quarta-feira, 4 de março de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO VIGÉSIMA QUNITA:

Não há dúvida nenhuma, que a Noção de raça é uma ideia assaz duvidosa, porquanto quase sempre portadora, mesmo num campo intelectual ideologicamente asseptizado, de um imaginário irredutível.
Destarte, nesta dinâmica, se afigura pertinente, colocar a seguinte questão: espalhar-se-ia necessária e forçosamente o instinto popular arcaico de se identificar pelo sangue ou por qualquer analogia, salvo da qual surge a diferença, a “anomalia”constitutiva do Outro?
Com efeito, a raça é outrossim uma realidade posta em dúvida pela ciência (em ocorrência, a biologia) que acabou por estabelecer a sua não pertinência sem convencer todo um mundo que se fia ou se resolve no reconhecimento da materialidade física dos estigmas raciais.
Entretanto, de anotar, que melhor que todo este mundo, a antropologia (“ciência do Homem”), sobretudo no século XIX quando era a dominante física e biológica, trabalhou, no desígnio de creditar o facto racial, outorgando-se como objecto a raça, assegurando a promoção consequente da “raciologia” (disciplina que estuda os fenómenos raciais).
Por seu turno, a evolução da disciplina no século XX incidiu menos sobre a conclusão de uma irrealidade da raça à semelhança da genética que numa reconsideração da sua (ou do seu grau de) determinação da cultura e da história humana e social.
Na verdade, como selo visível de dissemelhanças entre os humanos, a raça possui o êxito e a perenidade de um escorço eficaz, acessível a todos, não recorrendo a nenhum esforço de pensamento e, a fortiori a nenhum acto de razão, para permitir a um indivíduo e ao grupo decidir ou “sentir”instintivamente que é como (e, por conseguinte, com) ele e que não o é!
Efectivamente e, sem sombra de dúvida, a raça é o lugar de re-apresentação imediata da diferença, o meio imaginário real de reconstrução contínua de determinadas diferenças físicas (irredutíveis?) pelas quais a Humanidade continua ainda se coligir em taxias/taxos (ordenações) e se outorgar em mosaico.
Não deixa de se afigurar assaz pertinente, trazer à colação a definição (aliás corrente) da lavra do paleontólogo francês, Henry Victor VALLOIS (1889-1981) autor da conhecida obra “Les races humaines”, ou seja: “ensemble de caractères physiques héréditaires comuns”, definição que, felizmente ou infelizmente tranquiliza a percepção do comum dos mortais que poderia quedar perturbado pelas opiniões da genética quanto à irrealidade ou a inconsistência da raça.
Todavia, o questionamento que induz esta definição, contudo correcta, desemboca na vertiginosa descoberta de conivências e analogias biológicas até físicas maciças inesperadas entre pessoas dissemelhantes.
Do mesmo modo, a solidez e a perseverança das diferenças genéticas biológicas e físicas em determinados casos, entre indivíduos e grupos pertencendo à mesma raça, contribui para a tomada de consciência que a noção de raça remete para fenómenos humanos colocados numa situação crítica pelo progresso dos saberes e pela inter-penetração ininterrupta das populações. Realiza-se, nesse caso (sendo assim) algo que os caracteres são rebeldes às fronteiras definidas pelo imaginário assiduamente alimentado por uma preocupação arcaica de protecção, de identificação e de separação dos “sangues”.

E, para terminar, vale a pena referir assertivamente que, no âmbito do pensamento negro africano dos dois derradeiros séculos, a questão que se prende com a raça esteve sobremaneira presente e, porque não, assiduamente, na ordem do dia, enformando acesos e vivos debates e, por inerência, da sua respectiva dinâmica interna, deu lugar a singulares tomadas de posição e, obviamente de intervenções assaz interessantes. De feito, foi abordada não unicamente, no plano literário pelos poetas que cantaram reactivamente o sangue negro, outrossim, porém, no plano teórico e científico, designadamente no quadro do processo de constituição de um “africanismo negro”.

Lisboa, 03 Março 2009
KWAME KONDÉ
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domingo, 1 de março de 2009

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO VIGÉSIMA QUARTA:

(a) Desde os primórdios da Organização, a discriminação e, mais particularmente a racial, constituiu uma enorme preocupação da UNESCO. Todavia, foi necessário decorrer, aproximadamente três decénios para que a Assembleia-geral da UNESCO adopte uma “Déclaration sur la race et les préjugés raciaux” (1978). Porém, antes desta data, quatro consultas importantes foram organizadas, cada uma culminando numa “déclaration” de peritos (statement). De anotar, que enquanto tais, estes documentos não constituem declarações oficiais da UNESCO, ratificados pela sua Assembleia-geral. Possuem o valor de opinião, por certo públicos e publicados, porém estes só possuem valor de documentos preparatórios elaborados por comités de peritos, como se requer UNESCO.

(b) Explicitando: As duas primeiras declarações de peritos foram elaboradas em 1950 e 1951, respectivamente, sendo, demais duas outras publicadas em 1964 (“Propositions sur les aspects biologiques de la question raciale-Moscou, août 1964”) e 1974 (“Déclarationsur la race et les préjugés raciaux-Paris, septembre 1967”). Trata-se esta última de uma declaração de peritos. Por seu turno, a declaração oficial de 1978, que em francês ostenta o mesmo título, é feita de um texto dissemelhante, redigido no estilo característico dos juristas. E, no atinente às versões inglesas elas permitem evitar o equívoco, ou seja: em 1967, o título é “Statement on race and racial prejudice”; em 1978, “Declaration on race and racial prejudice”. Como se pode aperceber, esta fórmula chama a nossa atenção, uma vez mais, acerca do género peculiar das opiniões e das declarações, obviamente.

(c) Posto isto, o Texto de 1951 se diferencia no que foi explicitamente preparado e apresentado como uma rectificação, por biólogos, da opinião redigida por um grupo de antropólogos. De anotar, que os dois textos de 1950 e 1951, respectivamente, tinham idêntico objectivo. De feito, o facto de ter havido duas declarações, de preferência, antes que apenas uma, reflecte uma discrepância existente entre especialistas das ciências sociais e biólogos acerca da problemática da raça, ou mais exactamente, um efeito de concorrência entre dois campos disciplinares, quanto ao dos dois que dispunha da linguagem cientificamente apropriada para falar, consentânea e adequadamente, do assunto, em análise e apreço.

(d) De consignar, outrossim, que as duas declarações estão sobremaneira próximas, no atinente ao seu conteúdo respectivo. Com efeito, as duas declarações se abrem com uma frase, asseverando que os “savants” reconhecem, em geral, que todos os membros da espécie humana pertencem à mesma espécie. Demais, uma e outra sublinham que as raças, de um ponto de vista biológico, devem ser interpretadas como populações em evolução e parcialmente isoladas, cujas as diferenças são descritíveis, em termos de frequências genésicas. Uma e outra rejeitam a equivalência das noções de cultura e de raça, minimizam (sem totalmente, aliás excluir) a ideia de uma determinação genética das dissemelhanças culturais, explicando estas pela história cultural, peculiar e sui generis, dos grupos e asseveram que as classificações raciais devem ter em conta características físicas e, ipso facto, não diferenças psicológicas ou culturais.

(e) E, prosseguindo, avisadamente, temos então, que se afigura pertinente informar que o antropólogo e humanista inglês, Ashley MONTAGU (1905-1999), que presidiu, aliás, os dois comités de 1950 e 1951, respectivamente reproduziu as duas declarações na quarta edição do interessante livro: Man’s Most Dangerous Myth: The Fallacy of Race. Atribui, com efeito, a primeira declaração a especialistas das ciências sociais (“social scientists”) e a segunda a especialistas de ciências naturais (“natural scientists”), acrescentando o seguinte: “O leitor verá que existe um acordo acentuado entre os primeiros e os segundos”. Por seu turno, identicamente, o professor norte-americano, Leslie DUNN, que teve a responsabilidade de coordenar a redacção da declaração de 1951, explica numa introdução redigida pelo seu próprio punho, que o texto de 1951 contem as principais conclusões da declaração de 1950, porém “atenuando determinadas afirmações e, procedendo a importantes supressões”.

(f) Elucidando adequadamente, se impõe formular a seguinte questão. Ou seja: Quais são, por conseguinte, as diferenças entre as duas declarações?
---Em primeiro lugar, se observa que a estrutura do texto é dissemelhante: os pontos evocados, mais acima, são apresentados e agrupados numa ordem um pouco diferente. Demais, determinados pontos são evocados mais rapidamente, outros mais desenvolvidos. Por exemplo, a declaração de 1951 contem extensas passagens acerca do problema das do ponto de vista da genética das populações e sobre a questão da hereditariedade dos caracteres psicológicos, entre os indivíduos (uma evidência para o comité de biólogos de 1950) e entre raças (noção problemática).
---Os dois documentos apresentam, outrossim dissemelhanças estilísticas. Neste sentido, se verifica que em 1950, o estilo dos antropólogos é dogmático, enfático, viçoso. Já em 1951, o dos biólogos privilegia a crítica factual e retórica. De anotar, que se ignora aqui este aspecto retórico, conquanto reflicta um aspecto sociologicamente essencial do debate, o de uma concorrência entre dois grupos profissionais que participavam num idêntico combate ideológico anti-racista, defendendo, porém, outrossim o seu estatuto de peritos.

(g) No atinente, ao ponto de vista do conteúdo, a declaração de 1951 se distingue da de 1950 por dois cortes. Um diz respeito à passagem terminal que explicava que os seres humanos, instintivamente conduzidos à cooperação e à fraternidade, deveriam desenvolver “uma ética da fraternidade universal”.
De consignar, que os biólogos do segundo comité apenas apreciaram uma tal exortação moral, sobre a qual estavam, todavia de acordo, quer apresentada como um mero corolário das “investigações biológicas”. No que, aliás, tinham, sem dúvida razão.

