sábado, 14 de fevereiro de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO VIGÉSIMA SEGUNDA:

(A)-Na verdade, qualquer que seja o período que se considera, a África aparece como um cruzamento de línguas e culturas diversas. De feito, apenas no âmbito linguístico, é realmente, o Continente mais diversificado do Planeta. Demais, é, unicamente na duração que a “África” principia a aparecer. Assim, efectivamente, no âmbito desta dinâmica, enquanto massa continental, se estende do cabo de Boa Esperança ao delta do Nilo, englobando simultaneamente Marrocos e Moçambique. Todavia, muitos dos seus habitantes, identicamente numerosos Americanos e Europeus, não a consideram como uma entidade unificada e fazem uma distinção nítida entre a “África do Norte” e a “África sub-sariana”ou “África negra”. De anotar, que a linha de divisão é frequentemente entendida, em termos raciais, ou seja: a África é o lugar donde são oriundos os Negros.

(B)- O eminente filósofo ganense/ganês, o docente universitário Kwame Anthony APPIAH (n-1954), Professor de Filosofia na Universidade Laurence S. Rockefeller e, outrossim, membro do Centro para os Valores Humanos da Universidade de Princepton – dizíamos – de modo abertamente consequente, assumiu a seguinte interpelação, ou seja: como representar a “África” se recusa a classificação das populações do mundo em grupos raciais? Classificação que todos sabem, que os biólogos reputaram sem fundamento. Assumidamente, os Africanos são, outrossim, dissemelhantes entre si, como o são de toda outra pessoa sobre terra e, unicamente, erigindo a cor da pele como critério supremo que se lhe pode declarar que os Africanos formam uma raça única? Por outro, pode-se, todavia, considerar que os habitantes, vivendo ao sul do Sara formam um único e mesmo povo, na ausência de raça?
E, prosseguindo a nossa interpelação, de cariz eminentemente pedagógico, sempre na esteira e peugada do filósofo APPIAH, temos ainda que:
--- O facto que aproximadamente um terço de entre eles sejam muçulmanos não significa, afinal de contas, que se deveria os classificar juntamente com os seus correligionários muçulmanos da África do Norte, quer estes últimos se consideram ou não, eles próprios africanos?
--- A pretensa solidez dos vínculos de parentesco entre Africanos, o respeito generalizado que as pessoas, dos Zulos aos Uólofes/Wolofs, manifestam para com os seus primogénitos e os seus antepassados e o papel central das relações sociais individuais nas aldeias não definem uma colectividade cultural através de todo o Continente, facto que influenciou os descendentes dos Africanos no Brasil, em Cuba e nos Estados Unidos da América?
--- Ou ainda, o que todos os Africanos possuem em comum é, outrossim, o que é comum na maior parte das comunidades “campesinas”?
--- E, outrossim e, ainda, o que as pessoas designam por “cultura” em África, corresponde algures a traços duradouros e comuns, ou a esquemas de adaptação em permanente evolução (em presença) e perante às situações novas?

(C) De sublinhar, assertivamente, que a resposta de APPIAH não depende da existência, ou não, de uma correspondência entre as culturas africanas, quaisquer que sejam as suas analogias ou as suas discrepâncias e a cor da pele. Na verdade, ele afirma que o vocábulo “África” possui, efectivamente, um sentido e, que este sentido é histórico. De feito, aliás, desde à partir do século XVI, os negreiros europeus se puseram a considerar diversos portos africanos como centros de compra de mão-de-obra escrava, servindo as características físicas dos escravos de critério para determinar quem, de um lado do Atlântico, podia ser comprado e, de outro lado, ser suposto tornar escravo.

(D) Todavia, se a África foi definida, primeiramente, pelo aspecto, o mais horrível da sua história, o sentido do vocábulo “África”principiou a mudar no seio mesmo da diáspora africana. Com efeito, os indivíduos escravizados e os seus descendentes principiaram a se considerar “africanos”e, não mera e simplesmente como a propriedade de outras pessoas. Sim, efectivamente eram indivíduos que procediam de algures. E, explicitando adequadamente, deste modo, nos Estados Unidos da América, alguns cristãos descendentes de escravos principiaram a se considerar “etíopes”não porque os seus antepassados provinham desta região de África, sim, efectivamente, este facto evocava as narrativas bíblicas do rei Salomão e da rainha de Sabá. Eis porque, deste modo, a Etiópia ou a África assinalava o seu lugar numa história universal. E, na sequência, determinados intelectuais afro-americanos proclamaram que os antigos Egípcios eram Negros de África e que via Egipto, a África contribuíra, de molde, decisiva, para o desenvolvimento e o engrandecimento respectivo das civilizações helena, romana e do Mundo inteiro. Enfim, se afigura importante, consignar, com ênfase, que, na realidade, é que a África se revelou, na sua plenitude, quando uma diáspora afirmou o seu lugar no Mundo.

(E) Destarte, o estudo das redes que sulcavam o oceano Atlântico, o oceano Índico, o deserto de Sara e o próprio Continente Africano, outorga da África uma imagem dissemelhante dos estereótipos vinculados às “tribos” africanas. Por seu turno, intelectuais muçulmanos da África do Sahel ocidental atravessavam o deserto para se dirigir para a África do Norte ou iam para o Egipto ou para a Arábia Saudita para estudar ou cumprir uma peregrinação. Outrossim e, ainda, de referir, que redes islâmicas análogas se estendiam ao longo da costa este africana e no interior do Continente, até aos lagos Vitória e Tanganhica. Já, no interior da África, alguns reinos ou impérios englobavam populações de culturas diversas, assimilando-os, por vezes, acordando, em determinadas circunstâncias, uma autonomia cultural considerável, exigindo, integralmente, neste caso, submissão e impostos. Finalmente, em determinadas demais outras regiões, grupos de uma idêntica família se reconheciam afinidades com parentescos distantes de centenas de quilómetros.

E, prosseguindo, esclarecida e elucidadamente, este nosso Estudo, temos, então, complementarmente que:

(1) A diversidade cultural era, decerto, real e, numa determinada medida, identicamente, verídica que a especificidade cultural se transformava, por vezes, num sentimento de pertença a um “povo” distinto. Porém, a distinguibilidade, ora enunciada, não era sinónimo de isolamento e, demais, não apagava as inter-conexões, as relações e as influências mútuas. Efectivamente, a carta cultural da África está marcada por graduações de dissemelhanças e de vínculos e, não por uma série de espaços herméticos, cada qual com a “sua” cultura respectiva, o “seu” idioma e o “seu” sentimento de unicidade. Na verdade e, por certo, um empreendedor político, tentando mobilizar “o seu” povo para defender os seus interesses podia se apoiar sobre um sentimento de grupo, todavia, isso funcionava, do mesmo modo, para um organizador político ou religioso que tentasse pôr em contacto povos separados por débeis ou grandes distâncias. De anotar, que a tendência que a dominava dependia das circunstâncias históricas e, não de uma suposta unidade racial ou singularidade cultural africana.

(2) Nos meados do século XX pretérito, o vocábulo “África” recobre várias significações políticas. Donde e daí:
---Para um pan-africanista, a unidade pertinente era a diáspora.
---Já para o psiquiatra, escritor e ensaísta antilhano, de ascendência africana, Frantz FANON (1925-1961) (quiçá, o maior pensador do século XX passado, no âmbito dos temas da descolonização e da psicopatologia da colonização) – dizíamos – a política era determinada pelo imperialismo e, eis porque, recusava a ideia de nação negra para lhe preferir a de unidade dos povos oprimidos pela colonização.
Deste modo, no âmbito desta dinâmica, quando o Presidente egípcio Gamal Abd Al NASSER (1918-1970) desafiou as potências estrangeiras, designadamente a britânica, a francesa, a norte-americana e a israelita no Médio Oriente, tornou-se, para numerosos Africanos, o símbolo de um dirigente autenticamente nacional.

Demais, outrossim e, ainda, na década de cinquenta do século XX pretérito, as lutas comuns travadas contra as potências coloniais, visando a construção de economias nacionais e, em prol da dignidade nacional, deram origem à uma concepção militante do “Terceiro mundo”, nem capitalista e, nem comunista, unindo, todavia, a Ásia, a América latina e a África contra o “Norte” – contra as potências “imperialistas”.
Enfim, no âmbito desta perspectiva, temos de referir também, que outros dirigentes políticos procuraram uma unidade especificamente africana, limitada ao Continente.
E, finalmente, demais outros, ainda e, outrossim, se opuseram acerca das bases ideológicas e estabeleceram alianças com blocos de influência conduzidos pelos Estados Unidos da América ou com a União Soviética.

(3) De sublinhar, que os vínculos internacionais não convinham apenas aos militantes políticos. Com efeito, Africanos, desejando efectuar estudos, encetando uma carreira na ONU ou, em demais outras organizações internacionais, ou migrante para economias europeias que, nesse momento, pretendiam a sua respectiva força de trabalho nos próprios solos — tornaram, cada vez mais, numerosos na Europa, na União Soviética e nos Estados Unidos da América do Norte. Na verdade, possuíam, ora contactos com os autóctenes, ora formavam comunidades de origem relativamente independentes, outrossim, ainda, possuíam vínculos mais estreitos com demais outros migrantes de ascendência africana.

