Já nos questionaram algumas vezes porque é que insistimos tanto que o Presidente da República de Cabo Verde deve dizer alguma coisa sobre a proposta de integração de Cabo Verde na Europa.
Ora bem, o motivo por que insistimos neste ponto é considerarmos uma tomada de posição do Presidente como de muito interesse e de muita importância. Esse interesse e essa importância estribam no facto de uma palavra de um Presidente da República respeitado, como é Pedro Pires, servir - senão de farol - pelo menos como uma luz indicadora de que o assunto em questão é de grande relevância para o povo de Cabo Verde e merece ser encarado com toda a responsabilidade pelos cidadãos.
É que o não-envolvimento do Presidente nesta questão leva a que muitas pessoas pensem que se trata de mais uma questão política corriqueira e de mais um assunto para os opinantes habituais se entreterem a debater durante algum tempo.
Acresce que, como já dissemos antes aqui em baixo, trata-se de um assunto que implica, de forma incontornável, a Constituição da República de Cabo Verde - Constituição de que o Presidente da República é o primeiro e principal garante.
Daí a necessidade de sabermos a sua opinião.
Nós não temos dúvida de que essa opinião existe e está formada de há algum tempo a esta parte. E não ignoramos que a sua expressão pública levantará alguns demónios adormecidos na sociedade cabo-verdiana. Mas é bom que esses demónios se levantem para ficarmos a saber com clareza de que lado está o povo cabo-verdiano. Porque o mais importante é isto: saber de que lado está o povo.
É que os Governos e os Presidentes passam. Mas o povo fica sempre. E ele é que é o único e verdadeiro soberano.
Acresce ainda que um adiamento da tomada de posição do Presidente da República sobre o assunto enfraquecerá a expressão dessa mesma tomada de posição parecendo, depois, que vem a reboque desta ou daquela corrente de opinião dentre pelo menos duas que por certo se afirmarão futuramente.
Nós quereríamos ver em Pedro Pires um Presidente pautador da discussão e suscitador do debate e não um Presidente espectador e interveniente tardio.
Mas estes são os nossos desejos e as nossas opiniões. Infelizmente não influenciamos em nada o Comandante Pedro Pires. Ele tem os seus assessores e conselheiros. Por certo pessoas do mais alto gabarito que, com a sua importante opinião, o ajudam a agir ou a não agir – sempre nos supremos interesses da nação.
E por aqui nos ficamos, em definitivo, quanto a este pormenor de grande importância: não voltaremos a falar mais do Presidente da República de Cabo Verde no que diz respeito à proposta da integração do País na União Europeia.
Colocamos aqui um ponto final neste pormenor.
quinta-feira, 31 de março de 2005
A COISA JÁ MEXE. ALELUIA
Afinal sempre vamos tendo cada vez mais ecos e opiniões sobre a proposta de integração de Cabo verde na União Europeia.
Para já ficámos a saber que a presença do embaixador de Cabo Verde, Onésimo Silveira, na conferência em que Adriano Moreira apresentou publicamente a proposta é lida como um sinal do agrado com que o Governo de Cabo Verde recebeu aquela iniciativa.
Mas bom seria que, em vez de apenas “sinais” cuja leitura fica à responsabilidade de cada um, as autoridades de Cabo-verdianas assumissem uma posição clara que dissesse aos cidadãos o que realmente acham do que é proposto.
Ficam aqui alguns links para quem queira tomar conhecimento de uma parte do que se tem dito e escrito sobre este assunto – quer em Portugal, quer ainda em Cabo Verde.
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E este link que o Carlos Pires me mandou
Para já ficámos a saber que a presença do embaixador de Cabo Verde, Onésimo Silveira, na conferência em que Adriano Moreira apresentou publicamente a proposta é lida como um sinal do agrado com que o Governo de Cabo Verde recebeu aquela iniciativa.
Mas bom seria que, em vez de apenas “sinais” cuja leitura fica à responsabilidade de cada um, as autoridades de Cabo-verdianas assumissem uma posição clara que dissesse aos cidadãos o que realmente acham do que é proposto.
Ficam aqui alguns links para quem queira tomar conhecimento de uma parte do que se tem dito e escrito sobre este assunto – quer em Portugal, quer ainda em Cabo Verde.
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E este link que o Carlos Pires me mandou
terça-feira, 29 de março de 2005
EURO CABO VERDE (3)
Afinal desde o dia 16 passado já há quem tenha produzido ao menos um comentário (nesse caso, de apoio) sobre a proposta de Adriano Moreira. Trata-se de Ricardo Alves, no blogue Esquerda Republicana.
Isto significa que a roda já começou a mover-se. Pelo Menos aqui em Portugal.
Isto significa que a roda já começou a mover-se. Pelo Menos aqui em Portugal.
sexta-feira, 25 de março de 2005
DI BERBUM CADO FATUSÉS
Chegados que estamos a esta quadra da Páscoa lembro-me de quando ainda era criança e minha mãe me levava pela mão, no "Sábado de Aleluia", para assistir à "missa da ressurreição" de Cristo que se realizava na Igreja Matriz de S. Filipe, às 11 horas da manhã.
Lembro-me que me impressionava bastante todo aquele ambiente de luto em que se celebrava a missa; da semi-obscuridade da igreja imposta pelas portas fechadas e pelas janelas tapadas com cortinas pretas impenetráveis à luz.
Chegada a hora da ressurreição de Cristo caíam as cortinas das janelas e abriam-se as portas da igreja que era então completamente inundada, de repente, por faiscantes raios do radioso sol de Cabo Verde; soltavam-se pombas brancas que esvoaçavam pela nave da igreja pousando, instáveis, em qualquer saliência que encontrassem nas paredes. O coro entoava com alegria e fervor religioso o "Aleluia" e os corações dos fiéis enchiam-se de alegria.
Mas para mim esses tempos foram sol de pouca dura: poucos anos depois todo aquele encanto se perdeu pois a "missa da ressurreição" passou a ser celebrada à meia noite de sábado para domingo.