(h) A segunda diferença de conteúdo entre as duas declarações é mais discreta, porém essencial. Diz respeito à pertinência do vocábulo “raça”no caso concreto da espécie humana. De sublinhar, que o texto de 1950 continha duas interessantes frases, que vamos transcrever a seguir:
---“Les graves erreurs entraînés par l’emploi du mot “race”dans le langage courant rendent souhaitable qu’on renonce complètement à ce terme lorsqu’on l’applique à l’espèce humaine et qu’on adopte l’expression « groupes ethniques. »
--- « Il convient de distinguer entre la « race », fait biologique, et le mythe de la race ». En réalité, la «race » est moins un phénomène biologique qu’un mythe social. »

Finalmente, de consignar, de forma consentânea, que, de feito, a segunda declaração de 1951 não faz, de modo nenhum (absolutamente nada) alusão à ideia, segundo a qual o conceito da raça, por mais delicado que seja, não poderia possuir nenhuma pertinência para a espécie humana. Eis porque, se preserve sobremodo proscrever o vocábulo “raça” no caso concreto do Homem.

Lisboa, 26 Fevereiro 2009
KWAME KONDÉ
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

SEM EMENDA (HOJE COMO ONTEM)

[Pintura de Gustave Courbet exposta no Museu d’Orsay, em Paris]

A PSP de Braga fez o trabalho que se lhe impunha: olhou para a imagem e vai daí ─ isso é pornografia, pensou; e passou logo à acção ─ apreendeu os exemplares do livro e constituíu arguído o respectivo vendedor.

Já nos anos 70 se passara algo semelhante mas com a PIDE. Na altura a PIDE “visitou” o quarto de um estudante de engenharia e encontrou lá “material subversivo” que logo apreendeu, bem como prendeu o respectivo proprietário e “terrorista”: a PIDE encontrara um livro intitulado BETÃO ARMADO...

Mas vamos e venhamos ─ eu perdoo a PSP ─ este quadro só não perturba um ginecologista distraído.
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KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO VIGÉSIMA TERCEIRA:

O racismo, tanto como, o anti-racismo se apoiam sobre argumentos variados. Que se trate dos partidários de uma hierarquia das “raças”, como Aristóteles, Kant, Renan ou Hitler, ou defensores da unicidade da “raça” humana, de Montaigne a Derrida, passando por Leibniz, Darwin, Lévi-Strauss, em cada campo, os discursos são diversos.

A Carta das Nações Unidas de 1945, no seu capítulo I, indica como um dos fins da Organização que se cria após a vitória sobre o totalitarismo nazi, o seguinte:

«Réaliser la coopération internationale en résolvant les problèmes internationaux d’ordre économique, social, intellectuel ou humanitaire, en développant et en encourageant le respect des droits de l’homme et des libertés fondamentales pour tous, sans distinctions de race, de sexe, de langue ou de religion. »

(1) Efectivamente, na verdade e, na realidade, o Racismo se impõe à ponderação pela violência homicida dos comportamentos que inspira, pelo ódio meticuloso que nutre, em silêncio, no que é presa nas suas malhas, pelos sinistros delírios de interpretação que fomenta e promove, em jeito de concepção do Mundo. Todavia, este fenómeno quão agressivamente visível e quão facilmente identificável, parece desafiar a análise e uma impressionante força de resistência opõe a todas as campanhas de denúncia e condenação.

(2) Seria imputável a um preconceito, à uma opinião falsa passivamente recebida, assentando, em última análise, num erro de apreciação?

Por outro, os comportamentos racistas obedeceriam a um “dogma”, o da desigualdade das raças humanas, admitindo sem crítica, porém desnudo de fundamento científico?
Ou, outrossim e, ainda: seria necessário procurar o móbil último do racismo numa realidade doutrinal, doravante, não só caduca como sobremaneira prescrita, obviamente?
Enfim, de sublinhar, que foi esta última opinião, ora enunciada, que os primeiros dirigentes da UNESCO assumiram, aquando consignaram para a Instituição, o objectivo de erradicar do Planeta “O preconceito racial” em nome do qual a Alemanha nazi acabava de planificar e administrar a morte de milhões de seres humanos.

(3) De feito, o corpus doutrinário constituído no decurso do século XIX pelas teorias racistas tinha de que impressionar, visto que se podia encontrar nisso os primeiros esboços nas obras dos maiores naturalistas do século XVIII, designadamente, o naturalista e escritor francês, Georges Louis Leclerc, conde de BUFFON (1707-1778) e o botânico e zoólogo sueco, Carl von Linné, conhecido vulgarmente por LINEU (1707-1778), que ensaiaram classificações acerca das raças humanas. Todavia, a doutrina não corresponde antes à racionalização, isto é, à justificação e a sistematização, de práticas preexistentes?


(4) Donde, no âmbito desta dinâmica, duas vias se abrem, aparentemente incompatíveis, para se poder compreender estas mesmas práticas. A primeira consiste em procurar um móbil no âmbito de uma hipotética natureza humana. Eis porque, o racismo aparece então como a derradeira metamorfose de uma disposição prístina de todo ser humano em sobrestimar o seu próprio grupo em detrimento dos outros. Numerosos são, na verdade, os documentos históricos que testemunham a xenofobia (aversão às pessoas e coisas estrangeiras) da qual pode parturir esta sobrevalorização, identicamente entre os povos aparentemente mais esclarecidos como os da Grécia antiga.


(5) Destarte, uma determinada sociobiologia (disciplina que trata de estudo comparativo da organização social dos animais, incluindo a do homem, especialmente em relação à sua base genética e à sua história evolutiva), auxiliando, alguns investigadores advindos, no término da década de setenta do século XX pretérito, no enraizamento deste etnocentrismo (tendência de um indivíduo para hipervalorizar o seu grupo, o seu país, a sua nacionalidade) no jogo de uma espécie de mão invisível genética que teria guiado cada grupo, nos afrontamentos com os seus rivais, na via de um “êxito reprodutivo” global.


(6) Outros, ainda, sublinham, pelo contrário, a novidade do racismo tal como se constitui, se propala e, no momento oportuno, se desenfreia sob forma de genocídios (exterminações de um grupo humano, nacional ou religioso), à partir da Europa hodierna. Demais, verifica-se actualmente, outrossim, que as potências imperiais lograram exportar para o território das suas vítimas, as concepções destinadas a justificar as suas exacções nefandas.


(7) Os economistas, por seu turno, contribuem para advertir, que para além do período colonial, a expansão do capitalismo à escala planetária incitou à “etnização” das populações destinadas a fornecer a mão-de-obra mais mal paga. Por sua vez, os historiadores sublinham o vínculo entre o advento do racismo e a descristianização que teria desacreditado a tese bíblica da unidade do género humano. Enfim, por sua parte, os politólogos relacionam racismo e nacionalismo.


(8) Deste modo, o racismo se assume, não como um traço de natureza, porém como um fenómeno social recente intrinsecamente vinculado aos desenvolvimentos do que se denomina a “modernidade”.

Finalmente, a reiteração mortífera dos temas do sangue, do sexo e da irracionalidade que nutre os discursos e acompanha invariavelmente as práticas racistas deve ser tomado a sério, identicamente o jogo repetitivo ao qual se entregam os racistas acerca dos nomes próprios. Desta forma, nisso se revela o que coloca à experiência esta forma radical do ódio social. Seja, a identidade dos indivíduos humanos que, cada um assume por conta própria, somos chamados a tornar, tomando lugar num sistema de filiação que se apodera dos corpos para os distribuir, em função do sexo, nos seus lugares juridicamente instituídos. Eis porque, os reptos imediatos do racismo sejam exterminação genealógica.

Lisboa, 22 Fevereiro 2009
KWAME KONDÉ
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sábado, 21 de fevereiro de 2009

ATLÂNTIDA MEU AMOR

MISTÉRIO DESVENDADO


O tabloide inglês The Sun noticiou sensanionalmente ontem, e voltou hoje à notícia, a descoberta da localização da mítica Atlântida, algures entre a Madeira e as Ilhas Canárias (um pouco mais ao largo para ocidente). A fotografia não engana: é mesmo a de uma cidade no fundo do Oceano Atlântico, vista do espaço pelos satélites que fornecem imagens para o Google Earth.

Se tem o Google Earth instalado no seu computador, é só correr o programa, localizar o mar entre a Madeira e as Canárias e aumentar a resolução da imagem para começar logo a ver surgir o desenho da figura acima.

Escritos antigos sobre a mítica Atlântida já a descreveram como situando-se até no Polo Norte. Platão, no ano 350AC sugeriu a sua localização perto do Norte de África. Mas quem se aproximou do que parece ser a realidade terá sido o historiador Lewis Spence, em 1924, no seu livro The Problem of Atlantis em que advoga que as Ilhas Canárias e a Madeira serão o que restou de Atlântida depois que um violentíssimo sismo a destruiu e submergiu no oceano.

A imagem do Google Earth é de facto impressionante e até parece obra de um brincalhão num qualquer dia 1 de Abril.
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A VACA AINDA MEXE

Maria José Nogueira Pinto, ontem aqui no DN, oportuna e inteligentemente escarafunchou bem fundo na ferida dos homossexuais tocando lá no ponto que lhes dói e não há como anestesiar. Disse:

«Então, porque querem tanto a lei os homossexuais? Esta é a segunda e a mais importante das questões que o tema levanta: a simbologia. Na busca de um estatuto de respeitabilidade, os homossexuais exigem um símbolo suficientemente forte para afastar os fantasmas da diferença, da discriminação implícita, de uma situação apenas consentida, do medo da homofobia, da suposição do desprezo, da condescendência hipócrita. Só a institucionalização por via do legislador de uma igualdade de acesso ao casamento, destruindo os pilares fundamentais e distintivos desta realidade antropológica e social, criando uma ficção onde todos são igualmente incluídos, os pode securizar.»

Hoje apareceu Fernanda Câncio no mesmo jornal pretendendo responder a Nogueira Pinto mas sem argumentos e sem razão ― aliás, Câncio não respondeu, tentou apenas ― e veio logo com aquela de PESSOAS DO MESMO SEXO significando os homossexuais a ver se a moda pega. E disse, escreveu:

«Quando alguém diz, como ontem dizia na sua coluna neste jornal Maria José Nogueira Pinto, que "não se pode tratar da mesma forma o que é diferente", falando de "usurpação" a propósito do desejo dos homossexuais de aceder ao instituto do casamento e ao que ele simboliza - a assunção e dignificação social de uma relação -, está a falar a língua da exclusão.»

Câncio talvez ache que se uma lésbica desejar um dia fazer uma biopsia à próstata nenhum médico terá o direito de lha recusar sob pena da prática inadmissível de «exclusão».