E à guisa de remate/conclusão seria, todavia um erro crasso, substituir a visão quão errónea e, assaz adulterada de uma África de tribos isoladas por de uma África submersa numa rede infinita de movimentos e de permutas. De feito, em África, a população era desproporcionadamente distribuída, num enorme espaço, por outras palavras e, para melhor dizer, as deslocações eram possíveis, no entanto, sobremaneira, onerosos os transportes. Na verdade, lucrativo era permutar bens de grande valor, inexistentes em determinadas regiões, contudo menos rentável que construir densas redes de permutas e de relações diversificadas.
Por outro, de consignar, que os dirigentes africanos podiam encontrar lugares susceptíveis de assegurar a prosperidade dos seus povos, porém, havia identicamente demais outros sítios, onde as pessoas podiam se refugiar e sobreviver, o que tornava difíceis a consolidação do poder e a intensificação da exploração. Demais, as permutas com o resto do mundo eram habitualmente muito especializadas — horrivelmente especializadas, no caso concreto, do comércio dos escravos, designadamente. De anotar, destarte, que os centros de produção específicos – de ouro ou de óleo de palma, por exemplo – ou as estradas comerciais específicas – a do marfim, que ligava o interior do Este africano à costa -funcionavam assaz bem. Todavia, a sua acção respectiva foi criar vínculos particulares, exclusivos, entre o interior da África e as economias exteriores à África e, não de desenvolver uma economia regional densa e diversificada.
De sublinhar, que após a conquista europeia, as economias coloniais construíram, caminhos ferroviários e estradas respectivas, para fazer escoar o cobre ou o cacau e fazer entrar os produtos manufacturados europeus, canalizando, deste modo, o movimento dos bens, das pessoas e das ideias para a metrópole e, não para o conjunto do mundo.
Efectivamente, os regímenes coloniais edificaram uma grande parte do seu poder na sua capacidade para controlar os pontos nodais chaves, tais como os portos em águas profundas, de um sistema de transportes e de comunicações relativamente limitado.
Enfim, os Africanos procuraram criar as suas próprias redes: estradas comerciais no seu próprio Continente com conexões políticas, com demais outros povos colonizados. De anotar, com, um certo e determinado êxito. Porém, quando os impérios coloniais se desmoronaram, os dirigentes africanos foram, outrossim, confrontados, com a tentação de reforçar o seu controlo nestas redes limitadas, de preferência, antes que ampliar e multiplicar os vínculos através do espaço.

Lisboa, 11 Fevereiro 2009.
KWAME KONDÉ

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

ELE GOSTA É DE «MALHAR»

«Eu cá gosto é de malhar na direita e gosto de malhar com especial prazer nesses sujeitos e sujeitas que se situam de facto à direita do PS e que são das forças mais conservadoras e reaccionárias que eu conheço e que gostam de se dizer de esquerda plebeia ou chic. Refiro-me, obviamente, ao PCP e ao Bloco de Esquerda.»

Sempre que este homem aparece na televisão ou o oiço na rádio, acabo por pensar e dizer a mesma coisa: “Este homem é sinistro”. E digo isto não porque eu tenha provas de que ele seja de facto sinistro, mas porque a sua figura, o seu timbre de voz e muito daquilo que ele diz, sobretudo da forma como costuma dizer ― me dão a sensação de que ele é sinistro.

Foi assim quando falou dos jornalistas; foi assim quando falou dos professores; e foi assim agora que falou do PCP e do Bloco de Esquerda.

Sinistro! ― é a sensação que me dá.

E aquele verbo «Malhar»!... é tão rasca, tão reles e tão foleiro que até a palavra “foleiro” parece aristocrática ao pé dele.

Deus nos guarde e nos livre de mais uma maioria absoluta do PS nas próximas eleições.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

WINDOWS 7

Inscrevi-me como beta tester do Windows 7 (que há-de aparecer no mercado um dia destes) e estava entusiasmadíssimo com o trabalho que a Microsoft tem vindo a fazer neste novo sistema operativo baseado no Windows Vista de má memória, quando me atiraram um balde água gelada com a notícia de que falarei mais abaixo.


De facto o Windows 7 está a ser concebido segundo uma outra filosofia que não aquela que presidiu nos últimos anos a Microsoft ― a de fazer do utilizador um dependente mórbido, um robot e um escravo do Windows ―. A nova filosofia que preside ao Windows 7 parece (parecia) ir na direcção certa: libertar o utilizador metendo-lhe na mão todas as ferramentas de um sistema operativo deixando-o livre para a sua utilização consoante as suas necessidades e as suas manias, inclusive. De facto este Windows 7 é leve de instalar e de usar; rápido a iniciar; seguro contra intrusões online; amigo do utilizador; portador de inúmeras ferramentas que dispensam muito do software adicional habitual (leitor e gravador de filmes e de música, processador de texto, manipulador de imagens, etc.) enfim: este Windows 7 parece (parecia) UMA BELEZA DE SOFTWARE; um sistema operativo capaz de competir com o Leopard da Apple.

Mas... eis senão quando... surge esta notícia:
O Windows 7 terá 6 (seis) versões diferentes a saber:

1) Windows 7 Starter
2) Windows 7 Home Basic
3) Windows 7 Home Premium
4) Windows 7 Professional
5) Windows 7 Enterprise
6) Windows 7 Ultimate

Ao que parece nunca mais os senhores da Microsoft tomam juízo e aprendem alguma coisa com Steve Jobs, o patrão da Apple. Ele, Jobs, não discrimina os utilizadores do seu software vendendo versões diferentes a preços diferentes e com funcionalidades diferentes de um mesmo sistema operativo.

Steve Jobs, quando lança um novo sistema operativo, lança uma só versão e igualiza os utilizadores todos de uma assentada: não cria nichos de coitadinhos; nichos de burrinhos; de espertinhos pobres, de espertinhos ricos; de profissionais endinheirados, de profissionais piratas; de patrões e empresários e por aí fora.

Qual vai ser então o resultado disto tudo? O resultado vai ser que os menos informados engolirão o que os vendedores de software lhes impingirem e as suas carteiras puderem suportar. Os que não quiserem gastar dinheiro mas também não souberem como fazer a coisa, continuarão a usar o Windows XP. Quem não quiser gastar dinheiro mas sabe como fazer, vai piratear o Windows 7 e utilizá-lo de graça. E só quem tem dinheiro e ou é parvo vai comprar a versão Ultimate do futuro Windows 7.

É assim que uma ideia boa acaba por dar um produto eficaz mas pouco satisfatório para os seus potenciais utilizadores.

Quanto a mim, no fim dos testes ― ou a Microsoft me oferece o programa (ou a possibilidade de o adquirir barato), ou então vou ter que pensar muito bem o que vou fazer.

Migrar para a Apple?!

Ou... isso mesmo. Pois!

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO VIGÉSIMA PRIMEIRA:

Complementando avisadamente a nossa “posta”anterior,
Efectivamente,

(A) Apresentada como a panaceia universal e o sistema que optimiza melhor os meios de produção, a livre troca gera um conjunto de custos não tidos em conta pelo sistema económico actualmente implantado, melhor dito, o Capitalismo.

(B) De feito e, por outro, a colocação em concorrência trabalhadores dos países desenvolvidos com as mãos de obra abundantes, pouco qualificadas, sub remuneradas e exploradas (inclusive o trabalho infantil) dos países em desenvolvimento, só pode conduzir a um nivelamento por baixo dos salários e dos direitos sociais adquiridos. Enfim que se denomine “dumping social”, “course au moins-disant”, não é, nem mais nem mesmo (assim mesmo), unicamente um efeito de vasos comunicantes.

Posto isto, vamos abordar e estudar as suas consequências, no âmbito dos países em desenvolvimento e no âmbito dos países desenvolvidos.

(1) Aproveitam realmente, os países em desenvolvimento da livre troca?


(a) De anotar, que a teoria económica parece mostrar que a livre troca é globalmente criador de empregos, porém este balanço quantitativo deve ser relativizado por uma visão mais qualitativa. Com efeito, os empregos criados são menos bem remunerados e com uma protecção social degradada.


(b) De feito, apenas os países ricos estão habilitados para manter algumas das suas actividades, tal como a agricultura, por formas de subvenções autorizadas enquanto coagem os países mais pobres a abandonar o único meio de protecção que dispõem, concretamente as barreiras alfandegárias.


(c) De salientar, outrossim, que as especializações que engendra a livre troca não são equivalentes. De facto, a realização de produtos manufacturados necessita o domínio de todo um processo de fabrico, enquanto as extracções de matérias primas não conduzem à uma industrialização.


(d) Finalmente, na verdade, na ausência de instâncias de regulação, os preços submetidos à lei do mercado, podem se revelar “desfavorável” num momento dado para uma nação (concorrência falseada, cartel, especulação…) e provocar uma grave crise.

Enfim e, em suma, nos países pobres ou em desenvolvimento, os povos são as vítimas, concomitantemente das grandes potências e das suas próprias classes dirigentes que se enriquecem destes deserdados da sorte.

