre o Norte e o Sul, da exclusão e da redução dos sujeitos/indivíduos a meros objectos. Eis, sim, a verdadeira realidade dos factos!

(B)

Uma outra obra da lavra de FRANTZ FANON que merece ser referenciada, visando relevar as suas virtuosas linhas de força e, outrossim, para mostrar os sólidos e robustos conhecimentos que FANON possuía da Patologia do oprimido (neste caso concreto, o do oprimido/colonizado), é evidentemente Peau noire, masques blancs.
Uma vez feita a descolonização, este Ensaio de compreensão da conexão Negro Branco conservou todo o seu valor profético, visto que o racismo, a despeito dos horrores com os quais afligiu o Mundo, permanece um problema de futuro.
De feito, nesta obra, o racismo é abordado e combatido de frente, com todos os recursos das Ciências do Homem e, com uma paixão ardente do quem veria a ser um verdadeiro mestre na Arte de pensar, para muitos Intelectuais do Terceiro Mundo.

A primeira edição de Peau noire, masques blancs apareceu no ano de 1952,na colecção Esprit, FANON tinha apenas 25 anos de idade. Nesta Obra, a reflexão sobre o racismo aparece vinculada ao domínio de determinadas culturas decretado unilateralmente: não se trata de um acidente, de um capricho psicológico, porém de um sistema cultural de opressão a operar identicamente na situação colonial. Lutar contra o racismo se afigura uma tarefa vã, se não se elucida os efeitos da opressão exercida pela cultura dominante, opressão que atinge as comunidades, o político e a cultura, outrossim, porém, o Ser psíquico.

Peau noire, masques blancs, principia, de modo eloquentemente avisado, com uma acutilante citação do Poeta, Dramaturgo e Homem Político, Aimé CÉSAIRE (1913-2008), extraída da sua célebre obra, “Discours sur le colonialisme” (1950), ou seja:”Je parle de millions d’hommes à qui on a inculque savamment la peur, le complexe d’infériorité, le tremblement, l’agenouillement, le larbinisme » :
Nesta obra, com efeito, FANON constrói uma Análise, de um ponto de vista psicológico do que deixou o colonialismo como herança à Humanidade e isto, partindo da conexão entre o Negro e o Branco. É todo um jogo de definições que faz por diferenciações e, neste sentido, o Primeiro Capítulo presume bases de Linguística.
E, encurtando razões, nada melhor, que apresentar uma breve Sinopse da Obra:
Os Três Primeiros capítulos se ocupam do Negro moderno. “Tomo o Negro e experimento determinar as suas atitudes no mundo branco”. Por seu turno, os dois derradeiros abordam a tentativa de exploração psicopatológica e filosófica do existir do negro.
A análise é sobretudo regressiva.
O quarto e o quinto capítulos se situam, num plano fundamentalmente dissemelhante. No quarto, FANON critica avisadamente o trabalho de O. MANNONI (1950), que reputa de perigoso, sem, contudo, deixar de reconhecer que o próprio MANNONI está consciente da ambiguidade da sua posição. E, já no Capitulo quinto, que intitula de “L’expérience vécue du Noir”, mostra o negro perante a sua raça. Percebe-se que não existe nada de comum entre o negro deste capítulo e o que procura fazer amor com a Branca. Encontra-se, neste último, um desejo de ser Branco. Uma sede de vingança, no entanto, neste caso em concreto, pelo contrário, se assiste aos esforços desesperados de um negro que se encarniça em descobrir o sentido da identidade negra.
Elucida ainda mais, que a civilização branca, a cultura europeia impuseram ao Negro, um desvio existencial. Mostra, outrossim, enfim, que o que designa por alma negra é uma construção arquitectada pelo Branco.
“O Negro “evoluído,”escravo do mito negro, espontâneo, cósmico sente, num momento dado, que a sua raça já não o compreende”.
Sim, que ele, já não a compreende, outrossim.
Então, “se felicita desse facto e, desenvolvendo esta diferença, esta incompreensão, esta desarmonia encontra aí o sentido da sua verídica humanidade”.

Lisboa, 21 Julho 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista – Cidadão do Mundo).
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quarta-feira, 22 de julho de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO QUINQUAGÉSIMA TERCEIRA:


Recordando FRANTZ FANON (1925-1961):

“Faire sauter le monde colonial est désormais
une image d’action très claire, très compréhensible
et pouvant être reprise par chacun des individus
constituant le peuple colonisé. »FRANTZ FANON

PRIMEIRA PARTE :