E vamos continuar com este folclore enquanto a economia do país se afunda, o trabalho se vai, o desemprego cresce e a miséria se instala.
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

VOLTEMOS À VACA QUENTE

Para que fique claro.
Por aqui não há nada contra os homossexuais. Nada contra a “união”, a “vida em comum”, etc. entre os homossexuais.

Só que ― chamar “casamento” à união entre homossexuais é que me parece desadequado. Porque entende-se que o casamento é mais que uma simples ou mesmo complexa união de duas pessoas; e sejamos directos: o casamento, lato sensu, também pressupõe procriação.

(Que a procriação não seja possível por doença ou por opção, é outra coisa diferente da impossibilidade de procriar; e não invalida que à partida essa união fosse ao menos potencialmente “procriativa”).

Agora entre homossexuais! Aquilo é tudo menos casamento.

Para mim o problema está na instituição Casamento que, no meu entender, os homossexuais pretendem conquistar para seu sossego interior e obtenção (pensam) de um estatuto que os iguale exteriormente aos heterossexuais ― sem se importarem de com isso destruir, desvirtuar, abandalhar, se quiserem, a instituição Casamento. E é isso que deve ser evitado.

Durante muito tempo os homossexuais clamaram pelo "direito à diferença". Sabiam e sabem que são diferentes dos heterossexuais. Agora querem parecer iguais aos heterossexuais. Já não se sentem bem na sua pele de "diferentes". Há qualquer coisa que continua a perturbá-los na sua pele de homossexuais.

Até é questão para se dizer que os homossexuais agora querem ser heterossexuais por via legal. Já não confiam nem se sentem bem com a sua natureza.

Quererão dar razão a D. José Saraiva Martins?

Dê-se aos homossexuais todos os direitos consagrados no casamento ― até o direito impossível de terem filhos entre si ― mas não se chame a isso casamento.

É aqui que bate o ponto.
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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

IGUAIS UMA OVA!

Todos sabemos que há veados, panascas e paneleiros; bichas, rabos e rabichos; lésbicas, fufas, sapatonas, e o mais que se costuma chamar aos HOMOSSEXUAIS.

Mas agora a moda nos partidos políticos e na comunicação social politicamente correcta é chamar aos homossexuias PESSOAS DO MESMO SEXO.

Parece que ao chamar PESSOAS DO MESMO SEXO aos homossexuais se consegue algo extraordináio: fazer com que os homossexuais pareçam iguais aos heterossexuais e não se ofendam tanto na sua condição de homossexuais.

O que não se percebe é porque se ofenderiam os homossexuais de se dizer que são o que são: homossexuais!

Vá lá a gente entender estas subtilezas!...

Mas eu protesto. E vejam lá se não tenho razão. Imaginem que estou ao lado de um homem qualquer; e que vem alguém que aponta para nós dois e diz ─ temos aqui duas PESSOAS DO MESMO SEXO.

─ O quê?!... PESSOA DO MESMO SEXO, eu?! Já chegámos à Madeira ou quê?... DO MESMO SEXO és tu, ó seu ...!
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domingo, 15 de fevereiro de 2009

PENSAMENTO DO DIA

«Há dois pecados humanos capitais dos quais derivam todos os outros: a impaciência e a preguiça. Por causa da impaciência fomos expulsos do Paraíso. Por causa da preguiça não regressamos lá.»

[Franz Kafka, Meditations]

BOA TARDE.
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sábado, 14 de fevereiro de 2009

EDIFICANTE!

Eu só quero lembrar a quem me lê que, apesar de tudo o que se tem escrito e dito, este homem continua a ser Conselheiro de Estado.

E para quem esteja distraído e não esteja a ver bem o que isso é, sempre digo:

Este homem continua a pertencer; continua a fazer parte integrante do mais importante órgão consultivo do Senhor Presidente da República, Cavaco Silva: O CONSELHO DE ESTADO.
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KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO VIGÉSIMA SEGUNDA:

(A)-Na verdade, qualquer que seja o período que se considera, a África aparece como um cruzamento de línguas e culturas diversas. De feito, apenas no âmbito linguístico, é realmente, o Continente mais diversificado do Planeta. Demais, é, unicamente na duração que a “África” principia a aparecer. Assim, efectivamente, no âmbito desta dinâmica, enquanto massa continental, se estende do cabo de Boa Esperança ao delta do Nilo, englobando simultaneamente Marrocos e Moçambique. Todavia, muitos dos seus habitantes, identicamente numerosos Americanos e Europeus, não a consideram como uma entidade unificada e fazem uma distinção nítida entre a “África do Norte” e a “África sub-sariana”ou “África negra”. De anotar, que a linha de divisão é frequentemente entendida, em termos raciais, ou seja: a África é o lugar donde são oriundos os Negros.

(B)- O eminente filósofo ganense/ganês, o docente universitário Kwame Anthony APPIAH (n-1954), Professor de Filosofia na Universidade Laurence S. Rockefeller e, outrossim, membro do Centro para os Valores Humanos da Universidade de Princepton – dizíamos – de modo abertamente consequente, assumiu a seguinte interpelação, ou seja: como representar a “África” se recusa a classificação das populações do mundo em grupos raciais? Classificação que todos sabem, que os biólogos reputaram sem fundamento. Assumidamente, os Africanos são, outrossim, dissemelhantes entre si, como o são de toda outra pessoa sobre terra e, unicamente, erigindo a cor da pele como critério supremo que se lhe pode declarar que os Africanos formam uma raça única? Por outro, pode-se, todavia, considerar que os habitantes, vivendo ao sul do Sara formam um único e mesmo povo, na ausência de raça?
E, prosseguindo a nossa interpelação, de cariz eminentemente pedagógico, sempre na esteira e peugada do filósofo APPIAH, temos ainda que:
--- O facto que aproximadamente um terço de entre eles sejam muçulmanos não significa, afinal de contas, que se deveria os classificar juntamente com os seus correligionários muçulmanos da África do Norte, quer estes últimos se consideram ou não, eles próprios africanos?
--- A pretensa solidez dos vínculos de parentesco entre Africanos, o respeito generalizado que as pessoas, dos Zulos aos Uólofes/Wolofs, manifestam para com os seus primogénitos e os seus antepassados e o papel central das relações sociais individuais nas aldeias não definem uma colectividade cultural através de todo o Continente, facto que influenciou os descendentes dos Africanos no Brasil, em Cuba e nos Estados Unidos da América?
--- Ou ainda, o que todos os Africanos possuem em comum é, outrossim, o que é comum na maior parte das comunidades “campesinas”?
--- E, outrossim e, ainda, o que as pessoas designam por “cultura” em África, corresponde algures a traços duradouros e comuns, ou a esquemas de adaptação em permanente evolução (em presença) e perante às situações novas?

(C) De sublinhar, assertivamente, que a resposta de APPIAH não depende da existência, ou não, de uma correspondência entre as culturas africanas, quaisquer que sejam as suas analogias ou as suas discrepâncias e a cor da pele. Na verdade, ele afirma que o vocábulo “África” possui, efectivamente, um sentido e, que este sentido é histórico. De feito, aliás, desde à partir do século XVI, os negreiros europeus se puseram a considerar diversos portos africanos como centros de compra de mão-de-obra escrava, servindo as características físicas dos escravos de critério para determinar quem, de um lado do Atlântico, podia ser comprado e, de outro lado, ser suposto tornar escravo.

(D) Todavia, se a África foi definida, primeiramente, pelo aspecto, o mais horrível da sua história, o sentido do vocábulo “África”principiou a mudar no seio mesmo da diáspora africana. Com efeito, os indivíduos escravizados e os seus descendentes principiaram a se considerar “africanos”e, não mera e simplesmente como a propriedade de outras pessoas. Sim, efectivamente eram indivíduos que procediam de algures. E, explicitando adequadamente, deste modo, nos Estados Unidos da América, alguns cristãos descendentes de escravos principiaram a se considerar “etíopes”não porque os seus antepassados provinham desta região de África, sim, efectivamente, este facto evocava as narrativas bíblicas do rei Salomão e da rainha de Sabá. Eis porque, deste modo, a Etiópia ou a África assinalava o seu lugar numa história universal. E, na sequência, determinados intelectuais afro-americanos proclamaram que os antigos Egípcios eram Negros de África e que via Egipto, a África contribuíra, de molde, decisiva, para o desenvolvimento e o engrandecimento respectivo das civilizações helena, romana e do Mundo inteiro. Enfim, se afigura importante, consignar, com ênfase, que, na realidade, é que a África se revelou, na sua plenitude, quando uma diáspora afirmou o seu lugar no Mundo.

(E) Destarte, o estudo das redes que sulcavam o oceano Atlântico, o oceano Índico, o deserto de Sara e o próprio Continente Africano, outorga da África uma imagem dissemelhante dos estereótipos vinculados às “tribos” africanas. Por seu turno, intelectuais muçulmanos da África do Sahel ocidental atravessavam o deserto para se dirigir para a África do Norte ou iam para o Egipto ou para a Arábia Saudita para estudar ou cumprir uma peregrinação. Outrossim e, ainda, de referir, que redes islâmicas análogas se estendiam ao longo da costa este africana e no interior do Continente, até aos lagos Vitória e Tanganhica. Já, no interior da África, alguns reinos ou impérios englobavam populações de culturas diversas, assimilando-os, por vezes, acordando, em determinadas circunstâncias, uma autonomia cultural considerável, exigindo, integralmente, neste caso, submissão e impostos. Finalmente, em determinadas demais outras regiões, grupos de uma idêntica família se reconheciam afinidades com parentescos distantes de centenas de quilómetros.

E, prosseguindo, esclarecida e elucidadamente, este nosso Estudo, temos, então, complementarmente que:

(1) A diversidade cultural era, decerto, real e, numa determinada medida, identicamente, verídica que a especificidade cultural se transformava, por vezes, num sentimento de pertença a um “povo” distinto. Porém, a distinguibilidade, ora enunciada, não era sinónimo de isolamento e, demais, não apagava as inter-conexões, as relações e as influências mútuas. Efectivamente, a carta cultural da África está marcada por graduações de dissemelhanças e de vínculos e, não por uma série de espaços herméticos, cada qual com a “sua” cultura respectiva, o “seu” idioma e o “seu” sentimento de unicidade. Na verdade e, por certo, um empreendedor político, tentando mobilizar “o seu” povo para defender os seus interesses podia se apoiar sobre um sentimento de grupo, todavia, isso funcionava, do mesmo modo, para um organizador político ou religioso que tentasse pôr em contacto povos separados por débeis ou grandes distâncias. De anotar, que a tendência que a dominava dependia das circunstâncias históricas e, não de uma suposta unidade racial ou singularidade cultural africana.