(2) Antes de mais, se impõe consignar que, no âmbito dos países desenvolvidos, as consequências diferem consoante a flexibilidade dos salários: Ou seja:

---Salários flexíveis: diz respeito a baixa dos salários dos trabalhadores menos qualificados e, ao invés, alta dos salários dos mais qualificados. Resulta, deste modo, um aumento sensível das desigualdades. São os casos dos países, nomeadamente, os Estados Unidos da América do Norte e do Reino Unido.
---Salários não flexíveis (salário mínimo legal): diz respeito à deslocalização de actividade, aumento do desemprego e pressão produtivista sobre os que trabalham. Estamos a referir, concretamente, os casos da Alemanha e da França.
De sublinhar:
Por um lado, que os empregos mais “qualificados” não estão ao abrigo de um tal fenómeno. Com efeito, não constitui dúvida alguma, que daqui mais alguns anos, países como a China e a Índia poderão colocar no mercado mundial do trabalho, dezenas de milhões de assalariados ou quadros qualificados.
E, por outro, que os países tendo um deficit do seu comércio externo devem pedir por empréstimo no mercado internacional para se procura divisas. Estas dívidas engendram um constrangimento financeiro que vai influir na política interna: afrouxamento do crescimento económico, desemprego, redução dos investimentos.

E, para rematar, de modo, dialecticamente, consequente, na verdade e, na realidade, a livre troca só apresenta inconvenientes. Permite, em determinadas condições aos países mais pobres se desenvolver mais rapidamente. Todavia, num regime capitalista, a livre troca desenfreada é um sistema não equitativo que se aparenta à uma guerra económica entre os trabalhadores do mundo inteiro, enquanto os detentores do capital acumulam os benefícios, ávida e vorazmente.

Lisboa, 01 Fevereiro 2009.
KWAME KONDÉ

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO VIGÉSIMA:

(I) Face ao perigo que representa o “dumping social” provocado pela globalização neoliberal e o seu corolário lógico, a livre troca desestruturadora, urgente se afigura implantar medidas consentâneas e consequentes de protecção efectiva e segura, obviamente. Trata-se, efectivamente da sobrevivência, aproximadamente, de dois séculos, de benefícios sociais e de direito do trabalho arrancados ao capitalismo pela luta dos trabalhadores conscientes e ciosos dos seus autênticos direitos, humanamente exprimindo.

(II) A isto se deve acrescentar uma dimensão ética, visando restituir ao comércio o seu sentido original que é, na verdade, a colocação em conexão povos uns com os outros e já não fazer disso uma máquina de guerra sem alma nas mãos das multinacionais.


Donde e daí, no âmbito desta dinâmica, se impõe, ipso facto, implantar, o mais célere possível, com uma eficácia adequada e segura, as seguintes medidas, designadamente:
a) Sair, o mais urgente possível, da Organização Mundial do Comércio (OMC), esta Instituição não democrática, ao serviço de interesses particulares.
b) Restituir sentido às permutas comerciais por acordos bilaterais (de país a país) entre representantes de cada povo, eleitos democraticamente e os representantes de outros povos (demais outorgantes) todos outrossim, democraticamente eleitos.
c) Restabelecer barreiras alfandegárias para as mercadorias provenientes de países, onde o nível de remuneração e de protecção social, até mesmo a ausência de direito do trabalho, constituem um abuso concorrencial.
d) Penalizar comercialmente os Estados não democráticos ou, outrossim e, então, que não respeitam os Direitos do Homem, envidando assertivamente tudo que for necessário, para ajudar as suas oposições democráticas na conquista do poder, em bases legítimas e, consequentemente conducente à edificação de Estados, rumando, ipso facto, na real Senda do Modelo de Sociedade que privilegia o Ser em detrimento do ter, obviamente.
e) Implantar, avisadamente, as barreiras aduaneiras adaptadas, o tempo necessário, para a reconstrução dos pólos que cada Estado terá soberanamente decidido reputar como estratégicos para o seu futuro.

(III) E, rematando, lucidamente, não há dúvida nenhuma, que a livre troca e o Proteccionismo não são aqui, nem uma, nem outro, investidos como uma doutrina ou um fim em si, unicamente, porém, meios de acção para combater (ou, pelo menos, refrear) os efeitos funestos e calamitosos do Capitalismo internacional, visando outrossim e, sobretudo estabelecer um Comércio ético e equitativo entre os Povos, assumidamente.


Lisboa, 27 Janeiro 2009
KWAME KONDÉ

domingo, 25 de janeiro de 2009

DE CÓCORAS PERANTE O CRIME

A MIM PARECE-ME ISSO.
O Ministério da Justiça perante os assaltos a caixas Multibanco instaladas nos tribunais não achou melhor maneira de impedir o crime senão mandando retirar as mesmas caixas dos tribunais.

É caso para se dizer que:

― Não se deve andar na rua para não se ser assaltado;

― Deve-se fechar definitivamente os bancos, as ourivesarias, as lojas, os supermercados e o comércio em geral, para impedir os assaltos aos mesmos;

― Domingos Paciência, treinador da Académica, a quem assaltaram a casa com a família lá dentro, há bem poucos dias ― deve mudar de casa, mudar de cidade, ou talvez mesmo mudar de País.

Olhem que esta, hein!!!

Raio de solução mais... coiso ― sim, coiso!
.

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO DÉCIMA NONA:

Elocubrando sobre a Excisão em França:

(1) A excisão consiste, grosso modo, na ablação cirúrgica do clítoris. É praticada nas raparigas, por vezes muito jovens, por numerosas sociedades africanas. Determinadas minorias emigradas a praticam no território francês. Efectuada ilegalmente, no quadro doméstico, por matronas, acontece que a excisão se solda por complicações, necessitando uma hospitalização de urgência, causando, até mesmo, o óbito à criança. Donde e daí, que os pais e a matrona são então inculpados por lesões, tendo acarretado a morte, conquanto sem intenção de a provocar, sendo, no entanto, citados judicialmente.

(2) No Tribunal, duas culturas se defrontam. Por um lado, uma Cultura da tradição, com o seu direito próprio e peculiar, edificado na autoridade dos antepassados e nos usos e costumes. Do outro, uma Cultura dos direitos da Pessoa, herdada do universalismo das luzes, que considera a excisão como um dano/prejuízo à integridade corporal (não consentido) e, por isso, a qualifica de crime. Em contrapartida, em virtude do direito consuetudinário, a família vê na excisão uma prática necessária para benefício e felicidade da criança, porquanto confirma a jovem rapariga na sua identificação feminina e, consequentemente na real pertença ao grupo respectivo. Destarte, o consentimento da família, em particular da parte das mulheres, é, quase sempre (aliás, a maior parte das vezes) afirmado, facto que complica singularmente o problema.

(3) De consignar, que no âmbito desta dinâmica, os etnólogos são convocados em tribunal criminal, como peritos, pois sabem que a excisão faz parte das práticas de escultura do corpo testemunhadas em numerosas sociedades da tradição: implantes cutâneos, escarificações, tatuagens, limagem ou extracção dos dentes, perfuração do nariz, das orelhas, dos lábios, elongação do crânio, do pescoço, das orelhas, mutilação das mãos ou dos pés. De anotar, outrossim e, ainda, que os órgãos genitais, estar-se-iam, neste sentido, decerto dotados. Eis porque, são particularmente eleitos: perfuração do pénis destinada à receber um broche, subincisão, circuncisão, podendo ir até à escoriação do pénis em todo o seu comprimento, infibulação do sexo feminino, excisão, elongação dos pequenos lábios.

(4) De feito, na verdade, o Corpo é um suporte ideal para aí inscrever a identidade e a diferença. De salientar, que estas práticas, ora evocadas, conquanto, mais ou menos, perigosas, dolorosas e, assaz mutiladoras são, contudo, identicamente estruturantes, para o indivíduo e para o grupo respectivo, obviamente.

(5) Todavia, asseverar que são estruturantes e identificadoras não significa, bem entendido, que se as aprove. E, precisando, um pouco mais, a situação vem mesmo à propósito, trazer à colação, as posições extremas que se digladiam, no âmbito desta matéria. Ou seja:
(a) Os defensores do “relativismo cultural”, como determinados antropólogos norte-americanos dos anos trinta do século XX pretérito, para quem não existe nenhum ponto de vista transcendente, permitindo avaliar as culturas, de molde que todas se valem do momento que preservam a sua pregnância.
(b) Noutro extremo, temos, então, por seu turno, os juristas ocidentais contemporâneos argumentando que a invenção do “direito internacional” pela escola de Salamanca e Bartolomeu de Las Casas após a conquista espanhola do Novo Mundo, assim como a Filosofia das Luzes e a Declaração universal dos direitos do Homem (1948) fornecem as bases jurídicas de uma condenação universal destas práticas. Deste modo, na opinião deles, só o respeito destes princípios universais pode garantir à Humanidade um porvir que não seja demasiado sombrio.

(6) Enfim, no atinente ao debate respeitante às mutilações sexuais, em si, não deixa de se afigurar pertinente, ponderar o seguinte: Efectivamente, quais são as suas implicações quanto a relações entre homens e mulheres, assim como, qual a contribuição de um e o outro sexo na prossecução da sua prática? Outrossim e, ainda, quais são os desafios do poder e de domínio entre os sexos, as pessoas, os grupos e as nações, que violam os termos da Declaração, sempre a apelar para diferenças religiosas ou culturais, não obstante, quão notáveis e respeitáveis? Como se pode ver, os reptos são, não só, bastante numerosos, como, outrossim sobremaneira fascinantes. E, numa avisada asserção: estão, na verdade, os ditos reptos indissociavelmente mesclados às diferenças sociais e culturais.