O psiquiatra, escritor e ensaísta antilhano, de ascendência africana, FRANTZ FANON, que faleceu bastante jovem, ou seja aos trinta e seis (36) de idade, na sequência de uma leucemia, se hoje estivesse, ainda vivo, completaria, no próximo dia 20 de Julho, deste corrente ano de 2009, a bela idade de 84 anos.
Com efeito, nasceu, em Fort-de France, Martinica, a 20 de Julho de 1925, tendo vindo a falecer, a 6 de Dezembro de 1961, em Washington. DC.
Quiçá tenha sido, o maior pensador do século XX pretérito, no âmbito dos temas da descolonização e da psicopatologia da colonização. As suas obras foram inspiradas nos movimentos de libertação anti-coloniais, por mais de quatro décadas.
Militante do Movimento para a Independência da Algéria, no seio da Frente de Libertação Nacional (FLN), é autor das seguintes obras:
--- Peau noire, masques blancs (Seuil, 1952) ;
--- L’An Vde la révolution algérienne (Librairie François MASPERO, 1959) ;
--- Pour la révolution africaine (Librairie François MASPERO, 1964) ;
--- Les damnés de la terre : publicado pela primeira vez, no ano de 1961, pelas Edições François MASPERO e, em 1968, pelo mesmo editor, com o famigerado prefácio de Jean-paul SARTRE.

De feito, FRNTZ FANON nasceu no ano de 1925, em Fort-de France, MARTINICA, no seio de uma família da pequena burguesia abastada. Criança oriunda de uma fratria numerosa evolui, num mundo da vetusta colónia, onde não é ainda uso se interrogar acerca da escravatura. Todavia, muito jovem, FANON se compromete nas Forças gaulistas, o batalhão V, reagrupando os voluntários das Caraíbas. E, é, na realidade, no decurso deste “engagement”que adquire a sua cultura de Resistência e, identicamente fez a experiência do racismo trivial, quotidiano.
Uma vez, desmobilizado, com a Cruz de Guerra retorna a Martinica em 1945, passa o seu Baccalauréat e frequenta as tertúlias de Aimé CÉSAIRE (1913-2008).
Rapidamente, se reencontra em França para prosseguir os seus estudos de Medicina, na cidade de Lyon. Paralelamente, a estes estudos, se apaixona pela filosofia, antropologia, o Teatro e se embrenha, empenhando, a fundo, na sua especialização, no âmbito da Psiquiatria.
Simultaneamente, conquanto não adira a nenhum partido político, participa, porém, em todo movimento anti-colonialista e contribui na redacção de um pequeno periódico, Tam Tam destinado aos estudantes originários das colónias. E escreve, então, um primeiro artigo na revista Esprit (1952), “Le syndrome nord-africain”, no qual se interroga acerca do operário nord-africain, exilado, sofrendo por ser um “homme mort quotidiennement” que, afastado das suas origens e separado dos desígnios e objectivos, tornam um objecto, uma coisa arremessada no grande tumulto.

No Hospital de Saint-Alban, onde permanecerá quinze (15) meses, FANON fez um encontro fundamental, com o psiquiatra de origem espanhola e militante anti-franquista de nome François TOSQUELLES. Este encontro soldou para ele numa formação assaz determinante, no plano e domínio da Psiquiatria, outrossim e, ainda, no dos seus futuros compromissos ideológicos e políticos. Encontra, então aí, o verdadeiro ponto de encontro, onde a alienação é interpelada, em todo os seus registos, em vez da junção do somático e do psíquico, da estrutura e da história.
Finalmente, em 1953, conclui os exames de médico dos hospitais psiquiátricos e é, então, nomeado para o hospital de BLIDA, na Argélia.

Em Argélia, se encontra confrontado, não unicamente com a Psiquiatria clássica dos asilos, porém, identicamente com a teoria dos psiquiatras da Escola de Argel, acerca do primitivismo dos indivíduos.
A pouco e pouco (gradualmente) descobre a realidade colonial da Algéria da época. Num primeiro tempo, colocará toda a sua energia, com o objectivo de transformar os serviços, sob a sua responsabilidade efectiva, introduzindo a “social-thérapie” estudada e praticada com TOSQUELLE. Não terá de cessar de transformar, deste modo, a conexão dos pacientes com os alienados, com os Europeus, identicamente, porém, com os “indígenas” muçulmanos, procurando restaurar os seus referentes culturais, a sua língua, a organização da sua vida social, tudo quanto pudesse fazer sentido, obviamente. De consignar, que esta pequena revolução psiquiátrica é reconhecida tão bem pelo pessoal dos cuidados de Saúde (na maioria, empenhados politicamente), como outrossim, por militantes da região. Deste modo, a sua reputação se estende e de que maneira. Estamos já no Ano de 1955 e a guerra conducente à Libertação da Algéria do domínio colonial francês, principiou, sob o bom Signo.

Por razões assaz óbvias, FANON não compreende a deletéria cegueira do Governo socialista francês de então ante o sério desejo de Independência dos Argelinos. Eis porque, as suas robustas posições anti-colonialistas são, cada vez mais e mais, conhecidas. Assim, será contactado pelo movimento “Amitiés algéreinnes”, Associação humanitária destinada a levar apoio material às famílias dos detidos políticos, dirigida, de facto, por militantes nacionalistas em ligação com os combatentes, que abraçaram a guerrilha, perto de BLIDA. E o primeiro pedido que lhe é feito é de assumir a responsabilidade de cuidar dos guerrilheiros, padecendo de perturbações psíquicas.