(2) Nos meados do século XX pretérito, o vocábulo “África” recobre várias significações políticas. Donde e daí:
---Para um pan-africanista, a unidade pertinente era a diáspora.
---Já para o psiquiatra, escritor e ensaísta antilhano, de ascendência africana, Frantz FANON (1925-1961) (quiçá, o maior pensador do século XX passado, no âmbito dos temas da descolonização e da psicopatologia da colonização) – dizíamos – a política era determinada pelo imperialismo e, eis porque, recusava a ideia de nação negra para lhe preferir a de unidade dos povos oprimidos pela colonização.
Deste modo, no âmbito desta dinâmica, quando o Presidente egípcio Gamal Abd Al NASSER (1918-1970) desafiou as potências estrangeiras, designadamente a britânica, a francesa, a norte-americana e a israelita no Médio Oriente, tornou-se, para numerosos Africanos, o símbolo de um dirigente autenticamente nacional.

Demais, outrossim e, ainda, na década de cinquenta do século XX pretérito, as lutas comuns travadas contra as potências coloniais, visando a construção de economias nacionais e, em prol da dignidade nacional, deram origem à uma concepção militante do “Terceiro mundo”, nem capitalista e, nem comunista, unindo, todavia, a Ásia, a América latina e a África contra o “Norte” – contra as potências “imperialistas”.
Enfim, no âmbito desta perspectiva, temos de referir também, que outros dirigentes políticos procuraram uma unidade especificamente africana, limitada ao Continente.
E, finalmente, demais outros, ainda e, outrossim, se opuseram acerca das bases ideológicas e estabeleceram alianças com blocos de influência conduzidos pelos Estados Unidos da América ou com a União Soviética.

(3) De sublinhar, que os vínculos internacionais não convinham apenas aos militantes políticos. Com efeito, Africanos, desejando efectuar estudos, encetando uma carreira na ONU ou, em demais outras organizações internacionais, ou migrante para economias europeias que, nesse momento, pretendiam a sua respectiva força de trabalho nos próprios solos — tornaram, cada vez mais, numerosos na Europa, na União Soviética e nos Estados Unidos da América do Norte. Na verdade, possuíam, ora contactos com os autóctenes, ora formavam comunidades de origem relativamente independentes, outrossim, ainda, possuíam vínculos mais estreitos com demais outros migrantes de ascendência africana.

E à guisa de remate/conclusão seria, todavia um erro crasso, substituir a visão quão errónea e, assaz adulterada de uma África de tribos isoladas por de uma África submersa numa rede infinita de movimentos e de permutas. De feito, em África, a população era desproporcionadamente distribuída, num enorme espaço, por outras palavras e, para melhor dizer, as deslocações eram possíveis, no entanto, sobremaneira, onerosos os transportes. Na verdade, lucrativo era permutar bens de grande valor, inexistentes em determinadas regiões, contudo menos rentável que construir densas redes de permutas e de relações diversificadas.
Por outro, de consignar, que os dirigentes africanos podiam encontrar lugares susceptíveis de assegurar a prosperidade dos seus povos, porém, havia identicamente demais outros sítios, onde as pessoas podiam se refugiar e sobreviver, o que tornava difíceis a consolidação do poder e a intensificação da exploração. Demais, as permutas com o resto do mundo eram habitualmente muito especializadas — horrivelmente especializadas, no caso concreto, do comércio dos escravos, designadamente. De anotar, destarte, que os centros de produção específicos – de ouro ou de óleo de palma, por exemplo – ou as estradas comerciais específicas – a do marfim, que ligava o interior do Este africano à costa -funcionavam assaz bem. Todavia, a sua acção respectiva foi criar vínculos particulares, exclusivos, entre o interior da África e as economias exteriores à África e, não de desenvolver uma economia regional densa e diversificada.
De sublinhar, que após a conquista europeia, as economias coloniais construíram, caminhos ferroviários e estradas respectivas, para fazer escoar o cobre ou o cacau e fazer entrar os produtos manufacturados europeus, canalizando, deste modo, o movimento dos bens, das pessoas e das ideias para a metrópole e, não para o conjunto do mundo.
Efectivamente, os regímenes coloniais edificaram uma grande parte do seu poder na sua capacidade para controlar os pontos nodais chaves, tais como os portos em águas profundas, de um sistema de transportes e de comunicações relativamente limitado.
Enfim, os Africanos procuraram criar as suas próprias redes: estradas comerciais no seu próprio Continente com conexões políticas, com demais outros povos colonizados. De anotar, com, um certo e determinado êxito. Porém, quando os impérios coloniais se desmoronaram, os dirigentes africanos foram, outrossim, confrontados, com a tentação de reforçar o seu controlo nestas redes limitadas, de preferência, antes que ampliar e multiplicar os vínculos através do espaço.

Lisboa, 11 Fevereiro 2009.
KWAME KONDÉ

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

ELE GOSTA É DE «MALHAR»

«Eu cá gosto é de malhar na direita e gosto de malhar com especial prazer nesses sujeitos e sujeitas que se situam de facto à direita do PS e que são das forças mais conservadoras e reaccionárias que eu conheço e que gostam de se dizer de esquerda plebeia ou chic. Refiro-me, obviamente, ao PCP e ao Bloco de Esquerda.»

Sempre que este homem aparece na televisão ou o oiço na rádio, acabo por pensar e dizer a mesma coisa: “Este homem é sinistro”. E digo isto não porque eu tenha provas de que ele seja de facto sinistro, mas porque a sua figura, o seu timbre de voz e muito daquilo que ele diz, sobretudo da forma como costuma dizer ― me dão a sensação de que ele é sinistro.

Foi assim quando falou dos jornalistas; foi assim quando falou dos professores; e foi assim agora que falou do PCP e do Bloco de Esquerda.

Sinistro! ― é a sensação que me dá.

E aquele verbo «Malhar»!... é tão rasca, tão reles e tão foleiro que até a palavra “foleiro” parece aristocrática ao pé dele.

Deus nos guarde e nos livre de mais uma maioria absoluta do PS nas próximas eleições.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

WINDOWS 7

Inscrevi-me como beta tester do Windows 7 (que há-de aparecer no mercado um dia destes) e estava entusiasmadíssimo com o trabalho que a Microsoft tem vindo a fazer neste novo sistema operativo baseado no Windows Vista de má memória, quando me atiraram um balde água gelada com a notícia de que falarei mais abaixo.


De facto o Windows 7 está a ser concebido segundo uma outra filosofia que não aquela que presidiu nos últimos anos a Microsoft ― a de fazer do utilizador um dependente mórbido, um robot e um escravo do Windows ―. A nova filosofia que preside ao Windows 7 parece (parecia) ir na direcção certa: libertar o utilizador metendo-lhe na mão todas as ferramentas de um sistema operativo deixando-o livre para a sua utilização consoante as suas necessidades e as suas manias, inclusive. De facto este Windows 7 é leve de instalar e de usar; rápido a iniciar; seguro contra intrusões online; amigo do utilizador; portador de inúmeras ferramentas que dispensam muito do software adicional habitual (leitor e gravador de filmes e de música, processador de texto, manipulador de imagens, etc.) enfim: este Windows 7 parece (parecia) UMA BELEZA DE SOFTWARE; um sistema operativo capaz de competir com o Leopard da Apple.

Mas... eis senão quando... surge esta notícia:
O Windows 7 terá 6 (seis) versões diferentes a saber:

1) Windows 7 Starter
2) Windows 7 Home Basic
3) Windows 7 Home Premium
4) Windows 7 Professional
5) Windows 7 Enterprise
6) Windows 7 Ultimate

Ao que parece nunca mais os senhores da Microsoft tomam juízo e aprendem alguma coisa com Steve Jobs, o patrão da Apple. Ele, Jobs, não discrimina os utilizadores do seu software vendendo versões diferentes a preços diferentes e com funcionalidades diferentes de um mesmo sistema operativo.

Steve Jobs, quando lança um novo sistema operativo, lança uma só versão e igualiza os utilizadores todos de uma assentada: não cria nichos de coitadinhos; nichos de burrinhos; de espertinhos pobres, de espertinhos ricos; de profissionais endinheirados, de profissionais piratas; de patrões e empresários e por aí fora.

Qual vai ser então o resultado disto tudo? O resultado vai ser que os menos informados engolirão o que os vendedores de software lhes impingirem e as suas carteiras puderem suportar. Os que não quiserem gastar dinheiro mas também não souberem como fazer a coisa, continuarão a usar o Windows XP. Quem não quiser gastar dinheiro mas sabe como fazer, vai piratear o Windows 7 e utilizá-lo de graça. E só quem tem dinheiro e ou é parvo vai comprar a versão Ultimate do futuro Windows 7.

É assim que uma ideia boa acaba por dar um produto eficaz mas pouco satisfatório para os seus potenciais utilizadores.

Quanto a mim, no fim dos testes ― ou a Microsoft me oferece o programa (ou a possibilidade de o adquirir barato), ou então vou ter que pensar muito bem o que vou fazer.

Migrar para a Apple?!

Ou... isso mesmo. Pois!

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO VIGÉSIMA PRIMEIRA:

Complementando avisadamente a nossa “posta”anterior,
Efectivamente,

(A) Apresentada como a panaceia universal e o sistema que optimiza melhor os meios de produção, a livre troca gera um conjunto de custos não tidos em conta pelo sistema económico actualmente implantado, melhor dito, o Capitalismo.

(B) De feito e, por outro, a colocação em concorrência trabalhadores dos países desenvolvidos com as mãos de obra abundantes, pouco qualificadas, sub remuneradas e exploradas (inclusive o trabalho infantil) dos países em desenvolvimento, só pode conduzir a um nivelamento por baixo dos salários e dos direitos sociais adquiridos. Enfim que se denomine “dumping social”, “course au moins-disant”, não é, nem mais nem mesmo (assim mesmo), unicamente um efeito de vasos comunicantes.