(7) E, rematando pertinentemente, com efeito, numerosos são os (educadores, trabalhadores sociais, juristas, etnólogos, movimentos de defesa das mulheres), que, sempre, condenando a excisão e as práticas mutiladoras, desejam, entretanto, que sejam descriminalizadas e requalificadas como meros e simples delitos. Isto teria por consequência não converter em criminosos, pessoas que seguiram as prescrições da sua cultura, provisora esta de eloquentes referências existenciais.

Lisboa, 25 Janeiro 2009
KWAME KONDÉ

«What Obama Must Do»


A revista de rock Rollingstone publicou no passado dia 14 esta carta do Prémio Nobel de Economia 2008, Paul Krugman, a Barack Hussein Obama.

Se domina razoavelmente o Inglês, dê-se ao trabalho de a ler na íntegra pois é uma peça singular que interessa a todos conhecer e meditar sobre.

LIDO NOS BLOGUES (II)

José Adelino Maltez posta aqui sobre o caso Freeport fazendo uma abordagem diversa da de José, introduzindo outros ângulos de leitura do mesmo (caso).

Destaco alguns parágrafos da posta de JAM, para mim os mais significativos do que acabo de dizer:

«Por causa de toda esta fumarada, não reparámos na falência da Quimonda nem tivemos suficiente altura para acompanharmos a esperança de Obama. Porque, mesmo sabendo que uma andorinha em Washington não faz a Primavera, nem por isso era de preferir a continuação dos abutres. E recordando os norte-americanos, talvez fosse útil lembrar que foi o jornalismo de investigação que denunciou o Watergate, mas que tais "mass media" não conseguiram vislumbrar o lado negro de John Kennedy, hoje provado.»

«Do Freeport, apenas apetece voltar a glosar Cícero: nem tudo o que é lícito é moralmente recomendável ou politicamente exemplar. Guterres, com Sócrates, tal como Santana, com a febril actividade de despachos nos últimos segundos de vida de um governo de gestão devem ser banidos como paradigmas. Porque um quarto de hora antes de morrerem os governos não devem apenas temer o ilícito mas também o politicamente reprovável e o moralmente execrável, em termos cívicos. Até porque não são os magistrados que os podem absolver em termos políticos ou morais.»

[...]

«Por mim, confesso, não se me afigura que Sócrates possa estar envolvido em recebimentos e pagamentos, do género dos insinuados, de forma directa ou indirecta. As eventuais imoralidades ou irregularidades políticas têm sido pasto em todos os governos de todas as áreas políticas. Até acredito que Sócrates quis continuar a ser um gajo porreiro, ao ceder ao pedido do tio, ou do camarada autarca, naturalmente interessado em trazer para o seu concelho aquele investimento.»

[...]

«Porque estamos perante um caso de polícia. E é desgradável que a pessoa do primeiro-ministro de Portugal sofra as consequências de uma sociedade endogâmica e matriarcal, entre a D. Maria da Cunha e muito nepotismo em sentido etimológico. Para bem de todos, seria conveniente que, a curto prazo, ele conseguisse libertar-se das insinuações. Porque se ele deve ser atacado politicamente, é totalmente cobarde que o seja pela estratégia indirecta de certo inquisitorialismo e certo neopidismo de que também já foi vítima, nomeadamente com a campanha de boatos que o tentou despudoradamente destruir na última campanha eleitoral.»

sábado, 24 de janeiro de 2009

VERIDICTUM

Angelina Jolie.


Uns olhos verde-esmeralda lindíssimos ― confirmado.

Uma boca fabulosa ― já sabíamos.

Um nariz mixuruco ― só reparei agora.

PROTESTO




Este artigo de "opinião" é uma vergonha.

Em qualquer país do mundo civilizado,

o indivíduo que o escreveu não seria director de jornal.
.

LIDO NOS BLOGUES (I)

José, por certo estribado no seu conhecimento das leis e experiência profissional, não usa qualquer meiguice; antes, até, uma violência controlada mas evidente, no tratamento do caso Freeport e no que ao actual primeiro-ministro diz respeito.

Assim (destaco quatro parágrafos mais contundentes):

«O primeiro-ministro português está envolvido noutro caso de polícia. Grave, na medida em que se trata de corrupção e tráfico de influências. Não é uma aldrabice com o diploma académico, como antes. Não é uma aldrabice costumeira com números e ignorâncias, embora o teor das declarações que vai produzindo sobre o assunto, sejam mais do que suficientes para comprovar esse carácter politicamente indigno, de primeiro-ministro. Só o desculpa quem não se incomoda com as contradições, as declarações de enguia e as desculpas esfarrapadas para factos cuja evidência esmaga de suspeitas quem não devia ter uma sequer.»

[...]

«Portanto, sobre o aspecto criminal, parece estar quase tudo dito. E não vai ser o juiz Carlos Alexandre a resolver o assunto. Ao contrário do que alguns pensam e dizem (Ricardo Costa da SIC) este juiz não é o investigador deste processo. Poderia ser , caso o modelo português fosse outro ou ele fosse o director do DCIAP. Mas não é. O juiz Carlos Alexandre só intervém neste processo como juiz de direitos, liberdades e garantias, relativamente a prisões, buscas domiciliárias, escutas e buscas a advogados. Nada mais. Quem dirige efectivamente o Inquérito é o MP. Do modo que se vê.»

«Resta portanto o aspecto político. Quanto a este, é mais fácil verificar o que está em jogo: a manutenção no cargo mais importante do país, de um indivíduo sem carácter politicamente digno de o ocupar. Um indivíduo metido por diversas vezes em moscambilhices graves [diploma, projectos de engenharia duvidosa, documentos na AR] cuja resolução passa sempre pelos apaniguados que controlam media e distracções de fait-divers e os boys and girls da boa vidinha pública que ao menor risco de a perderem, cerram fileiras em volta do chefe e clamam pela cabala.»

«A Standard & Poor, já rateou Portugal em cota baixa. A este primeiro-ministro que temos, a cota já desceu ao nível da indigência moral. Parece aliás ser o nosso standard habitual, nos últimos tempos.»

Adenda:

Tiago Mota Saraiva mete aqui uma oportuna colherada no assunto.

E o Crítico Musical faz soar aqui o seu diapasão.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO DÉCIMA OITAVA:

(1) Os Historiadores africanos dividem, por vezes, a História do nosso Continente, a África, grosso modo, em Eras “pré-colonial”, “colonial” e “pós-colonial”, sendo, consoante os mesmos, a Primeira e a Derradeira caracterizadas pela autonomia das Sociedades africanas. Deste modo, a Primeira Era constituiu um período de reinos, circunscrições político-administrativas, conselhos de aldeias, sistemas de parentesco e, por seu turno, a última ou Derradeira, um Período de Estados nações, possuindo todos a sua própria bandeira, o seu próprio passaporte, os seus próprios selos, a sua própria moeda e, demais outros símbolos da Soberania, assim como, o seu assento nas Nações Unidas e a sua legítima pretensão em regular e tabelar (fixando o preço) da produção e do comércio no interior das suas fronteiras.

(2) Antes de mais, se nos antolha pertinente e oportuno trazer à colação as ideias do historiador nigeriano, Jacob F. Ade Ajayi (docente universitário in University of Ibadan, Nigéria), que denominou o período intermediário, sob a designação de “episódio colonial”, período, que outros designam por “parêntese colonial”. De feito, de elucidar apropriadamente, que Ajayi esteava directamente o seu argumento numa concepção nacionalista da vida política, na medida em que pretendia sublinhar o vínculo directo dos Estados africanos “modernos” com um passado africano “autêntico”, permitindo, deste modo, aos novos dirigentes, designadamente da Nigéria, do Quénia, ou do Daomé (actual República do Benin) se atribuir a legitimidade dos reis e avoengos do passado. Todavia, mais recentemente, a desilusão nascida ante a conduta execrável dos governos africanos independentes, levou determinados estudiosos e investigadores a adoptar um ponto de vista oposto. Ou seja: “O Estado” é uma entidade imposta pelo Ocidente, destarte, uma determinação directa do pós-colonial pelo colonial e, no fundo, uma verdadeira aniquilação total do pré-colonial

(3) E, raciocinando, no âmbito, destes argumentos, ora enunciados, a história se assume, não como um passado morto, sim, efectivamente, como um ponto de partida para formular reivindicações totalmente actuais. Todavia, tentando utilizar uma versão particular do passado, estas duas visões opostas correm o risco de não assumir a plena medida da dinâmica do passado. Demais, pode acontecer que o boletim de voto, uma instituição “europeia”, no entanto, isto não significa que a sua utilização respectiva, no Gana tenha idêntica significação e as mesmas consequências que em Portugal. Identicamente, se pode demonstrar que o “parentesco” é outrossim importante na actual Tanzânia que o fora para as pessoas que viviam nesta mesma região no início do século XIX, isto não significa que os grupos de parentesco mobilizam recursos similares ou que os seus membros tenham objectivos similares. Invocar, deste modo, o passado – para encontrar os anos de 1780 ou 1930, a causa de um Acontecimento/evento ocorrido inopinadamente nos anos 1990 arrisca-se a desconhecer e ignorar as múltiplas orientações que pode assumir a mudança.