Ainda fui obrigado por minha mãe a assistir a essa missa durante os dois anos seguintes à sua passagem para missa nocturna. Minha mãe obrigava-me então a fazer um estágio pré-missa dormindo entre as nove as onze horas da noite. Às onze horas em ponto começava o meu suplício: era acordado por minha mãe que me conduzia, amparado, à casa de banho para que lavasse a cara com água fria e assim acordasse de vez; vestido a preceito eu era então arrastado pelas ruas até à Igreja Matriz; depois vinha a missa à qual eu assistia(?) cabeceando de sono, e às vezes dormitando mesmo, encostado a minha mãe. Quando chegava o momento da "ressurreição de Cristo" minha mãe sacudia-me para ter a certeza de que eu estava acordado e então assistíamos àquela cena triste do cair dos panos das janelas, continuando tudo às escuras como já estava, e assistindo ao voo desorientado de pombos assustados que batiam nas paredes sem saberem bem o que haviam de fazer nem onde poisar e muito menos porque haviam de voar àquela hora da noite. Cantava-se o "Aleluia" mas aquele cântico não jogava lá muito bem com aquele ambiente tão triste e deprimente.
Creio que esta foi a primeira razão por que eu me afastei da Igreja Católica. Outra razão para mim muito importante era a obrigatoriedade que havia de eu me confessar a padres mais pecadores do que eu, padres a quem eu já não reconhecia o direito de me perdoar, ainda por cima «em nome de Deus».
Depois também havia toda aquela história de a missa ser rezada em Latim e eu não perceber patavina daquela lengalenga enfadonha que durava a eternidade de uma hora ou mais. Às vezes a missa durava quase duas horas quando era "missa cantada" (havia então quem brincasse dizendo que se fosse missa assobiada talvez durasse menos).
E por falar em "Latim" - lembro-me de uma frase que o povo usava às vezes para fazer esconjuros: "Di Berbum cado fatusés". Só depois de já muito adulto vim a saber a origem dessa frase: "Et Verbum caro factum est" ("E o Verbo se fez carne").
Pois é! Se me perguntarem se amanhã vou à missa da ressurreição levam com esta resposta: Di Berbum cado fatusés!
Lembro-me que me impressionava bastante todo aquele ambiente de luto em que se celebrava a missa; da semi-obscuridade da igreja imposta pelas portas fechadas e pelas janelas tapadas com cortinas pretas impenetráveis à luz.
Chegada a hora da ressurreição de Cristo caíam as cortinas das janelas e abriam-se as portas da igreja que era então completamente inundada, de repente, por faiscantes raios do radioso sol de Cabo Verde; soltavam-se pombas brancas que esvoaçavam pela nave da igreja pousando, instáveis, em qualquer saliência que encontrassem nas paredes. O coro entoava com alegria e fervor religioso o "Aleluia" e os corações dos fiéis enchiam-se de alegria.
Mas para mim esses tempos foram sol de pouca dura: poucos anos depois todo aquele encanto se perdeu pois a "missa da ressurreição" passou a ser celebrada à meia noite de sábado para domingo.
Ainda fui obrigado por minha mãe a assistir a essa missa durante os dois anos seguintes à sua passagem para missa nocturna. Minha mãe obrigava-me então a fazer um estágio pré-missa dormindo entre as nove as onze horas da noite. Às onze horas em ponto começava o meu suplício: era acordado por minha mãe que me conduzia, amparado, à casa de banho para que lavasse a cara com água fria e assim acordasse de vez; vestido a preceito eu era então arrastado pelas ruas até à Igreja Matriz; depois vinha a missa à qual eu assistia(?) cabeceando de sono, e às vezes dormitando mesmo, encostado a minha mãe. Quando chegava o momento da "ressurreição de Cristo" minha mãe sacudia-me para ter a certeza de que eu estava acordado e então assistíamos àquela cena triste do cair dos panos das janelas, continuando tudo às escuras como já estava, e assistindo ao voo desorientado de pombos assustados que batiam nas paredes sem saberem bem o que haviam de fazer nem onde poisar e muito menos porque haviam de voar àquela hora da noite. Cantava-se o "Aleluia" mas aquele cântico não jogava lá muito bem com aquele ambiente tão triste e deprimente.
Creio que esta foi a primeira razão por que eu me afastei da Igreja Católica. Outra razão para mim muito importante era a obrigatoriedade que havia de eu me confessar a padres mais pecadores do que eu, padres a quem eu já não reconhecia o direito de me perdoar, ainda por cima «em nome de Deus».
Depois também havia toda aquela história de a missa ser rezada em Latim e eu não perceber patavina daquela lengalenga enfadonha que durava a eternidade de uma hora ou mais. Às vezes a missa durava quase duas horas quando era "missa cantada" (havia então quem brincasse dizendo que se fosse missa assobiada talvez durasse menos).
E por falar em "Latim" - lembro-me de uma frase que o povo usava às vezes para fazer esconjuros: "Di Berbum cado fatusés". Só depois de já muito adulto vim a saber a origem dessa frase: "Et Verbum caro factum est" ("E o Verbo se fez carne").
Pois é! Se me perguntarem se amanhã vou à missa da ressurreição levam com esta resposta: Di Berbum cado fatusés!
quarta-feira, 23 de março de 2005
DE OLHOS POSTOS NO PASSADO
Enquanto os Ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil, Angola e São Tomé, logo a seguir à posse do novo Governo de Portugal, se apressaram a convidar o seu homólogo português, Diogo Freitas do Amaral, a visitar os seus países;
enquanto em Portugal Adriano Moreira, Mário Soares, Silvino Silvério Marques, Diogo Freitas do Amaral e mais uns quantos portugueses se preocupam em discutir e propor a Integração de Cabo Verde na Europa;
o nosso Presidente da República, Comandante Pedro Pires, anda em visita à Guiné-Bissau a apoiar as folclóricas "autoridades" guineenses que subsistem sob a "protecção" dos militares fratricidas que chefiam o sanguinário exército local.
É caso para perguntar a Pedro Pires se num pequeno intervalo dessa visita à Guiné-Bissau, visita que parece ser para ele transcendente para o futuro de Cabo Verde, não poderia dizer alguma coisa sobre este tema que cada vez mais vai parecendo tão insignificante para o País de que é Presidente - a proposta da sua integração na União Europeia.
Há alturas que um simples silêncio diz tudo o que não sabíamos sobre uma pessoa. Esta parece ser a altura de conhecermos melhor o Comandante Pedro Pires. E confessamos que não estamos a gostar nada de ter esse conhecimento.
enquanto em Portugal Adriano Moreira, Mário Soares, Silvino Silvério Marques, Diogo Freitas do Amaral e mais uns quantos portugueses se preocupam em discutir e propor a Integração de Cabo Verde na Europa;
o nosso Presidente da República, Comandante Pedro Pires, anda em visita à Guiné-Bissau a apoiar as folclóricas "autoridades" guineenses que subsistem sob a "protecção" dos militares fratricidas que chefiam o sanguinário exército local.