Posto isto, vamos abordar e estudar as suas consequências, no âmbito dos países em desenvolvimento e no âmbito dos países desenvolvidos.

(1) Aproveitam realmente, os países em desenvolvimento da livre troca?


(a) De anotar, que a teoria económica parece mostrar que a livre troca é globalmente criador de empregos, porém este balanço quantitativo deve ser relativizado por uma visão mais qualitativa. Com efeito, os empregos criados são menos bem remunerados e com uma protecção social degradada.


(b) De feito, apenas os países ricos estão habilitados para manter algumas das suas actividades, tal como a agricultura, por formas de subvenções autorizadas enquanto coagem os países mais pobres a abandonar o único meio de protecção que dispõem, concretamente as barreiras alfandegárias.


(c) De salientar, outrossim, que as especializações que engendra a livre troca não são equivalentes. De facto, a realização de produtos manufacturados necessita o domínio de todo um processo de fabrico, enquanto as extracções de matérias primas não conduzem à uma industrialização.


(d) Finalmente, na verdade, na ausência de instâncias de regulação, os preços submetidos à lei do mercado, podem se revelar “desfavorável” num momento dado para uma nação (concorrência falseada, cartel, especulação…) e provocar uma grave crise.

Enfim e, em suma, nos países pobres ou em desenvolvimento, os povos são as vítimas, concomitantemente das grandes potências e das suas próprias classes dirigentes que se enriquecem destes deserdados da sorte.

(2) Antes de mais, se impõe consignar que, no âmbito dos países desenvolvidos, as consequências diferem consoante a flexibilidade dos salários: Ou seja:

---Salários flexíveis: diz respeito a baixa dos salários dos trabalhadores menos qualificados e, ao invés, alta dos salários dos mais qualificados. Resulta, deste modo, um aumento sensível das desigualdades. São os casos dos países, nomeadamente, os Estados Unidos da América do Norte e do Reino Unido.
---Salários não flexíveis (salário mínimo legal): diz respeito à deslocalização de actividade, aumento do desemprego e pressão produtivista sobre os que trabalham. Estamos a referir, concretamente, os casos da Alemanha e da França.
De sublinhar:
Por um lado, que os empregos mais “qualificados” não estão ao abrigo de um tal fenómeno. Com efeito, não constitui dúvida alguma, que daqui mais alguns anos, países como a China e a Índia poderão colocar no mercado mundial do trabalho, dezenas de milhões de assalariados ou quadros qualificados.
E, por outro, que os países tendo um deficit do seu comércio externo devem pedir por empréstimo no mercado internacional para se procura divisas. Estas dívidas engendram um constrangimento financeiro que vai influir na política interna: afrouxamento do crescimento económico, desemprego, redução dos investimentos.

E, para rematar, de modo, dialecticamente, consequente, na verdade e, na realidade, a livre troca só apresenta inconvenientes. Permite, em determinadas condições aos países mais pobres se desenvolver mais rapidamente. Todavia, num regime capitalista, a livre troca desenfreada é um sistema não equitativo que se aparenta à uma guerra económica entre os trabalhadores do mundo inteiro, enquanto os detentores do capital acumulam os benefícios, ávida e vorazmente.

Lisboa, 01 Fevereiro 2009.
KWAME KONDÉ

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO VIGÉSIMA:

(I) Face ao perigo que representa o “dumping social” provocado pela globalização neoliberal e o seu corolário lógico, a livre troca desestruturadora, urgente se afigura implantar medidas consentâneas e consequentes de protecção efectiva e segura, obviamente. Trata-se, efectivamente da sobrevivência, aproximadamente, de dois séculos, de benefícios sociais e de direito do trabalho arrancados ao capitalismo pela luta dos trabalhadores conscientes e ciosos dos seus autênticos direitos, humanamente exprimindo.

(II) A isto se deve acrescentar uma dimensão ética, visando restituir ao comércio o seu sentido original que é, na verdade, a colocação em conexão povos uns com os outros e já não fazer disso uma máquina de guerra sem alma nas mãos das multinacionais.


Donde e daí, no âmbito desta dinâmica, se impõe, ipso facto, implantar, o mais célere possível, com uma eficácia adequada e segura, as seguintes medidas, designadamente:
a) Sair, o mais urgente possível, da Organização Mundial do Comércio (OMC), esta Instituição não democrática, ao serviço de interesses particulares.
b) Restituir sentido às permutas comerciais por acordos bilaterais (de país a país) entre representantes de cada povo, eleitos democraticamente e os representantes de outros povos (demais outorgantes) todos outrossim, democraticamente eleitos.
c) Restabelecer barreiras alfandegárias para as mercadorias provenientes de países, onde o nível de remuneração e de protecção social, até mesmo a ausência de direito do trabalho, constituem um abuso concorrencial.
d) Penalizar comercialmente os Estados não democráticos ou, outrossim e, então, que não respeitam os Direitos do Homem, envidando assertivamente tudo que for necessário, para ajudar as suas oposições democráticas na conquista do poder, em bases legítimas e, consequentemente conducente à edificação de Estados, rumando, ipso facto, na real Senda do Modelo de Sociedade que privilegia o Ser em detrimento do ter, obviamente.
e) Implantar, avisadamente, as barreiras aduaneiras adaptadas, o tempo necessário, para a reconstrução dos pólos que cada Estado terá soberanamente decidido reputar como estratégicos para o seu futuro.

(III) E, rematando, lucidamente, não há dúvida nenhuma, que a livre troca e o Proteccionismo não são aqui, nem uma, nem outro, investidos como uma doutrina ou um fim em si, unicamente, porém, meios de acção para combater (ou, pelo menos, refrear) os efeitos funestos e calamitosos do Capitalismo internacional, visando outrossim e, sobretudo estabelecer um Comércio ético e equitativo entre os Povos, assumidamente.


Lisboa, 27 Janeiro 2009
KWAME KONDÉ

domingo, 25 de janeiro de 2009

DE CÓCORAS PERANTE O CRIME

A MIM PARECE-ME ISSO.
O Ministério da Justiça perante os assaltos a caixas Multibanco instaladas nos tribunais não achou melhor maneira de impedir o crime senão mandando retirar as mesmas caixas dos tribunais.

É caso para se dizer que:

― Não se deve andar na rua para não se ser assaltado;

― Deve-se fechar definitivamente os bancos, as ourivesarias, as lojas, os supermercados e o comércio em geral, para impedir os assaltos aos mesmos;

― Domingos Paciência, treinador da Académica, a quem assaltaram a casa com a família lá dentro, há bem poucos dias ― deve mudar de casa, mudar de cidade, ou talvez mesmo mudar de País.

Olhem que esta, hein!!!

Raio de solução mais... coiso ― sim, coiso!
.

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO DÉCIMA NONA:

Elocubrando sobre a Excisão em França:

(1) A excisão consiste, grosso modo, na ablação cirúrgica do clítoris. É praticada nas raparigas, por vezes muito jovens, por numerosas sociedades africanas. Determinadas minorias emigradas a praticam no território francês. Efectuada ilegalmente, no quadro doméstico, por matronas, acontece que a excisão se solda por complicações, necessitando uma hospitalização de urgência, causando, até mesmo, o óbito à criança. Donde e daí, que os pais e a matrona são então inculpados por lesões, tendo acarretado a morte, conquanto sem intenção de a provocar, sendo, no entanto, citados judicialmente.

(2) No Tribunal, duas culturas se defrontam. Por um lado, uma Cultura da tradição, com o seu direito próprio e peculiar, edificado na autoridade dos antepassados e nos usos e costumes. Do outro, uma Cultura dos direitos da Pessoa, herdada do universalismo das luzes, que considera a excisão como um dano/prejuízo à integridade corporal (não consentido) e, por isso, a qualifica de crime. Em contrapartida, em virtude do direito consuetudinário, a família vê na excisão uma prática necessária para benefício e felicidade da criança, porquanto confirma a jovem rapariga na sua identificação feminina e, consequentemente na real pertença ao grupo respectivo. Destarte, o consentimento da família, em particular da parte das mulheres, é, quase sempre (aliás, a maior parte das vezes) afirmado, facto que complica singularmente o problema.

(3) De consignar, que no âmbito desta dinâmica, os etnólogos são convocados em tribunal criminal, como peritos, pois sabem que a excisão faz parte das práticas de escultura do corpo testemunhadas em numerosas sociedades da tradição: implantes cutâneos, escarificações, tatuagens, limagem ou extracção dos dentes, perfuração do nariz, das orelhas, dos lábios, elongação do crânio, do pescoço, das orelhas, mutilação das mãos ou dos pés. De anotar, outrossim e, ainda, que os órgãos genitais, estar-se-iam, neste sentido, decerto dotados. Eis porque, são particularmente eleitos: perfuração do pénis destinada à receber um broche, subincisão, circuncisão, podendo ir até à escoriação do pénis em todo o seu comprimento, infibulação do sexo feminino, excisão, elongação dos pequenos lábios.

(4) De feito, na verdade, o Corpo é um suporte ideal para aí inscrever a identidade e a diferença. De salientar, que estas práticas, ora evocadas, conquanto, mais ou menos, perigosas, dolorosas e, assaz mutiladoras são, contudo, identicamente estruturantes, para o indivíduo e para o grupo respectivo, obviamente.

(5) Todavia, asseverar que são estruturantes e identificadoras não significa, bem entendido, que se as aprove. E, precisando, um pouco mais, a situação vem mesmo à propósito, trazer à colação, as posições extremas que se digladiam, no âmbito desta matéria. Ou seja:
(a) Os defensores do “relativismo cultural”, como determinados antropólogos norte-americanos dos anos trinta do século XX pretérito, para quem não existe nenhum ponto de vista transcendente, permitindo avaliar as culturas, de molde que todas se valem do momento que preservam a sua pregnância.
(b) Noutro extremo, temos, então, por seu turno, os juristas ocidentais contemporâneos argumentando que a invenção do “direito internacional” pela escola de Salamanca e Bartolomeu de Las Casas após a conquista espanhola do Novo Mundo, assim como a Filosofia das Luzes e a Declaração universal dos direitos do Homem (1948) fornecem as bases jurídicas de uma condenação universal destas práticas. Deste modo, na opinião deles, só o respeito destes princípios universais pode garantir à Humanidade um porvir que não seja demasiado sombrio.