(4) Eis porque, urge, por motivos óbvios, lançar uma ponte entre as duas divisões clássicas da História da África, ou seja, entre o “colonial” e o “pós-colonial”. De feito, este procedimento avisado permitirá, ipso facto, designadamente questionar que mudanças acompanharam o término dos impérios e que processos se perpetuaram mesmo quando os poderes mudaram de timoneiros. Demais, de anotar, que alguns asseveram que o fim do colonialismo se soldou numa mera e simples mutação de ocupantes dos edifícios governamentais, pela substituição do colonialismo pelo seu sucedâneo natural, o neocolonialismo. De facto, se afigura percuciente indagar assertivamente qual foi, na verdade, a autonomia real dos novos Estados africanos, pois que, na realidade, efectivamente, os Estados do Norte (USA e as antigas potências coloniais) e as Instituições tais como os bancos internacionais e as firmas multinacionais continuam exercendo ostensivamente o poder económico e político inclusivamente após as transferências oficiais da Soberania.

(5) Urge, identicamente examinar em que medida os dirigentes políticos, os aldeões ordinários e os citadinos africanos recuperaram determinadas asserções das potências colonizadoras para as transformar em reivindicações e em ideologias mobilizadoras. Com efeito, eis porque, no âmbito desta dinâmica, os governos coloniais, nos anos 1940 e 1950, proclamavam que os seus conhecimentos científicos, a sua experiência do funcionamento dos Estados modernos, os seus recursos financeiros lhes permitiriam “desenvolver” os países soit disant subdesenvolvidos.

(6) Todavia, de sublinhar, que as asserções foram rapidamente convertidas em contra afirmações, ou seja:
a. Os sindicatos africanos declararam que se o trabalhador africano devia produzir consoante o modelo europeu, devia ser remunerado em função da tabela salarial europeia e se poder beneficiar, outrossim e, ainda, de uma habitação condigna, de um abastecimento em água potável e transportes adequados e decentes.
b. Os movimentos políticos sublinharam que se as economias africanas deviam se desenvolver no interesse dos africanos, eis porque, unicamente os Africanos podiam definir em que consistiam esses interesses.
E, rematando, pertinentemente, se pode, desta forma, seguir a ideia de desenvolvimento em África desde o projecto colonial até ao projecto nacional e se poder questionar de modo seguro e quão avisado, se, realmente, o projecto nacional reproduziu determinados aspectos do projecto colonial nomeadamente, no atinente à convicção que os “peritos” devem decidir para os outros e, se este mesmo projecto nacional contribuiu para abrir novas perspectivas económicas.

Lisboa, 20 Janeiro 2009.
KWAME KONDÉ

sábado, 17 de janeiro de 2009

HORROR PURO HORROR!

A Antena 2 está a transmitir, em directo, neste preciso momento, uma ópera EM INGLÊS.

Um autêntico horror!

De facto. A Ópera. É. Para ser cantada. Em Italiano. De preferência. Ou em Alemão.

Tudo o resto é para ouvidos de “não-melómanos”.

MAS O CAMPEÃO É ESTE

Involuntariamente Barak Obama será hoje o maior publicitador dos smartphone da Blackberry; o homem gosta e está habituado a usar um destes telemóveis e ao que se depreende das suas declarações à CNN tudo fará para preservar esse hábito a despeito de os serviços de segurança acharem e aconselharem o contrário.

Noticiou-se há três dias (publicitou-se, melhor dizendo) que Obama, ao sair da sua limusina, viu o seu Blackberry soltar-se-lhe do cinto e cair ao chão, no que um segurança terá intervindo recolhendo o corpo, a bateria e a tampa do dito, cujo quase se desintegrava com a queda.

Pois! É por o Blackberry de Obama se ter quase desintegrado com uma pequena queda da sua cintura para o chão, que venho aconselhar o presidente eleito dos Estados Unidos, bem como todos aqueles que se preocupam com pormenores destes, o seguinte:

Use o telemóvel da Soni Ericsson W660i; é o mais indicado para essas situações: o bicho pode cair de alturas de dois metros que não só não se desintegra como ainda permanece normalmente em funcionamento. Nunca vi coisa igual. Fica aqui o conselho e a publicidade.

NEW YORK NEW YORK

A 27 de Dezembro passado elogiei aqui a atitude dos americanos reflectida na forma como o comércio de Nova Iorque reagia face à crise económico-financeira instalada, investindo toda a força do seu talento e toda a sua capacidade de trabalho no sentido da superação da crise, com optimismo quanto ao futuro.

Hoje, ao ler uma das cartas de Eça de Queiroz sobre a New York de 1873, não pude evitar um sorriso de admiração por aquela gente de então e pelo seu povo de agora.

Com efeito, Eça, de férias no Canadá, escreveu o seguinte a Ramalho Ortigão numa longa carta que vale muito a pena ler, datada de Montreal:

[...] De New York dir-lhe-ei — que é realmente a New York da tradição europeia: — a grande, a extraordinária, a estrondosa New York. Na América não se tem esse amor de New York, porque há na União cidades rivais. Filadélfia — é New York sem o deboche. Filadélfia é uma cidade muito moral — dizem aqui os Quakers. Os outros dizem que é simplesmente um alcouce. St. Louis — é outra cidade que não difere de New York — senão em ser mais bela na paisagem. Chicago, — é a todos os respeitos melhor que New York — e é sem dúvida a mais extraordinária cidade do mundo: na carta que lhe escrevi e que V. não recebeu — eu dava-lhe pormenores curiosos sobre Chicago — que é a cidade-resumo do génio inventivo das Populações do Oeste. New York tem mais do que as outras o elemento europeu manifestado por estes factos — lorettes, restaurantes, crevés, escândalos, agiotagem: — é o que a faz superior —. De resto é uma cidade que em parte amo e em parte detesto. Amo-a porque — porque sim: — e detesto-a, porque deve ser detestada. O que isto é — V. não imagina: a violenta confusão desta cidade, o extraordinário deboche, o horror dos crimes, a desordem moral, a confusão das religiões, o luxo desordenado, a agiotagem febril, a demência dos negócios, os refinamentos do conforto material, os roubos, as ruínas, as paixões, os egoísmos — tudo isto está aqui chauffé au rouge. Isto não pode durar, todo o mundo o diz. É uma cidade que tem 100 anos e que está podre, está détraquée. Viveu muito, muito depressa e chegou sem educação. Porque a verdade é esta — New York não tem civilização: a civilização não é ter uma máquina para tudo — e um milhão para cada coisa: a civilização é um sentimento não é uma construção: há mais civilização num beco de Paris do que em toda a vasta New York. Aqui não há gosto nem espírito, nem distinção, nem crítica, nem classificação — nada. Uma sociedade podre de rica, afogada em luxo, exagerando as modas, inventando muitas — e querendo enriquecer mais e ter mais luxo ainda. V. deve ter lido o que se tem passado aqui com o Crédit Mobilier e com outras poderosas associações bancárias, ligadas ao sistema de administração: tem-se apenas descoberto — que os homens públicos de alto a baixo são um rolo de ladrões. Ladrões por toda a parte, eis a crítica da administração. Ladrões por toda a parte, eis a crítica do comércio. Ladrões por toda a parte, eis a crítica das ruas. Ladrões: New York transborda de ladrões, veste-os, exporta-os, vende-os, — e quantos mais enforca, mais lhe nascem. Se você sai do seu hotel e encara algumas das ruas grandes de New York fica aterrado: — aquela agitação, estrondo, ruído, febre, rostos consumidos e secos, toilettes únicas, carruagens nos passeios (trottoirs), ónibus aos lados, caminhos-de-ferro por cavalos no centro da rua, caminhos-de-ferro à máquina por cima das ruas, junto aos tectos das casas, o aparato imenso da polícia, a excentricidade dos anúncios, — o rumor apressado de todo o mundo, — compreende logo — que está num povo bárbaro que aprendeu a civilização de cor. Mas bárbaro como é — que força, que originalidade inventiva, que perseverança, que firmeza! — É estranho! E ao mesmo tempo que grosseria de maneiras: revólver, praga e empurrão, algumas palavras de inglês e muita saliva — eis o que é a língua americana. — Como eu detesto esta canalha! Como a mais pequena aldeia de França é superior — imensamente superior, — pela sua civilização a esta orgulhosa New York que se chama a si mesma como Roma — a Cidade. Estúpida New York — que fez ela jamais para ser a Cidade? Paris fez a Revolução, Londres deu Shakespeare, Viena deu Mozart, Berlim deu Kant, Lisboa deu-nos a nós — que diabo! Mas esta estúpida New York o que tem dado? Nem mesmo as grandes invenções da América são dela. Aqui quem inventa, quem inventa por todos, quem inventa sempre é Chicago. Chicago sim, tem dotado o Mundo com as três quartas partes das máquinas que ele possui. Mas New York? Nunca saiu nada de New York — nem um homem, nem uma ideia, nem um livro, nem uma máquina, nem uma vitória, nem um quadro, nem um dito. New York é um tour de force da brutalidade — nada mais. E no entanto, meu amigo, que diabo — é necessário amá-la. Com as suas grandes avenidas tão cobertas de árvores e de sombras como um bosque, com a beleza extrema das suas mulheres, com as suas grandes praças onde a relva é por si um espectáculo, com as suas igrejas góticas, todas cobertas de trepadeiras e mal aparecendo por trás da folhagem das árvores (jóias de arquitectura contemporânea), New York com seu sumptuoso ruído, com o romantismo dos seus crimes por amor, com os seus parques extraordinários que encerram florestas e lagos — como outros encerram tanques — com a sua originalidade, com a sua caridade aparatosa, com as suas escolhas simplesmente inimitáveis — os seus costumes — os seus teatros (aos 4 em cada rua) — é uma tão vasta nota no ruído que a humanidade faz sobre o globo — que fica para sempre no ouvido. Eu estou aqui a escrever-lhe — e está-me a lembrar com saudade — o rolar dos tramways nas ruas. — Querida New York! — não odiada New York! [...]