É caso para perguntar a Pedro Pires se num pequeno intervalo dessa visita à Guiné-Bissau, visita que parece ser para ele transcendente para o futuro de Cabo Verde, não poderia dizer alguma coisa sobre este tema que cada vez mais vai parecendo tão insignificante para o País de que é Presidente - a proposta da sua integração na União Europeia.
Há alturas que um simples silêncio diz tudo o que não sabíamos sobre uma pessoa. Esta parece ser a altura de conhecermos melhor o Comandante Pedro Pires. E confessamos que não estamos a gostar nada de ter esse conhecimento.
quarta-feira, 16 de março de 2005
EURO CABO VERDE (2)
Em 12/02/2005 abordámos, aqui mais abaixo, a proposta do Professor Adriano Moreira para a integração de Cabo Verde na União Europeia. Sobre a mesma nos pronunciámos então concordantemente uma primeira vez e instámos as autoridades de Cabo Verde - mas sobretudo o Presidente da República, Comandante Pedro Pires - bem como a sociedade civil e os partidos políticos cabo-verdianos a pronunciarem-se sobre o que então chamámos de «uma proposta muito importante que não podemos deixar cair em saco roto».
Escrevemos então e-mails a algumas personalidades de relevo da política e cultura portuguesas e ficámos à espera de ouvir uma só voz que fosse a abordar o assunto. Para bem de Cabo Verde e do seu povo, no nosso entender.
Até agora, se as pedras da calçada se pronunciaram sobre o assunto, também se pronunciaram aquelas personalidades. Um dos instados foi o Professor Vital Moreira, jurista e constitucionalista que dispensa quaisquer apresentações, blogueiro activo no Causa Nossa, que se no passado nos respondeu a um e-mail solicitando tomada pública de posição sobre um tema (coisa que fez de pronto, então, no blogue em causa) agora achou por bem nada dizer, nem sequer acusar a recepção do e-mail falando no caso.
Mas eis que ontem o Dr. Mário Soares falou sobre o tema no programa Sociedade Aberta que foi transmitido pela SIC Notícias. E eis que hoje, na Sociedade de Geografia, em Lisboa, o Professor Adriano Moreira, o Dr. Mário Soares e o General Silvino Silvério Marques (este um dos mais ilustres Governadores que Cabo Verde teve durante o colonialismo e um grande amigo de Cabo Verde), com o apoio, por escrito, do Professor Diogo Freitas do Amaral, abordaram de novo o tema, em colóquio, e produziram um documento que levarão à apreciação do Governo Português, do Governo de Cabo Verde e da Comissão Europeia.
Tal como há dois anos pregámos, aqui na blogosfera, sozinhos, pedindo a quem pudesse, mas sobretudo aos senhores jornalistas, para que acordassem, verificassem e contassem o que se estava a passar na Saúde em Portugal, quando o Governo Barroso iniciou o desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde - tal como naquela altura em que todos dormiam e pareciam cúmplices com aquela missão criminosa do Governo -, hoje também aqui estamos, sozinhos (esperamos que só por enquanto), a pedir aos políticos, aos intelectuais, às pessoas interessadas - que felizmente há muitas na blogosfera - que se pronunciem sobre esta proposta de integração de Cabo Verde na União Europeia para que haja uma ampla e profícua discussão do problema pois, interessa de alguma forma a todos nós (portugueses, europeus e cabo-verdianos) o destino futuro daquele arquipélago «com os pés em África e a cabeça na Europa».
Até que o tema seja "pegado" por aí e entre em discussão, aqui estaremos a pregar.
Até que a voz nos doa.
Água mole em pedra dura...
Escrevemos então e-mails a algumas personalidades de relevo da política e cultura portuguesas e ficámos à espera de ouvir uma só voz que fosse a abordar o assunto. Para bem de Cabo Verde e do seu povo, no nosso entender.
Até agora, se as pedras da calçada se pronunciaram sobre o assunto, também se pronunciaram aquelas personalidades. Um dos instados foi o Professor Vital Moreira, jurista e constitucionalista que dispensa quaisquer apresentações, blogueiro activo no Causa Nossa, que se no passado nos respondeu a um e-mail solicitando tomada pública de posição sobre um tema (coisa que fez de pronto, então, no blogue em causa) agora achou por bem nada dizer, nem sequer acusar a recepção do e-mail falando no caso.
Mas eis que ontem o Dr. Mário Soares falou sobre o tema no programa Sociedade Aberta que foi transmitido pela SIC Notícias. E eis que hoje, na Sociedade de Geografia, em Lisboa, o Professor Adriano Moreira, o Dr. Mário Soares e o General Silvino Silvério Marques (este um dos mais ilustres Governadores que Cabo Verde teve durante o colonialismo e um grande amigo de Cabo Verde), com o apoio, por escrito, do Professor Diogo Freitas do Amaral, abordaram de novo o tema, em colóquio, e produziram um documento que levarão à apreciação do Governo Português, do Governo de Cabo Verde e da Comissão Europeia.
Tal como há dois anos pregámos, aqui na blogosfera, sozinhos, pedindo a quem pudesse, mas sobretudo aos senhores jornalistas, para que acordassem, verificassem e contassem o que se estava a passar na Saúde em Portugal, quando o Governo Barroso iniciou o desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde - tal como naquela altura em que todos dormiam e pareciam cúmplices com aquela missão criminosa do Governo -, hoje também aqui estamos, sozinhos (esperamos que só por enquanto), a pedir aos políticos, aos intelectuais, às pessoas interessadas - que felizmente há muitas na blogosfera - que se pronunciem sobre esta proposta de integração de Cabo Verde na União Europeia para que haja uma ampla e profícua discussão do problema pois, interessa de alguma forma a todos nós (portugueses, europeus e cabo-verdianos) o destino futuro daquele arquipélago «com os pés em África e a cabeça na Europa».
Até que o tema seja "pegado" por aí e entre em discussão, aqui estaremos a pregar.
Até que a voz nos doa.
Água mole em pedra dura...
sábado, 12 de fevereiro de 2005
EURO CABO VERDE (*)
Num artigo de opinião intitulado "A integração de Cabo Verde na Europa", saído em Lisboa, no Diário de Notícias, no dia 08/02/2005, o Professor Adriano Moreira alerta-nos a todos, mas sobretudo a Portugal, a Cabo verde e à União Europeia, para a importância de se começar a pensar já na possibilidade da integração de Cabo Verde na Europa.