(6) Enfim, no atinente ao debate respeitante às mutilações sexuais, em si, não deixa de se afigurar pertinente, ponderar o seguinte: Efectivamente, quais são as suas implicações quanto a relações entre homens e mulheres, assim como, qual a contribuição de um e o outro sexo na prossecução da sua prática? Outrossim e, ainda, quais são os desafios do poder e de domínio entre os sexos, as pessoas, os grupos e as nações, que violam os termos da Declaração, sempre a apelar para diferenças religiosas ou culturais, não obstante, quão notáveis e respeitáveis? Como se pode ver, os reptos são, não só, bastante numerosos, como, outrossim sobremaneira fascinantes. E, numa avisada asserção: estão, na verdade, os ditos reptos indissociavelmente mesclados às diferenças sociais e culturais.

(7) E, rematando pertinentemente, com efeito, numerosos são os (educadores, trabalhadores sociais, juristas, etnólogos, movimentos de defesa das mulheres), que, sempre, condenando a excisão e as práticas mutiladoras, desejam, entretanto, que sejam descriminalizadas e requalificadas como meros e simples delitos. Isto teria por consequência não converter em criminosos, pessoas que seguiram as prescrições da sua cultura, provisora esta de eloquentes referências existenciais.

Lisboa, 25 Janeiro 2009
KWAME KONDÉ

«What Obama Must Do»


A revista de rock Rollingstone publicou no passado dia 14 esta carta do Prémio Nobel de Economia 2008, Paul Krugman, a Barack Hussein Obama.

Se domina razoavelmente o Inglês, dê-se ao trabalho de a ler na íntegra pois é uma peça singular que interessa a todos conhecer e meditar sobre.

LIDO NOS BLOGUES (II)

José Adelino Maltez posta aqui sobre o caso Freeport fazendo uma abordagem diversa da de José, introduzindo outros ângulos de leitura do mesmo (caso).

Destaco alguns parágrafos da posta de JAM, para mim os mais significativos do que acabo de dizer:

«Por causa de toda esta fumarada, não reparámos na falência da Quimonda nem tivemos suficiente altura para acompanharmos a esperança de Obama. Porque, mesmo sabendo que uma andorinha em Washington não faz a Primavera, nem por isso era de preferir a continuação dos abutres. E recordando os norte-americanos, talvez fosse útil lembrar que foi o jornalismo de investigação que denunciou o Watergate, mas que tais "mass media" não conseguiram vislumbrar o lado negro de John Kennedy, hoje provado.»

«Do Freeport, apenas apetece voltar a glosar Cícero: nem tudo o que é lícito é moralmente recomendável ou politicamente exemplar. Guterres, com Sócrates, tal como Santana, com a febril actividade de despachos nos últimos segundos de vida de um governo de gestão devem ser banidos como paradigmas. Porque um quarto de hora antes de morrerem os governos não devem apenas temer o ilícito mas também o politicamente reprovável e o moralmente execrável, em termos cívicos. Até porque não são os magistrados que os podem absolver em termos políticos ou morais.»

[...]

«Por mim, confesso, não se me afigura que Sócrates possa estar envolvido em recebimentos e pagamentos, do género dos insinuados, de forma directa ou indirecta. As eventuais imoralidades ou irregularidades políticas têm sido pasto em todos os governos de todas as áreas políticas. Até acredito que Sócrates quis continuar a ser um gajo porreiro, ao ceder ao pedido do tio, ou do camarada autarca, naturalmente interessado em trazer para o seu concelho aquele investimento.»

[...]

«Porque estamos perante um caso de polícia. E é desgradável que a pessoa do primeiro-ministro de Portugal sofra as consequências de uma sociedade endogâmica e matriarcal, entre a D. Maria da Cunha e muito nepotismo em sentido etimológico. Para bem de todos, seria conveniente que, a curto prazo, ele conseguisse libertar-se das insinuações. Porque se ele deve ser atacado politicamente, é totalmente cobarde que o seja pela estratégia indirecta de certo inquisitorialismo e certo neopidismo de que também já foi vítima, nomeadamente com a campanha de boatos que o tentou despudoradamente destruir na última campanha eleitoral.»

sábado, 24 de janeiro de 2009

VERIDICTUM

Angelina Jolie.


Uns olhos verde-esmeralda lindíssimos ― confirmado.

Uma boca fabulosa ― já sabíamos.

Um nariz mixuruco ― só reparei agora.

PROTESTO




Este artigo de "opinião" é uma vergonha.

Em qualquer país do mundo civilizado,

o indivíduo que o escreveu não seria director de jornal.
.

LIDO NOS BLOGUES (I)

José, por certo estribado no seu conhecimento das leis e experiência profissional, não usa qualquer meiguice; antes, até, uma violência controlada mas evidente, no tratamento do caso Freeport e no que ao actual primeiro-ministro diz respeito.

Assim (destaco quatro parágrafos mais contundentes):

«O primeiro-ministro português está envolvido noutro caso de polícia. Grave, na medida em que se trata de corrupção e tráfico de influências. Não é uma aldrabice com o diploma académico, como antes. Não é uma aldrabice costumeira com números e ignorâncias, embora o teor das declarações que vai produzindo sobre o assunto, sejam mais do que suficientes para comprovar esse carácter politicamente indigno, de primeiro-ministro. Só o desculpa quem não se incomoda com as contradições, as declarações de enguia e as desculpas esfarrapadas para factos cuja evidência esmaga de suspeitas quem não devia ter uma sequer.»

[...]

«Portanto, sobre o aspecto criminal, parece estar quase tudo dito. E não vai ser o juiz Carlos Alexandre a resolver o assunto. Ao contrário do que alguns pensam e dizem (Ricardo Costa da SIC) este juiz não é o investigador deste processo. Poderia ser , caso o modelo português fosse outro ou ele fosse o director do DCIAP. Mas não é. O juiz Carlos Alexandre só intervém neste processo como juiz de direitos, liberdades e garantias, relativamente a prisões, buscas domiciliárias, escutas e buscas a advogados. Nada mais. Quem dirige efectivamente o Inquérito é o MP. Do modo que se vê.»

«Resta portanto o aspecto político. Quanto a este, é mais fácil verificar o que está em jogo: a manutenção no cargo mais importante do país, de um indivíduo sem carácter politicamente digno de o ocupar. Um indivíduo metido por diversas vezes em moscambilhices graves [diploma, projectos de engenharia duvidosa, documentos na AR] cuja resolução passa sempre pelos apaniguados que controlam media e distracções de fait-divers e os boys and girls da boa vidinha pública que ao menor risco de a perderem, cerram fileiras em volta do chefe e clamam pela cabala.»

«A Standard & Poor, já rateou Portugal em cota baixa. A este primeiro-ministro que temos, a cota já desceu ao nível da indigência moral. Parece aliás ser o nosso standard habitual, nos últimos tempos.»

Adenda:

Tiago Mota Saraiva mete aqui uma oportuna colherada no assunto.

E o Crítico Musical faz soar aqui o seu diapasão.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO DÉCIMA OITAVA:

(1) Os Historiadores africanos dividem, por vezes, a História do nosso Continente, a África, grosso modo, em Eras “pré-colonial”, “colonial” e “pós-colonial”, sendo, consoante os mesmos, a Primeira e a Derradeira caracterizadas pela autonomia das Sociedades africanas. Deste modo, a Primeira Era constituiu um período de reinos, circunscrições político-administrativas, conselhos de aldeias, sistemas de parentesco e, por seu turno, a última ou Derradeira, um Período de Estados nações, possuindo todos a sua própria bandeira, o seu próprio passaporte, os seus próprios selos, a sua própria moeda e, demais outros símbolos da Soberania, assim como, o seu assento nas Nações Unidas e a sua legítima pretensão em regular e tabelar (fixando o preço) da produção e do comércio no interior das suas fronteiras.

(2) Antes de mais, se nos antolha pertinente e oportuno trazer à colação as ideias do historiador nigeriano, Jacob F. Ade Ajayi (docente universitário in University of Ibadan, Nigéria), que denominou o período intermediário, sob a designação de “episódio colonial”, período, que outros designam por “parêntese colonial”. De feito, de elucidar apropriadamente, que Ajayi esteava directamente o seu argumento numa concepção nacionalista da vida política, na medida em que pretendia sublinhar o vínculo directo dos Estados africanos “modernos” com um passado africano “autêntico”, permitindo, deste modo, aos novos dirigentes, designadamente da Nigéria, do Quénia, ou do Daomé (actual República do Benin) se atribuir a legitimidade dos reis e avoengos do passado. Todavia, mais recentemente, a desilusão nascida ante a conduta execrável dos governos africanos independentes, levou determinados estudiosos e investigadores a adoptar um ponto de vista oposto. Ou seja: “O Estado” é uma entidade imposta pelo Ocidente, destarte, uma determinação directa do pós-colonial pelo colonial e, no fundo, uma verdadeira aniquilação total do pré-colonial

(3) E, raciocinando, no âmbito, destes argumentos, ora enunciados, a história se assume, não como um passado morto, sim, efectivamente, como um ponto de partida para formular reivindicações totalmente actuais. Todavia, tentando utilizar uma versão particular do passado, estas duas visões opostas correm o risco de não assumir a plena medida da dinâmica do passado. Demais, pode acontecer que o boletim de voto, uma instituição “europeia”, no entanto, isto não significa que a sua utilização respectiva, no Gana tenha idêntica significação e as mesmas consequências que em Portugal. Identicamente, se pode demonstrar que o “parentesco” é outrossim importante na actual Tanzânia que o fora para as pessoas que viviam nesta mesma região no início do século XIX, isto não significa que os grupos de parentesco mobilizam recursos similares ou que os seus membros tenham objectivos similares. Invocar, deste modo, o passado – para encontrar os anos de 1780 ou 1930, a causa de um Acontecimento/evento ocorrido inopinadamente nos anos 1990 arrisca-se a desconhecer e ignorar as múltiplas orientações que pode assumir a mudança.