BOM DIA e BOM FIM-DE-SEMANA

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

JORNALISMO MENTECAPTO

A notícia é sobre um relógio «raro» que Pablo Picasso terá desenhado. Vamo-la lendo... sempre à espera que o “jornalista” nos descreva esse intrigante quão provavelmente bizarro relógio apelidado de «uma extravagância»; mas debalde: chega-se ao fim da notícia a saber-se rigorosamente nada do maldito relógio. Esta é a preparação que as actuais escolas portuguesas (incluindo as de jornalismo) dão aos seus alunos: uma miséria.

Constatai por vós mesmos.

No Museu do Relógio, em Serpa
Extravagância de Picasso

Um relógio "raro" criado por Picasso, que senhoras descomprometidas usavam para "meter conversa" com cavalheiros; e não para ver as horas, é um dos 300 relógios femininos, fabricados entre 1850 e 2000, expostos no Museu do relógio, em Serpa.
Em festas ou galas, as senhoras usavam-no "não para verem as horas", mas para "perguntarem aos cavalheiros: que horas são no meu relógio? Isto tudo para iniciar uma conversação" de forma subtil, explicou o responsável do museu, Eugénio Tavares d'Almeida, referindo tratar-se de "mais uma extravagância de Picasso".
"É um relógio raro" e "não se sabe quantos exemplares existem", frisou Eugénio Tavares d'Almeida, referindo que no Museu Picasso de Málaga (Espanha) "há um igual". O "curioso" relógio é uma das 300 "relíquias" da exposição "150 Anos de Relógios de Senhora: 1850 a 2000", patente ate 31 de Julho, neste museu, único do género na Península Ibérica e um dos cinco no mundo, para "revelar" a história e "compreender a evolução tecnológica" dos relógios.
O museu, que já atraiu mais de 300 mil visitantes desde que abriu em 1995, recebeu 20 mil visitas e restaurou "cerca de 500 relógios" no ano passado.

[in Global Notícias, Ano 2 nº 307, de 12/01/2009]

Então?! Ficaram a saber alguma coisa do relógio? Eu não!

sábado, 10 de janeiro de 2009

EU E GROUCHO MARX

O meu inconsciente deu-me uma bela prenda esta madrugada: sonhei interagindo com Groucho Marx num restaurante de paredes envidraçadas, com meias cortinas a cortar o interesse da rua no que lá dentro se passava; mesas com pesados tampos de mármore cobertas por toalhas brancas de linho espesso; balcão corrido virado para a entrada e para a rua; clientela sentada e empregados a circular (era mais uma cervejaria que um restaurante). Groucho era empregado de mesa e eu também era empregado mas sem saber muito bem o que me competia fazer. O que interessa (interessou) foi que, devido a trabalharmos no mesmo local e nos identificarmos na necessidade de tirar o maior proveito de cada momento da vida, independentemente da função que possamos estar a desempenhar, fomos coniventes e fartámo-nos assim de pregar partidas ao restante pessoal e aos comensais numa paródia que durou longos minutos e teve momentos hilariantes que contagiaram todos os presentes.

Acordei mais uma vez bem-disposto, hoje um pouquinho mais que o habitual, confesso, e não resisti a vir até aqui partilhar esta minha felicidade com quem me concede a bondade de me ler e tem, por isso, a oportunidade de confirmar o quão psiquicamente doente estou (sou).

BOM DIA E BOM FIM-DE-SEMANA.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

KWAME KONDÉ

INTERVENÇÃO DÉCIMA SÉTIMA:

O termo guerrilha é um lexema oriundo do vocábulo espanhol guerrilha (1820), se assume, grosso modo, como definição: guerra de prosélitos/guerrilheiros, por intermédio de embuscadas e importunação.
Por seu turno, guerrilheiro é todo o indivíduo/combatente que pertence à uma guerrilha.

Trata-se, efectivamente, de um processo de luta armada caracterizada por acções descontínuas de combate, embuscadas ou golpes de mão, utilizado por unidades regulares ou por guerrilheiros, contra os exércitos adversários. As finalidades deste tipo de luta são, concomitantemente políticas e estratégicas, pois que, por um lado, pretende-se através de grande propaganda política (clandestina) organizar a população contra as forças adversárias; por outro, por intermédio, de acções militares, destruir toda a infra-estrutura militar, administrativa e económica inimiga.
De feito, não possuindo poderio militar que possibilite uma confrontação directa com as forças inimigas, os guerrilheiros remetem-se a acções de pormenor que podem preparar minuciosamente, ganhando, deste modo, alguma superioridade local. Eis porque, os ataques são normalmente dirigidos de surpresa e contra objectivos de débil capacidade de reacção. Demais, para poder subsistir, minimamente a guerrilha necessita de várias condições, designadamente, o apoio das populações locais, da débil implantação militar e administrativa adversária e condições naturais de terreno, assaz favoráveis.

(a) Não há dúvida nenhuma, que a guerra de tipo “guerrilha” se desenvolve, de facto, muito, muito mesmo, antes do advento deste termo/lexema/vocábulo, que a denomina usualmente, desde a famigerada insurreição espanhola contra a ocupação napoleónica (1804-1814).
Trata-se de uma técnica, tão vetusta e prístina, como aliás, a própria história da Humanidade, baseada na mobilidade e na surpresa, conduzida por combatentes irregulares, procurando importunar um exército regular: Este modelo de conflito aparece testemunhada na Bíblia (Josué e, sobretudo Judas Macabéu), nos historiadores latinos (Tito Lívio, Tácito, Salústio, Ápio), outrossim, porém, na história e ficção chinesas (Os Três reinos, À beira da água).
De anotar, que, na verdade e, na realidade, nenhum tratado foi publicado sobre a guerra de guerrilha antes do término do Século XVIII, salvo a célebre e significativa excepção, estamos, obviamente a referir ao De velatione, cuja a autoria respectiva é atribuída ao Imperador Bizantino Nicéforo Phocas, dado a lume no remoto e longínquo século X.

(b) No atinente as causas que estiveram na origem da maior parte das Guerrilhas, temos a referir as seguintes:
Insurreições provocadas por uma invasão estrangeira, designadamente aquando da constituição de impérios (romano, otomano, napoleónico, coloniais);
Rebeliões Camponesas contra a autoridade;
Conflitos Religiosos.
Enquanto fenómeno, a guerrilha assume uma importância nova, entre o último quartel do século XVIII e o início do século XIX, principalmente durante a guerra de Independência americana (Marion, Sumter) e, sobretudo, outrossim e, ainda, durante a Revolução francesa e as Guerras napoleónicas: Vendée, Espanha, Tirol (Andréas Hofer), Rússia (a guerra de prosélitos/guerrilheiros durante a retirada do Grande Exército, em 1812).
Vale a pena assinalar, que é durante este período que floresce, naturalmente, a maior parte da Literatura, no âmbito da guerrilha, cujo os principais autores são, especificamente alemães ou franceses.
De elucidar, por outro, que o essencial desta Literatura debruça sobre a utilização das tropas ligeiras, cuja a acção se agrega ao do grosso e principal das forças, como é ocaso, aquando da Revolução Americana ou da Retirada da Rússia. Conquanto, utilize as técnicas da guerrilha, trata-se de forças de mero contributo. Em contrapartida, com as insurreições camponesas de Vendée, do Tirol e de Espanha, se se situa, num esquema clássico de guerrilha.

(c) No âmbito desta perspectiva, se afigura pertinente e oportuno, trazer, por razões óbvias, à colação as ideias oriundas da lavra do general alemão, Karl Von CLAUSEWITZ (1780-1831), que lutou contra Napoleão, criador, outrossim, da Academia de Guerra de Berlim e, através da sua obra, Von Kriege (Acerca da Guerra) e revolucionou a arte da guerra, pois que, a sua concepção da “Guerra total”, segundo a qual a guerra é uma continuação da política por outros meios, ideia que está, outrossim, na base da estratégia da revolução tão usada no século XX pretérito. Como dizíamos, com efeito, no capítulo 26 do livro 6 da sua famigerada obra, Acerca da Guerra, consagra algumas páginas penetrantes acerca deste fenómeno. Assim, em 1810 e 1811, ministra, na Academia militar de Berlim, um curso consagrado ao que denomina kleiner krieg, por outras palavras, para melhor dizer, aliás, a “pequena guerra”, que é a tradução literal (à letra, palavra por palavra) de guerrilha. Assinala, outrossim, que este tipo de técnica é fundamentalmente um complemento ao papel essencial das forças armadas regulares.