Porque - e vamos citar Adriano Moreira:
«Talvez seja oportuno, e necessário, [a Europa] olhar criticamente para o Atlântico de onde partiu o movimento [do alargamento da União Europeia], dando atenção ao risco de afastamento entre o europeísmo e o americanismo, considerar a necessidade de continuar a tentar modelar a articulação entre a segurança do Atlântico Norte e a do Atlântico Sul, e repensar o estatuto dos arquipélagos que pontuam a linha divisória.»
«Mas, por outro lado, e voltando às questões da segurança, não é possível sugerir qualquer modelo de organização do Atlântico Sul, e de articulação entre a sua segurança e a do Atlântico Norte, sem incluir Cabo Verde no processo, supondo que não recusará o consentimento e a colaboração.»
Trata-se de um alerta importantíssimo - este que o Professor Adriano Moreira nos faz -. Trata-se de uma análise/proposta de integração que o Professor faz, ao mesmo tempo: a Portugal, à União Europeia e a Cabo Verde.
Nós não sabemos o que pensam as actuais autoridades de Cabo Verde sobre este assunto e gostaríamos que se pronunciassem com alguma brevidade sobre o mesmo. Mas pensamos que o que interessa mesmo é sabermos desde já o que pensa o Presidente da República de Cabo Verde sobre tão importante questão.
Tratando-se de um tema relativo à soberania de Cabo Verde e, portanto, de um tema constitucional (que implica a Constituição da República de Cabo Verde), cremos que é exigível que o Presidente da República diga aos nacionais de Cabo Verde (os que vivem dentro e os que vivem fora de Cabo Verde) qual o seu entendimento desta proposta/análise de Adriano Moreira.
Esta é uma oportunidade excepcional que Pedro Pires tem, desde que tomou posse, até hoje, para dizer algo de muito válido aos cabo-verdianos.
Sem pretender recriminar a postura demasiado low profile que Pedro Pires adoptou desde que assumiu o cargo de Presidente da República de Cabo Verde, achamos, muito sinceramente, que este assunto de uma possível integração de Cabo Verde na União Europeia - que é disso que se trata quando Adriano Moreira diz "Europa" - deve despertá-lo para falar à nação e ser ele a marcar o compasso do debate público que sobre este tema por certo se não deixará de fazer. Quer em Cabo Verde, quer fora dele.
De outro modo estaria a faltar, no nosso entender, a um dos seus deveres principais: o de ter e de emitir opinião sobre temas tão importantes como são os que se referem à Constituição da República, à Soberania e, no fim e em resumo, ao destino colectivo dos cidadãos: o destino da nação. Nesse caso seria legítimo, então, pedirmos-lhe que se não recandidate e abra espaço, dentro da área política a que pertence, para que surjam outros candidatos que disputem com os de outras áreas o lugar de quem deve, para além de representar o Estado, pronunciar-se dirigindo-se aos cidadãos, sobre matérias de interesse colectivo, sobretudo quando está em causa (como neste caso está) a Soberania do País. Porque, sendo este um tema de grandíssima importância e bastante melindre - tema para mais que uma geração discutir, interiorizar, promover, decidir, negociar e concretizar - cabe, sem a mais pequena dúvida, ao Presidente da República falar à nação e marcar a agenda da sua discussão pública. E durante todo o tempo que isso se vier a passar, a batuta do Presidente da República terá que estar activa na direcção da orquestra - sabendo nós bem que a partitura será composta pelos cidadãos cabendo ao maestro (Presidente) apenas fazer interpretá-la -.
É que, que nos lembremos, desde a sua posse no alto cargo de Presidente da República, até hoje, Pedro Pires, ao contrário do que seria desejável, não fez comunicações ao país nas quais focasse de forma clara os grandes temas estruturantes da sociedade: organização da família; educação dos jovens; formulação de desígnios nacionais que mobilizassem a nação e lhe dessem um rumo face às grandes dificuldades que se levantam à afirmação da identidade pátria de um país tão pequeno e com tantos cidadãos dispersos pelos quatro cantos do mundo, como é Cabo Verde; no fundo, dizer, ao menos, aos cabo-verdianos, o que pensa o Presidente da República acerca dos caminhos (e quais são esses caminhos possíveis) que Cabo Verde pode trilhar para sobreviver e prosperar no mundo globalizado e cada vez menos solidário em que vivemos hoje. Por tudo isso esta é a oportunidade de ouro de o Comandante Pedro Pires, Presidente da República de Cabo Verde, vir a terreiro comunicar com a nação.
Não nos esqueçamos também que cabe aos principais partidos políticos cabo-verdianos e aos grupos organizados de cidadãos (aos grupos existentes e aos em formação) uma quota-parte importante de responsabilidade na dinamização do debate e no contributo para o seu enriquecimento e clarificação.
Todos seremos poucos para uma definição clara de objectivos e uma escolha acertada do caminho do futuro para a nação cabo-verdiana. Um caminho que nos afaste de vez da dependência da "ajuda" alheia nos moldes actuais (das geminações de municípios, das ofertas materiais de equipamentos quantas vezes obsoletos, das bolsas de estudo e de formação, dos projectos de cooperação em que a fatia de leão muitas vezes fica em casa de quem "oferece", etc.). Não é que essas geminações, essas ofertas, essas bolsas, esses projectos de cooperação sejam coisas sem importância e de desprezar - nada disso -. Reconhecemos-lhes a sua importância e estamos agradecidos por eles. Mas o que queremos mesmo é que um dia possamos conviver com outros povos num espaço em que os nossos proventos advenham da importância do nosso trabalho e do nosso esforço, integrados que estejamos num colectivo harmonioso de nações que nos reconheça o lugar de parceiro eficiente e de plenos direitos. Não mais parceiro menor; amigo em dificuldades; por vezes pedinte envergonhado da sua pobreza material. Não mais a situação de condenados, sobretudo pelo isolamento geográfico, ao destino de povo solitário, eterno produtor de diásporas-âncora, sobrevivente de todas as tempestades e, parafraseando o poeta, «comendo pedras para não perecer».
Não ignorando que a proposta de Adriano Moreira é uma proposta incómoda para certos espíritos cujas opiniões conhecemos bem, ela é, contudo, uma proposta suficientemente importante para merecer ser ponderada ao mais alto nível e merecer daí uma resposta pública clara. Sem subterfúgios ou meias palavras. Merece ainda toda a atenção por parte dos analistas políticos e demais fazedores de opinião, em Cabo Verde e no exterior; dos intelectuais que habitualmente evitam opinar politicamente; dos cidadãos em geral. É uma proposta muito importante que não podemos deixar cair em saco roto.