(4) Eis porque, urge, por motivos óbvios, lançar uma ponte entre as duas divisões clássicas da História da África, ou seja, entre o “colonial” e o “pós-colonial”. De feito, este procedimento avisado permitirá, ipso facto, designadamente questionar que mudanças acompanharam o término dos impérios e que processos se perpetuaram mesmo quando os poderes mudaram de timoneiros. Demais, de anotar, que alguns asseveram que o fim do colonialismo se soldou numa mera e simples mutação de ocupantes dos edifícios governamentais, pela substituição do colonialismo pelo seu sucedâneo natural, o neocolonialismo. De facto, se afigura percuciente indagar assertivamente qual foi, na verdade, a autonomia real dos novos Estados africanos, pois que, na realidade, efectivamente, os Estados do Norte (USA e as antigas potências coloniais) e as Instituições tais como os bancos internacionais e as firmas multinacionais continuam exercendo ostensivamente o poder económico e político inclusivamente após as transferências oficiais da Soberania.

(5) Urge, identicamente examinar em que medida os dirigentes políticos, os aldeões ordinários e os citadinos africanos recuperaram determinadas asserções das potências colonizadoras para as transformar em reivindicações e em ideologias mobilizadoras. Com efeito, eis porque, no âmbito desta dinâmica, os governos coloniais, nos anos 1940 e 1950, proclamavam que os seus conhecimentos científicos, a sua experiência do funcionamento dos Estados modernos, os seus recursos financeiros lhes permitiriam “desenvolver” os países soit disant subdesenvolvidos.

(6) Todavia, de sublinhar, que as asserções foram rapidamente convertidas em contra afirmações, ou seja:
a. Os sindicatos africanos declararam que se o trabalhador africano devia produzir consoante o modelo europeu, devia ser remunerado em função da tabela salarial europeia e se poder beneficiar, outrossim e, ainda, de uma habitação condigna, de um abastecimento em água potável e transportes adequados e decentes.
b. Os movimentos políticos sublinharam que se as economias africanas deviam se desenvolver no interesse dos africanos, eis porque, unicamente os Africanos podiam definir em que consistiam esses interesses.
E, rematando, pertinentemente, se pode, desta forma, seguir a ideia de desenvolvimento em África desde o projecto colonial até ao projecto nacional e se poder questionar de modo seguro e quão avisado, se, realmente, o projecto nacional reproduziu determinados aspectos do projecto colonial nomeadamente, no atinente à convicção que os “peritos” devem decidir para os outros e, se este mesmo projecto nacional contribuiu para abrir novas perspectivas económicas.

Lisboa, 20 Janeiro 2009.
KWAME KONDÉ

sábado, 17 de janeiro de 2009

HORROR PURO HORROR!

A Antena 2 está a transmitir, em directo, neste preciso momento, uma ópera EM INGLÊS.

Um autêntico horror!

De facto. A Ópera. É. Para ser cantada. Em Italiano. De preferência. Ou em Alemão.

Tudo o resto é para ouvidos de “não-melómanos”.

MAS O CAMPEÃO É ESTE

Involuntariamente Barak Obama será hoje o maior publicitador dos smartphone da Blackberry; o homem gosta e está habituado a usar um destes telemóveis e ao que se depreende das suas declarações à CNN tudo fará para preservar esse hábito a despeito de os serviços de segurança acharem e aconselharem o contrário.

Noticiou-se há três dias (publicitou-se, melhor dizendo) que Obama, ao sair da sua limusina, viu o seu Blackberry soltar-se-lhe do cinto e cair ao chão, no que um segurança terá intervindo recolhendo o corpo, a bateria e a tampa do dito, cujo quase se desintegrava com a queda.

Pois! É por o Blackberry de Obama se ter quase desintegrado com uma pequena queda da sua cintura para o chão, que venho aconselhar o presidente eleito dos Estados Unidos, bem como todos aqueles que se preocupam com pormenores destes, o seguinte:

Use o telemóvel da Soni Ericsson W660i; é o mais indicado para essas situações: o bicho pode cair de alturas de dois metros que não só não se desintegra como ainda permanece normalmente em funcionamento. Nunca vi coisa igual. Fica aqui o conselho e a publicidade.

NEW YORK NEW YORK

A 27 de Dezembro passado elogiei aqui a atitude dos americanos reflectida na forma como o comércio de Nova Iorque reagia face à crise económico-financeira instalada, investindo toda a força do seu talento e toda a sua capacidade de trabalho no sentido da superação da crise, com optimismo quanto ao futuro.

Hoje, ao ler uma das cartas de Eça de Queiroz sobre a New York de 1873, não pude evitar um sorriso de admiração por aquela gente de então e pelo seu povo de agora.

Com efeito, Eça, de férias no Canadá, escreveu o seguinte a Ramalho Ortigão numa longa carta que vale muito a pena ler, datada de Montreal:

[...] De New York dir-lhe-ei — que é realmente a New York da tradição europeia: — a grande, a extraordinária, a estrondosa New York. Na América não se tem esse amor de New York, porque há na União cidades rivais. Filadélfia — é New York sem o deboche. Filadélfia é uma cidade muito moral — dizem aqui os Quakers. Os outros dizem que é simplesmente um alcouce. St. Louis — é outra cidade que não difere de New York — senão em ser mais bela na paisagem. Chicago, — é a todos os respeitos melhor que New York — e é sem dúvida a mais extraordinária cidade do mundo: na carta que lhe escrevi e que V. não recebeu — eu dava-lhe pormenores curiosos sobre Chicago — que é a cidade-resumo do génio inventivo das Populações do Oeste. New York tem mais do que as outras o elemento europeu manifestado por estes factos — lorettes, restaurantes, crevés, escândalos, agiotagem: — é o que a faz superior —. De resto é uma cidade que em parte amo e em parte detesto. Amo-a porque — porque sim: — e detesto-a, porque deve ser detestada. O que isto é — V. não imagina: a violenta confusão desta cidade, o extraordinário deboche, o horror dos crimes, a desordem moral, a confusão das religiões, o luxo desordenado, a agiotagem febril, a demência dos negócios, os refinamentos do conforto material, os roubos, as ruínas, as paixões, os egoísmos — tudo isto está aqui chauffé au rouge. Isto não pode durar, todo o mundo o diz. É uma cidade que tem 100 anos e que está podre, está détraquée. Viveu muito, muito depressa e chegou sem educação. Porque a verdade é esta — New York não tem civilização: a civilização não é ter uma máquina para tudo — e um milhão para cada coisa: a civilização é um sentimento não é uma construção: há mais civilização num beco de Paris do que em toda a vasta New York. Aqui não há gosto nem espírito, nem distinção, nem crítica, nem classificação — nada. Uma sociedade podre de rica, afogada em luxo, exagerando as modas, inventando muitas — e querendo enriquecer mais e ter mais luxo ainda. V. deve ter lido o que se tem passado aqui com o Crédit Mobilier e com outras poderosas associações bancárias, ligadas ao sistema de administração: tem-se apenas descoberto — que os homens públicos de alto a baixo são um rolo de ladrões. Ladrões por toda a parte, eis a crítica da administração. Ladrões por toda a parte, eis a crítica do comércio. Ladrões por toda a parte, eis a crítica das ruas. Ladrões: New York transborda de ladrões, veste-os, exporta-os, vende-os, — e quantos mais enforca, mais lhe nascem. Se você sai do seu hotel e encara algumas das ruas grandes de New York fica aterrado: — aquela agitação, estrondo, ruído, febre, rostos consumidos e secos, toilettes únicas, carruagens nos passeios (trottoirs), ónibus aos lados, caminhos-de-ferro por cavalos no centro da rua, caminhos-de-ferro à máquina por cima das ruas, junto aos tectos das casas, o aparato imenso da polícia, a excentricidade dos anúncios, — o rumor apressado de todo o mundo, — compreende logo — que está num povo bárbaro que aprendeu a civilização de cor. Mas bárbaro como é — que força, que originalidade inventiva, que perseverança, que firmeza! — É estranho! E ao mesmo tempo que grosseria de maneiras: revólver, praga e empurrão, algumas palavras de inglês e muita saliva — eis o que é a língua americana. — Como eu detesto esta canalha! Como a mais pequena aldeia de França é superior — imensamente superior, — pela sua civilização a esta orgulhosa New York que se chama a si mesma como Roma — a Cidade. Estúpida New York — que fez ela jamais para ser a Cidade? Paris fez a Revolução, Londres deu Shakespeare, Viena deu Mozart, Berlim deu Kant, Lisboa deu-nos a nós — que diabo! Mas esta estúpida New York o que tem dado? Nem mesmo as grandes invenções da América são dela. Aqui quem inventa, quem inventa por todos, quem inventa sempre é Chicago. Chicago sim, tem dotado o Mundo com as três quartas partes das máquinas que ele possui. Mas New York? Nunca saiu nada de New York — nem um homem, nem uma ideia, nem um livro, nem uma máquina, nem uma vitória, nem um quadro, nem um dito. New York é um tour de force da brutalidade — nada mais. E no entanto, meu amigo, que diabo — é necessário amá-la. Com as suas grandes avenidas tão cobertas de árvores e de sombras como um bosque, com a beleza extrema das suas mulheres, com as suas grandes praças onde a relva é por si um espectáculo, com as suas igrejas góticas, todas cobertas de trepadeiras e mal aparecendo por trás da folhagem das árvores (jóias de arquitectura contemporânea), New York com seu sumptuoso ruído, com o romantismo dos seus crimes por amor, com os seus parques extraordinários que encerram florestas e lagos — como outros encerram tanques — com a sua originalidade, com a sua caridade aparatosa, com as suas escolhas simplesmente inimitáveis — os seus costumes — os seus teatros (aos 4 em cada rua) — é uma tão vasta nota no ruído que a humanidade faz sobre o globo — que fica para sempre no ouvido. Eu estou aqui a escrever-lhe — e está-me a lembrar com saudade — o rolar dos tramways nas ruas. — Querida New York! — não odiada New York! [...]

BOM DIA e BOM FIM-DE-SEMANA

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

JORNALISMO MENTECAPTO

A notícia é sobre um relógio «raro» que Pablo Picasso terá desenhado. Vamo-la lendo... sempre à espera que o “jornalista” nos descreva esse intrigante quão provavelmente bizarro relógio apelidado de «uma extravagância»; mas debalde: chega-se ao fim da notícia a saber-se rigorosamente nada do maldito relógio. Esta é a preparação que as actuais escolas portuguesas (incluindo as de jornalismo) dão aos seus alunos: uma miséria.