É, deste modo, por capilaridade entre Psiquiatria e empenhamento político, que FANON se compromete na luta dos Argelinos para a conquista da sua Independência efectiva.
No ano de 1956, demite do seu cargo de médico psiquiatra, através de uma carta aberta endereçada ao Résident General, Robert JACOSTE em que escreve, asseverando que lhe é impossível querer, custe que custar, desalienar indivíduos, os “remettre à leur place dans un pays où le non-droit, l’inégalité et le meurtre sont eriges en príncipes législatifs, où l’autoctone, aliéné permanent dans son propre pays, vit dans un état de dépersonlisation absolu”. E, como corolário lógico desta famigerada carta aberta FANON é expulso da Argélia.

Passa, em seguida, três (3) meses em França, no primeiro trimestre do ano de 1957, estadia, no decurso do qual não encontra eco à sua sólida convicção, que a Independência da Argélia é inelutável. Apoiado pela Federação de França da FLN, regressa a Tunes (Capital da Tunísia, sendo esta, por seu turno, Estado da África Setentrional e que confina com a Argélia, a Oeste), onde implanta a Organização externa do Movimento de Libertação Nacional. Está, deste modo, consumada a ruptura.

FANON, uma vez, na Cidade de Tunes, prosseguirá uma dupla actividade, concomitantemente, como Psiquiatra e Político. Tornará membro da equipa do Jornal da FLN, El Moudjahid. Assistirá do interior a todas as contradições, grassando no seio da Frente de Libertação Nacional, inclusive as querelas crescentes entre os representantes políticos e o exército. Frequentemente, decepcionado permanecerá, contudo, um acérrimo defensor da Luta de Libertação da Argélia e um Psiquiatra continuadamente inovador. Interessar-se-á, cada vez mais e mais, pela África Sub-Sariana e será designado pelo Governo Provisório da República da Argélia, como Embaixador Itinerante em África Negra, no término do ano de 1959. É o Ano das Independências africanas.
De feito, FANON será veridicamente um autêntico Itinerante, na verdadeira acepção do termo e da expressão respectiva, se consumindo, sem levar em conta, do Gana aos Camarões, de Angola ao Mali, no desígnio de promover um combate para uma verdadeira Independência. Encara, identicamente a possibilidade de edificar uma Frente que partiria do Mali para atravessar o Sara e reunir os combatentes argelinos.
Todavia, infelizmente, em Dezembro de 1960, no decurso de uma Estadia em Tunes, descobre que está enfermo de uma Leucemia mielóide. Resta-lhe, apenas um ano para viver, no decurso do qual, escreverá Les Damnés de la terre.

Lisboa, 17 Julho 2009
KWAME KONDÉ
(Intelectual/Internacionalista – Cidadão do Mundo).
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sábado, 18 de julho de 2009

ENTRE A MENTIRA E A FALTA DE ESCRÚPULOS

Dentre em breve haverá eleições legislativas em Portugal. Com dois protagonistas mais visíveis. O PSD e o PS. Que trarão aos eleitores destes dois campos políticos uma dor de cabeça dos diabos.

A escolha entre Manuela Ferreira Leite e José Sócrates é uma escolha difícil senão impossível.

O PSD apelidou Sócrates de Pinóquio apresentando-o com um nariz de pau maior que o mundo em cartazes que mandou espalhar por este Portugal fora enquanto trazia a público inúmeras promessas eleitorais não cumpridas por Sócrates, para além de o desnudar naquilo em que os seus (de Sócrates) assessores de imagem o terão transformado: em perito de «Anúncios e Propaganda» sem suporte real; em mestre da realidade virtual.

Adriano Moreira num dos programas “Prós & Contras” da RTP disse, e cito de cor, “Governar não é representar uma comédia com a finalidade de ganhar eleições”.

Ouvindo e lendo tudo isto, e auscultando as pessoas à nossa volta, conclui-se que o PSD convenceu muitos eleitores, mesmo muitos, que José Sócrates é Mentiroso.

Ora bem, vejamos agora Manuela Ferreira Leite.

Entre muitas incongruências detectadas no seu discurso em que hoje diz o contrário do que dissera e fizera no passado quando fora ministra de duas pastas em governos PSD (a pasta da Educação e depois a das Finanças), agora, no espaço de uma semana esta senhora disse uma coisa Enorme (uma enormidade) e o seu contrário:

Disse: «Se o PSD ganhar as próximas eleições, rasgará todas as políticas sociais deste Governo do Partido Socialista».

E passada uma semana ― sete diazinhos apenas ― o que é que diz a senhora quando lhe pedem publicamente que confirme o que dissera antes?

Não esteve com meias medidas! Disse ― com a maior desfaçatez que se pode encontrar num indivíduo inescrupuloso ― o seguinte:

«O PSD não rasga coisa nenhuma».

Pois bem, digam-me lá por favor: entre um mentiroso contumaz e uma incoerente natural (que se contraria como quem respira), quem escolher para Primeiro Ministro de Portugal?

Eu escolho o Menino Jesus.
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