E não nos venham dizer que um Presidente da República não se pronuncia sobre problemas individualmente levantados por esta ou aquela pessoa (no caso Adriano Moreira). Porque o que deve mover um Presidente em casos semelhantes é a ideia em si e não apenas a fonte da ideia. Se bem que Adriano Moreira tem um currículo invejável e uma autoridade indesmentível como analista e teorizador de questões estratégicas globais, o que, por si só, faz com que deva ser escutado com toda a atenção por qualquer Chefe de Estado devendo por isso esta sua propostas de integração de Cabo Verde na Europa merecer toda a atenção por parte das autoridades cabo-verdianas, em particular do Chefe de Estado de Cabo Verde.
(*) O título é uma provocação que esperemos espevite a discussão.
Eis aqui o artigo de Adriano Moreira.
Porque - e vamos citar Adriano Moreira:
«Talvez seja oportuno, e necessário, [a Europa] olhar criticamente para o Atlântico de onde partiu o movimento [do alargamento da União Europeia], dando atenção ao risco de afastamento entre o europeísmo e o americanismo, considerar a necessidade de continuar a tentar modelar a articulação entre a segurança do Atlântico Norte e a do Atlântico Sul, e repensar o estatuto dos arquipélagos que pontuam a linha divisória.»
«Mas, por outro lado, e voltando às questões da segurança, não é possível sugerir qualquer modelo de organização do Atlântico Sul, e de articulação entre a sua segurança e a do Atlântico Norte, sem incluir Cabo Verde no processo, supondo que não recusará o consentimento e a colaboração.»
Trata-se de um alerta importantíssimo - este que o Professor Adriano Moreira nos faz -. Trata-se de uma análise/proposta de integração que o Professor faz, ao mesmo tempo: a Portugal, à União Europeia e a Cabo Verde.
Nós não sabemos o que pensam as actuais autoridades de Cabo Verde sobre este assunto e gostaríamos que se pronunciassem com alguma brevidade sobre o mesmo. Mas pensamos que o que interessa mesmo é sabermos desde já o que pensa o Presidente da República de Cabo Verde sobre tão importante questão.
Tratando-se de um tema relativo à soberania de Cabo Verde e, portanto, de um tema constitucional (que implica a Constituição da República de Cabo Verde), cremos que é exigível que o Presidente da República diga aos nacionais de Cabo Verde (os que vivem dentro e os que vivem fora de Cabo Verde) qual o seu entendimento desta proposta/análise de Adriano Moreira.
Esta é uma oportunidade excepcional que Pedro Pires tem, desde que tomou posse, até hoje, para dizer algo de muito válido aos cabo-verdianos.
Sem pretender recriminar a postura demasiado low profile que Pedro Pires adoptou desde que assumiu o cargo de Presidente da República de Cabo Verde, achamos, muito sinceramente, que este assunto de uma possível integração de Cabo Verde na União Europeia - que é disso que se trata quando Adriano Moreira diz "Europa" - deve despertá-lo para falar à nação e ser ele a marcar o compasso do debate público que sobre este tema por certo se não deixará de fazer. Quer em Cabo Verde, quer fora dele.
De outro modo estaria a faltar, no nosso entender, a um dos seus deveres principais: o de ter e de emitir opinião sobre temas tão importantes como são os que se referem à Constituição da República, à Soberania e, no fim e em resumo, ao destino colectivo dos cidadãos: o destino da nação. Nesse caso seria legítimo, então, pedirmos-lhe que se não recandidate e abra espaço, dentro da área política a que pertence, para que surjam outros candidatos que disputem com os de outras áreas o lugar de quem deve, para além de representar o Estado, pronunciar-se dirigindo-se aos cidadãos, sobre matérias de interesse colectivo, sobretudo quando está em causa (como neste caso está) a Soberania do País. Porque, sendo este um tema de grandíssima importância e bastante melindre - tema para mais que uma geração discutir, interiorizar, promover, decidir, negociar e concretizar - cabe, sem a mais pequena dúvida, ao Presidente da República falar à nação e marcar a agenda da sua discussão pública. E durante todo o tempo que isso se vier a passar, a batuta do Presidente da República terá que estar activa na direcção da orquestra - sabendo nós bem que a partitura será composta pelos cidadãos cabendo ao maestro (Presidente) apenas fazer interpretá-la -.
É que, que nos lembremos, desde a sua posse no alto cargo de Presidente da República, até hoje, Pedro Pires, ao contrário do que seria desejável, não fez comunicações ao país nas quais focasse de forma clara os grandes temas estruturantes da sociedade: organização da família; educação dos jovens; formulação de desígnios nacionais que mobilizassem a nação e lhe dessem um rumo face às grandes dificuldades que se levantam à afirmação da identidade pátria de um país tão pequeno e com tantos cidadãos dispersos pelos quatro cantos do mundo, como é Cabo Verde; no fundo, dizer, ao menos, aos cabo-verdianos, o que pensa o Presidente da República acerca dos caminhos (e quais são esses caminhos possíveis) que Cabo Verde pode trilhar para sobreviver e prosperar no mundo globalizado e cada vez menos solidário em que vivemos hoje. Por tudo isso esta é a oportunidade de ouro de o Comandante Pedro Pires, Presidente da República de Cabo Verde, vir a terreiro comunicar com a nação.
Não nos esqueçamos também que cabe aos principais partidos políticos cabo-verdianos e aos grupos organizados de cidadãos (aos grupos existentes e aos em formação) uma quota-parte importante de responsabilidade na dinamização do debate e no contributo para o seu enriquecimento e clarificação.
Todos seremos poucos para uma definição clara de objectivos e uma escolha acertada do caminho do futuro para a nação cabo-verdiana. Um caminho que nos afaste de vez da dependência da "ajuda" alheia nos moldes actuais (das geminações de municípios, das ofertas materiais de equipamentos quantas vezes obsoletos, das bolsas de estudo e de formação, dos projectos de cooperação em que a fatia de leão muitas vezes fica em casa de quem "oferece", etc.). Não é que essas geminações, essas ofertas, essas bolsas, esses projectos de cooperação sejam coisas sem importância e de desprezar - nada disso -. Reconhecemos-lhes a sua importância e estamos agradecidos por eles. Mas o que queremos mesmo é que um dia possamos conviver com outros povos num espaço em que os nossos proventos advenham da importância do nosso trabalho e do nosso esforço, integrados que estejamos num colectivo harmonioso de nações que nos reconheça o lugar de parceiro eficiente e de plenos direitos. Não mais parceiro menor; amigo em dificuldades; por vezes pedinte envergonhado da sua pobreza material. Não mais a situação de condenados, sobretudo pelo isolamento geográfico, ao destino de povo solitário, eterno produtor de diásporas-âncora, sobrevivente de todas as tempestades e, parafraseando o poeta, «comendo pedras para não perecer».