(d) De referir, todavia, que à partir do segundo quartel do século XIX, na Europa, a atenção se dirige contudo para as insurreições urbanas, que o exército, na Inglaterra como em França, se encarregou de reprimir. Em 1848, estes levantamentos agitam e sublevam o Continente, no seu todo. Eis porque, a Comuna de Paris, em 1871 aparecerá para alguns, como Marx e Engels anunciadora de uma Era Nova. Enfim, outrossim, de anotar, que guerrilhas emergem aquando da grande expansão imperial da Europa Ocidental, sendo, por sua vez, o seu estudo, sobretudo pragmático, antes de tudo e, em primeiro lugar, elaborado sob o ângulo da contra-insurreição.
(e) Não deixa de ser percuciente consignar que, enquanto a América Latina, à excepção de Cuba e de Porto Rico, acedeu à Independência, os Conflitos coloniais se desenrolam na Ásia e bem assim, em África.

(f) Destarte, os Franceses estão directamente envolvidos nos Acontecimentos/Eventos que tiveram lugar na Algéria, no Senegal, no Sudão (nome outorgado outrora ao oeste africano da Somália), no Vietname, no Oeste africano costeiro e em Madagáscar. E, no atinente aos Britânicos é à questão que se prende com o Afeganistão, a Índia, a Birmânia, a Somália, o Sudão, a África austral, ou ainda, a Nova Zelândia...em que se encontram empenhados…

(g) Com tropas reduzidas em número, porém superiores em disciplina e em armamento, sobretudo, após 1870, as potências europeias subjugam a África, no seu todo, assim como, uma muito importante parte da Ásia Meridional e Central. Por seu turno, os Estados Unidos da América, cujo o território se ampliou em detrimento do México, a conquista da Hinterlândia só termina, entre o término da Guerra de Secessão e 1890, onde as derradeiras tribos indianas são completamente dizimadas.

(h) Enfim e, em suma: Não há dúvida nenhuma, que o espírito do tempo reflecte o sentimento de superioridade dos que pensam que unicamente os mais dotados sobrevivem e dominam. É, efectivamente, quase, pouco mais ou menos, o que populariza, de modo pseudo-científico, o darwinismo social. Finalmente, na verdade, os europeus pensam ter por missão propalar e difundir a civilização, sem quê nem porquê! Hélas!...

Lisboa, 09 Janeiro 2009.
KWAME KONDÉ

DAS PALAVRAS

EM DUAS PALAVRAS E À PRESSA.

Hoje é dia do meu aniversário. A família ofereceu-me a “Correspondência de Eça de Queiroz”. «Todas as cartas até agora conhecidas, desde as primeiras que, em 1916 António Cabral publicou na sua biografia de Eça de Queiroz, pioneira em Portugal».


Na contracapa do segundo volume cita-se Camilo Castelo Branco:

«Todas as minudências são traços grandes nos vultos majestosos».

Fica esta citação para reflexão de todos que a queiram fazer.

BOA NOITE.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

MUTATIS MUTANDIS

Podia-se escrever a mesma crónica para retratar a morte de uma criança judia vitimada por um rocket numa rua de Eschelon, por exemplo.

E Alzarith, até pode ser mais vítima do Hamas do que de Israel.

A propaganda árabe conseguiu apresentar, durante décadas, os palestinos como vítimas indefesas de um Estado sionista desalmado e usurpador de territórios. E muita gente, como eu, acreditou nisso demasiado tempo.

Mas hoje está claro que nas guerras que se travam no Médio Oriente, não há santos de um lado (o lado palestino), e demónios do outro (o lado de Israel): a haver santos e demónios, eles estão dos dois lados da barricada.

E analisando friamente e ao longo de décadas ― mas sobretudo nestes últimos três quatro anos em que o conflito foi mediatizado (o que nos trouxe mais informações) ― o comportamento dos homens do Hamas e de grupos islâmicos radicais: do Egipto, do Afeganistão, do Paquistão e da Palestina ― mesmo quando se trata de “desentendimentos” com os seus irmãos de sangue ― conclui-se que a haver diabos nos vários conflitos (interna e externamente) em que são um dos protagonistas, eles são ainda mais diabos que o Diabo.

Eu já dei o que tinha a dar para o peditório dos “pelestinianos” do Hamas.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

AMILCAR CABRAL

NOTA PRÉVIA
O meu querido amigo (e colaborador deste blogue) Francisco Fragoso (Kwame Kondé), escreveu um poema de homenagem e exaltação à memória de Amílcar Cabral, cujo publico a seguir juntamente com a “apreciação crítica” ao mesmo, da autoria de Russell G. Hamilton, Professor, emérito, da literatura dos PALOP.




AMILCAR CABRAL!

Canto Primeiro:

Eis que, então, numa remota Noite de Lisboa,
Quiçá triste, quiçá ledo,
Ébrio, recordo, recordamos
Do Canto da Tchim Tabari,
Parindo o teu País, o nosso País
Com fórceps da tempestade.

CABRAL,
Omi d’Afrika,
Homem Africano,
L’Homme d’Afrique,
African Man!
Valente Cavaleiro do batuque,
E do funáná.
É verdade que duvidas do nosso Bosque Natal,
Das nossas vozes roucas, dos nossos corações
Que remontam mordazes,
Dos nossos olhos de grogue, vermelhos,
E das nossas Noites ígneas e flâmeas?

(Quiçá
que as chuvas do Exílio
tenham retesada a pele do Tambor
da nossa voz, da tua voz!).

Cabral!...Cabral!...Cabral!...
Acuso, acusamos
Os maus modos do nosso sangue.
É erro nosso
Se a borrasca se levanta
E nos desaprende inopinadamente contar pelos dedos
E saudar efusivamente?

Sim, efectivamente,
O Sangue é algo que vai, vem e retorna…
E, o Nosso suponho (supomos) nos reconcilia se for protelado
Após alguma macumba.
Que faire, Cabral, que faire, L´Homme d’Afrique ?
Sin, kuse ki nu debe fase,
Cabral, Omi d’Afrika?
Na verdade, o Sangue é um Verbo Poderoso!

Na bardadi, Sangui e un Verbu Pudiros!


Canto Segundo:

CABRAL, Amílcar Cabral,
O Poema não é um trapiche.
Não, efectivamente, não!...
Pois que,
Se as rimas são moscas nos pântanos, sem rimas
Toda uma estação
Longe dos pântanos,
Nós te fazemos justiça:
Rimos, bebemos e desertamos…

Nobre Coração!

Na nouca o Colar de Comandante da Lua
Em torno do braço o rolo bem anelado
Pelo laço do Sol.
E, o teu peito, tatuado, como uma das feridas da Noite.
Outrossim, então,
Recordo (recordamos)…lucidamente…

Camarada e companheiro
CABRAL, Omi d’Afrika!
É seguramente um problema muito grave (?)
As conexões da Poesia e da Revolução.
O fundo condiciona a forma!
Le fond conditionne la forme!

E se avisasse, outrossim do Desvio dialéctico
Para que a forma assumisse a sua desforra
Como uma acácia maldita sufoca o Poema.
Porém, não
Não onero (não oneramos) da conexão,
Pois que
Preferimos contemplar a Primavera. É a Revolução
se assumindo exactamente, se assumindo,
se assumindo…
se assumindo…
e as formas que se protelam
nos nossos ouvidos, trauteando,
copulando o Novo que no horizonte arvora,
comendo os rebentos
de férteis besouros exterminando a Primavera…


Canto terceiro:

Eh, Armun!
Frére!
Brother!
Irmão!
Para ti, instrui (Instruímos-te) em Pássaro
Ave gleba d’África para intacto atravessar
A mais escaldante
Das areias do deserto, do nosso Deserto.
Ave coliou d’África para abortar as artimanhas
Dos matagais e desafiar o motejo
Da floresta:
Libertador de aréqua
Poupa aprumada de um Orgulho súbito,
Pois que sabias voar…voar Alto…Alto.
Majestoso Migrante!
Sabias voar longe,
Sobretudo, Alto e bem alto,
Enlaçando de um só relance de olhos,
Até à sua mais remota parcela
O nosso Património hereditário!
Notre patrimoine héreditaire!
Our Genetic inheritance!

Inspector dos sem herdeiros,
Testador das fidelidades
acolhendo apenas Intimidade quotidiana
com as esperanças desatentas e
as vastas recordações
cujo o favor nigelava no vazio ou dormia no reverso,
a Graça lendária de cada um dos teus gestos,
os nossos gestos…os nossos gestos… os nossos gestos…

Oh! Estela obsídia da Memória!
Stèle obsidienne de la Memoire!


Homem do reescrito
Homem viril e robusto oriundo das nossas abruptas rochas.

E a Egrégia Mensagem,
Cabral, Amílcar Cabral de sempre…sempre…sempre…
Através do pó dos confins
E do ventre e da vaga
Tu a tens em cima da cabeça, sempre…sempre…sempre…
Na extremidade do braço fora do lodo e da lama,
à bout de coeur
para além do Medo,
Fiel à ordem íntima, evidentemente…

Canto Quarto:

Eu, Amílcar Cabral,
Sou um simples Africano,
Cumprindo o meu dever
No meu próprio País,
No contexto do nosso tempo.