Constatai por vós mesmos.

No Museu do Relógio, em Serpa
Extravagância de Picasso

Um relógio "raro" criado por Picasso, que senhoras descomprometidas usavam para "meter conversa" com cavalheiros; e não para ver as horas, é um dos 300 relógios femininos, fabricados entre 1850 e 2000, expostos no Museu do relógio, em Serpa.
Em festas ou galas, as senhoras usavam-no "não para verem as horas", mas para "perguntarem aos cavalheiros: que horas são no meu relógio? Isto tudo para iniciar uma conversação" de forma subtil, explicou o responsável do museu, Eugénio Tavares d'Almeida, referindo tratar-se de "mais uma extravagância de Picasso".
"É um relógio raro" e "não se sabe quantos exemplares existem", frisou Eugénio Tavares d'Almeida, referindo que no Museu Picasso de Málaga (Espanha) "há um igual". O "curioso" relógio é uma das 300 "relíquias" da exposição "150 Anos de Relógios de Senhora: 1850 a 2000", patente ate 31 de Julho, neste museu, único do género na Península Ibérica e um dos cinco no mundo, para "revelar" a história e "compreender a evolução tecnológica" dos relógios.
O museu, que já atraiu mais de 300 mil visitantes desde que abriu em 1995, recebeu 20 mil visitas e restaurou "cerca de 500 relógios" no ano passado.

[in Global Notícias, Ano 2 nº 307, de 12/01/2009]

Então?! Ficaram a saber alguma coisa do relógio? Eu não!

sábado, 10 de janeiro de 2009

EU E GROUCHO MARX

O meu inconsciente deu-me uma bela prenda esta madrugada: sonhei interagindo com Groucho Marx num restaurante de paredes envidraçadas, com meias cortinas a cortar o interesse da rua no que lá dentro se passava; mesas com pesados tampos de mármore cobertas por toalhas brancas de linho espesso; balcão corrido virado para a entrada e para a rua; clientela sentada e empregados a circular (era mais uma cervejaria que um restaurante). Groucho era empregado de mesa e eu também era empregado mas sem saber muito bem o que me competia fazer. O que interessa (interessou) foi que, devido a trabalharmos no mesmo local e nos identificarmos na necessidade de tirar o maior proveito de cada momento da vida, independentemente da função que possamos estar a desempenhar, fomos coniventes e fartámo-nos assim de pregar partidas ao restante pessoal e aos comensais numa paródia que durou longos minutos e teve momentos hilariantes que contagiaram todos os presentes.

Acordei mais uma vez bem-disposto, hoje um pouquinho mais que o habitual, confesso, e não resisti a vir até aqui partilhar esta minha felicidade com quem me concede a bondade de me ler e tem, por isso, a oportunidade de confirmar o quão psiquicamente doente estou (sou).

BOM DIA E BOM FIM-DE-SEMANA.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO DÉCIMA SÉTIMA:

O termo guerrilha é um lexema oriundo do vocábulo espanhol guerrilha (1820), se assume, grosso modo, como definição: guerra de prosélitos/guerrilheiros, por intermédio de embuscadas e importunação.
Por seu turno, guerrilheiro é todo o indivíduo/combatente que pertence à uma guerrilha.

Trata-se, efectivamente, de um processo de luta armada caracterizada por acções descontínuas de combate, embuscadas ou golpes de mão, utilizado por unidades regulares ou por guerrilheiros, contra os exércitos adversários. As finalidades deste tipo de luta são, concomitantemente políticas e estratégicas, pois que, por um lado, pretende-se através de grande propaganda política (clandestina) organizar a população contra as forças adversárias; por outro, por intermédio, de acções militares, destruir toda a infra-estrutura militar, administrativa e económica inimiga.
De feito, não possuindo poderio militar que possibilite uma confrontação directa com as forças inimigas, os guerrilheiros remetem-se a acções de pormenor que podem preparar minuciosamente, ganhando, deste modo, alguma superioridade local. Eis porque, os ataques são normalmente dirigidos de surpresa e contra objectivos de débil capacidade de reacção. Demais, para poder subsistir, minimamente a guerrilha necessita de várias condições, designadamente, o apoio das populações locais, da débil implantação militar e administrativa adversária e condições naturais de terreno, assaz favoráveis.

(a) Não há dúvida nenhuma, que a guerra de tipo “guerrilha” se desenvolve, de facto, muito, muito mesmo, antes do advento deste termo/lexema/vocábulo, que a denomina usualmente, desde a famigerada insurreição espanhola contra a ocupação napoleónica (1804-1814).
Trata-se de uma técnica, tão vetusta e prístina, como aliás, a própria história da Humanidade, baseada na mobilidade e na surpresa, conduzida por combatentes irregulares, procurando importunar um exército regular: Este modelo de conflito aparece testemunhada na Bíblia (Josué e, sobretudo Judas Macabéu), nos historiadores latinos (Tito Lívio, Tácito, Salústio, Ápio), outrossim, porém, na história e ficção chinesas (Os Três reinos, À beira da água).
De anotar, que, na verdade e, na realidade, nenhum tratado foi publicado sobre a guerra de guerrilha antes do término do Século XVIII, salvo a célebre e significativa excepção, estamos, obviamente a referir ao De velatione, cuja a autoria respectiva é atribuída ao Imperador Bizantino Nicéforo Phocas, dado a lume no remoto e longínquo século X.

(b) No atinente as causas que estiveram na origem da maior parte das Guerrilhas, temos a referir as seguintes:
Insurreições provocadas por uma invasão estrangeira, designadamente aquando da constituição de impérios (romano, otomano, napoleónico, coloniais);
Rebeliões Camponesas contra a autoridade;
Conflitos Religiosos.
Enquanto fenómeno, a guerrilha assume uma importância nova, entre o último quartel do século XVIII e o início do século XIX, principalmente durante a guerra de Independência americana (Marion, Sumter) e, sobretudo, outrossim e, ainda, durante a Revolução francesa e as Guerras napoleónicas: Vendée, Espanha, Tirol (Andréas Hofer), Rússia (a guerra de prosélitos/guerrilheiros durante a retirada do Grande Exército, em 1812).
Vale a pena assinalar, que é durante este período que floresce, naturalmente, a maior parte da Literatura, no âmbito da guerrilha, cujo os principais autores são, especificamente alemães ou franceses.
De elucidar, por outro, que o essencial desta Literatura debruça sobre a utilização das tropas ligeiras, cuja a acção se agrega ao do grosso e principal das forças, como é ocaso, aquando da Revolução Americana ou da Retirada da Rússia. Conquanto, utilize as técnicas da guerrilha, trata-se de forças de mero contributo. Em contrapartida, com as insurreições camponesas de Vendée, do Tirol e de Espanha, se se situa, num esquema clássico de guerrilha.

(c) No âmbito desta perspectiva, se afigura pertinente e oportuno, trazer, por razões óbvias, à colação as ideias oriundas da lavra do general alemão, Karl Von CLAUSEWITZ (1780-1831), que lutou contra Napoleão, criador, outrossim, da Academia de Guerra de Berlim e, através da sua obra, Von Kriege (Acerca da Guerra) e revolucionou a arte da guerra, pois que, a sua concepção da “Guerra total”, segundo a qual a guerra é uma continuação da política por outros meios, ideia que está, outrossim, na base da estratégia da revolução tão usada no século XX pretérito. Como dizíamos, com efeito, no capítulo 26 do livro 6 da sua famigerada obra, Acerca da Guerra, consagra algumas páginas penetrantes acerca deste fenómeno. Assim, em 1810 e 1811, ministra, na Academia militar de Berlim, um curso consagrado ao que denomina kleiner krieg, por outras palavras, para melhor dizer, aliás, a “pequena guerra”, que é a tradução literal (à letra, palavra por palavra) de guerrilha. Assinala, outrossim, que este tipo de técnica é fundamentalmente um complemento ao papel essencial das forças armadas regulares.

(d) De referir, todavia, que à partir do segundo quartel do século XIX, na Europa, a atenção se dirige contudo para as insurreições urbanas, que o exército, na Inglaterra como em França, se encarregou de reprimir. Em 1848, estes levantamentos agitam e sublevam o Continente, no seu todo. Eis porque, a Comuna de Paris, em 1871 aparecerá para alguns, como Marx e Engels anunciadora de uma Era Nova. Enfim, outrossim, de anotar, que guerrilhas emergem aquando da grande expansão imperial da Europa Ocidental, sendo, por sua vez, o seu estudo, sobretudo pragmático, antes de tudo e, em primeiro lugar, elaborado sob o ângulo da contra-insurreição.
(e) Não deixa de ser percuciente consignar que, enquanto a América Latina, à excepção de Cuba e de Porto Rico, acedeu à Independência, os Conflitos coloniais se desenrolam na Ásia e bem assim, em África.

(f) Destarte, os Franceses estão directamente envolvidos nos Acontecimentos/Eventos que tiveram lugar na Algéria, no Senegal, no Sudão (nome outorgado outrora ao oeste africano da Somália), no Vietname, no Oeste africano costeiro e em Madagáscar. E, no atinente aos Britânicos é à questão que se prende com o Afeganistão, a Índia, a Birmânia, a Somália, o Sudão, a África austral, ou ainda, a Nova Zelândia...em que se encontram empenhados…

(g) Com tropas reduzidas em número, porém superiores em disciplina e em armamento, sobretudo, após 1870, as potências europeias subjugam a África, no seu todo, assim como, uma muito importante parte da Ásia Meridional e Central. Por seu turno, os Estados Unidos da América, cujo o território se ampliou em detrimento do México, a conquista da Hinterlândia só termina, entre o término da Guerra de Secessão e 1890, onde as derradeiras tribos indianas são completamente dizimadas.

(h) Enfim e, em suma: Não há dúvida nenhuma, que o espírito do tempo reflecte o sentimento de superioridade dos que pensam que unicamente os mais dotados sobrevivem e dominam. É, efectivamente, quase, pouco mais ou menos, o que populariza, de modo pseudo-científico, o darwinismo social. Finalmente, na verdade, os europeus pensam ter por missão propalar e difundir a civilização, sem quê nem porquê! Hélas!...

Lisboa, 09 Janeiro 2009.
KWAME KONDÉ