Não ignorando que a proposta de Adriano Moreira é uma proposta incómoda para certos espíritos cujas opiniões conhecemos bem, ela é, contudo, uma proposta suficientemente importante para merecer ser ponderada ao mais alto nível e merecer daí uma resposta pública clara. Sem subterfúgios ou meias palavras. Merece ainda toda a atenção por parte dos analistas políticos e demais fazedores de opinião, em Cabo Verde e no exterior; dos intelectuais que habitualmente evitam opinar politicamente; dos cidadãos em geral. É uma proposta muito importante que não podemos deixar cair em saco roto.
E não nos venham dizer que um Presidente da República não se pronuncia sobre problemas individualmente levantados por esta ou aquela pessoa (no caso Adriano Moreira). Porque o que deve mover um Presidente em casos semelhantes é a ideia em si e não apenas a fonte da ideia. Se bem que Adriano Moreira tem um currículo invejável e uma autoridade indesmentível como analista e teorizador de questões estratégicas globais, o que, por si só, faz com que deva ser escutado com toda a atenção por qualquer Chefe de Estado devendo por isso esta sua propostas de integração de Cabo Verde na Europa merecer toda a atenção por parte das autoridades cabo-verdianas, em particular do Chefe de Estado de Cabo Verde.
(*) O título é uma provocação que esperemos espevite a discussão.
Eis aqui o artigo de Adriano Moreira.
domingo, 6 de fevereiro de 2005
DJARFOGO PÂ RIBA TUDO
Confesso que quando publiquei aqui a fotografia do miúdo transportando peixe à cabeça (ver mais abaixo) para ganhar o suã para alimentação da família, eu pensava que essa prática se tinha extinto com a independência de Cabo Verde. Mas Rui Guilherme veio provar(-me) aqui que as dificuldades dos tempos idos de sessenta se mantiveram ainda até pelo menos 1999. Só espero que a contrapartida de tal tarefa já fosse outra nessa altura. Isto é o meu orgulho de cabo-verdiano a falar.
Quanto a barões trepadores, claro que sempre os houve e haverá em grandes quantidades na ilha do Fogo. Subir, mesmo que seja apenas a uma árvore, é o apelo irresistível de qualquer miúdo da ilha do vulcão: não nos contentamos em observar a humanidade ao nível rasteiro em que ela normalmente vive. Não é por acaso que existe a célebérrima frase «Djarfogo pâ riba tudo». E não foi por acaso que a fotografia de Bila Baxo (aqui em baixo) foi tirada de cima para baixo. É uma propensão quase genética: não há volta a dar-lhe.
Quanto a barões trepadores, claro que sempre os houve e haverá em grandes quantidades na ilha do Fogo. Subir, mesmo que seja apenas a uma árvore, é o apelo irresistível de qualquer miúdo da ilha do vulcão: não nos contentamos em observar a humanidade ao nível rasteiro em que ela normalmente vive. Não é por acaso que existe a célebérrima frase «Djarfogo pâ riba tudo». E não foi por acaso que a fotografia de Bila Baxo (aqui em baixo) foi tirada de cima para baixo. É uma propensão quase genética: não há volta a dar-lhe.
domingo, 16 de janeiro de 2005
TRISTEZA

(Foto by Djibla)
Era de um guarda-redes desta categoria que o Sporting precisava hoje na sua deslocação à Madeira: o guarda-redes menos batido em rês campeonatos sucessivos em S. Vicente, nos finais dos anos sessenta; conhecido por defender grandes penalidades e que jogava sempre fora da baliza quando havia cruzamentos e cantos atrasados disputando com vantagem (porque com as mãos) os lances aéreos na grande área com os avançados adversários - tudo o que Ricardo hoje devia fazer e não fez. Enfim!...
Com efeito o Sporting acaba de perder com o Nacional da Madeira por três bolas a duas.
É no mínimo curioso constatar, desde há três anos (pelo menos) a esta parte, que o Sporting, de cada vez que tem a oportunidade de se distanciar do Porto e do Benfica na classificação, deixa-a perder-se ao realizar exibições medíocres (como a de hoje) em que a defesa é quase sempre a maior culpada.
Hoje Ricardo voltou a comprometer sendo culpado em todos os três golos do Nacional. É obra!
Se calhar não é ainda desta que lá vamos, oh caros amigos, Cau e Adalberto.
domingo, 9 de janeiro de 2005
FELICIDADE

Ontem nem um golo em posição de fora-de-jogo, nem uma expulsão injusta, nem o louco festival de amarelos oferecido pelo árbitro impediram o Sporting de dar uma coça à equipa dos enfermos e tontinhos do Benfica.
Fiquei contente. E só não fiquei mais porque tendo Liedson marcado os dois golos do Sporting, agora é que o rapaz já se acha no direito de passar a semana no Brasil e regressar só aos sábados para marcar golos, introduzindo assim a indisciplina no seio da equipa.
Lá na América estou a ver o Cau Pires e o Adalberto também eles contentes e a pensar numa churrascada para quando for a vitória no campeonato.
Um abraço, meus amigos! Prometo aí estar se for caso disso.
sábado, 1 de janeiro de 2005
UMA PAUSA DO BARÃO TREPADOR

No dia do meu segundo aniversário desci por instantes das árvores para ser imortalizado pela Leica manual do meu tio, Joaquim Monteiro de Macedo.
A pose inocente não disfarça, contudo, o olhar mortífero de um blogueiro potencial.
Com uma cabeçorra enorme para a idade - o artesão contratado por meu pai, para confecionar um capacete colonial de miolo de cana de milho, revestido de Kaki, falhara a estimativa do meu perímetro cefálico e perante o fracasso em contribuir para me abrigar do sol inclemente, pois o capacete ficava-me no cocuruto, só dizia: «esta cabeça afinal não é a de um miúdo, caramba» - eu sei o que todos pensavam: «ou ele sofre de hidrocefalia, ou então tem mesmo um cérebro grande demais para uma criança desta idade».