Sin mi, Amilkar Kabral
Ami e un sinplis afrikanu
Ta kunpri si diver
Na si propi pais,
Na kondison di nos tenpu.

Amílcar…Amílcar…Amílcar Cabral,
Homem do Grito de Trovão, do grito de revolta,
Homem Africano
Homem Universal
Homem do Grito Planetário!

Cabral…Cabral…Cabral…
A nossa Nobreza é, evidentemente não
Dominar o nosso Povo,ser
Porém, o seu Ritmo e
Coração;
Não de apascentar as terras, quiçá como o grão de milho
Apodrecer na terra, na tera burbur,
Na tera bufa-bufa…
Não se assumir a condição de cabeça do Povo,
Sim, efectivamente
a sua boca
e o seu Búzio anunciador dos Novos Tempos.

Enfim,
Quem poderá, te cantar, se não for o teu Irmão de Sangue?!
Tu, Cabral, meu irmão negro,
Nosso Irmão Negro
De mãos quentes, deitado, estendido
Sob a areia e a morte…

“L’AUBE TRANSPARENTE D’UN JOUR NOUVEAU”
Aurora transparente de um Novo Dia !

Sim,
O Canto vasto do teu Sangue vencerá…
A tua palavra palpitante os sofismas e
Mentiras.
Nenhum ódio a tua alma sem ódio,
Nenhum artifício
A tua alma sem artifício.

Oh! Mártir Negro, raça imortal, deixa-me
Deixa-nos
Asseverar as palavras que perdoam…

Dorme…Dorme…Dorme…
Pois que,
A nossa voz, as nossas vozes te embala.
Irmão Negro, a nossa voz de cólera que embala a Esperança!
Guerrilheiro cuja boca é flor que, altaneira canta.
Oh! O deleite de viver após o Inverno!...
(Oh! Délice de vivre aprés l’Hiver !)
Te saúdo, Cabral,
Te honoramos, Cabral
Como autêntico Mensageiro da Paz Universal !

Sangue, Sangue
O Sangue Negro
Do meu Irmão, do nosso irmão, dos nossos Irmãos,
Macula (maculam) a inocência dos nossos lençóis,
Das nossas mantas…
És (Sois) o suor onde banha a minha angústia
(a nossa angústia)
(as nossas angústias).
És (sois), sim,
O sofrimento que eurouquece a minha voz
\ (a nossa voz)
(as nossas vozes).
E o meu coração,
O nosso coração, os nossos corações
Que clama(m) ao Azur e ao arbítrio de…

Não, não, CABRAL
Não és um morto gratuito,
Ô Morto! Não…Não…Não!...
O teu Sangue não é a água tépida.
Espesso asperge a nossa Esperança
Que medrará no Crepúsculo.
Não, não sois um morto gratuito. Tu, cavaleiro valoroso, um morto qualquer…Oh, Não…Não…
És (sois) testemunha (Testemunhas) da África Imortal.
Sim, sim (autênticas) Testemunhas do Mundo Novo que será amanhã (o Porvir) em todo o
Planeta, evidentemente!...

Lisboa, 17 de Novembro de 2008.
KWAME KONDÉ



Uma apreciação crítica do poema “Amílcar Cabral!”

O poema foi composto para ser recitado no Exercício Dramático, apresentado, a 2 de Dezembro,2008,em Lisboa pelo grupo cénico TCHON DI KAUBERDI. Eu não tive o prazer de assistir o estectáculo, mas quando recebi uma cópia impressa do poema eu vi imediatamente que era de ser lido em voz alta. Pois o próprio titulo do poema é uma exlamação a ser enunciada pelo leitor. E todos os versos fazem parte de uma evocação melodicamente verbal do saudoso Amílcar Cabral.
Kwame Kondé, com uma voz tanto colectivista (nós) como intimista (eu), dirige-se evocativamente a Amílcar Cabral (tu) e a seus camaradas (vós), também falecidos. Na sua evocação de Amílcar Cabral a personagem poética primeiro caracteriza o famoso fundador e líder do PAIGC como um “Omi d’ Afrika”. E nota-se que além de crioulo (kriolu) o poeta também identifica Amílcar Cabral como africano em portuguës, francês e inglês (“Homem Africano”, “L’Homme d’Afrique” e “African Man”). Nos quatro “Cantos” que compoem o poema, Kwame Kondé apropriadamente identifica Amílcar como um nacionalista e também um pan-africanista. Portanto, além de ser de Cabo Verde e Guiné-Bissau, Cabral também conhecia Angola e países da África francofona, como a República de Guiné e Senegal. O poema também revela, por linguagem evocativa, que Amílcar Cabral chegou a visitar diásporas africanas em váreas partes do mundo. Consta-se que ele cultivava a sobrevivência de tradições africanas na Europa, especialmente Portugal, mas também na França. E Cabral visitou vários países com diásporas africanas no Caribe e nas Américas—e.g. Cuba,Brasil e os Estados Unidos.
O poema evoca Amílcar Cabral como um diplomata africano plurilingue, pois ele dominava tais idiomas internacionais como francês e inglês. Posso verificar que as suas visitas aos Estados Unidos nos anos 1960 e 1970 tiveram um efeito sumamente diplomático com respeito a uma visão international da independência, já ganha e iminente, das colônias europeias em África. Ao ler várias estrofes do poema sob consideração eu me lembrei que em Outubro de 1972, durante uma visita aos Estados Unidos, Amílcar Cabral foi convidado a dar uma palestra em inglês, intitulada “The Role of Culture in the Struggle for Independence” (O Papel da Cultura dentro da Luta pela Independência), em Lincoln University, uma universidade historicamente afro-americana no estado de Pennsylvania. Nessa ocasião Amílcar Cabral foi conferido o título de Doutor Honoris Causa.
Convém notar que durante as suas viagens no exterior, ao enfatizar a importância da sobrevivência de tradições africanas, algumas sendo linguística e culturalmente crioulizadas, nas suas palestras Amílcar Cabral referia-se ao papel da expressão literária na luta pela independência. E a obra de Kwame Kondé evoca Amílcar Cabral, o poeta que contribuiu qualitativa, se não quantitativamente, à nascença da literatura cabo-verdiana e, aliás, de todas as então colônias portuguesas em África. Nota-se que Kwame Kondé inicia o “Canto Segundo” com estrofes referentes às “conexões da Poesia e da Revolução”. Certamente tais ligações fazem parte da sua evocação poética de Amílcar Cabral, o poeta.
Nas últimas estrofes do Canto Quatro— a palavra “canto” sendo uma referência tanto à poesia épica como à lírica—as contribuições históricas feitas por Amílcar Cabral são reconhecidas por Kwame Kondé com uma força essencialmente evocativa e gratificante. Trata-se de contibuições feitas pelo “cavaleiro valoroso”. E como declara Ildo Lobo na sua canção muito conhecida e apreciada, “Cabral câ morri”.
Concluo esta apreciação crítica por citar os últimos versos do poema lirica e epicamente evocativo, nos quais Kwame Kondé faz a seguinte confirmação esteticamente elaborada e filosoficamente convicente:
“És (sois) testemima (Testemunhas) da África Imortal./ Sim, sim (autênticas) Testemunhas do Mundo Novo que será amanhã/ (o Porvir) em todo o/
Planeta, evidentemente!

Russell G. Hamilton
Professor, emérito, da Literatura dos PALOP

OLHEM SÓ A FIGURINHA



Este discurso é bom para uma fábrica de salsichas. E péssimo quando se trata de um hospital.

Com este discurso e estas atitudes, o que este administrador está a fazer é a dar cabo do que resta do Hospital de S. João.

É que, pelos vistos, ele não sabe ― nem o público em geral sabe ― que discursos e atitudes destas, com os médicos, costumam ter (e vão ter) o efeito contrário ao esperado: vai haver mais abstencionismo, menor produtividade e uma ainda maior desertificação de recursos humanos médicos naquele hospital (mais reformas antecipadas, mais rescisões de contratos, mais pedidos de exoneração).

Um médico não está para trabalhar em sítios psicologicamente inóspitos como aquele.

Numa altura em que a Sra. Ministra da Saúde diz que o governo está a estudar propor aos médicos em processo de reforma e na pré-reforma um novo tipo de vínculo para que, depois de reformados, continuem a trabalhar ― pois não há médicos suficientes no SNS ― nesta altura, dizia, é que aparece este indivíduo da administração do S. João a pôr-se em bicos de pés pretendendo tratar os médicos como se fossem os criados lá do quintal da tia dele.

Este indivíduo, ao que parece em crise de autoridade, ultrapassa os Directores dos Serviços, usurpa-lhes os poderes que são só deles (o controlo de assiduidade dos médicos sob sua direcção) e dá uma de ditadorzeco anunciando uma medida ridícula própria, no meu entender, de um capataz de obras dos tempos do colonialismo.

Com a sua acção à frente do Hospital de S. João, este indivíduo vai por certo fazer piorar ainda mais a assistência do SNS aos portugueses.

Eu sei que muito português invejoso vai aplaudir este tipo de discurso e de atitude ― é lá com eles ―; assim como assim, o português já nos habituou a sentir-se feliz com a desgraça alheia sem se importar se com isso, afinal, é ele próprio que será prejudicado e não aqueles contra quem primeiramente o chicote é levantado.