Para ser do Sporting; regressar de Macau quando podia lá continuar a trabalhar; suportar sem morrer um Governo Santana Lopes ; e dar em blogueiro… se calhar era mesmo hidrocefalia que eu tinha.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2004
A PROVA QUE FALTAVA

Como qualquer africano que se presa, em garoto vivia nas árvores qual Barão Trepador. Esta fotografia é da autoria de Augusto Monteiro, então gerente comercial da Casa Vasconcelos, no Fogo, e imortaliza o dia em que cometi a grossa asneira de descer das árvores para iniciar a vida entre os humanos.
terça-feira, 28 de dezembro de 2004
A LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA

Naquele tempo a luta pela sobrevivência era bem mais dura que nos dias de hoje, e assumia por vezes aspectos de todo em todo chocantes no contexto histórico em que tinha lugar - como no caso aqui retratado, datado da década de sessenta do século XX.
Durante décadas e décadas, nas praias da ilha do Fogo, à hora da chegada dos pequeninos botes de pesca, lá estava sempre um magote de crianças com idades entre os dez e os catorze anos, cujas, depois de ajudarem a arrastar o bote para areia seca, disputavam entre si, arduamente, o transporte do atum e da serra, à cabeça, desde a praia até ao mercado do peixe (uma longa e dura caminhada ao sol), subindo a íngreme estrada de Fonte Vila, de chão de basalto escaldante, ou palmilhando os quatro quilómetros da estrada da Praia de Nossa Senhora.
E todo esse trabalho para receberem o quê como pagamento?
Para receberem o suã do peixe transportado e garantirem assim que à noitinha haveria lá em casa uns fiapos de peixe na catchupa da única refeição do dia.
Para quem não sabe, suã de peixe é o esqueleto, a espinha, que resta depois de separada a cabeça do animal e cortados rente à espinha os dois filetes do mesmo.
Convenhamos que o heroísmo de um povo se constrói de milhentas formas, algumas quase impensáveis para o tempo em que ocorreram.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2004
SEMPRE COM OS MAIS VELHOS
Estes foram os primeiros e firmes passos como boémio. Na companhia do Lourenço (que até aí nem sequer podia sentir o cheiro do álcool), do João de Muná, Lili de Benvinda, Augusto de Gudjermina e do Ovídio Scróbia. Depois de passar por esta escola, já nada mais havia a aprender; agora era só ligar o piloto automático e deixar vogar o barco da boémia.
Estes foram os primeiros e firmes passos como boémio. Na companhia do Lourenço (que até aí nem sequer podia sentir o cheiro do álcool), do João de Muná, Lili de Benvinda, Augusto de Gudjermina e do Ovídio Scróbia. Depois de passar por esta escola, já nada mais havia a aprender; agora era só ligar o piloto automático e deixar vogar o barco da boémia.
SEMPRE COM OS MAIS VELHOS
Era e é uma constante na minha vida - andar na companhia dos mais velhos.
Esta é uma fotografia tirada num dia de Natal da década de cinquenta, na Praceta Pedro Monteiro Cardoso, ao pé da casa de nhô Quirino, na companhia de dois grandes amigos, Roberto de Carolina e Xixino. Com o Roberto a amizade estreitar-se-ia ao longo do tempo e a aprendizagem da vida far-se-ia pelo lado mundano e boémio; com o Xixino (falecido há já quase vinte anos), manteve-se a amizade em velocidade de cruzeiro sendo a poesia e a música os dois temas dominantes dessa ligação.
Era e é uma constante na minha vida - andar na companhia dos mais velhos.
Esta é uma fotografia tirada num dia de Natal da década de cinquenta, na Praceta Pedro Monteiro Cardoso, ao pé da casa de nhô Quirino, na companhia de dois grandes amigos, Roberto de Carolina e Xixino. Com o Roberto a amizade estreitar-se-ia ao longo do tempo e a aprendizagem da vida far-se-ia pelo lado mundano e boémio; com o Xixino (falecido há já quase vinte anos), manteve-se a amizade em velocidade de cruzeiro sendo a poesia e a música os dois temas dominantes dessa ligação.
quarta-feira, 20 de outubro de 2004
domingo, 17 de outubro de 2004
CHOVER NO MOLHADO
Não queria escrever sobre isto, mas… o que é que se pode fazer quando a reincidência em comportamentos criminosos continua a conduzir a Guiné Bissau rumo ao abismo e ao desaparecimento do Estado (ia dizer “Nação”).
Como é amplamente sabido, desde há menos de um mês, os militares guineenses resolveram dar mais alguns passos na sua tarefa suicida de destruir o pouco que ainda resta daquilo que em tempos não muito recuados foi um País.
Aqueles militares pretenderam agora dar um golpe de Estado para – imagine-se! – exigirem que lhes fossem pagos salários e outras subvenções pecuniárias em atraso. No meio disso assassinaram o seu chefe máximo, general Veríssimo Seabra, um coronel e mais não sei quantos civis. Agora exigem assinar um acordo em que a condição primeira é esta: “amnistia para todos os militares revoltosos”, desde não sei que data a esta parte. O que querem agora não é mais do que isto: o não julgamento dos assassinos do general Seabra e de mais umas quantas vítimas das atrocidades cometidas durante o golpe; a lavagem dos crimes do passado e a legitimação do regabofe macabro de que se têm alimentado.
Não nos esqueçamos, contudo, que o general Seabra, ora assassinado, pertencia ao grupo de militares que derrubara e assassinara o seu chefe de então, Ansumane Mané, matando-o com a brutalidade habitual empregue nesses rituais de poder armado. Naquela altura, um acordo em tudo semelhante ao agora assinado, fora rubricado garantindo assim a amnistia aos assassinos de Ansumane Mané, grupo no qual, como já disse, se incluía o general Seabra ora sumariamente “justiçado”.
Como se vê, na Guiné Bissau, continua tudo como dantes e seguindo tranquilamente o mesmo rumo: caos, miséria, crime e impunidade.
Até quando?
Não queria escrever sobre isto, mas… o que é que se pode fazer quando a reincidência em comportamentos criminosos continua a conduzir a Guiné Bissau rumo ao abismo e ao desaparecimento do Estado (ia dizer “Nação”).
Como é amplamente sabido, desde há menos de um mês, os militares guineenses resolveram dar mais alguns passos na sua tarefa suicida de destruir o pouco que ainda resta daquilo que em tempos não muito recuados foi um País.
Aqueles militares pretenderam agora dar um golpe de Estado para – imagine-se! – exigirem que lhes fossem pagos salários e outras subvenções pecuniárias em atraso. No meio disso assassinaram o seu chefe máximo, general Veríssimo Seabra, um coronel e mais não sei quantos civis. Agora exigem assinar um acordo em que a condição primeira é esta: “amnistia para todos os militares revoltosos”, desde não sei que data a esta parte. O que querem agora não é mais do que isto: o não julgamento dos assassinos do general Seabra e de mais umas quantas vítimas das atrocidades cometidas durante o golpe; a lavagem dos crimes do passado e a legitimação do regabofe macabro de que se têm alimentado.
Não nos esqueçamos, contudo, que o general Seabra, ora assassinado, pertencia ao grupo de militares que derrubara e assassinara o seu chefe de então, Ansumane Mané, matando-o com a brutalidade habitual empregue nesses rituais de poder armado. Naquela altura, um acordo em tudo semelhante ao agora assinado, fora rubricado garantindo assim a amnistia aos assassinos de Ansumane Mané, grupo no qual, como já disse, se incluía o general Seabra ora sumariamente “justiçado”.
Como se vê, na Guiné Bissau, continua tudo como dantes e seguindo tranquilamente o mesmo rumo: caos, miséria, crime e impunidade.
Até quando?
sábado, 9 de outubro de 2004
O PASSADO REVISITADO
Hoje passei uma boa parte da tarde a rever fotografias que fiz há vinte, trinta e mais anos.
Meu Deus! Santíssimo Senhor: quão grande fui então (bonito, forte, inteligente, rico, indestrutível e imortal). E quão pequenino sou agora (velho, fraco, medroso, vulnerável e altamente finito).
Descobri, pelas fotografias que fiz nesse tempo, que o tamanho do mundo cresceu incontroladamente desde então, e que hoje a minha insignificância nem sequer tem existência.
E descobri uma coisa espantosa e deprimente: afora as pessoas retratadas que já morreram (e foram algumas), as que, como eu, se mantêm vivas - também estão de certa forma mortas -. Não têm quase nada a ver com a pessoa que foram no passado. Não temos nada a ver com a pessoa que fomos no passado.
Eu, confesso-me deslocado; fora de tempo; na última curva antes da meta, enfrentando a certeza de que a vitória não será minha.
Mas antes de atingir a recta da meta, penso deixar aqui a maior parte das fotografias de que falo. Esperem só mais algumas semanas que poderão constatar da inexorabilidade do tempo.
Hoje passei uma boa parte da tarde a rever fotografias que fiz há vinte, trinta e mais anos.
Meu Deus! Santíssimo Senhor: quão grande fui então (bonito, forte, inteligente, rico, indestrutível e imortal). E quão pequenino sou agora (velho, fraco, medroso, vulnerável e altamente finito).
Descobri, pelas fotografias que fiz nesse tempo, que o tamanho do mundo cresceu incontroladamente desde então, e que hoje a minha insignificância nem sequer tem existência.
E descobri uma coisa espantosa e deprimente: afora as pessoas retratadas que já morreram (e foram algumas), as que, como eu, se mantêm vivas - também estão de certa forma mortas -. Não têm quase nada a ver com a pessoa que foram no passado. Não temos nada a ver com a pessoa que fomos no passado.
Eu, confesso-me deslocado; fora de tempo; na última curva antes da meta, enfrentando a certeza de que a vitória não será minha.
Mas antes de atingir a recta da meta, penso deixar aqui a maior parte das fotografias de que falo. Esperem só mais algumas semanas que poderão constatar da inexorabilidade do tempo.
sexta-feira, 10 de outubro de 2003
MAIS UMA FOTGRAFIA
(Legenda ctualizada hoje 28/10/2003)

Anos trinta do século XX.
Fotografia de família, tendo no centro "Nha Cristina Escrava" (assim chamada por ser descendente de escravos) a qual, depois do almoço, tinha por hábito fazer a sesta durante duas horas, tempo durante o qual nem mosca zumbia lá em casa, tal o respeito que os miúdos tinham por ela.
Destaques na foto:
1- Joaquim Botelho Monteiro (nhô Botedjo) o primeiro engenheiro electrotécnico cabo-verdiano. Licenciado em Paris, instalou a primeira central eléctrica na ilha do Fogo.
2- Miguel do Sacramento Monteiro, pai deste blogueador .
3- Manuel do Sacramento Monteiro, pai da Amélia, a depositária destas fotografias.
4- Luisa Macedo Barbosa S. Monteiro, mãe da Amélia.
Actualização:
Meu irmão, João do Sacramento Monteiro, enviou-me hoje, 28/10/2003, desde os Estados Unidos, um e-mail com a legenda completa desta fotografia. Ei-la:
De cima para baixo temos
Fila 1, de pé: tio Tadeu, Miguel nosso pai, tio Nelinho (Manuel) e tio Alberto,
Fila 2: Iracema, tio Antoninho, nhô Botelho e Bia nossa prima
Fila 3: tia Nhanhá (Leonarda), suas filhas Ana e Lilica (ao colo), nha Cristina, tia Dinora e prima Ana.
Fila 4: Primos Lencó (Lourenço), Totóne di nhô Botedjo, Tonas e Agnelo di nhô Botedjo.
(Legenda ctualizada hoje 28/10/2003)

Anos trinta do século XX.
Fotografia de família, tendo no centro "Nha Cristina Escrava" (assim chamada por ser descendente de escravos) a qual, depois do almoço, tinha por hábito fazer a sesta durante duas horas, tempo durante o qual nem mosca zumbia lá em casa, tal o respeito que os miúdos tinham por ela.
Destaques na foto:
1- Joaquim Botelho Monteiro (nhô Botedjo) o primeiro engenheiro electrotécnico cabo-verdiano. Licenciado em Paris, instalou a primeira central eléctrica na ilha do Fogo.
2- Miguel do Sacramento Monteiro, pai deste blogueador .
3- Manuel do Sacramento Monteiro, pai da Amélia, a depositária destas fotografias.
4- Luisa Macedo Barbosa S. Monteiro, mãe da Amélia.
Actualização:
Meu irmão, João do Sacramento Monteiro, enviou-me hoje, 28/10/2003, desde os Estados Unidos, um e-mail com a legenda completa desta fotografia. Ei-la:
De cima para baixo temos
Fila 1, de pé: tio Tadeu, Miguel nosso pai, tio Nelinho (Manuel) e tio Alberto,
Fila 2: Iracema, tio Antoninho, nhô Botelho e Bia nossa prima
Fila 3: tia Nhanhá (Leonarda), suas filhas Ana e Lilica (ao colo), nha Cristina, tia Dinora e prima Ana.
Fila 4: Primos Lencó (Lourenço), Totóne di nhô Botedjo, Tonas e Agnelo di nhô Botedjo.
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